Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > LEITURAS DA FOLHA

Pesquisa inútil na edição dominical

Por Luciano Martins Costa em 24/10/2011 na edição 664

Comentário para o programa radiofônico do OI, 24/10/2011

Na edição de domingo (23/10) da Folha de S.Paulo, pesquisa realizada pelo instituto Datafolha revela que o crescimento do acesso à internet no Brasil está estrangulado pelo alto preço cobrado pelas operadoras – quase todas empresas de telefonia fixa.

O jornal paulista afirma que o número de brasileiros que se informam por meio de jornais impressos ainda é muito superior – 46% maior – do que o daqueles que buscam notícias através da internet, por meio de computadores ou aparelhos móveis.

Os detalhes escolhidos para publicação não permitem analisar o alcance da pesquisa, como dados sobre frequência da busca de informações jornalísticas em cada um dos meios. Mas certas falhas na informação autorizam o observador a duvidar da afirmação do jornal.

Sem mais

A reportagem informa, por exemplo, que 21 milhões de cidadãos leem jornais impressos todos os dias e que “6 milhões de brasileiros das classes A, B e C leem a Folha impressa com alguma periodicidade”. Ao mesmo tempo, ficamos sabendo que “73 milhões de brasileiros leem jornais impressos”.

Esse conjunto de informações, por exemplo, não quer dizer muita coisa. Serve apenas para o jornal enaltecer a si mesmo, destacando sua posição entre os leitores mais educados e de renda mais elevada.

Mais ilustrativo é o gráfico que mostra a tendência de queda na leitura dos jornais, entre 2006 e 2011, de 55% para 52% da população, enquanto o acesso à internet cresce de 34% para 49% entre 2006 e 2010, caindo para 46% em 2011.

Segundo o Datafolha, o aumento na inclusão digital se deu principalmente entre 2003 e 2010, quando a parcela da população que acessa a internet aumentou de 21% para 49%, ou seja, mais do que duplicou. A pesquisa indica que esse total caiu para 46% em 2011, mas não explica as razões – o que deixa ainda mais dúvidas no ar: as pessoas venderam seus computadores? Andam decepcionadas com a internet? Ou foi simplesmente uma falha na captação dos dados?

Outros estudos – como aqueles que rastreiam os hábitos de internautas – mostram o crescimento explosivo das redes sociais e do comércio eletrônico, utilizações que exigem constância no acesso à rede.

Também é interessante observar que, segundo a Folha, 77% dos brasileiros com acesso à internet costumam buscar informações na rede, o que representa uma proporção a ser mais bem detalhada nesse estudo. No entanto, a pesquisa, ou pelo menos aquilo que a Folha achou importante partilhar com seus leitores, não oferece maiores informações.

Números contraditórios

Assim, fica difícil entender o título da reportagem: “Público de jornal impresso é 46% maior do que o da internet”. Ora, se, no lado esquerdo da página está escrito que “21 milhões de brasileiros leem jornais impressos todos os dias” e no lado direito se diz que “20 milhões de brasileiros acessam notícias na internet todos os dias”, a diferença seria de apenas 1 milhão, ou cerca de 5%.

Na abertura do texto, o jornal paulista afirma que “são 73 milhões os que acompanham as edições em papel, ante 50 milhões que seguem os textos online”. Sem maiores explicações, a reportagem passa a falar do gargalo no crescimento da internet no Brasil, representado pela falta de investimentos em cidades distantes dos grandes centros e pela prioridade dada aos consumidores de renda mais elevada. Nenhuma explicação sobre a aparente contradição de números.

A pesquisa foi feita com base em 77 perguntas e pretende mapear onde, como e quando os brasileiros consomem informação. A versão deste ano é a primeira de alcance nacional e inclui pela primeira vez o público de classe C. No total, 3.767 pessoas entrevistadas em 179 cidades, com detalhamento para identificação das classes de renda.

A Folha não indica fontes onde se poderiam acessar outros dados, o que induz a acreditar que as informações alinhadas no jornal de domingo são tudo que será oferecido ao leitor comum. Ou seja, trata-se basicamente de uma peça de marketing dojornal para destacar sua penetração entre os leitores de maior renda.

O estudo não representa qualquer novidade em relação a outros levantamentos.Na semana passada, por exemplo, a Associação Mundial de Jornais e Editores de Notícias (WAN, na sigla em inglês) divulgou pesquisa mostrando que, apesar de ter caído em 2% a circulação de jornais entre 2009 e 2010 em todo o mundo, o meio impresso ainda tem 20% a mais de leitores do que o público alcançado pela internet (ver, neste Observatório, “Jornais têm mais leitores que a internet”).

Esse estudo indica que a proporção otimista de leitores de jornais alardeada pela Folha está mais para a ficção.

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