Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

JORNAL DE DEBATES > QUADRINHOS & LUCROS

Pela união dos poderes

Por Andréia Moura em 30/05/2006 na edição 383

O mundo está repleto de teorias que explicam a influência que a mídia exerce na mente das pessoas. Os efeitos que a televisão provoca, as conseqüências do uso excessivo do computador e mesmo dos videogames e da indústria de Hollywood. Difícil, no entanto, é encontrar algo que explore a influência que as histórias em quadrinhos têm sobre seus leitores. Afinal, elas também são uma mídia importante e, por incrível que pareça, atingem um número muito maior da população do que se imagina.

Muitos têm afirmado que a cultura dos quadrinhos caminha para o fim. Que com a evolução das tecnologias este universo está se tornando obsoleto. Ledo engano. À medida que velhos leitores abandonam o hábito, novos ‘viciados’ vão se rendendo aos encantos do gibi. Se influenciados pelas produções cinematográficas das histórias, ou pela modificação gráfica feita nas revistas, não importa. As HQ continuam presentes, levando seu público-alvo a incorrer nos mesmos comportamentos incentivados por mídias mais procuradas, difundidas.

Nos grandes centros brasileiros é comum encontrar lojas especializadas em quadrinhos. Nestes locais é vendido todo tipo de publicação do gênero. Números atrasados, edições encadernadas, enfim, qualquer coisa que apeteça ao leitor. Até 2004 o mercado das HQ movimentava cerca de dois milhões de reais por mês no Brasil. Prova de que o segmento continua forte, ou pelo menos, comercial. O que interessa, no entanto, é perceber que mesmo se utilizando de um discurso diferente, o objetivo desta mídia, assim como de seus empresários, é o mesmo que move o mundo e os diversos segmentos midiáticos: vender e lucrar.

A cada nova aventura dos super-heróis, os fiéis leitores absorvem mais e mais as expressões, as peculiaridades, as atitudes dos personagens. De certa forma isso contribui para a esteriotipagem de comportamentos que hoje assombra a sociedade. Ao visitar uma escola de educação básica é possível observar que em cada brincadeira infantil ou mesmo nas conversas e comportamentos adolescentes se apresentam características dos heróis badalados do mundo anime e dos quadrinhos. Essa ‘fissura’ por personagens favorece apenas aos interesses das empresas da área. Incentiva o consumo exacerbado de um sortimento de objetos relacionados às histórias. Ou de livros que explicam a origem das sagas, que falam da personalidade dos heróis e vilões, adereços de todo o tipo e até as fantasias correspondentes.

Mantendo a força

A forma como as histórias são contadas também influencia o consumo. Os episódios sempre acabam na hora ‘H’. No momento de maior suspense da trama. Os leitores mal podem esperar para comprar o novo número onde o mistério se explicará e outro problema irá surgir. É um ciclo vicioso sem fim que visa a continuidade do segmento e o enriquecimento das empresas. Quando o leitor ameaça abandonar o ‘vício’ os fabricantes recorrem até a métodos trágicos para manter o ibope.

Um exemplo disso é o caso de Superman. No início dos anos 90 a revista do herói estava sofrendo com a baixa procura. Os editores resolveram então matá-lo. Isso causou comoção e polêmica entre os aficionados. Um tempo depois os produtores ressuscitaram o herói. O número de vendas da revista que trazia Superman ressurgido superou todas as expectativas de venda. Desde então o número de leitores da história tem se mantido estável.

Outro exemplo bastante comentado foi a mudança no layout de Mulher-Maravilha e Elektra. Essas personagens são desenhadas por um brasileiro. Em 1995 ao perceber que os leitores estavam migrando para outros personagens, os editores das revistas decidiram fazer uma mudança gráfica nas heroínas. Foi acrescentado um ‘bumbum’ maior em Mulher Maravilha. Para Elektra foi concedido um corpo com mais curvas, estilo violão. A partir de então, principalmente no Brasil, o número de leitores só cresceu.

Há quem diga que as HQ não podem competir em influência com as mídias tradicionais tão demonizadas hoje. Isso não se prova verdadeiro quando paramos para analisar os comportamentos que a ‘geração quadrinhos’ e a juventude atual, que está sendo atraída a cada dia mais para este segmento apresentam. Essas empresas reconhecem o potencial de seu produto e há anos recorrem a estratagemas conhecidos para ganhar dinheiro. Sempre incentivando o consumo. O que muda é apenas a construção do discurso. Não importa se matando personagens, lançando moda ou criando expressões, os empresários reconhecem que ‘pela união destes poderes’ os quadrinhos mantêm a força e cumprem seu papel de gerador de lucros.

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Estudante de Jornalismo do Unasp

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