Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > JORGE FURTADO vs. EDUARDO ESCOREL

Parem, meninos, a briga não é essa

Por Alberto Dines em 30/01/2015 na edição 835

Quando os sábios se enfrentam, apartá-los só prejudica os que desejam aprender, diz um velho preceito oriental. A controvérsia entre os dois cineastas – Eduardo Escorel e Jorge Furtado – sobre a crítica da mídia no Brasil, pelas amostras oferecidas, tem condições para converter-se numa valiosa contribuição ao próprio media criticism.

Tudo começou na edição de setembro de 2014 da sofisticada revista piauí, quando o cineasta, editor e professor de cinema Escorel fez a resenha do documentário O Mercado de Notícias do cineasta, encenador, produtor e publicitário Jorge Furtado.

O embate ficou em banho-maria e nesta semana, quatro meses depois, acaba de ser retomado pelo gaúcho Furtado em seu site “Casa do Cinema de Porto Alegre” [ver “O mercado de notícias – dúvidas” (Escorel) e “‘Eu preciso de umas aspas suas’” (Furtado)].

Este observador entra na liça pela porta dos fundos, isto é, para observar e lamentar o desperdício de energias. Surpreendido como muitos admiradores do contemporâneo de Shakespeare, Ben Jonson, que compôs em 1626 uma comédia sobre a recém-nascida imprensa periódica, por mera curiosidade indagou de Furtado como descobrira a tal obra.

A curiosidade justifica-se: como biógrafo lidara extensamente com duas outras comédias de Jonson, “Volpone, ou a Raposa” e “Epicene, ou a Mulher Silenciosa” (escritas e encenadas em 1606 e 1609) e, como interessado na história da imprensa, localizara obras teatrais posteriores sobre o mesmo tema mas nunca tão próximas do início do moderno jornalismo (1605, com o lançamento em Strasbourg do primeiro mensário de que se tem notícia).

A informação chegou semanas depois, trazida de forma casual e despretensiosa pelo próprio Furtado quando entrevistado pelo Observatório da Imprensa (ver aqui). Ele a pescara na História Social da Mídia, de Asa Briggs e Peter Burke (Zahar, 2004, pág. 64). A edição standard da obra de Jonson estende-se por onze volumes (1922-1923) e com isso desativa-se um dos tópicos da contenda Escorel-Furtado: só por um acaso seria possível encontrar obra tão raramente citada em tão extensa bibliografia e escondida atrás de um título tão pouco elucidativo – The Staple of News, que a tradutora da obra de Briggs & Burge converteu em “A Matéria da Notícia”, diferentemente da opção mais chamativa de Furtado e da parceira na tradução, Liziane Kugland (staple, além de grampo, também significa mercadoria, commodity ou matéria).

Na mesma tecla

O importante desta história é que o fenômeno não é novo: o teatro levou 21 anos para usar a imprensa como tema; o cinema, mais ágil, apenas 14. Inventado em 1895 pelos irmãos Lumière, em 1909 o veterano ator Van Dyke Brook dirigiu o primeiro filme sobre a imprensa, The Power of the Press.

Mas o pomo da discórdia parece ser a interdição que pesa sobre o debate a respeito do desempenho e procedimentos jornalísticos na grande imprensa brasileira. É um fato indiscutível, incontestável e lamentável. No entanto, as exceções apontadas por Furtado são arroladas de tal maneira que parecem insignificantes, ninharias.

Embora apenas dois jornais brasileiros tenham oficializado a função do ombudsman, a Folha de S. Paulo tem o seu há 25 anos, um quarto de século. Ninharia? Apenas um ano depois de promulgada a Constituição Cidadã, a Folha oferecia à sociedade uma contrapartida que não pode ser desprezada, nem minimizada. Quantos países da América Latina têm ouvidorias ou defensorias do leitor? Zero.

Ao citar o programa Observatório da Imprensa como o único da TV, Furtado parece estranhar que seja transmitido numa rede de TV pública. Ser alternativa é uma das funções da TV pública, porém nosso horário não é alternativo, é nobre, nobilíssimo – 20 horas – e reprisado na mesma noite às 24h para os notívagos (jornalistas & cia).

A entrevista com Jorge Furtado ao OI na TV fazia parte de uma série de oito especiais em homenagem aos 25 anos da criação da função de ombudsman pela Folha. Da série participaram onze ouvidores da Folha em duplas de dois (apenas Renata Lo Prete não conseguiu liberar-se da intensa agenda de trabalho), acrescidos da então ouvidora de O Povo (Fortaleza, CE), Daniela Nogueira. Foi complementada com a entrevista do cineasta-ombudsman Jorge Furtado (aqui) e do humorista-gozador-da-mídia, Fábio Porchat (aqui).

É pouco? No dia em que o Observatório voltar a ser compartilhado pela TV Cultura, a audiência dobrará. E no dia em que as páginas e cadernos de TV da imprensa diária ocuparem-se da nossa programação, mais cidadãos participarão do debate midiático.

A homenagem aos ombudsman foi apresentada de 19/8 a 28/8/2014, ela sim em horário alternativo (melhor dizer, suplementar) porque o programa ao vivo continuava a ser apresentado às 20 horas. E, como acontece com todas as edições, os programas estão disponíveis no site do Observatório. Breve o programa completará 17 anos de existência e o site, 19.

Bagatela, irrisório? Em quase duas décadas batendo na mesma tecla – “Você nunca mais lerá jornal do mesmo jeito” – tentamos injetar uma dose regular de ceticismo numa sociedade impregnada pelo culto da celebração e pela devoção a equívocos. Faz bem à saúde dos povos, embora entre nós ninguém goste de aplaudir dúvidas ou conviver com desconfianças e descrença. Em outras palavras – ninguém gosta de marginalizar-se. Todos querem ser maioria, de preferência esmagadora maioria.

Primado da mesmice

A divergência entre os dois eminentes cineastas parece incubar-se numa paradoxal identidade: a atitude blasé, entediada, que Furtado utilizou para cutucar Escorel e este poderá utilizar para atacar o que lhe parece uma fúria iconoclasta de Furtado.

Precisamos urgentemente de ambos. Na segunda-feira (26/1), os rivais Folha e Estadão ostentavam com grande destaque em suas nobres páginas de opinião o mesmíssimo Ives Gandra Martins. Em ambas o reputado tributarista escrevia sobre liberdade de expressão, identicamente qualificado pelos anfitriões como professor emérito das escolas de Comando e Estado Maior do Exército e Superior de Guerra, além de filósofo. Em ambas a mesma acintosa omissão: o autor é um dos primeiros brasileiros a ingressar na prelazia ultraconservadora conhecida como Opus Dei, é seu principal supernumerário e porta-voz mais influente.

Casualidade, evidentemente. No Globo os opinionistas do dia eram outros, mas lá comparece regularmente Carlos Alberto di Franco, pontífice dos cursos de jornalismo da mesma Opus Dei.

Migalhas, mixaria, abobrinhas. A mesmice está nos tornando insensíveis e cegos, incapazes de discernir e assustar. Incapazes principalmente de escolher a boa briga.

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