Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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JORNAL DE DEBATES >

Pensar e escrever no meio do tiroteio

Por Ivo Lucchesi em 20/03/2006 na edição 373

Há algum tempo (20/9/2005), publiquei neste Observatório o artigo ‘Na pele dos jornalistas‘. Na ocasião, preocupava-me a vida atribulada de um profissional de comunicação cuja missão diária consiste em ter de absorver os mais diferentes acontecimentos com a responsabilidade de, perante seu leitor, não perder o senso do equilíbrio, a despeito de pressões variadas que decorrem da própria torrente de fatos cuja lógica nem sempre é capaz de elucidar.


Retorno, pois, ao tema por constatar que, ao longo das duas últimas semanas, outro quadro complexo e repleto de situações inusitadas volta a exigir do jornalista a devida assimilação e inevitável tarefa de transmissão – tendo de escapar, ao máximo, da tentação de cair em projeções pessoais e distorções subjetivas.


A crítica e a isenção competente


Em curto período, o profissional de jornalismo teve de se defrontar com episódios que bem poderiam ameaçar a serenidade e o necessário distanciamento crítico. Somos, por vezes, exigentes demais com profissionais que, por viverem num país com características e peculiaridades tão insinuantes e ousadas, não medem esforços para impedir a invasão de alucinações. Recordemos recentes episódios, tão intrincados quanto rocambolescos:


1. o assalto às dependências do Exército, seguido do roubo de armas;


2. a estratégia de captura das armas roubadas;


3. a invasão de um grupo de mulheres da Via Campesina, destruindo, na Aracruz, laboratório, equipamentos e pesquisa científica de 20 anos;


4. concessão de habeas corpus pelo STF, possibilitando um intimado a fazer uso de radical silêncio ante a CPI;


5. situação absolutamente inversa, no dia seguinte, quando um depoente, perante a CPI, dispondo-se a declarar tudo o que sabe, tem sua liberdade de expressão abortada por uma liminar concedida por ministro do STF;


6. a absolvição de deputados sentenciados pelo Conselho de Ética que parece não esconder a existência de acordos interpartidários.


Os seis fatos aqui reunidos mereceram ampla cobertura por todos os veículos de informação. E reconheça-se o esforço jornalístico que cada profissional procurou desenvolver com o intuito de não emprestar a nenhuma ocorrência sua própria visão, embora, em cada fato, quase humanamente impossível fosse fugir da armadilha de um parecer crítico capaz de tornar o jornalista suspeito.


Conseqüências imprevisíveis


No primeiro episódio, do ato inicial ao desfecho, era inviável montar uma narrativa jornalisticamente verossímil. É sabido que a rede do tráfico é muito bem servida de armamento moderno e até bem superior à qualidade do que está em mãos de forças de segurança pública. Por que, em missão de risco, iriam atrás de 11 armas velhas e enferrujadas? Sobre a captura, a mídia adotou o critério de publicar versões, mesmo contraditórias, que setores oficiais liberavam. Sim, que poderia fazer a imprensa? Desmascarar as autoridades? Tornar-se aliada dos traficantes? Não havia saída para além do simples registro dos acontecimentos.


Sobre o fato 3, a despeito de uma ocorrência na qual a ignorância se somava à violência, redundando em completa barbárie, que ângulos a imprensa poderia desenvolver sem cair na armadilha ideológica de apoiar ou de estigmatizar ação de movimentos populares de reivindicação, ante injustiças que se acumulam historicamente? Quem, por outro lado, em sã consciência, não se choca com a destruição do conhecimento? Quem, porém, não se sensibiliza com vidas desafortunadas que pouco ou nada receberam desde que nasceram?


Como também ignorar o procedimento adotado pela empresa que, em tempo outro, destruíra, com tratores, no Espírito Santo, a aldeia indígena dos guaranis? Como consolar a cientista ante a perda total do que significava o investimento de uma vida?


A respeito dos fatos 4 e 5, algo ainda mais incômodo terá habitado o jornalista escolhido para reportá-los. De início, duas situações diametralmente opostas e assustadoramente corretas sob o aspecto jurídico com o qual o STF orienta as decisões. Em ambos os casos, o princípio de respeito à lei foi preservado, embora, nos dois casos, a legalidade das medidas não evitasse a percepção da imoralidade por parte da população que sempre espera a vigência da verdade como valor supremo.


Como, portanto, o jornalista, igualmente emissário da verdade, pôde abster-se da face nobre de sua missão? Todavia, tinha de fazê-lo. O palco dos acontecimentos assume feição caótica na medida em que a imprensa se encontra no fogo cruzado de um jogo de triangulações entre os poderes legislativo e judiciário, cujo vértice é o poder executivo, articulando manobras tanto na direção do legislativo quanto na esfera do judiciário.


Fechando a pauta das alucinações (reais), há a seqüência de absolvições, mergulhando, em ano de eleição, o cenário político numa substância pegajosa e fétida, a desafiar o respeito às instituições. Contudo, ainda aí, a imprensa se vem portando com elegância possível, em nome de não colaborar para uma espécie de ‘estouro da boiada’ cujas conseqüências seriam imprevisíveis e descontroladas. A crueldade histórica brasileira expõe a ferida a desafiar a ética da informação.


Impasses na ética da informação


A ética da informação esbarra na realidade presente e complexa que não cessa de oferecer pautas para as quais não se vislumbra tomada de posição sem que a escolha acarrete, ao jornalista, ares de desconfiança quanto a possíveis interesses que ele possa ter. Todavia, ao não assumir posições, igualmente lhe cai sobre os ombros a omissão. Enfim, a ética da informação, patrimônio do jornalista, parece condenada a um conflito permanente com a lógica dos interesses, propriedade das forças do capital e das forças políticas.


Acresça-se ao drama o fato de o jornalista ainda ter de pensar em como reagirá o dono do jornal. É muita carga. Apesar do desgaste que tal conflito imprime à atividade diária, o resultado final não é ruim. Há, de certo modo, o reconhecimento público acerca das limitações. Estas se situam num patamar muito mais amplo em cujo cenário identificamos o que chamamos de ‘concomitância das assimetrias’, regime ditado pela dinâmica dos acontecimentos e guiado pelo intrincado jogo de relações que a própria engrenagem do capitalismo cria.


A concomitância das assimetrias inviabiliza reduções e finda por tornar a prática jornalística um ofício grandioso pela dimensão dramática de um real que não mais oferece respostas simplistas. A maturidade jornalística reside em, mesmo com o preço alto da aflição crescente, saber driblar o reino das injunções no qual tudo parece contaminado e minado.


Prudência e competência


O que a breve exposição tentou sinalizar é a importância crescente, em cada futuro jornalista, quanto à necessidade de harmonizar o domínio da técnica e a sofisticação do conhecimento. Sem o equilíbrio desses atributos, não haverá suportabilidade psíquica para o enfrentamento jornalístico de situações oriundas de um real progressivamente desafiador à inteligência.


O que deve um futuro jornalista – agora ainda em formação – perceber é a progressão de demanda analítica, de controle emocional e de afastamento de crenças, em favor da construção de um olhar cuja medida esteja em sintonia com as exigências criadas pelas circunstâncias de uma realidade mutante, acelerada e subordinada a choque permanente de interesses.


A era da banalidade, das abobrinhas e da curiosidade trivial vive seus últimos espasmos. O futuro para profissionais de comunicação se apresentará instigante e auspicioso para quem agora se prepara para trilhar atalhos da seriedade, da gravidade e da percepção sensata. Fora daí, sobrará migalha de futilidades cuja densidade da vida, longe de cultuar amenidades, se encarregará de substituir por padrões de exigência qualitativa.


Olhar maduro sem direito a deslumbramentos é o que se avizinha no horizonte próximo. A tecnologia virá com acenos dos mais convidativos para projetar o público em atmosferas oníricas. O que não se sabe, porém, é se o público, diante de cenários cada vez mais tensos e complexos, aceitará o pacto do devaneio. O fato de, até aqui, a situação estar sob controle não é garantia nenhuma de que assim permanecerá.

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Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha, Rio de Janeiro)

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