Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > O POVO

Plínio Bortolotti

24/07/2007 na edição 443

‘No mês de março troquei alguns e-mails com o artista plástico Hélio Rola e alguns outros leitores, moradores do bairro Lago Redonda, incomodados com o barulho ensurdecedor provocado por uma rave (do inglês, pronuncia-se ‘reive’, festa de jovens com música eletrônica que pode durar mais de 20 horas). Tirante a revolta com a inoperância das instituições públicas encarregadas de pôr um mínimo de ordem na cidade, de modo que o cidadão possa ter um pouco de paz em sua própria casa, esses leitores estavam inconformados em ver o apoio explícito do O Povo a tal tipo de atividade.

Na ocasião, falei com o departamento de Marketing, encarregado de selecionar as atividades que têm apoio do jornal. Os responsáveis foram sensíveis ao problema, informando que teriam ‘mais cuidado’ ao selecioná-las – resposta que reproduzi aos leitores. Esta semana recebo novo e-mail de Hélio Rola, com o título ‘Flagelo reive’ (ele prefere a forma aportuguesada; mantive no texto a grafia mais usada). Pois Hélio, como se vê pelo título de sua mensagem, queixava-se de uma rave, realizada nas proximidades da lagoa da Precabura (a três quilômetros da casa dele), que lhe tinha atenazado o juízo por 17 horas, do início da noite de sexta-feira (13) até o meio-dia de sábado (outros leitores também escreveriam sobre o mesmo tema), e perguntava o que havia ocorrido com a promessa anterior do jornal. Junto ao e-mail, ele enviou a fotografia de balões promocionais, pairando na entrada do local da festa, com o nome do O Povo e da rádio Mix (do grupo).

Voltei à supervisora de Marketing, Marina Vieira, e à coordenadora de Promoções, Juliana Meireles. Elas explicaram ter passado a informar a promotores de eventos a decisão de negar apoio a atividades que provocassem incômodo a vizinhos. Fizeram isso, no caso, tendo recebido a garantia formal da Freelancer Produções (a organizadora da festa) que não haveria ‘problemas sonoros’, pois a atividade seria ‘fora da área urbana’, em local de ‘muita mata […] proporcionando um evento tranqüilo e sem danos aos apoiadores e patrocinadores’, conforme documento assinado pela empresa, do qual elas me entregaram uma cópia.

Frente à mais recente advertência dos leitores, nova decisão foi tomada pela área de Marketing: será negado o apoio do jornal a festas do tipo rave, pois parece impossível controlar-lhes a altura do som, sem contar a sua longa duração. Além disso, será criada uma comissão para analisar os pedidos de apoio, que, inclusive, visitará o local dos eventos para verificar as condições em que será realizado. É uma boa medida, a ver como funcionará na prática. Posso garantir que o tema provocou um forte debate interno, envolvendo a Redação e a direção das empresas do grupo O Povo para ajustar procedimentos. De pronto, o jornal retirou o apoio a uma festa parecida que seria realizada (ou já foi) na Prainha.

Repassei essas informações aos leitores, observando que a ausência do apoio do O Povo a tais festas, infelizmente, não porá fim ao transtorno, pois normatizar, fiscalizar e enquadrá-las na lei é papel do poder público, como a Polícia Militar, Disque Silêncio e Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam), aos quais Hélio Rola recorreu, sem sucesso, segundo diz. Mas, independentemente disso, O Povo, pela sua orientação editorial – o jornal defende o direito ao silêncio e noticia freqüentemente os abusos da poluição sonora -, pelos seus objetivos (noticiar, educar, entreter), por respeito aos seus leitores e à sociedade, tem o dever de se distanciar de eventos que possam causar prejuízo à coletividade.

Desastre

O Brasil sofre com mais um desastre aéreo de proporções terríveis. Há muita crítica ao governo, uma grande parte delas procedente, sem dúvida. Mas pouco se fala na responsabilidade das companhias aéreas, o que talvez venha a ser feito a agora, quando se descobre que a TAM encobria uma informação importante que pode ajudar a explicar o acidente: um dos reversores, equipamento que ajuda a frenagem do avião, estava quebrado. Como é a manutenção das aeronaves? Como são tratados os funcionários? Como é o relacionamento com os clientes? O lucro é posto acima da segurança dos passageiros? São questões, entre outras, que deveriam ser apuradas.

Outra questão importante: os leitores fiquem atentos às providências anunciadas pela TAM, apressando-se em dizer que prestará toda a assistência aos parentes das vítimas e pagará as indenizações devidas. Essas medidas, divulgadas rapidamente, fazem parte do pacote de ‘gestão de crise’, recomendado por eficientes escritórios de assessoria de imprensa e relações públicas. A conferir se as famílias estarão livres de outra via-crúcis para ter garantidos seus direitos. Normalmente, essa boa vontade inicial acaba por ter de ser cobrada na Justiça.

Vaias

Durante a semana recebi várias manifestações de leitores a respeito das vaias que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, levou na abertura dos Jogos Pan-americanos, no Rio. Boa parte delas se apegava à tese da ‘orquestração’ adrede preparada para constranger o presidente. Outras argumentavam ter havido destaque exagerado, na capa do jornal, às vaias, em detrimento de ângulos mais importantes do evento.

Tenho repetido que as vaias a Lula são notícia no Brasil e seriam em qualquer lugar do mundo. Um presidente habituado a colher aplausos por onde passa, de repente, é vaiado por um estádio do Maracanã lotado, é notícia em estado bruto, e O Povo a deu, como não poderia deixar de dar, com o destaque proporcional à sua importância. Na seqüência, também corretamente, contemplou as versões surgidas para tentar explicar os apupos. É assim que se faz jornalismo: dá-se a notícia de modo contextualizado, faz-se a análise, oferece-se a opinião no espaço adequado – e o leitor que se encarregue de tirar as conclusões.’

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