Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

Parceiros ou inimigos?

Por Fabio Henrique Pereira em 13/03/2006 na edição 372

O assessor de imprensa pode ser considerado um jornalista? Este tipo de questão suscita um debate interminável no meio jurídico, profissional e acadêmico. Em torno dessa disputa está uma necessidade – teórica e corporativa – de definir o papel social da prática jornalística com relação às demais atividades de comunicação (relações públicas, publicidade etc.). Nesse sentido, é possível perceber duas posições:


1) Os ‘apocalípticos’: Jornalistas e assessores têm funções e interesses distintos na sociedade e ocupam lugares opostos dentro do processo de produção da notícia


Os jornalistas seriam responsáveis pela produção e difusão de informações, função ligada ao trabalho de investigação e triagem dos acontecimentos em busca do que deve ser noticiado. Ser jornalista é estar dotado de um ‘faro’ e da missão de revelar à sociedade o que ela deve saber. Subjacente a estes procedimentos estariam alguns ‘dogmas sagrados’ da profissão – a objetividade jornalística e o interesse público – intrínsecos à definição do papel social da imprensa.


Os assessores, por sua vez, atuariam dentro da esfera da comunicação, ou seja, na fabricação dos fatos, na sedução dos jornalistas para os assuntos de interesse do cliente. Para isso, se valeriam das nobres práticas jornalísticas para atuarem enquanto vendedores de um acontecimento.


Esta situação colocaria jornalistas e assessores em campos opostos. Na legislação francesa, por exemplo, a classificação do jornalista aproxima-se mais de profissões como bibliotecário e escritor (grupo 03), do que dos apresentadores de TV e dos assessores de imprensa (ataché de presse), que pertencem ao grupo 04. A existência de uma carteira profissional de jornalismo na França evidencia o poder simbólico da profissão e representa um ‘muro’ que protege os jornalistas da ‘imoralidade’ das práticas de comunicação.


Em Portugal a legislação determina que os jornalistas ‘depositem’ sua carteira profissional no sindicato no momento em que abandonam, mesmo que temporariamente, o trabalho na redação. Além disso, é costume que os jornalistas, após trabalharem como assessores, cumpram uma espécie de ‘quarentena’ antes de retornarem à imprensa.


2) Os ‘integrados’: jornalistas e assessores estão dentro de um mesmo processo produtivo noticioso e compartilham de valores e interesses comuns


Mesmo que não pertençam à mesma instituição, jornalistas e assessores interagem entre si e colaboram na produção do noticiário, numa relação simbiótica. Os jornalistas precisam, numa velocidade cada vez maior, de informações que possam servir de auxílio (ou mesmo substituir a apuração convencional) durante a cobertura de um evento. Os assessores fornecem estas informações e garantem visibilidade aos seus assessorados.


O conhecimentos das rotinas produtivas e dos valores profissionais do jornalismo permite ao assessor produzir uma comunicação mais eficaz. O bom assessor não é dogmático, mas consegue associar os interesses da instituição em que trabalha aos interesses da mídia e da sociedade. Assim, os assessores trabalhariam em conformidade com a missão jornalística de dar transparência aos assuntos de relevância social.


Fenômeno social


Sem entrar numa análise mais detalhada, é possível afirmar que o dualismo heróis vs. bandidos que permeia esse debate fundamenta-se em argumentos equivocados. Na verdade, busca-se definir jornalistas e assessores a partir de uma essência atemporal e intrínseca que permearia o papel da imprensa na sociedade. Assim, uma mesma concepção idealizada de jornalismo – informativo, objetivo, missionário – serve como substrato para justificar as duas posições. Os ‘apocalípticos’ condenam a comunicação institucional porque suas práticas seriam opostas à função social dos jornalistas. Afinal, os assessores serviriam apenas para atrapalhar, ‘obscurecer’ o processo de fiscalização jornalística das instituições públicas em nome da sociedade. Os ‘integrados’ fundamentam sua crença em aspectos que evidenciariam as relações de pareceria dos assessores na ‘nobre missão’ da imprensa enquanto detentora do ‘Quarto Poder’.


Ora, é preciso, antes de tudo, desconstruir o que está por trás dessa idealização da ‘natureza missionária’ do jornalismo. A imprensa não é santa, muito menos os jornalistas. Subjacente a noções de ‘mandato civil da imprensa’, ‘função social do jornalismo’, reside, sobretudo, um discurso de legitimação. Discurso que serve para justificar o fechamento das fronteiras profissionais do jornalismo aos amadores e às práticas que se situam às margens de sua competência profissional. E um discurso que legitima o status social das empresas (privadas) de comunicação, eximindo-as dos erros cometidos. E, sobretudo, fundamentando os argumentos contrários a qualquer tipo de controle à atividade jornalística, visto sempre como um cerceamento autoritário ao papel social da imprensa (vide a posição adotada pela mídia durante os debates sobre a criação de um Conselho Federal de Jornalismo).


Num segundo momento, tanto apocalípticos como integrados ignoram a historicidade do jornalismo enquanto fenômeno social. Esquecem que as práticas profissionais se transformam no decorrer do tempo, e o que é considerado comunicação atualmente era visto como prática hegemônica pelo jornalismo opinativo/institucional do século 19.


Relações de bastidores


O que tentamos dizer é que as identidades se desenvolvem dentro de um processo muito mais dinâmico do que sugerem as discussões em torno de uma suposta natureza profissional. É preciso fundamentar nossos argumentos a partir de dimensões mais concretas: o mercado de trabalho, a posição das entidades sindicais, a formação profissional e as redes de sociabilidade compartilhadas por jornalistas e assessores.


Nesse caso, podemos enxergar um espaço profissional impreciso em que a formação comum permite o livre trânsito de profissionais entre as duas esferas. Nada impede, por exemplo, que o companheiro de redação hoje esteja ‘do outro lado do balcão’ – como assessores de imprensa – futuramente. E essas escolhas dificilmente residem num discurso ideológico sobre o papel do jornalismo ou da comunicação nas sociedades democráticas. Podem resultar de opções ‘banais’, de dimensões ligadas ao nosso cotidiano: falta de emprego na imprensa tradicional, busca por melhores salários, por melhores perspectivas profissionais, por estabilidade, por qualidade de vida ou mesmo adesão pessoal a uma determinada causa ou instituição.


A dificuldade em aceitar essa banalidade leva acadêmicos e profissionais a difundirem posições equivocadas. Mais importante do que estabelecer uma definição fechada sobre a posição do assessor de imprensa frente ao jornalismo está em dirigir nossa atenção a essas relações de bastidores e na forma como isso afeta a produção da notícia, algo que dificilmente aparece durante a mise en scène diária da prática jornalística. Assim, talvez seja possível pensar o trabalho do jornalista com algo mais que um jogo entre heróis e bandidos.

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Doutorando em Comunicação pela Universidade de Brasília / Université de Rennes 1 (França)

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