Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > 11 DE SETEMBRO, 10 ANOS

Perdas e ganhos

Por Christian Carvalho Cruz em 12/09/2011 na edição 659
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 11/9/2011; intertítulos do OI

Um resumo não tão cínico do maior atentado terrorista da história mostraria o seguinte: 2.976 pessoas perderam a vida no 11 de Setembro; George W. Bush ganhou a reeleição e uma desculpa para ir buscar Saddam Hussein, que acabaria perdendo o pescoço; no Afeganistão, os taleban perderam o governo; no Iraque, mais de 100 mil civis e 4.700 militares, o resto de seus dias; turistas ganharam maior encheção de saco nos aeroportos; cidadãos perderam direitos, liberdade, a mínima sensação de segurança que pudessem ter; o mundo ganhou mais paranoia, enfim. Naquela terça-feira em Manhattan, Edward Keating, um fotógrafo baixinho e de olhar meio perdido do The New York Times, perdeu foi a hora. Por causa disso, ganhou o Prêmio Pulitzer (a mais prestigiosa e cobiçada honraria concedida a jornalistas) e, mais adiante, num desdobramento dos ataques da Al-Qaeda, terminou perdendo o emprego.

As imagens que Keating fez no Marco Zero durante o 11/9 e na semana que se seguiu são o que de mais belo pode se extrair do horror. Capturadas à noite, em meio a poeira, fumaça, entulho e holofotes, elas guardam talvez algo da imprecisão impressionista. Dizem muito sem dizer tudo. São fortes, duras, mas idílicas ao mesmo tempo. Sem contar que pelo menos uma delas, a dos bombeiros sobre uma pilha de escombros, remete inevitavelmente a Joe Rosenthal e seus soldados erguendo a bandeira americanada no Monte Suribachi, na 2ª Guerra Mundial. Algo que provavelmente já estava nas cabeças e nos corações dos jurados do Pulitzer. Independentemente disso, com uma lente grande-angular acoplada a sua Leica, Keating não apenas nos exibiu aquelas cenas. Ele nos pôs dentro delas, como já costumava fazer com os leitores da “VOWS”, uma coluna semanal do Times sobre casamentos que trazia reportagens de Keating em preto e branco.

“Silêncio! Silêncio!”

A manhã ensolarada dos atentados era seu primeiro dia de férias. Ele tinha passagens compradas e iria com a mulher a Portugal naquela noite. Seu plano era sair de casa às 7h30 para buscar uma jaqueta em sua casa de campo, em Cuddebackville, a noroeste de Nova York. Se tivesse ido, não conseguiria voltar por causa da quarentena imposta a Manhattan. E aí babau cobertura do acontecimento do século. “É só isso que consigo me lembrar daquele começo de dia: eu precisava de uma jaqueta legal para ir a Portugal. Mas dormi demais e quando dei por mim eu já estava na porta de um hospital fotografando os feridos que chegavam da área das torres. Sem a jaqueta e sem as férias, mas com uma grande história pra contar”, ele relatou por telefone.

À noite, Keating ganhou a zona restrita do Marco Zero, ainda fumegante. Não perdeu a inocência porque, macaco velho com 45 anos de idade, 20 de profissão e 10 de Times, esta ele já não tinha fazia tempo. “Disfarcei-me de pedreiro, havia muitos deles trabalhando no resgate de possíveis sobreviventes. Escondi minha câmera debaixo da blusa, ninguém me perguntou nada, fui entrando. Eu era o único fotógrafo no local.” Sua voz oscila. Ganha um tom orgulhoso quando ele diz ter dormido dentro da loja de roupas Brooks Brothers, onde os nova-iorquinos formais gostam de se vestir e foi um bocado avariada pelo desmoronamento das torres. “Acomodei-me na seção masculina e descansei por uma hora. Quando clareou fui revelar meus filmes.” E ganha euforia quando ele conta ter recebido um grude memorável das mãos de Daniel Boulud em pessoa, o chef três estrelas Michelin que alimentou o pessoal que trabalhava nos escombros. Porém, quase perde o som quando ele fala dos objetos que recolheu do chão e até hoje guarda numa cestinha em seu escritório – fios de telefone, molas, arames, um garfo amassado. “São… mementos… do… evento.”

No dia 12 à noite, Keating voltou disfarçado de pedreiro. Mas entre os dias 13 e 18 já tinha uma autorização da Guarda Nacional. Foi desse período que saíram as melhores fotos, ele diz, incluindo a sua favorita: a de um jogo de chá coberto de poeira que estava dentro de um apartamento na zona atingida. “É uma imagem incomum pra mim, porque eu normalmente não fotografo coisas. Eu fotografo pessoas”, explica. “Aquela foto, no entanto, acalmou os nervos das pessoas, não é? É como se ela as tivesse tirado do estado de choque e as ajudado a começar a se recuperar. É uma imagem silenciosa também. E o silêncio daqueles dias eu não consigo esquecer. Todo mundo no Marco Zero trabalhava absolutamente quieto. Mas de repente soava uma sirene e alguém gritava pelo megafone: “Silêncio! Silêncio!” E então você podia ver um bombeiro deitado com a orelha colada nos entulhos tentando ouvir algum sinal de vida lá no meio. Mas como alguém poderia ter sobrevivido àquilo? A magnitude da destruição era aterrorizante. Cenas difíceis de apagar da memória.”

“Generosidade, compaixão”

Mas se o 11/9 fez o baixinho arretado do Times ganhar o que ele chama de “topo, topo, topo da carreira”, o fez também perder a liberdade. Em 12 de janeiro de 2002, o próprio jornal noticiava sua prisão por invasão de uma área proibida do Marco Zero. Um policial disse que ele estava com a credencial de jornalista vencida e usava um crachá de trabalhador da construção autorizado a atuar na área – um trabalhador que obviamente não era ele. Keating perdeu o filme, horas na delegacia e ganhou a rua no mesmo dia. “Eu já havia entrado lá tantas outras vezes…”, ele estanca o assunto com uma frase que lhe sai mezzo lamentosa, mezzo incrédula.

Nove meses depois, em 25 de outubro, na seção de correções, o Times dava a seguinte Nota do Editor:

“Uma fotografia publicada nos primeiros exemplares de 20 de setembro mostrava um garoto de 6 anos apontando uma pistola de brinquedo ao lado de uma placa em que se lia ‘Arabian Foods’ em uma loja em Lackawanna, NY. A loja ficava perto do local de duas detenções que foram descritas pelas autoridades como uma prevenção contra uma célula da Al-Qaeda, e a foto aparecia num artigo que contava a história das pessoas detidas. A foto não era relevante para o artigo e não deveria aparecer; o editor de notícias a deletou antes que os últimos exemplares fossem impressos. Depois que a foto foi publicada, dois editores de outras empresas de notícias telefonaram para o Times e contaram que seus fotógrafos disseram que a cena tinha sido posada. A política de integridade jornalística do Times estabelece que ‘fotos de notícias não devem ser posadas’. Em resposta aos telefonemas, editores do Times inquiriram o seu fotógrafo e diversas testemunhas. O inquérito não foi capaz de estabelecer se a foto havia sido posada. Depois, porém, o jornal recebeu uma ligação da Columbia Journalism Review, que também investigava o incidente. Editores sênior do Times conduziram inquérito complementar e chegaram a conclusões; e por fim o fotógrafo reconheceu que o gesto do garoto da foto não era espontâneo. O Times lamenta essa violação de sua política de integridade jornalística”.

Sim, apesar de não ter o nome na nota, o fotógrafo citado era Edward Keating, que deixou o jornal depois de 11 anos de casa e dois Pulitzers na estante. Eis aí um assunto que o faz perder a paciência: “Eu nunca fiz nada no New York Times que fosse jornalisticamente antiético. É isso o que eu tenho a dizer”, ele afirma, para logo em seguida acrescentar: “E eu não fui demitido. Foi um acordo de separação. Recebi um pacote de benefícios e saí”. Desde então, Keating tem apontado suas lentes para outras grandes histórias e alguns projetos pessoais. Como free-lancer da revista Time, cobriu a devastação que o tornado Joplin causou no Missouri em maio e a parada gay de Nova York em junho. Num e noutro, em preto e branco ou cor, com mais altos do que baixos, lá está o bom e velho repórter de olhar apurado. O mesmo que pode ser encontrado nas fotos comerciais de casamento que ele passou a fazer, aí sempre em negativo preto e branco. Quanto custa ter um pulitzerizado fotografando seu matrimônio? Coisa de US$ 8 mil.

Aos 55 anos, casado há 23, pai de três filhas, fã de blues, Keating deve passar este 11 de setembro em Cuddebackville, tocando gaita e editando as fotos de um trabalho que lhe consumiu 11 anos: o registro de lugares e gentes ao longo da Rota 66. Ele quer fazer um livro e uma exposição. Entre tantas perdas e ganhos pessoais que o 11/9 lhe proporcionou, Keating, que estudou ciências sociais e literatura, termina falando do ganha e perde de seus compatriotas em geral: “Ganhamos a habilidade de lidar com grandes acontecimentos, ganhamos generosidade, compaixão e senso de comunidade. O problema é a cada dia perdermos um pouco dessas coisas quando os neocons abrem a boca. Os aliados da direita americana usaram o 11 de Setembro para propósitos pessoais e criminosos. E nos fizeram engolir isso. Que porcaria…”

***

[Christian Carvalho Cruz é repórter do Estado de S.Paulo]

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