Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

Plínio Bortolotti

09/05/2006 na edição 380

‘Pela primeira vez desde a criação da entidade, em 1980, a Organização de Ombudsmans de Notícias (ONO, sigla de Organization of News Ombudsmen) fará sua conferência anual fora da América do Norte ou da Europa, regiões que reúnem o maior número de ouvidores atuando em veículos de comunicação. A organização da 26ª Conferência da ONO está a cargo de Marcelo Beraba, ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, e será realizada entre os dias 7 e 10 de maio, na cidade de São Paulo. O evento deverá contar com a presença de cerca de 40 ouvidores atuantes em meios de comunicação de 14 países, entre eles o ombudsman do O Povo.

A conferência terá três temas em destaque: 1) apresentação de estudo de Germán Rey, ex-ombudsman do jornal El Tiempo, de Bogotá (Colômbia), sobre a situação da imprensa na América Latina, sob o ponto de vista de sua confiabilidade; 2) exame de temas em que a atuação da imprensa tem sido questionada, como a publicação das charges sobre o profeta Maomé, cobertura da guerra do Iraque, a pouca atenção que os jornais dedicam ao que acontece nas periferias das cidades e fora dos grandes centros; 3) debate sobre a credibilidade dos jornais, assunto que mobiliza jornalistas e empresas em todo o mundo, devido à concorrência dos novos meios de comunicação eletrônica, principalmente a internet. Além dos temas em pauta, o evento será uma oportunidade para reflexão e troca de experiência entre os ombudsmans.

Escassez de ouvidores

No Brasil, apenas dois jornais – Folha de S. Paulo (1989) e O Povo (1994) – e a TV Cultura (São Paulo), têm ombudsmans com colunas semanais criticando publicamente o veículo para o qual trabalham. Alguns jornais mantêm um crítico interno – sem coluna pública – ao qual chamam de ombudsman. Não acho que eles podem assim ser considerados, pelo menos levando-se em conta o sentido que a palavra ganhou no Brasil, desde que a Folha de S. Paulo implementou pioneiramente a função.

Para Marcelo Beraba, três motivos principais dificultam a disseminação do cargo em mais veículos informativos: 1) a arrogância das empresas e dos jornalistas, que são refratários à crítica, têm problemas para exercer a autocrítica e dificuldade em corrigir erros; 2) a descrença na eficácia da função, por isso considerada desnecessária; 3) a dificuldade de se criar nas empresas um ambiente de independência e autonomia para que o ombudsman possa trabalhar.

O Povo resolveu enfrentar esses problemas há 12 anos, criando a função. Dos sérios confrontos que aconteceram entre os primeiros ombudsmans e a Redação, evoluiu-se para uma relação, ainda tensa, mas muito respeitosa, com méritos para ambas as partes, que foram aprendendo a conviver.

Arlen Medina, diretor-geral de Jornalismo do O Povo, faz uma avaliação do que representa a função para o jornal. ‘Acredito que, entre a maioria dos jornais, ainda são válidas as premissas apresentadas por Marcelo Beraba; receber críticas não é um exercício fácil – imagine pagar alguém para fazê-las!’ O diretor-geral de Jornalismo diz ser ‘velha e equivocada’ a tese de que o escrutínio público possa trazer problemas: ‘A crítica deve ser entendida como um vetor de aperfeiçoamento do produto editorial, e não como algo que desabone a sua credibilidade.’

Para Arlen, ‘o ombudsman é um jornalista com experiência de Redação, que conhece os processos internos e nos sinaliza correções de rota, nos passa a visão direta dos leitores, das fontes entrevistadas e, por muitas vezes, reconhece e elogia a qualidade do que foi apresentado aos leitores a cada edição’. Ele admite que a relação pode ser, ‘na maioria das vezes’, conflituosa, mas que ‘felizmente a existência do ombudsman sempre foi entendida no O Povo, desde o nascedouro, como importante, necessária e basilar em nosso fazer jornalístico’. E conclui: ‘Hoje não saberíamos conviver na Redação sem um ombudsman; é um referencial importante a ser respeitado. Também entendo que os leitores não conseguiriam mais admitir o jornal sem a existência de um ombudsman.’

Erick Guimarães, editor de Política, diz que os comentários do ombudsman induzem a um debate permanente entre os integrantes de sua equipe pela qualificação do jornal. Ele diz considerar ‘positiva’ a tensão que a crítica do ombudsman provoca. Para Erick, sem crítica constante, ‘perde-se em controle de qualidade’. No mais, diz ele, ‘conflito e tensão fazem parte da atividade jornalística’.

Despachada, a editora de Cotidiano, Tânia Alves, não faz rodeios, diz que muitas vezes ‘enche o saco’ ter de admitir erros e responder ao ombudsman. Mas ela reconhece a importância da função, por levar ao exercício da autocrítica: ‘É quando descobrimos que poderíamos ter feito melhor.’

Ian Mayes, ombudsman do jornal britânico The Guardian e atual presidente da ONO, disse, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (16/4), haver ‘entre os leitores, ouvintes ou telespectadores a tendência de dar maior crédito a meios de informação que exerçam sobre si mesmos algum mecanismo de autocontrole’, acrescentando: ‘Os ombudsmans fornecem a única forma de auto-regulação que constrói uma relação de confiança entre a empresa jornalística e seu público.’

No O Povo, além do ombudsman, funciona um Conselho de Leitores – com representantes eleitos pela Redação do jornal – que se reúne mensalmente. O jornal ainda dedica amplo espaço, com um caderno semanal, além da seção diária de cartas – e também espaços na editoria de Opinião – para a colaboração dos leitores. Pode-se fazer ainda mais, porém, é certo que são mecanismos apontando para o caminho da transparência das ações editoriais e para a saudável interação com o leitor.

O que é

O ombudsman é um ouvidor. Faz a crítica do noticiário publicado e age como um elo entre a Redação e o leitor. O nome ‘ombudsman’ é emprestado da Suécia, o primeiro país a adotar a função, no serviço público, no século XVIII.

Atendimento

Devido à conferência da ONO e, na seqüência, a realização do Fórum Folha de Jornalismo, marcando os 85 anos do jornal paulista, estarei viajando entre os dias 7 e 15/5. No período, as secretárias Mirtes e Adriana Bárbara atenderão os leitores no horário de funcionamento da Redação. A secretária eletrônica ficará desligada. Pelo mesmo motivo, a coluna do ombudsman próximo domingo (14/5) não será publicada.’

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