Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > QUARTA-FEIRA, 14/11

Pito de rei espanhol em Chávez vira hit na internet

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 14/11/2007 na edição 459

Leia abaixo a seleção de quarta-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Quarta-feira, 14 de novembro de 2007


CHÁVEZ E O REI
O Estado de S. Paulo


Incidente faz sucesso na internet


‘A frase dita pelo rei espanhol, Juan Carlos, ao venezuelano Hugo Chávez – ‘Por que você não se cala?’ – transformou-se em um sucesso da internet e das empresas que vendem toques de campainha para celular. A frase já ganhou versões em ritmo de tecno, hip-hop e até o ‘regaeton’ – tipo de música popular na América Latina -, que recebeu o nome de ‘rei-gaeton’.


De acordo com a agência de notícias ‘France Presse’, ontem, quase todas as variantes da frase do rei já tinham sido registradas como domínios de internet. Segundo o jornal espanhol ‘El País’, milhões de internautas procuraram imagens da discussão na internet. No site YouTube havia cerca de 300 vídeos em mais de 50 versões das imagens do bate-boca. A frase converteu-se também em slogan de campanha da oposição pelo ‘não’ no referendo do dia 2.’


 


GOVERNADOR
O Estado de S. Paulo


Serra dá entrevista a alunos do Grupo Estado


‘O governador José Serra recebeu ontem, no Palácio dos Bandeirantes, os 31 alunos do 18.º Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do Grupo Estado. Das 15h às 17h, Serra respondeu às perguntas dos estudantes. Entre outros assuntos, falou de CPMF e pacto federativo. E destacou o ativismo governamental como ponto forte de sua gestão.’


 


ESPIONAGEM
William J. Broad


Rússia condecora seu ‘espião do século’


‘The New York Times – Ele era um americano típico: nasceu em Iowa, estudou em Manhattan, jogava beisebol com seus camaradas do Exército. George Koval tinha um segredo. Era um espião soviético, que usava o nome de código Delmar, treinado pelo implacável serviço de inteligência de Stalin.


Segundo os historiadores, Koval – que morreu em Moscou no ano passado, aos 92 anos – parece ter sido um dos mais importantes espiões do século 20. Ele deu ao regime soviético detalhes fundamentais sobre o processamento e produção de grandes volumes de polônio, plutônio e urânio – reduzindo substancialmente o tempo que a União Soviética necessitaria para produzir sua bomba atômica. Em agosto de 1949, cinco anos depois do lançamento da bomba atômica sobre Hiroshima, os soviéticos explodiam sua primeira bomba experimental. Mas só agora isso se tornou público.


No dia 2, o Kremlin surpreendeu os ocidentais ao anunciar que o presidente russo, Vladimir Putin, outorgara postumamente sua mais importante condecoração, a Medalha de Herói da Federação Russa, ao agente soviético que se infiltrou no Projeto Manhattan – que desenvolveu a bomba americana.


No comunicado do governo russo, Koval foi elogiado como ‘o único agente soviético’ a infiltrar-se nas instalações secretas do projeto, nas quais se processava o combustível nuclear. Seu trabalho, segundo a nota, ‘ajudou a acelerar consideravelmente o tempo para a URSS desenvolver sua própria bomba’.


Desde então, historiadores, cientistas e outros velhos amigos de Koval lembram sua história – do atleta, do sujeito apreciado por todos, do gênio em estudos técnicos. As agências de inteligência dos EUA sabiam da sua traição já no início dos anos 50, mas nunca revelaram o segredo.


Sua família mudou-se da Rússia para Iowa e depois retornou à União Soviética. Isso o tornou um comunista convicto e, ao mesmo tempo, um profundo conhecedor dos hábitos americanos.


Em Sioux City, localidade de Iowa onde ele nasceu, há uma grande comunidade judaica e uma dezena de sinagogas. Em 1932, durante a Grande Depressão, sua família retornou à Sibéria. Dois anos depois, Koval estava em Moscou e se destacava nos estudos no Instituto Mendeleev de Tecnologia Química. Diplomado com louvor, foi recrutado e treinado pela inteligência soviética e enviado de volta aos Estados Unidos, onde atuou como espião por quase uma década, de 1940 a 1948.


Stewart D. Bloom, físico no Laboratório Nacional Lawrence Livermore, da Califórnia, que estudou com Koval, disse que ele era comedido. ‘Ele jogava beisebol, e bem’, lembrou Bloom. Não tinha sotaque russo. As credenciais do químico eram perfeitas. ‘Às vezes eu o via com o olhar perdido, pensando em alguma outra coisa. Agora, acho que sei o que era’, prossegue Bloom.


Especialistas e agentes federais identificaram, por anos, alguns indivíduos que espionaram para os soviéticos, especialmente em Los Alamos, Novo México. Todos eram espiões por impulso e solidários à causa, mas sem um treinamento rigoroso.


O casal Ethel e Julius Rosenberg – ambos comunistas americanos – foi sentenciado à morte em 1951 por ter passado segredos atômicos dos EUA aos russos. Os dois foram executados na cadeira elétrica em 1953. A culpa de ambos é posta em dúvida até hoje.


Koval, ao contrário, era um espião treinado pela temida GRU, a agência de inteligência do Exército soviético. Teve amplo acesso às usinas atômicas dos EUA – façanha que nenhum outro espião soviético alcançou.


O químico e o casal Rosenberg estudaram juntos no City College de Nova York – então, um notório reduto dos comunistas americanos.


Depois do fim da 2ª Guerra, Koval fugiu dos EUA, quando agentes da contra-espionagem americana descobriram documentos soviéticos que elogiavam sua família.


A atuação de Koval começou a ser conhecida na Rússia em 2002, com a publicação do livro A GRU e a Bomba Atômica, no qual ele foi chamado apenas pelo nome de código. O livro não dá detalhes biográficos, mas diz que ele foi um dos poucos espiões a conseguir enganar a contra-espionagem dos EUA.


De sua vida após o retorno à União Soviética pouco se sabe. Os vizinhos do apartamento de Moscou onde ele morreu têm dele uma imagem parecida com a dos colegas americanos: a de um homem simples, polido e respeitoso.’


 


QUESTÃO AMBIENTAL
Marcos Sá Corrêa


Nada como um DiCaprio depois de um Al Gore


‘A pergunta veio, de chofre, por ligação interurbana: ‘Não acha que é pura mania de imitação as pessoas, aqui no Rio Grande do Sul, pararem de jogar o palito do picolé na praia depois de ver um filme americano?’


O americano, claro, só podia ser Al Gore, que ganhou o prêmio Nobel da Paz neste ano. E o filme, seu documentário Uma Verdade Inconveniente, que içou na internet uma penca de histórias como a de Charles Whitwam, o dono de uma transportadora que agora usa biodiesel em seus caminhões, e Gary Durnham, o cético de Nashville que, aos 71 anos, passou a bater de porta em porta na cidade como pregador ambiental.


Whitwam e Durnham pertencem à lista dos ‘heróis climáticos’ de Gore, gente que se converteu à conservação dos recursos naturais depois de encarar na tela a tal verdade inconveniente.Em princípio, não é preciso ser brasileiro para imitar americano. Logo, todo gaúcho que deixou de jogar na praia o palito do picolé estava em boa companhia naquele debate promovido dias atrás por uma rádio de Porto Alegre. Mas, apanhado de surpresa, com o locutor avisando que o telefonema estava no ar, o jeito foi sair pela tangente: ‘Americano por americano, é melhor imitar o Al Gore do que o George W. Bush’.


Seria mais fácil responder se a pergunta chegasse nesta semana, no lançamento de A Última Hora, nova superprodução da temporada de catástrofes climáticas. Como filme, não tem o peso do depoimento de Gore. Mas ganha em leveza, com a narração de Leonardo DiCaprio. O ator, fora os outros trunfos, pode passar aqui por uma espécie de gaúcho honoris causa,depois do longo namoro com Gisele Bündchen. E não tem papas na língua para dizer que salvar a Terra é mantê-la bonita.


O filme de DiCaprio desembarcou no Brasil escoltado por dois selos de seriedade ambiental, o da Fundação Boticário e o do Instituto Akatu. Invoca o testemunho de políticos e cientistas. Conjura tempestades em seus 90 e poucos minutos de projeção. Mostra desde o Furacão Katrina devastando o sul dos Estados Unidos a ursos polares fuçando lixo no Ártico. Descreve uma ‘convergência de crises’ produzindo 150 milhões de ‘refugiados do clima’.


Mas não deixa o público sair da platéia com a impressão de que a luz não vai acender no fim do espetáculo. Há cenas de sobra com crianças colhendo nas mãos a água limpa da chuva e um convite explícito para fazer alguma coisa por ‘este singular planeta azul’. Isso, dito por DiCaprio, deve ter lá seu poder de persuasão.


FIM DE MONÓLOGO


E é melhor um Leonardo DiCaprio na mão do que dois ornitólogos voando. Os assuntos do meio ambiente estão ficando complicados demais para ser conversa só de ambientalista. Precisam de ar livre. Foi um pintor chamado George Catlin que inventou no século 19 os parques nacionais, provavelmente a idéia mais prática que o mundo já teve sobre conservação da natureza.


Os filmes são bons sinais. Como os anúncios quase diários de que mais um banco, uma fábrica de automóveis ou uma companhia de aviação resolveu seqüestrar carbono, sejam quais forem seus motivos. Acabou o monólogo da ministra do Meio Ambiente – que, aliás, ultimamente anda mesmo meio calada.


* É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)’


 


BANDA LARGA
Adriana Chiarini


Internet rápida custará US$ 2,5 bi


‘O custo da universalização da internet banda larga nos próximos 3 anos será de no mínimo R$ 2,5 bilhões, disse ontem o ministro das Comunicações, Hélio Costa. Segundo ele, o governo anunciará nas próximas semanas as medidas para atingir o objetivo de levar infra-estrutura a todas escolas e municípios do País. O anúncio será feito provavelmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


Costa contou que o plano inclui o uso de estruturas estatais existentes, como fibras óticas que passam dentro de gasodutos e oleodutos como os da Petrobrás. Há possibilidade de essas estruturas virem a ser unificadas sob a coordenação da Eletrobrás, segundo o ministro.


As fibras óticas sobre torres de alta tensão cobrem praticamente toda a costa brasileira, segundo ele. Atualmente, quase 3 mil municípios não têm estrutura de acesso à Internet. O governo também pode dar contrapartida para que as empresas de telefonia substituam todos os postos de telefonia pública (PST) por infra-estrutura de banda larga. A iniciativa tem custo estimado em R$ 1 bilhão.


Segundo Costa, se o governo conseguir o acordo com as empresas de telefonia, só com a troca dos PST 80% do território brasileiro fica coberto. Além disso, o programa de Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac) está sendo ampliado de 3,2 mil pontos para 18 mil pontos, o que deve adicionar à ligação com a internet mais 10% do território nacional.


Com essas iniciativas sendo bem-sucedidas, ficariam faltando poucos municípios, avalia o ministro, que citou, nesse caso, os que ainda não têm rede elétrica. O ministro contou que há compromisso do governo de investir em infra-estrutura básica nas cidades para a instalação da banda larga.


‘Vamos levar a estrutura até a entrada das cidades e de lá vamos licitar para que cada serviço público da cidade (como as escolas) possa ter acesso’, afirmou. ‘O que estamos tentando indicar é que existem elementos capazes de cobrir o Brasil inteiro com uma estrutura de internet de alta velocidade.’


Ele deixou claro que o governo não quer substituir as empresas. ‘O governo não tem interesse de explorar (economicamente a atividade) nem de tomar o lugar de ninguém. Queremos a participação de todo mundo.’ Costa declarou que o Brasil está construindo ‘uma vasta rede pública de alta velocidade para atender a escolas, hospitais, delegacias, postos de saúde e associações comunitárias’.


No Fórum de Governança da Internet da ONU, no Rio, Costa defendeu a redução do custo de conexão mundial à web. Depois, sugeriu que se poderia fixar parâmetros para o que seria uma tarifa justa.’


 



CONVERGÊNCIA
Marili Ribeiro


ANJ discute o futuro do jornalismo na internet


‘A Associação Nacional dos Jornais (ANJ) promoveu um encontro ontem, em São Paulo, para discutir o futuro da relação entre os jornais e a internet. Embora ainda existam muitas dúvidas sobre qual será o peso de cada meio na veiculação de notícias, algumas tendências já estão claras para os profissionais de comunicação.


Uma das certezas é que os jornais preservam a credibilidade quase como uma marca registrada. O resultado aparece em pesquisas de opinião em que os veículos impressos são avaliados em comparação a outros meios, como rádio, televisão e internet. Outra certeza é que os canais online estão avançando rapidamente. O grande desafio é como levar a credibilidade dos jornais para a web.


Reunidos no seminário sobre a integração das redações online e offline – coordenado por Vaguinaldo Marinheiro, secretário de redação da Folha de S. Paulo -, os profissionais dos maiores jornais do País concordaram que a etapa inicial desse processo já está superada. A convivência dos meios tradicionais e virtuais para a divulgação de notícias vem se dando há dez anos, desde que os primeiros portais de informação entraram no ar.


‘Temos no horizonte que qualquer pessoa hoje em dia fica horas sentada à frente de um computador. Logo, é como se estivesse à frente de uma banca de jornais com toda a oferta disponível de informação’, diz Marco Chiaretti, editor-chefe de Conteúdo Digital do Grupo Estado. Por isso, continua Chiaretti, é importante nesse momento desenvolver as habilidades e os recursos multimídias para explorar o potencial da internet de banda larga.


Entre os exemplos de portais de qualidade que convivem com edições impressas de padrão irrepreensível está, na avaliação de Chiaretti, o The Guardian, de Londres, que foi criado com uma linguagem em acordo com as demandas da internet.


Marta Gleich, diretora de Jornais Online do grupo gaúcho RBS, apresentou estudos que indicam que, até 2010, aproximadamente 18% das pessoas vão se informar apenas pela internet. Por isso, as receitas publicitárias hoje escassas na web tenderão a inverter posição. Hoje, no Brasil, a verba geral dos anunciantes em mídia online não chega a 3% do total.


Para enfrentar a nova realidade, Marta diz que as empresas jornalísticas têm que investir na internet e em uma mudança de cultura. Entre os exemplos do que pode ser mais explorado na versão online, está a produção fotográfica. No Washington Post, por exemplo, foi desenvolvido o slideshow, em que se pode veicular várias imagens de uma mesma seqüência, enquanto o jornal publica um número limitado de fotos. ‘A internet oferece recursos ilimitados que devem ser explorados.’


Sobre a questão do uso ilimitado do que se põe no ar nos sites de notícias, a diretora-executiva da Folha Online, Ana Lucia Busch, diz que a edição do que se veicula deve priorizar critérios editoriais em qualquer versão, seja online ou offline. ‘É um risco querer publicar tudo’, diz. ‘O que existe é jornalismo bem feito, seja em que plataforma for.’


Para Ana Lucia, há alguns mitos do jornalismo na web que precisam ser combatidos, entre os quais está a defesa do texto curto. Ana Lucia diz que o que prende a atenção do leitor é a qualidade do texto. Outra idéia muito difundida seria a tese de que jornalismo na internet é barato. ‘Fazer um produto de qualidade requer bons profissionais, e isso custa caro.’


Em busca da participação do leitor, dizem Raquel Almeida, editora-executiva do Globo Online, e Josemar Gimenez, diretor de Redação do Estado de Minas e do Correio Braziliense, estão as os recursos que cada veículo busca estimular em seus portais. Raquel e Josemar participaram do painel ‘Jornal agora faz áudio e vídeo?’, coordenado por Roberto Gazzi, editor-chefe do Estado de S.Paulo.


‘Ainda temos que vencer desafios para termos qualidade digital no mesmo padrão que temos em termos de credibilidade nas edições impressas’, diz Gimenez.


No site do O Globo Online, conta Raquel Almeida, os investimentos em treinamento da equipe para usar recursos multimídia, como produção de vídeos, acontecem desde 2004. ‘Hoje temos uma média semanal de 90 vídeos produzidos para o site’, conta ela.’


 


PAULO AUTRAN
Beth Néspoli


O grande ator e seu tesouro de papel


‘Um homem recorta e cola meticulosamente notícias de jornal e as organiza em ordem cronológica durante anos e anos a fio. Ao longo do tempo, meio século, vai acumulando pastas e pastas com papéis amarelados. Mania de um taciturno, solitário e metódico? Nada disso. Tal homem é um artista. Ninguém menos do que Paulo Autran, o grande ator do teatro brasileiro, que morreu aos 85 anos, no dia 12 de outubro, no auge de seu prestígio, após ter protagonizado com brilho sua 90ª peça, uma deliciosa montagem de O Avarento, de Molière.


Os documentos que guardou não só dão conta de sua trajetória de 50 anos de dedicação à arte teatral como se tornaram, também, após sua morte, registro precioso para e da história do teatro brasileiro. Seu talento de ator foi mais do que reconhecido, mas o de arquivista poucos conheciam. Surpreendentemente, nessa arte, ele também deixou uma vasta obra que vai fazer a alegria de muitos pesquisadores.


Difícil descrever o prazer de folhear a pasta cuidadosamente indicada como a de número 1, com documentos que vão de 28 de junho de 1947 a 21de agosto de 1952. Ali pode ser visto o anúncio no jornal de sua estréia na peça A Esquina Perigosa, ainda como amador, no Teatro Municipal, em 1947. E nada como ler uma entrevista do jovem ator, publicada em 1950, que enche a boca para falar do trabalho mais difícil de sua carreira, a criação do personagem Balabanof (leia abaixo), da peça Amanhã se Não Chover. Mal sabia ele então que esse bufão o perseguiria por um bom tempo. Um crítico o ‘acusaria’ de repeti-lo na peça seguinte e na outra ainda, algo que deixaria Paulo Autran muito preocupado. Afinal, muitos atores se perdem exatamente nesse ponto da carreira, ficam cristalizados num tipo. Paulo correu esse risco e escapou dele, mas quando dá a entrevista, ‘pescada’ na sua primeira pasta, em 1950, ainda não vivera esses percalços e estava encantado com o personagem.


São dezenas de pastas que oferecem infinitas possibilidades de abordagem numa pesquisa. Cada pasta traz na capa a data de início e fim do arquivo. Basta observar essas datas para perceber a evolução na carreira desse ator no que diz respeito à repercussão de seu trabalho na imprensa. Assim, se a primeira pasta comporta quatro anos, a 15ª reúne o material colhido entre janeiro de 1963 e outubro de 1964, menos de dois anos. Como é natural, ele precisa de pastas cada vez maiores para períodos menores. A de número 24 abarca o período que vai de outubro de 1970 a novembro de 1971.


Dá para detectar ainda, mesmo nesse olhar superficial, períodos mais ou menos agitados. Por exemplo, as reportagens publicadas de julho de 1956 a dezembro do mesmo ano renderam uma pasta inteira para apenas seis meses. A 11.ª, tão volumosa quanto essa, reúne material de apenas quatro meses, entre setembro e dezembro de 1960. Há 39 ao todo, organizadas, e muitos envelopes pardos com material por organizar, dos últimos anos de carreira.


O conteúdo? Os mais variados. Críticas, entrevistas, programas de peças, fotos. E ainda curiosidades como uma matéria ufanista publicada na revista Carioca sobre a estréia da peça Um Deus Dormiu Lá em Casa, de Guilherme Figueiredo, no La Huchette, um teatrinho do Quartier Latin, em Paris, na década de 50. Há ainda fotos de público em teatros como o Copacabana Palace, em 1950, mulheres de longo e piteiras, homens de terno. E fotos de camarim com diretores como Luciano Salce, um dos italianos que vieram ao TBC, mas que logo retornou ao seu país. ‘Acho que nenhum outro ator tem um arquivo assim, tão organizado’, comenta Karin Rodrigues, a grande companheira dos últimos anos, em meio a fotos e pastas num dos quartos do apartamento onde morava Paulo Autran.


Duas semanas depois da morte do ator, Karin recebe a reportagem do Estado no apartamento do ator. Ali, ela trabalha para separar objetos que seriam leiloados do acervo documental. ‘Gostaria que uma instituição séria tivesse interesse em preservar esses documentos que são de interesse público’, diz Karin. Não precisou falar duas vezes. Ao primeiro contato, no dia seguinte, os responsáveis pelo centro de pesquisa do Instituto Moreira Salles – onde já está, por exemplo, o acervo do crítico Décio de Almeida Prado – prontificaram-se a cuidar do precioso acervo, imediatamente doado por Karin. ‘Paramos tudo para receber esse acervo; estou com toda a equipe trabalhando na primeira triagem, todas as fotos já foram envelopadas, vamos começar o tratamento em breve’, afirma Liliana Giusti Serra, coordenadora de bibliotecas do Instituto Moreira Salles.


No dia seguinte da visita do Estado, Karin avisou também ter doado os livros para a biblioteca da Escola Livre de Santo André. ‘E os prêmios (troféus) foram para o Sesc de São Paulo. O Danilo (Santos Miranda, diretor do Sesc-SP) vai criar uma exposição permanente com os troféus no Teatro Paulo Autran’, comemora a atriz.


Antes disso, em torno da cadeira de balanço do ator, espalham-se papéis, pastas, fotos, livros, estatuetas e chega a ser difícil focar o olhar. Uns papéis manuscritos chamam atenção. Aparentemente são anotações para uma palestra ou curso de teatro, em algumas páginas de caderno. São tópicos a serem desenvolvidos oralmente. Um deles dá bem conta do pensamento que norteava esse ator disciplinado, rigoroso, cujo processo de criação pressupunha criar um personagem sempre a partir de um texto, fechado, de preferência um clássico. Ele anota: ‘conceito (errado) de improvisação como um bem e não como último recurso’.


Num envelope pardo, uma série de páginas datilografadas. Escrito a caneta, do lado de fora, com letra de Paulo Autran: ‘depoimentos gravados: não presta’. ‘Ele pediu para jogar fora, mas acho que não devo fazer isso’, diz Karin. Não mesmo. Num trecho, está escrito: ‘Quando Ziembinski escolhia uma peça e dizia – ‘é delicadíssima, uma renda’ – nós já sabíamos, o elenco já dizia: ‘Vai ser um fracasso.’ E não dava outra. Era fracasso. Quando ele dirigia uma peça que os outros tinham escolhido, ele era muito bom.’ Até aí, nada que ele não tenha declarado em entrevistas. ‘Paulo contava as suas histórias sempre do mesmo jeito, sem mudar uma vírgula’, observa Karin.


Um outro papel chama atenção. Trata-se de um contrato, informal porque tem como garantia apenas duas assinaturas, de Paulo Autran e Marília Pêra, mas que trata de formalidades como o salário da atriz na peça Pato com Laranja. Logo depois, solto, um outro papel, também um contrato, desta vez com a atriz Eva Wilma, para a mesma peça. Certamente muitos outros estão ali, entre aqueles papéis. Duas delas, lado a lado, chamam atenção. Sabemos que são de Décio de Almeida Prado, pois estão na coluna Palcos e Circos, do Suplemento Literário do Estado, de 20 de outubro de 1950. São duas críticas da mesma peça, Amanhã se Não Chover, publicadas em dois dias diferentes, uma abordando aspectos positivos, outra negativos. Certamente muitos são os tesouros desse acervo, agora preservado, e em breve disponível para pesquisadores.


Em 1950, A Palavra Do Ator-Revelação


ESCREVE PAULO AUTRAN: ‘Teatro é uma coisa engraçada: atrai sorrateiramente os que estão fadados a nele trabalhar e tem um visgo ali tal, que, ao primeiro contato, prende irremediavelmente. Falo de cátedra, pois foi o que aconteceu comigo. O teatro faz traições de normalista namoradeira e dá recompensas de amante. Quando foi da montagem de Amanhã se Não Chover, peça de Henrique Pongetti, Ziembinsky, que a dirigiu, após a primeira rápida leitura que faz para os intérpretes, distribuiu os papéis, entregando-me o de Balabanof, o anarquista russo grotesco, simplório e enfatuado. Não gostei. O que eu queria interpretar era o Donnard, o diplomata francês desiludido da diplomacia, que me parecia um personagem mais agradável e mais fácil de ser vivido. Com toda a ingenuidade do neófito que era, e ainda sou, em teatro falei com Ziembinsky, a quem, então, mal conhecia pessoalmente. Pedi, argumentei, disse-lhe o quanto gostaria de trocar de papel, que não sentia o Balabanof de modo nenhum, etc. etc. Tudo em vão. Ziembinsky, do alto de sua experiência artística, abanava a cabeça com toda a sua autoridade de diretor. Fiquei indignado inutilmente. No dia seguinte, começaram os ensaios. Eu, a priori, passei a me detestar como Balabanof, achando-me incapaz de dar qualquer inflexão de voz sugerida pelo diretor. Mas, água mole em pedra dura… A experiência do diretor era muito maior do que eu podia imaginar. De repente, não sei como, nem quando, nem por que, comecei a perceber que eu podia ‘ser’ o Balabanof, que eu estava ‘fazendo’ o Balabanof e daí por diante fui sentindo que me integrava cada vez mais no papel e passei a gostar dele. Finalmente, já não compreendia mais como é que eu poderia ter pensado em não querer fazê-lo.


Amanhã se Não Chover é uma peça leve, divertida e despretensiosa, que gira integralmente em torno de Balabanof, um tipo suculento, realmente vivo e humano. Como eu disse inicialmente, o teatro engana, mas recompensa a quem o ama.’’


 


BIOGRAFIA
Antonio Gonçalves Filho


Jimi Hendrix ganha biografia escrita por amiga íntima


‘Três anos de carreira foram suficientes para o guitarrista norte-americano Jimi Hendrix virar mito. Até hoje, 37 anos após sua morte, o músico é lembrado como um visionário que antecipou basicamente tudo o que viria a acontecer na música pop na era pós-Beatles. O interesse de ouvintes jovens, que nem eram nascidos quando Hendrix morreu de overdose, em setembro de 1970, é grande o bastante para deixar brechas à indústria cultural, que não costuma desperdiçar produtos com potencial de venda. Uma nova biografia do ídolo, Jimi Hendrix: A Dramática História de Uma lenda do Rock (Jorge Zahar Editor, 356 págs., R$ 39,90), da jornalista americana Sharon Lawrence, é lançada para concorrer com outras já no mercado, entre elas a escrita há dois anos pelo jornalista Charles R. Cross (Rool Full of Mirrors), também biógrafo de Kurt Cobain.


Discografia completa e trechos de músicas de Hendrix


Os fatos são inalteráveis, mas não sua interpretação. Se Cross concedia mais atenção à infância de Hendrix em Seattle, revelando sua luta contra a segregação, um pai ausente e uma mãe alcoólatra, Sharon Lawrence concentra seus esforços na carreira do guitarrista, que conheceu em 1968, um ano após sua apresentação no histórico Festival de Monterrey. Ele já era, então, relativamente conhecido nos EUA. Ao ler o capítulo em que a jornalista, ex-repórter da UPI, dá carona ao agente do guitarrista e atende a seu pedido para assistir a um show do músico, a impressão que fica nos leitores mais novos é a de que, graças a pessoas como ela, Hendrix chegou ao topo. Evidentemente, trata-se de um exagero.


Em outros capítulos a jornalista é menos subjetiva e esquece que escreveu a biografia por ter sido amiga íntima do músico – tão íntima que leiloou dois maços de cigarros Salem fumados por Hendrix, servindo ainda como testemunha de defesa no processo que o músico enfrentou por entrar com heroína e haxixe no Canadá, em dezembro de 1969. Nesse episódio, a biógrafa garante que Hendrix estava limpo. Alega que a droga foi plantada em sua bagagem. Ela faz outras acusações sérias nessa biografia que não poupa a meia-irmã do guitarrista, Janie, nem a mulher que estava com ele na hora da morte, Monika Dannemann. A groupie, ou amante, teria demorado para avisar a polícia e chamar o hospital. Hendrix morreu de uma superdosagem de barbitúricos, sufocado no próprio vômito.


Teorias conspiratórias não são desconsideradas nessa como em outras biografias anteriormente lançadas. No entanto, o modelo do livro de Sharon Lawrence é mais convencional e menos policialesco: quer mostrar, como se diz, o homem por trás do mito. A jornalista é do tipo que ajuda os amigos a escolher roupas e atende a pedidos de socorro às três da madrugada – e Hendrix, em ambos os casos, sempre recorreu a ela, a considerar o relato da autora. Em todo caso, são poucas as revelações que faz. Minimiza a consciência racial do músico ao afirmar, por exemplo, que, no início de sua carreira, em 1966, quando se juntou ao saxofonista King Curtis, era apenas um músico acompanhante sem grandes chances de ser ouvido como expoente de uma geração. Naquela época, só quem prestava atenção em seus solos eram os vendedores de guitarra da Manny’s, na rua 48, e os boêmios do Village, seus primeiros fãs. Foi por esses anos que conheceu a prostituta de rua Regina Jackson (o nome verdadeiro era outro, admite a biógrafa), com quem viveu por algum tempo em hotéis baratos. Seus relacionamentos, sempre tempestuosos, são explorados com muita astúcia – e crítica – por Sharon Lawrence.


Já a relação de Hendrix com músicos ganha menos destaque. Um dos episódios mais marcantes é o do seu encontro com outro mito do instrumento, Eric Clapton, na época integrante do grupo Cream, em outubro de 1966, um mês após o desembarque do guitarrista em Londres, que vivia o auge do pop. Hendrix aproveitou-se da situação e da platéia do Cream para eclipsar Clapton, sua influência e então reconhecido como o maior guitarrista da Inglaterra: tocou uma infindável versão de Killing Floor, sucesso do legendário bluesman Howlin’ Wolf. Garante a biógrafa que Hendrix se arrependeu por ter tratado Clapton com tão pouco respeito.


O Jimi Hendrix militante, que estraçalha o hino americano no Festival de Woodstock e é pressionado por grupos do movimento negro a se posicionar, é pouco explorado na biografia desse ícone do rock. Pena. Mas, a considerar a longevidade do mito, outras biografias serão escritas. Esta é a de uma amiga íntima e um tanto parcial.’


 


TELEVISÃO
Leila Reis


Ainda falta a ela o papel de ‘vilãzona’


‘Na novela das seis, Desejo Proibido, Letícia Sabatella faz uma mulher oprimida pelo marido que se apaixona pelo jovem médico da cidade. Nesta entrevista, Letícia reconhece que tem tido a sorte de ganhar papéis densos nesses seus 17 anos de carreira na TV, mas que ainda lhe falta uma ‘vilãzona clássica’ no currículo. Estreando no papel de produtora e diretora do documentário Houxá, sobre a tribo kraô, Letícia diz que depois dos 35 anos (ela tem 36) não quer mais repetir papéis e que seu grande projeto é se dedicar a ‘trabalhos que tenham a ver com a brasilidade’.


Em Desejo Proibido você interpreta uma mulher reprimida que se torna adúltera. Você já fez um papel assim na TV, não é?


A outra Ana, da minissérie A Muralha, era meio parecida, porque tinha um casamento arranjado, que entrou para fugir da fogueira. Tenho tido a sorte de ganhar papéis densos. Se bem que Latifa (de ‘O Clone’) era mais puxado para o humor. Sempre acho que tenho de aprender alguma coisa nova em cada trabalho, não dá para estar nessa profissão sem desafios. A Ana, de Desejo Proibido, é uma mulher inteira, que vive o dilema de escolher ser ela própria ou se enquadrar na fôrma machista que o marido impõe. Acho que ela é louca.


A novela não começou com uma audiência muito boa. Você sente a repercussão dessa performance no estúdio?


Não deu para sentir porque a novela ainda está muito no começo. Mas acho que os tipos cômicos, personagens do Luiz Carlos Tourinho, Pedro Paulo Rangel e Júlia Lemmertz, vão agradar muito. Ângelo Antônio (ator e ex-marido) acabou de me ligar para dizer que estão gostando muito da novela. Achei muito legal.


Como você procura informações sobre o trabalho que está fazendo?


Eu leio algumas coisas e pergunto para as pessoas o que elas acham.


Como você recebe críticas?


Depende de como elas vêm. Quando ela se restringe ao meu trabalho é normal, mas quando entra no âmbito pessoal, dói. Se bem que tive a sorte de não sofrer até hoje nenhuma crítica devastadora. Quando fiz O Clone houve uma crítica negativa à minha personagem, mas depois até a pessoa que escreveu mudou de opinião a respeito de Latifa. Foi duro quando Irmãos Coragem passou por muitas mudanças, porque se concluiu que ela tinha mais o perfil do horário das oito do que das seis.


A segunda jornada de Hoje É Dia de Maria foi o seu melhor trabalho na TV?


Gostei muito das minisséries Agosto, A Muralha, JK, Um Só Coração. Tenho uma identificação muito grande com Luiz Fernando Carvalho (diretor de ‘Hoje É Dia de Maria’), ele é um mestre que busca uma outra linguagem, experimenta na TV. O primeiro trabalho que fiz na TV foi com ele: o especial Os Homens Querem Paz, em 1990. Nunca fiz nada tão bom na TV como Hoje É Dia de Maria, em que fiz vários personagens e tínhamos uma relação íntima com a produção.


Onde Carvalho descobriu você? Em Minas Gerais?


Eu nasci em Belo Horizonte, mas fui criada em Curitiba. Fazia faculdade de teatro e trabalhava com Marcelo Marchioro no repertório de Shakespeare quando Emílio de Biasi (diretor) me viu em um espetáculo, levou um vídeo de meu trabalho e o Luiz Fernando me chamou.


Qual trabalho lhe deu mais popularidade? E o que deu maior prestígio?


A personagem Taís, de O Dono do Mundo (91), me deu visibilidade. A partir dessa novela todo mundo começou a me procurar. As minisséries me deram prestígio, Irmãos Coragem, onde fiz duas personagens, também. Mas Hoje É Dia de Maria renovou minhas possibilidades, porque agregou mais para a minha imagem.


E qual o que mais a frustrou?


Todos os trabalhos acabam trazendo uma carga de frustração. Já em O Dono do Mundo eu percebia que não tinha a agilidade que a novela exige. Nem conseguia me ver na novela. Estou sempre sentindo frustração como atriz. Em Páginas da Vida (em que fez a freira Lavínia), meu trabalho não foi desafiador. Depois dos 35 anos (ela tem 36) quero fazer coisas novas.


Por que nunca fez uma vilã?


Não sei, mas acho que daqui um pouco vou dar um toque e ver se alguém me chama para fazer uma vilãzona clássica.


Você tem sido muito requisitada pelo cinema?


Fiz sete filmes, Não por Acaso, de Felipe Barcinski, estreou agora e ainda vai estrear Romance, de Guel Arraes. Estou sempre recebendo convites, mas muitas vezes não dá para conciliar a agenda.


O que a levou a se tornar uma documentarista?


Conheço os índios kraôs há 12 anos, quando eu e o Ângelo Antônio fomos à aldeia, no Tocantins, fazer uma pesquisa que gerou até um espetáculo teatral, Zé. Desenvolvi uma relação profunda com eles, fui até batizada e me tornei parte de uma das famílias. Há quatro anos, eles me pediram ajuda para resgatar as sementes ancestrais, foi quando resolvi fazer o documentário sobre o palhaço sagrado que existe na aldeia, que traz a alegria e o equilíbrio. Chamei Gringo Cardia para ser o diretor de arte, porque eu tinha o conteúdo pronto, mas não a experiência de direção. O documentário que se chama Hoxuá, está pronto. Toda renda que ele gerar vai reverter para os kraôs.


Ele vai para o cinema?


Não sei, primeiro estamos inscrevendo o filme nos festivais que se interessam pelo tema.


Qual é o seu grande projeto profissional?


É o trabalho que estou fazendo agora. Quero poder prestar um bom serviço às pessoas, aos indígenas. Fazer trabalhos que tenham a ver com a brasilidade, como Hoje É Dia de Maria, por exemplo.


Qual a vantagem e o problema de trabalhar com ex-marido?


A gente fez Um Só Coração e Páginas da Vida. É bom trabalhar com o Angelo porque ele é o melhor ator que conheço. Aprendi muito com ele.


Você está casada?


Não, só namorando com Miguel Lunardi (ator, que atuou no filme ‘Jenipapo’, de Monique Gardenberg).


Qual é a avaliação que você faz da TV hoje?


Há uma variedade na TV paga muito grande. Na rede aberta há bons e maus programas. Acho que não deveria ter tanto programas de vendas, que as outras emissoras fizessem como a Globo e investissem mais na brasilidade. Se houvesse mais programas como Castelo Rá-Tim-Bum, Hoje É Dia de Maria e A Pedra do Reino (também de Luiz Fernando Carvalho), a nossa TV seria melhor.’


 


Keila Jimenez


Aguinaldo Silva escreverá de Portugal


‘Mais confusões estudantis, processo por racismo, revelações bombásticas. Enquanto Duas Caras pega fogo por aqui, o autor da trama, Aguinaldo Silva embarca para Portugal para colocar as idéias no lugar. A viagem vem logo após o autor postar em seu blog que vem recebendo ameaças por telefone.


Aguinaldo, que garante não estar intimidado, diz saber que anda mexendo com assuntos polêmicos em sua trama, e que devem estar incomodando muita gente.


‘Vou ficar fora recuperando minhas energias, afastando o baixo astral e retomando o fôlego’, diz.


O autor, que tem casa em Portugal, continuará escrevendo a novela de lá durante pelo menos duas semanas.


Mas, mesmo com o criador a distância, Aguinaldo garante que Duas Caras continuará com suas polêmicas. Cenas como os confrontos estudantis que foram ao ar esta semana vão se repetir.


‘Haverá também confrontos em outros níveis. As mudanças que Macieira (José Wilker) vai impor à universidade provocarão resistência’, conta o autor. ‘E por conta de um golpe, ele será afastado, acusado de racismo’, adianta.’


 


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Folha de S. Paulo


Quarta-feira, 14 de novembro de 2007


CONVERGÊNCIA
Folha de S. Paulo


Evento debate interação de jornal e internet


‘A integração entre jornais impressos e internet é uma realidade no Brasil e tende a aumentar. Mas isso não significa que já estão definidas as melhores formas de unir os dois meios. Na internet, um dos desafios é dosar o uso de texto, fotos, vídeos, áudio e infográficos.


Essas foram algumas sugestões apresentadas ontem no seminário ‘Os jornais e a internet-para onde aponta o futuro?’, organizado pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) e realizado no auditório da Folha. ‘A internet tem espaço ilimitado, o que não significa publicar tudo. É preciso editar muito bem, o noticiário bem editado atrai o leitor’, afirmou a diretora-executiva da Folha Online, Ana Lucia Busch.


Para Raquel Almeida, editora-executiva do Globo Online, é preciso procurar ‘a vocação de cada mídia’. ‘Não é produzir o mesmo conteúdo em todas as ferramentas. É saber conciliar os melhores formatos com agilidade e flexibilidade.’


Marco Chiaretti, editor-chefe de conteúdo digital do Grupo Estado, disse que a internet permite a ‘expressão de muitos talentos’. Os palestrantes concordaram que os jornalistas de hoje precisam saber usar vídeo e áudio, por exemplo. O que não significa que tenham que virar especialistas em todas as áreas.


‘Não adianta pensar em jornalistas multlimeios que vão fazer tudo. Integrar significa discutir. É preciso pensar na produção, produzir e distribuir separadamente, o que pressupõe particularidades’, ressalvou Busch. ‘Não dá para ter um padrão. O conteúdo é que vai dizer o melhor formato’, completou Almeida.


Para Marta Gleich, diretora de jornais on-line da RBS, os jornais impressos tendem a ter agora mais ‘análise e contextualização’. Ela disse ainda que ‘é importante que a redação on-line esteja integrada à redação do jornal’.


Conta


Dos cinco painéis realizados, três discutiram o tema ‘quem paga a conta da qualidade?’, sobre a rentabilidade dos jornais on-line. Walter de Mattos Junior, diretor presidente do Grupo Lance!, e Antonio Manuel Teixeira Mendes, diretor superintendente da Folha, disseram ser preciso ‘fortalecer as marcas na internet’, o que, para eles, só se consegue com credibilidade junto ao leitor.


O professor da Universidade Federal de Santa Catarina Elias Machado disse que ‘não é verdade que não se pode ganhar dinheiro no on-line’. Para ele, é preciso investir em pesquisa e cada empresa deve procurar o ‘melhor modelo de negócio’.


Enquanto Antonio Carlos Leite, diretor de Redação do jornal ‘A Gazeta’ (ES), disse que pretende abrir todo o conteúdo na internet, Marcio Calves, editor-chefe de ‘A Tribuna’, de Santos, decidiu acabar com o acesso grátis ao jornal. Eles debateram o dilema entre aumentar assinaturas do jornal impresso ou os acesso às versões eletrônicas grátis.


Marcelo Rech, da RBS e diretor do comitê editorial da ANJ, disse que ‘todo o mundo enfrenta dilemas parecidos’. Para Rech, quando um grupo usa diferentes meios, ele ‘aumenta a repercussão do trabalho’.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Tupi e o nacionalismo


‘Na manchete de ‘O Globo’, ‘Governo vai propor nova lei geral do petróleo’. A agência de petróleo vai propor que a exploração não se limite a ‘concessão’, mas inclua ‘partilha’, para áreas de menor risco como Tupi. Desde Roma, o presidente da Petrobras deu a idéia como ‘positiva’. E a Reuters despachou o texto ‘Brasil é candidato pouco provável ao nacionalismo de recursos’ e não segue ‘o caminho de Venezuela’.


De Roma, a Bloomberg ouviu da Petrobras que Tupi ‘pode iniciar produção em 2010’. A agência Xinhua e o site do ‘Wall Street Journal’, de Roma, destacaram que as reservas na área podem ser ‘muito maiores’.


No ‘WSJ’ de papel, a previsão dos EUA de que o preço vai subir -e a expectativa de que Brasil, Rússia e outros fora da Opep ‘vão aumentar sua produção’.


SEM VENEZUELA


Fidel Castro voltou a apoiar Hugo Chávez contra o rei da Espanha, agora no ‘Granma’, falando em Bolívar contra ‘o colonialismo e imperialismo’.


Já por Dow Jones, Reuters e daí aos sites brasileiros, a notícia foi que a Petrobras ‘se retirou do projeto de gás na Venezuela’ em conjunto com a PdVSA. ‘Estamos fora do campo de Mariscal Sucre’, avisou José Sérgio Gabrielli.


COM ARGENTINA


O argentino ‘La Nación’ deu que a presidente eleita, Cristina Kirchner, vem ao Brasil na segunda, ‘um gesto deliberado para reforçar os vínculos com o país vizinho’.


Para o ‘La Gaceta’, a visita ‘servirá para que analisem questões ligadas ao tema energético’. E o site Mercado sublinha, do encontro, que o campo de Tupi ‘pode mudar vários eixos geopolíticos’.


ETANOL, O CONFRONTO


O ‘New York Times’ reportou sobre a resistência das comunidades do Meio-Oeste ao etanol de milho. O Market Watch, sobre críticas crescentes à viabilidade econômica. Até no ‘Gulf News’ e outros do Oriente Médio crescem os questionamentos, inclusive ao etanol de cana, do Brasil.


Mas os produtores reagem. O ‘WSJ’ deu que grupos de EUA, Europa e Brasil cobram do secretário-geral da ONU a ‘desautorização’ do relatório da entidade que, citando Fidel, chamou o etanol de ‘crime contra a humanidade’.


ENTRE SORRISOS


Em despachos postados por Google, Yahoo, despachos até da China, ‘Chefe da ONU louva [praises] o Brasil por proteção ambiental’. Na Amazônia, gastou adjetivos tipo ‘fantástica’. O etanol virou ‘grande promessa’. No meio, cobrou do Brasil maior contribuição aos fundos da ONU.


E o sorridente Ban Ki-moon também ouviu de Marina Silva e Marcos Apurina, destacou a Reuters, a cobrança de medidas ‘concretas’ e ‘incentivos’ aos povos da floresta.


SOJA E O FOGO


A rádio pública dos EUA dá série sobre as queimadas, sob a ótica de fazendeiros americanos na Amazônia, onde ‘a soja é estimulada pela demanda da China’. E o Japão comprou terras no Maranhão. Para soja.


AVIÕES EMERGENTES


Nos portais de negócios, do nigeriano ‘Business Day’ ao ‘WSJ’, notícias sobre a venda de modelos da Embraer, às dezenas, para companhias aéreas da Índia, da Nigéria.


E FILMES


No indiano Sify e antes no ‘Variety’, longa reportagem sobre a aquisição de 25% da Lumière, ‘a maior empresa de distribuição de filmes do Brasil’, por uma empresa da Índia, Infinity. Para distribuir os filmes de parte a parte.


DOMÍNIO


Do ‘Technology Review’ do MIT a sites de propriedade intelectual, notícias do fórum da ONU sobre ‘governança’ da internet se concentraram nas críticas ao domínio dos EUA, por Gilberto Gil -e na resistência dos americanos.


TELES E O MINISTRO


Em manchete no Terra, que é da Telefônica, ‘Ministro promete banda larga em todo o território nacional até 2010’. Foi Hélio Costa, ontem no fórum de ‘governança’.’


 


CHAVEZ E O REI
Folha de S. Paulo


Rei espanhol foi prepotente, diz Chávez


‘Enquanto o governo espanhol se esforçava para encerrar a repercussão em torno da contenda entre o rei Juan Carlos e Hugo Chávez, no último sábado no Chile, o venezuelano voltou à carga ontem contra o monarca e o país europeu.


Embora tenha dito que não deseja que o ‘lamentável incidente’ se converta em crise política e diplomática, Chávez afirmou que o rei espanhol foi ‘prepotente’ e ‘desrespeitoso’ com ele durante o encerramento da 17ª Cúpula Ibero-Americana em Santiago.


Na cerimônia, o venezuelano acusou o ex-premiê espanhol José María Aznar, do conservador PP, de fascista. O atual premiê, José Luis Zapatero, interveio, pedindo que Chávez respeitasse o ex-líder eleito democraticamente. Depois, o rei Juan Carlos interpelou Chávez, alto: ‘Por que não te calas?’


Ontem, Chávez chamou os correspondentes estrangeiros para uma entrevista em Caracas na qual deu sua versão do episódio -que provocou enorme reação na Espanha, onde virou tema de política interna dada a proximidade das eleições gerais de março de 2008.


A discussão também tirou dos holofotes a controvertida reforma constitucional proposta por Chávez, a ser submetida a referendo no dia 2. A oposição venezuelana quer usar o bordão ‘Por que não te calas?’ -que já virou tema de inúmeras paródias na internet, comentadas até por Chávez- na campanha do ‘não’.


Segundo Chávez, o rei ‘explodiu’ irritado com o discurso dele e seus aliados ‘revolucionários’ Evo Morales, da Bolívia, e Daniel Ortega, da Nicarágua. ‘O rei explodiu de tanto ouvir coisas’, em especial numa reunião privada na sexta.


Chávez disse ainda que ‘nem o povo espanhol’ entendeu a defesa ‘insustentável’ do socialista Zapatero ao opositor Aznar: ‘Então não se pode falar de Hitler porque é um ataque ao povo alemão?’.


‘Chávez agrediu o rei’ é manipulação. O que o menino mau fez foi expor suas idéias’, capitalizou. Sugeriu ‘paciência’ ao rei nas próximas cúpulas, porque a ‘América Latina está mudando’ de rosto político.


Colônia e investimentos


O venezuelano recheou seu discurso com alusões à Conquista da América. Disse que a fala do rei refletia ‘500 anos de prepotência’. ‘Por que não te calas?’ é a mesma fúria imperial, arrogância imperial’.


‘Há que lembrar ao rei que somos livres, que bastante sangue correu para libertar-nos das correntes espanholas.’ ‘Faz 500 anos que de Madri imperial partiu a ordem: que se calem. […] Por que não te calas, Túpac Amaru? Os fizeram calar quando lhes cortaram as gargantas […]’, continuou.


Sobre as queixas de empresários espanhóis à ‘insegurança jurídica’ na Venezuela, Chávez disse que esse investimento ‘não é imprescindível’. ‘Se o governo espanhol e os espanhóis que vivem aqui começarem a gerar um novo conflito, não vai dar certo, porque a Venezuela se respeita.’


Panos quentes


Anteontem, o PP de Aznar chegou a pedir que Madri convocasse o embaixador espanhol em Caracas para explicações. Mas o governo Zapatero já sinalizou que quer encerrar o caso, citando os interesses econômicos e dos cidadãos espanhóis na Venezuela e na região.


‘Temos a convicção profunda de que será possível recuperá-las [as relações diplomáticas] em um espaço relativamente curto de tempo’, disse o chanceler Miguel Ángel Moratinos no Senado espanhol.


‘Tudo se resolverá’, disse Zapatero ontem.


O principal jornal espanhol, ‘El País’, e a agência de notícias Efe preferiram ver o lado positivo da fala de Chávez ontem: ‘Não quero nenhum conflito com o rei’. Para o diário, o venezuelano ‘baixou o tom’.


O episódio respingou ainda nas relações entre Chile e Venezuela. Ontem, o governo venezuelano respondeu ao chanceler chileno, Alejandro Foxley, que afirmou após a cúpula que seu país ‘não compartilha do estilo’ de Chávez e chamou de ‘desqualificações’ as declarações do presidente sobre o rei Juan Carlos.


O vice-chanceler venezuelano, Rodolfo Sanz, chamou Foxley ‘à sensatez’ e disse que o diplomata ofendeu Caracas ao qualificar o governo Chávez de ‘pseudo-revolucionário’.’


 


INTERNACIONAL
Folha de S. Paulo


Crise aérea no Brasil é destaque de capa em revista estrangeira


‘O colapso do sistema de controle de tráfego aéreo do Brasil e a batalha do país para voltar aos padrões mundiais de segurança são o destaque da edição deste mês da revista da FlightSafety Foundation, principal organização internacional voltada à pesquisa do tema.


Sob o título ‘Um sistema sob ataque’, a revista descreve em seis páginas ‘a cascata de eventos que quase colocou de joelhos o sistema de transporte aéreo no Brasil’, desde o acidentes dos vôos Gol 1907 e TAM 3054, incluindo as panes e o motim de controladores.


A FAB, contemplada na reportagem, culpa a ineficiência causada depois que o comando da Aeronáutica perdeu controle do DAC (hoje Anac) e da Infraero (hoje ligada ao Ministério da Defesa). E reconhece apenas uma carência de pessoal.


A FlightSafety é uma organização sem fins lucrativos, considerada referência em prevenção de acidentes e redução de riscos na aviação. A revista ‘AeroSafety World’ é sua principal publicação. A reportagem foi assinada pelo brasileiro Edvaldo Lima.’


 


FUTEBOL
Eduardo Arruda e Paulo Galdieri


Por TV, CBF muda jogos e tumultua descenso


‘A CBF anunciou ontem as datas dos jogos da penúltima rodada do Brasileiro-2007 com uma alteração que atinge diretamente a disputa mais dramática do campeonato, a luta contra o rebaixamento, e irritou clubes que estão ameaçados pela queda à Série B.


Para atender a necessidade da TV Globo, que tem os direitos de transmissão do Nacional, a entidade alterou para quarta-feira, dia 28, às 21h45, os jogos de Corinthians e Goiás contra Vasco e Atlético-MG, respectivamente.


Na tabela em que divulgou as alterações, a CBF explicou que ‘o chamado ‘Desdobramento das Rodadas’ é estabelecido conjuntamente com a TV Globo, a Sportv e o PPV [Pay Per View], conforme estabelecido em contrato’. A emissora carioca, por sua vez, informou que está exercendo um direito firmado em contrato.


O problema é que os duelos do Náutico contra o Figueirense e do Paraná contra o Santos foram mantidos para o domingo, dia 25. Isso gerou reclamações dos dois clubes, que se sentiram prejudicados por Corinthians e Goiás jogarem depois deles, já sabendo que resultado precisarão para tentar escapar do rebaixamento.


‘Não sei por que Corinthians e Goiás vão jogar depois de nós, já sabendo do resultado do nosso jogo’, queixou-se o técnico do Náutico, Roberto Fernandes, classificando o caso como mais preocupante do que a possibilidade de não contar mais com Acosta, seu principal jogador, que se envolveu ontem em um acidente de carro. No Paraná, a indignação foi ainda maior. O clube se sente prejudicado pela segunda rodada consecutiva, já que no último fim de semana atuou no sábado, enquanto o duelo Goiás x Corinthians foi no domingo.


‘É muito estranho esse procedimento’, disse o vice de futebol do clube, José Domingos, que pretende enviar ofício à CBF para que o confronto com o Santos, marcado para as 18h10 do dia 25, seja transferido também para o dia 28, no mesmo horário dos outros dois jogos. ‘Se é por questão de programação, que transfiram o nosso jogo também.’


Segundo a CBF, a data previa jogo da Copa Sul-Americana. Mas, como não há mais times brasileiros na competição, a Globo pediu a alteração, a fim de exibir jogo do Corinthians. A partida do Goiás, explica a CBF, foi mudada também justamente por causa da luta pelo rebaixamento. E que, caso algum outro clube se sinta prejudicado, acatará os pedidos de mudança dessas equipes.


Na diretoria corintiana, a mudança foi bem-vinda. ‘Dia 28 é bom. Vamos ter mais dias para treinar. Não sei se é coisa da Globo, mas o importante é que vamos jogar sabendo que temos que vencer o Vasco’, disse o vice de futebol do Corinthians, Antoine Gebran.


O técnico Nelsinho Baptista, no entanto, não aprovou a mudança de data. ‘Todos nós gostaríamos de decidir o mais rápido possível, mas infelizmente existe essa burocracia da organização’, declarou ele. ‘Vínhamos em evolução muito boa. Vamos perder o ritmo.’


Colaboraram FÁBIO GUIBU , da Agência Folha, no Recife, e SÉRGIO RANGEL , enviado especial a Teresópolis’


 


Folha de S. Paulo


Internautas compram time da 5ª divisão


‘Um clube de futebol na mão de internautas. Essa será a nova realidade do Ebbsfleet United, equipe da quinta divisão da Inglaterra, que acabou comprado por 20 mil membros da comunidade MyFootballClub (www.myfootballclub.co.uk).


Cada internauta bancou 35 libras (cerca de R$ 128) do montante de 700 mil libras para comprar e gerir o clube, nono colocado do torneio. Assim, cada um dos novos acionistas do Ebbsfleet terá direito a um voto nas decisões do time, até na escalação de atletas.


O time manterá sua comissão técnica, encabeçada pelo treinador Liam Daish. ‘O que ocorre no vestiário é coisa minha. Mas é o dinheiro dos fãs que financia o clube e paga meu salário e o dos atletas. Isso é um bom argumento para opinar sobre os atletas que querem ver. Agora terão o voto’, disse Daish.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Rede TV! usa menor em farsa no ‘Superpop’


‘A Rede TV! usou um menor numa encenação exibida na semana passada no ‘Superpop’. No programa de Luciana Gimenez, uma moça, apresentada como Valéria, dizia que seu noivo desapareceu sem deixar pistas e que desconfiava de ‘traição’. A emissora, então, ‘contratou’ uma detetive, Ângela, para ‘desvendar’ o mistério.


A detetive, no entanto, não esclareceu que o falso noivo, apresentado no programa como ‘Carlos’, é na verdade G.L.N., 17.


G. foi reconhecido pelos alunos da escola estadual Professor Alberto Levy, em Indianópolis, zona sul de São Paulo, onde cursou a segunda série do ensino médio até o bimestre passado _com notas ruins e muitas faltas, desistiu. Ele até divulgou para ex-colegas de escola que iria aparecer na TV.


Armações no ‘Superpop’ e outros programas da Rede TV! não são novidade. Na edição de ‘Carlos’, a detetive Ângela e Luciana Gimenez comentaram sobre essas suspeitas.


A novidade foi o uso de um menor. A Rede TV! pode ter violado o Estatuto da Criança e do Adolescente, que exige autorização dos pais para menores participarem de programas.


Questionada, a Rede TV! se limitou a responder que ‘a produção do programa tem as autorizações de uso de imagem devidamente assinadas pelos participantes do quadro’ e que ‘será apurado internamente se houve irregularidades’.


FALSA CHUVA 1 O ‘Programa da Tarde’, da Record, exibiu na última quinta, 8, imagens de chuva ocorrida no sábado anterior, 3, como se fossem daquele dia. O repórter, que sobrevoava um ponto de alagamento, anunciou que imagens em VT ‘eram de um temporal de agora há pouco na zona oeste’ de São Paulo.


FALSA CHUVA 2 As imagens, que mostravam pessoas sobre bancos de ponto de ônibus e ruas que pareciam rios, já tinham sido exibidas no ‘Jornal da Record’ do dia 3. Eram da zona leste, não da oeste. A Record não comentou.


DESABOU A nova novela das seis da Globo, ‘Desejo Proibido’, já apresenta desempenho pior do que sua antecessora. Anteontem, marcou só 22,5 pontos.


PROIBIDO 1 A Globo distribuiu ao mercado publicitário publicação sobre a estréia da TV digital, em 2 de dezembro. Diz que ‘a publicidade, tanto quanto a programação de TV, poderá se reinventar a partir da TV digital’.


PROIBIDO 2 Mas a Globo adverte os criadores que ‘não serão aceitas mensagens com conteúdos diferentes para o sistema analógico e digital’. Ou seja, as agências apenas poderão gravar em alta definição. Por enquanto, nada de usar recursos de interatividade _para os quais a Globo teme perder audiência.


EM ALTA Com médias de 13 pontos, o ‘Show do Tom’ foi o programa mais visto da Record nas duas últimas semanas, empatado com ‘Caminhos do Coração’.’


 


NORMAN MAILER
João Pereira Coutinho


A alma de Norman Mailer


‘NUNCA simpatizei com o escritor machão. Exemplo? Hemingway, claro. A influência de Hemingway é inescapável para qualquer jornalista. Frase curta. Adjetivação mínima. Descrição impressionista. E alguns livros, como ‘O Sol Também se Levanta’, que fazem parte do cânone. Mas o resto é dispensável. Touros? Caça? Boxe? Cortinas de fumo para esconder males maiores. Ainda lembro o dia em que resolvi visitar a casa onde Hemingway nasceu. Eu estava em Chicago e, numa tarde de ócio, abandonei o centro e rumei para Oak Park, nos subúrbios da cidade.


Cheguei. Casa modesta, transformada em museu e velada por simpático casal de idosos que falava do bicho com intimidade familiar. Ainda perguntei se eram. Não eram. Mas sabiam tudo. Idiossincrasias de infância. A história de cada objeto. E, surpresa, a profunda infelicidade da mãe de Ernest quando soube que o filho era rapaz. Até aos seis ou sete, o menino foi educado como menina. Vestido como menina. Tratado como uma. Anos depois, o machão andava fascinado com touradas e caçadas. Freud explica.


Mas o que diria Freud de Norman Mailer, o herdeiro de Hemingway? Soube da morte de Mailer, 84, com os jornais da manhã. E tentei lembrar um livro do homem verdadeiramente memorável. Comprei o último, ‘The Castle in the Forest’. Desisti no meio. Uma história de Hitler como fruto de relação incestuosa entre pai e filha? Não serve. Mas o que serve? ‘Os Nus e os Mortos’, o ‘romance de guerra’ que lançou Mailer para a estratosfera, podia transportar uma certa frescura narrativa e psicológica em 1948. Em 2007, é relíquia de museu. Como são relíquias de museu as ficções de Mailer, que envelheceram barbaramente mal. Nenhuma surpresa: os ‘romances de época’ raramente sobrevivem às épocas. Falar da Segunda Guerra, ou da contracultura dos ‘sixties’, ou do Vietnã, ou de Marilyn Monroe tem interesse arqueológico, não literário.


Mailer acreditou que a adoração orgásmica e verborrágica da violência, do sexo, da droga e da transgressão fazem de alguém um grande escritor. Não fazem. Hoje, ler a coletânea ‘Advertisements for Myself’, e o ensaio ‘The White Negro’ -apologia da psicopatia como forma de ‘autenticidade existencial’ -, é um espetáculo cômico e trágico. A cabeça de um adolescente retardado não é um espetáculo bonito.


E eu suspeito que Mailer sabia disso. Sessenta anos de escrita, 30 livros publicados -e o que fica de todo esse ruído demencial?


Mailer respondeu em 2003, com o único livro que sobrevive. ‘Os Fantasmas de Norman Mailer’ deveria ser leitura obrigatória para qualquer escritor com ambições. Em exercício de honestidade tocante, Mailer confessa como a fama precoce é a pior inimiga. Retira do escritor o principal instrumento da sua arte: a invisibilidade. Só a invisibilidade permite observar, refletir e escrever.


Aos 25 anos, Mailer vendeu esse luxo para ganhar todos os outros. Luxos passageiros de um mundo que exigiu dele recorrentes números de circo. O dr. Freud explica pouco? O dr. Fausto explica tudo.’


 


TEATRO
Eduardo Simões


Jô Soares ataca com poemas de Pessoa


‘Dado a atacar de bongô e trompete em seu programa de entrevistas, Jô Soares agora vai se lançar numa seara musical, digamos, experimental. A partir de hoje à noite, o ‘Gordo’ inaugura a programação adulta do Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, com ‘Remix em Pessoa’, espetáculo insólito em que recita, com direito a sotaque lusitano, poemas de Fernando Pessoa (1888-1935). Acompanhado de uma trilha sonora igualmente insólita, que inclui o compositor alemão Johann Sebastian Bach, rock, hip hop e drum ‘n’ bass, entre outros.


A idéia surgiu quando Jô soube, numa entrevista com a Blitz, que o tecladista da banda, Billy Forghieri, havia experimentado musicar poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Matutando algum tempo sobre o assunto, Jô resolveu convidar Forghieri para repetir a experiência com Pessoa. O músico aceitou e criou uma ‘trilha sonora’ para 12 poemas, sendo dez deles assinados por um dos heterônimos do poeta, Álvaro de Campos.


‘Pessoa não fala do que está fora das pessoas, mas do ser humano. E as angústias são as mesmas. Mas dei mais destaque aos poemas de Álvaro de Campos porque são os que têm mais humor, em que Pessoa é mais cínico, e eu me identifico mais com eles. É o meu xodó’, disse Jô em entrevista coletiva na semana passada, adiantando que promete recitar os poemas com sotaque lusitano, brincadeira que, diz ele, costuma fazer em shows em Portugal.


‘Não dá para falar palavras como ‘algibeira’ e ‘enxovalho’ com sotaque brasileiro’, explica Jô, que fica sozinho no palco do teatro.


O humorista conta que chegou a apresentar uma pequena versão do espetáculo em seu programa de entrevistas na TV Globo. Depois de várias reuniões com Forghieri, o formato foi fechado. A seleção de poemas inclui, entre outros, ‘Sou Eu’, ‘Liberdade’, ‘Ao Volante do Chevrolet’, ‘Cruzou por Mim’ e ‘Autopsicografia’.


‘A entonação de Jô e o próprio ritmo dos poemas de Pessoa é que determinaram o tipo de música’, diz Forghieri.


Depois de SP, Rio


Com 50 minutos de duração, o espetáculo tem direção de Bete Coelho, fica em cartaz até o dia 29 de novembro em São Paulo, e depois viaja para o Rio, onde será apresentado no Teatro Poeira. Depois de Pessoa, Jô gostaria de repetir a experiência. ‘Com um poeta brasileiro, subvalorizado, maldito’, diz o humorista, sem adiantar o nome do futuro recitado. Para quem não bastar assistir ao show, a produção compilou os poemas num CD, que também será lançado hoje e vendido com preço médio de R$ 25.


REMIX EM PESSOA


Quando: quar. e qui., às 21h30 (sessões extras nos dias 16/11 e 23/11)


Onde: Livraria Cultura (Conjunto Nacional, av. Paulista, 2.073, tel.: 0/xx/ 11/3170-4059)


Quanto: R$ 40′


 


JORNALISMO LITERÁRIO
Folha de S. Paulo


1º Salão do Jornalista Escritor começa nesta noite em São Paulo


‘A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) inaugura hoje à noite o 1º Salão Nacional do Jornalista Escritor, no Memorial da América Latina, em São Paulo, com uma recepção só para convidados. Os debates e palestras começam amanhã, às 14h30, com uma entrevista do escritor Luis Fernando Verissimo, 71. A entrada é franca.


Na seqüência, falará Ruy Castro, 59, colunista da Folha, e haverá palestra de Fernando Morais, 61, sobre ‘A Reportagem como Gênero Literário’. Morais pretende ‘estabelecer um nexo entre o desinteresse dos jornais pela grande reportagem e o ressurgimento de um gênero comum no Brasil na primeira metade do século 20, que é o livro-reportagem’.


Após a intervenção de Morais, haverá um debate sobre o tema entre Heródoto Barbeiro e Ricardo Kotscho. Amanhã, às 20h, Ignacio Ramonet, diretor-presidente do ‘Le Monde Diplomatique’, faz palestra sobre mídia e globalização.


O encontro da ABI terá periodicidade anual -e o deste ano será dedicado ao jornalista Joel Silveira, que morreu em agosto aos 88 anos. Segundo Audálio Dantas, 78, organizador do salão, Silveira foi um precursor do ‘new journalism’ dos anos 60, que tinha entre seus expoentes Tom Wolfe, Truman Capote e Gay Talese.


O jornalista Mauro Santayana, 75, que será entrevistado no sábado, elogia Silveira por ter conseguido sobreviver à padronização jornalística. Ele acredita, porém, que ‘o melhor texto literário da imprensa brasileira foi, sem dúvida, o de Rubem Braga. Era um estilo limpo, intenso. A primeira crônica de Rubem, de que tenho notícia, foi publicada em Belo Horizonte, por volta de 1931. Encarregado de cobrir uma exposição de cães de raça, descobriu uma cadela em um canto de rua. Mandou fotografá-la e, no texto, comparou-a, em sua liberdade, com as cadelas grã-finas’.’


 


LITERATURA
Eduardo Simões


Balada das letras


‘São Paulo já tem uma festa para os livros. A Balada Literária acontece de amanhã a domingo, com bate-papos e debates com mais de 50 convidados, brasileiros e estrangeiros, entre eles o crítico Antonio Candido e o escritor angolano José Luandino Vieira, que em 2006 recusou o Prêmio Camões.


Com entrada franca (salvo uma roda de samba com a cantora Fabiana Cozza), os encontros acontecem em ‘redutos’ da boemia literária paulistana, como Mercearia São Pedro, Ó do Borogodó e Livraria da Vila.


A bem da verdade, a Balada teve seu ‘ano zero’ em 2006, mas os organizadores, os escritores Marcelino Freire e Maria Alzira Brum Lemos, queriam repensar o formato antes de lançá-lo formalmente. A inspiração, diz Freire, vem da própria Festa Literária Internacional de Paraty, que fez do evento literário uma celebração.


‘São Paulo é uma cidade baladeira. Queríamos a literatura envolvida nesse espírito’, diz o escritor, que contou com o apoio de editoras e do Instituto Cervantes para fazer o evento. ‘O que os outros fazem com 1 milhão, eu faço com humilhação’, brinca Freire.


O evento terá também a exposição ‘O Lugar do Escritor’, do fotógrafo Eder Chiodetto, a peça ‘Dois Perdidos Numa Noite Suja’, de Plínio Marcos, com atores de Moçambique, o espetáculo ‘Cantos Negreiros’, de Freire e Fabiana Cozza, e um show de encerramento, no domingo, às 20h, no espaço b- arco, com Lirinha, do grupo Cordel do Fogo Encantado.


Encerramento? Bem, como toda balada, terá direito à ressaca. Duas, aliás: no dia 19, com aula do escritor mexicano Mario Bellatin. E no dia 26, numa conversa com o escritor Luis Fernando Verissimo.


Paralelamente, a Associação Brasileira de Imprensa inaugura hoje o 1º Salão Nacional do Jornalista Escritor, no Memorial da América Latina, com participação de nomes como Ruy Castro e Fernando Morais.’


 


Luandino quebra seu silêncio


‘Pode-se considerar singular a participação do angolano José Luandino Vieira, no dia 18, na Balada Literária. O autor do recém-lançado ‘A Cidade e a Infância’ (Companhia das Letras; R$ 36, 136 págs.), livro de contos dos anos 1950, é um tanto recluso. Segundo sua assessoria, o escritor vive num mosteiro, de onde redigiu à mão as respostas à entrevista da Folha abaixo. Essas foram depois transcritas e enviadas por e-mail à reportagem.


Foi o mesmo Luandino que, em 2006, recusou 100 mil euros (cerca de R$ 254 mil) do Prêmio Camões, alegando ‘motivos íntimos e pessoais’.


À Folha, Luandino disse que declinou a honraria por se considerar, à época, um ‘escritor morto’. ‘Por que haveria de ser premiado um escritor em silêncio, que não entregava a seus leitores um simples escrito havia 35 anos? Não me parece que pudesse receber o prêmio sabendo o elevado número e a qualidade de obras de tantos autores de língua portuguesa.’ Leia trechos da entrevista.


FOLHA – Logo após a recusa do prêmio o senhor anunciou uma trilogia, ‘De Rios Velhos e Guerrilheiros’…


LUANDINO VIEIRA- A decisão de uma trilogia foi tomada talvez para quebrar um pouco mais cedo aquele silêncio. Originalmente estava pensado como um único romance, uma longa travessia da vida, em fatos e memórias de um guerrilheiro na luta e libertação de Angola. O que seria o meu modo de homenagear natureza e povo que a levaram a cabo com sucesso. O segundo volume está quase pronto. O terceiro, em fase de escrita. Porém sempre regressa, manhosamente, a tentação de os unificar como estava guardado em minha cabeça.


FOLHA – Em ‘A Cidade e a Infância’, a vida nos musseques (favelas) de Luanda está em destaque. Após 50 anos, o retrato permanece atual?


VIEIRA- O que é atual, e infelizmente multiplicado, é essa presença na cidade: seus musseques. Quaisquer que sejam os novos nomes que se lhe atribuam, subúrbios, favela etc. A presença da pobreza, da miséria, da vida em condições precárias de habitação, saúde, higiene. Enfim, os padrões mínimos que o desenvolvimento do mundo já permitiria. E não são ainda usufruto de quem tem de viver naquelas condições e tanto contribuiu, com sua vida e seu trabalho, para esse desenvolvimento. Não é justo.


FOLHA – Qual o papel da tradição oral em sua obra?


LUANDINO VIEIRA- É fulcral. Comecei a escrever também por ouvir contar muitas histórias nos serões, à porta das casas, na infância e na adolescência. Depois, na escola, em nossas brincadeiras era o intercâmbio de histórias. Tudo isso marcou o meu trabalho de escritor, em opções estilísticas, em formas de comunicar, obrigando-me a incorporar, consciente e inconscientemente, na linguagem literária, traços da oralidade. Creio que essa presença ficará sempre no que escrever. Narro mais do que escrevo.


FOLHA- A identidade angolana ainda é central em sua obra?


VIEIRA- Num país jovem como Angola, um Estado que não tem meio século, como deixar de ser? É para seus cidadãos. Em permanente construção, diálogo e confronto com outras identidades, tudo ampliado pela inclusão em espaços regionais, globais. Felizmente é assunto de presença permanente, mesmo que em conflitos e contradições que, à primeira vista, podem parecer perda de tempo e energia, mas que a necessidade histórica justifica.


FOLHA – Seus livros foram em parte escritos na prisão, quando lutou pela independência de Angola. O que representava escrevê-los?


VIEIRA- Representavam um modo de resistência à desagregação psicológica e espiritual. E um modo de sobrevivência espiritual, trabalhando e retrabalhando o material acumulado na memória. Porque nos impunham um viver em ambiente de desertificação intelectual. Para mim, também de esclarecimento pessoal, avaliação e revisão permanentes dos motivos de minha presença naquelas prisões e participação no movimento de libertação no meu país. Nunca esqueci que era branco, instruído, classe média.


FOLHA – O senhor identifica interseções entre sua obra e a de Guimarães Rosa, em especial o caráter lúdico e reinvenção de linguagem de ‘Luuanda’ e ‘Primeiras Estórias’.


VIEIRA- Com Guimarães Rosa aprendi muito. O caráter lúdico, menos. Mas e sobretudo a liberdade para criar uma linguagem literária a partir de materiais de outras linguagens. Aprendi que essa liberdade tem sempre em si o conhecimento, e não a ignorância, da língua em que escreve. E que implica ainda uma grande responsabilidade que só pode ser exclusivamente assumida por quem escreve. Não adiantam defesas acadêmicas ou outras. Seu resultado é sempre um risco, uma aposta. Mas foi isso que o bom professor Guimarães Rosa ensinou a um mau aluno.


Com Jorge Amado aprendi também, aprendi a ver o mundo dos oprimidos, dos explorados. Ele me ajudou em minha formação pessoal e literária com a teimosa procura ou presença da beleza, da poesia, mesmo lá onde ela não pode morar, em meio a condições subumanas de existência. E outros como Lins do Rego, Erico e Clarice. Tantos outros que li da literatura mundial e de todos sou tributário. Não só de língua portuguesa. Sou escritor porque primeiro, fui leitor, lia tudo o que me vinha às mãos.


informações: www.baladaliteraria.org’


 


IRA LEVIN
Folha de S. Paulo


Morre autor de ‘O Bebê de Rosemary’


‘Morreu anteontem, aos 78 anos, em Nova York, o escritor norte-americano Ira Levin, autor de ‘O Bebê de Rosemary’, ‘Os Meninos do Brasil’ (Francisco Alves) e ‘Mulheres Perfeitas’ (Bertrand Brasil), entre outros. De acordo com a sua agente, Phyllis Westberg, ele sofreu um ataque cardíaco.


Levin começou sua carreira como roteirista de televisão. Em 1953, lançou seu primeiro romance, ‘O Beijo da Morte’, que ganharia duas versões para o cinema.


Em 1967, escreveu ‘O Bebê de Rosemary’, adaptado com sucesso para a tela grande pelo diretor Roman Polanski. A produção foi premiada no Oscar em 1969 (Ruth Gordon recebeu a estatueta de melhor atriz coadjuvante).


‘Meninos do Brasil’, ‘Mulheres Perfeitas’ e ‘Violação de Privacidade’ também viraram filmes.’


 


INTERNET
Daniela Arrais


Uma questão de privacidade


‘Você pode até não dizer seu nome nem seu endereço, mas a internet guarda inúmeros dados sobre você -seja por um cadastro criado em uma rede social, como Orkut ou MySpace, ou pela aceitação de termos de segurança de um site que você nem mesmo leu.


O comportamento dos usuários e as atitudes de empresas põem a privacidade em questão. De um lado, internautas que consideram a interação benéfica se registram em redes sociais, colocam fotos no Flickr e vídeos no YouTube.


De outro, empresas montam bancos de dados baseados nos hábitos de navegação e nas informações que o usuário disponibiliza na rede, mesmo que ele nem sempre tenha a dimensão do quanto está se expondo.


No meio do caminho, pesquisadores e sociólogos questionam as implicações da privacidade on-line, e setores da sociedade se mobilizam para preservar os usuários.


‘As pessoas dizem que estimam a privacidade, mas isso fica no plano abstrato’, avalia Lee Rainer, diretor do Pew Internet & American Life Project, que desenvolve trabalhos sobre o impacto da internet na sociedade. ‘Muitos estão completamente dispostos a divulgar coisas como seu endereço de e-mail e até número de telefone em troca de algo de valor.’


A necessidade de ‘existir on-line’ é um reflexo da sociedade do espetáculo, dos 15 minutos de fama pregados pelo artista plástico Andy Warhol (1928-87), na opinião de Walter Lima Júnior, pós-doutor em tecnologia e comunicação.


‘As pessoas querem mostrar que têm amigos, que são legais. Nunca vi ninguém ter 400 amigos na vida real’, aponta. Essa tentativa de ‘ser alguém, mesmo que só virtual’, revela como a percepção sobre a comunicação digital ainda é muito recente e carece de discussões.


‘O ser humano leva um tempo para entender novos mecanismos. Mas já existe um movimento de pessoas se retraindo, retirando informações como telefone e moradia de sites como o Orkut’, afirma.


Para o sociólogo Sérgio Amadeu, defensor do software livre e da inclusão digital, o conceito de privacidade está sob ataque. ‘Empresas querem rastrear os internautas visando obter dados sobre seus hábitos de consumo. Trata-se de uma invasão absurda no direito das pessoas de resguardar seus dados.’


O desafio é aprender a gerenciar a visibilidade desses dados, afirma José Murilo Junior, do Global Voices Online. ‘Deve caber ao usuário definir os diferentes níveis de acesso às suas informações, e cabe aos serviços evoluir no sentido de prover essa funcionalidade de forma transparente.’


Nesta edição, conheça os riscos de se expor na internet, veja como grandes empresas monitoram o que você faz e aprenda a se proteger enquanto navega.’


 


Exposição na rede é natural, diz MariMoon


‘Desencanada e aberta, como se define, a estudante Mariana de Souza Alves Lima, a MariMoon, 25, gosta de conversar, seja com um passageiro que pega o mesmo ônibus que ela ou com um desconhecido que a achou na internet via alguma das cerca de 99 mil referências ao seu apelido listadas no Google, acumuladas em nove anos de exposição na internet.


Dona de um site no Fotolog (www.fotolog.net/marimoon) que recebe, segundo ela, 450 mil visitantes por mês, a garota de cabelos cor-de-rosa encara a exposição como natural. ‘Sempre me expus. Sou aberta a conhecer pessoas novas, trocar idéias, e na internet existe essa facilidade de comunicação com qualquer um’, diz.


A exposição digital lhe rendeu frutos no mundo real -ela abriu uma loja virtual (www.marimoon.com.br/loja) de roupas e acessórios. No ano passado, foi convidada para ser ‘embaixadora’ de uma marca de sandálias femininas.


Mas, como tudo na vida, como faz questão de ressaltar, a agitação on-line também lhe rende dores de cabeça.


‘Se você procurar por MariMoon no Orkut, vai encontrar mais de 400 perfis fakes [falsos]. Você imagina… Sou um cara, quero seqüestrar uma criança rica, sei que ela está na comunidade ‘Eu amo a Marimoon’ e tento fazer contato. Essa coisa me dá medo’, diz.


Para dosar a exposição, MariMoon evita postar fotos da família ou falar sobre seus relacionamentos. ‘Tem muita coisa da minha vida de que eu não falo na internet. Não falo onde estudo, onde moro. Antes de postar, você tem que ter consciência sobre o que vai dizer para as pessoas’, ensina.’


 


Exposição on-line traz riscos ao usuário


‘A socióloga Renata (nome fictício), 31, costumava colocar fotografias da família no Orkut. Até que foi surpreendida: copiaram fotos de seu filho, de um ano, e as colocaram em um site estrangeiro de pedofilia.


‘Mandaram o link para que eu visse aquilo. Mandaram para meus amigos também. Foi horrível. Me senti péssima, culpada. Não tinha prestado atenção que corria esse risco ao colocar a foto de um menor de idade no Orkut’, lembra.


As fotos logo foram tiradas do ar, a partir de um pedido feito pela socióloga no próprio site. ‘Não quis fazer denúncia à polícia, pois achava que iria expor ainda mais o meu filho.’


Ao disponibilizar informações pessoais na internet, o usuário corre riscos, que vão de roubos de senhas de banco e de números de cartão de crédito a casos mais extremos, como o ataque de pedófilos.


‘Há muita informação on-line colocada pelos próprios usuários, que muitas vezes não se dão conta dos riscos que correm. Se dados sobre sua vida pessoal caem nas mãos de pessoas erradas, o problema pode se tornar enorme’, afirma Lauren Weinstein, especialista em privacidade e co-fundador do People for Internet Responsability, grupo que discute regulações da internet.


A médica Amanda, 29, mantém blogs há seis anos e já se meteu em ‘roubadas’. ‘Vou escrevendo sobre minha vidinha e acho que ninguém se interessa por ‘umbiguismos’ alheios. Mas sempre tem gente que se interessa por qualquer coisa.’


O episódio que lhe rendeu um grande transtorno começou com a interação na caixa de comentários do blog. ‘O cara deixava os comentários mais surtados. Nos e-mails, começou a contar de doenças psiquiátricas e ‘hospedagens’ em clínicas para tratamento. Acessava a página 50 vezes por dia (eu via pelo IP) e, belo dia, disse que estava indo para Recife me encontrar, pois ele era tudo o que eu precisava’, lembra.


A médica pediu transferência do emprego, fechou o blog, tirou suas fotos da rede e entrou em crise de pânico. ‘Tinha medo de sair de casa e ficava desconfiada com qualquer coisa.’


Rosana Hermann, 50, autora do Querido Leitor (www.queridoleitor.zip.net), que recebe cerca de 10 mil visitas por dia, tornou-se, recentemente, ‘refém’ do seu blog. ‘Um cara entra no meu blog e deixa comentários atacando judeus, negros e gays’, diz.


‘Já fui prejudicada no âmbito profissional por conta dos ataques. Decidi procurar um advogado para entrar com uma ação contra o autor dos comentários’, afirma.


Por dentro da lei


Em casos de violação de privacidade, o usuário deve partir para a ação preventiva, como explica o advogado Renato Opice Blum, especialista em direito eletrônico. ‘O importante é preservar as provas, para que a pessoa lesada tenha direito à uma indenização e, se necessário, dê entrada em um procedimento criminal’, afirma.


Segundo ele, quem identifica uma foto íntima em um site deve dar um print screen (tirar uma cópia) na tela, imprimir a foto e chamar testemunhas para visualizar o conteúdo. Em seguida, a pessoa deve procurar uma cartório para fazer um documento que comprove a existência da situação, mesmo que a foto saia do ar.


Para finalizar o processo, o usuário vai precisar de informações dos provedores de acesso à internet -esse procedimento tem que ser feito com rapidez, pois os provedores têm diferentes prazos de armazenamento de dados.’


 


Bom senso é a principal dica de proteção


‘Para proteger seus dados e se prevenir contra ataques de crackers (criminosos que invadem sites ou sistemas on-line para roubar dados), a principal recomendação de especialistas é que você tenha bom senso e trate a internet como um ambiente um tanto hostil.


Nada de abrir e-mails de desconhecidos e baixar um arquivo que veio em anexo. O mesmo procedimento se aplica a links para download em programas de bate-papo. Nem sempre os links apontam para o site correto -pode ser uma letra incorreta no nome do domínio ou um site totalmente diferente que está apenas tentando armazenar senhas de usuários.


Se desconfiar que aquela página que você sempre visita está com uma ‘cara’ diferente, cuidado: pode ser um ‘phishing’, prática de obtenção de dados de forma maliciosa.


Partindo para procedimentos técnicos, é recomendado instalar antivírus, anti-spyware (software que elimina programas espiões) e firewall (dispositivo que impede a transferência de dados não autorizados) no seu micro -se estiver em uma máquina pública, verifique se eles estão atualizados.


Evite usar máquinas públicas e de terceiros para acessar dados importantes, pois muitas podem ter um dispositivo chamado ‘keylogger’, uma aplicação ou mesmo um dispositivo físico ligado entre o computador e o teclado, usado para gravar tudo o que os usuários digitam e enviar para outros sites.


Leia normas, regulamentos, termos de uso e política de privacidade dos sites. Pode parecer enfadonho, mas é a maneiraque você tem de saber como vão usar seus dados.


Evite gravar senhas no navegador -só faça isso se for no seu computador pessoal e de uso restrito a você. Se sua família também usá-lo, crie logins diferentes para cada membro.


No ambiente de trabalho, evite enviar e-mails com conteúdo pessoal. Grande parte das empresas monitoram a troca de informações de seus funcionários. Para não ser pego de surpresa, deixe o bate-papo ou a visualização de fotos para quando estiver em sua casa.


Prefira digitar endereços a clicar em links. Assim você evita executar um arquivo que contém vírus.


Desconfie de sites que oferecem recompensa em troca deseus contatos ou outros detalhes pessoais. Na maioria dos casos, esses sites vendem seus dados para empresas, que chegam inesperadamente na caixa de entrada do seu e-mail.


Em relação a spam, saiba que de nada adianta mandar resposta. Se você fizer isso, pode ser pior, pois uma resposta pedindo para não receber mais aquele tipo de e-mail é a prova de que ele está sendo lido.


‘Há uma falsa noção de segurança na internet. Por mais ferramentas que existam para proteger os computadores, o fator humano ainda é muito forte e necessário para conduzir as máquinas’, avalia Luiz Eduardo dos Santos, analista de segurança da informação.’


 


Janet Kornblum


Jovens compartilham on-line sua vida particular


‘DO ‘USA TODAY’ – Acostumados aos reality shows na TV, aos paparazzi, às câmeras de celular e ao insaciável apetite da rede mundial de computadores, os adolescentes e os adultos com 20 e poucos anos possuem idéias um tanto diferentes a respeito da privacidade. Para a geração da internet, sair por aí e entrar em contato com algumas centenas de seus amigos mais próximos – especialmente por meio de sites de relacionamento como o MySpace e o Facebook- revela-se algo tão natural quanto escovar os dentes.


Hoje, há maiores chances de os adolescentes e jovens com 20 e poucos anos apelarem para um teclado de computador a fim de compartilhar algo tão banal quanto sua disposição de ânimo ou tão dramático quanto o rompimento de um namoro. ‘Eles cresceram em uma cultura na qual se verifica a reação de outras pessoas diante de nós mesmos de uma forma sem precedentes’, diz a psicóloga Linda R. Young.


A situação tornou-se confortável a ponto de alguns temerem que adolescentes estejam, sem querer, divulgando informações para um público mais amplo do que pretenderiam. A geração pode não contar com a privacidade da mesma forma que as pessoas mais velhas, mas aposta na confiança mútua, afirma Steve Jones, professor de comunicação na Universidade de Illinois-Chicago. ‘Eles esperam que seus companheiros encarem as atividades particulares como algo privativo. Se vão a uma festa onde há menores de idade consumindo bebida alcoólica, acreditam que seus amigos não divulgarão esse fato’, diz.


Tradução de RODRIGO CAMPOS CASTRO’


 


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