Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > O POVO

Plínio Bortolotti

27/11/2007 na edição 461

‘Sem medo de parecer ingênuo eu me filio à escola de jornalistas que entendem ser preciso distinguir notícia, análise (interpretação) e opinião. Se a separação completa é impossível, o jornalista deve tê-la como perspectiva; meta a ser perseguida tenazmente em cada texto a ser escrito.

De modo simplificado, tomando um caso recente, poderíamos assim exemplificar os três conceitos. Notícia: a senadora Patrícia Saboya deixou o PSB e filiou-se ao PDT. Análise: a senadora fez isso na tentativa de viabilizar a sua candidatura à Prefeitura de Fortaleza, o que era difícil em seu antigo partido, pois este já declarou apoio à reeleição de Luizianne Lins. Opinião: ótimo que a senadora tenha feito isso, pois é preciso derrotar a atual prefeita, e Patrícia tem condições de fazê-lo; ou, em contrário, é péssimo, pois contava-se com o apoio da senadora à prefeita e o seu movimento pode dificultar a vitória de Luizianne, que precisa ser reeleita. É certo que nem tudo é tão claro assim; por vezes é difícil traçar a linha divisória, principalmente quando se trata de análise e opinião, mas o jornalista não pode abdicar do esforço.

Sob o entendimento de que é preciso diferençar as coisas, critiquei internamente o título ‘Governo Cid: agora começa?’ (edição de quinta-feira) – uma alusão ao lançamento do ‘pacote de segurança’ – por considerá-lo opinativo. Segundo se pode depreender do título, o governo Cid Gomes ainda não começou efetivamente e põe-se em dúvida se começará mesmo com o lançamento projeto Ronda do Quarteirão, seu principal compromisso de campanha.

O editor-adjunto da editoria de Política, Érico Firmo, discorda. Segundo ele, o projeto fora definido pelo ‘próprio governador’ como sua ‘primeira prioridade, o pontapé inicial de sua gestão’. Érico ainda diz que o lançamento do ‘pacote de segurança’ foi tratado como ‘um grande espetáculo político’ e que, desde o início do segundo semestre, o governo ‘tenta selecionar investimentos para fazer a máquina andar’. Sem ‘ações de visibilidade’, o Ronda do Quarteirão teria sido o primeiro projeto de ‘grande porte’ a ‘sair do papel’. Para Érico, essa avaliação justificaria o título. Para concluir, ele agrega: ‘Creio que a qualquer leitor ficou claro que título não faz referência ao começo oficial do governo, mas à largada simbólica de um momento em que os resultados começam a aparecer’. Obviamente, ninguém está pensando que se está no dia 1º de janeiro. A mais, o título até que poderia se justificar se a cada uma das afirmações do editor correspondesse, na matéria, a um exemplo concreto de que o governo está ‘parado’, provando a assertiva com a realidade dos fatos.

O mais contraditório é que a editoria foi dura no título, mas leniente ao classificar a medida do governo como ‘pacote de segurança’. Um ‘pacote’ pressupõe várias medidas integradas e, pelo menos a ser levar em conta a notícia publicada, o que o governo fez foi lançar um único projeto na área de segurança pública: o Ronda do Quarteirão.

O jornal voltaria ao assunto na sexta-feira, com o título ‘Para deputados, Governo já começou’, escrevendo: ‘Deputados da base aliada ao governador Cid Gomes (PSB) não concordam com a idéia de que só agora […] o governo efetivamente começou’. A editoria de Política só esqueceu de acrescentar ter sido a ‘idéia’ dela mesma. Érico Firmo diz que, de fato, a falta de referência foi esquecimento, sem o propósito de negar ou esconder o que se escrevera no texto e no título da edição anterior.

Notícia inventada

Na edição de 11 de novembro, a coluna Vale Tudo, que tem como titular o jornalista Alan Neto, publicou a seguinte nota: ‘Show de Wando, no Ideal, um gaiato gritava a plenos pulmões: ‘Quero uma calcinha vermelha para a minha gata’. Miau’, no que parecia ser referência ao hábito do cantor de colecionar e distribuir peças íntimas. Até aí nada demais, a não ser por um, digamos, detalhe. O show a que se referia o colunista seria realizado três dias depois da data da publicação da nota. Recebi ligação de alguns leitores estranhando a notícia. Fiz anotações na crítica interna e Alan Neto ficou de dar explicação na coluna seguinte (18/11), o que fez, mas reconhecendo apenas que errara na data do show. Esse equívoco também era um problema, mas a questão central seria a explicação do trecho entre aspas, atribuído a um ‘gaiato’. Como o jornalista pode ter registrado o ‘grito’ do espectador de um evento ainda por acontecer, foi o mistério que deixou de ser explicado.

Na mesma coluna em que se fez a ‘correção’ foi publicada outra nota com teor parecido: ‘Criança não se engana. Em conhecido shopping, uma delas recusou-se a bater foto com o Papai Noel dizendo que ele era magro e feio’. Assim fica difícil o leitor ter segurança na informação que lê.

Notícia atrasada

Na edição de 5/11, a coluna Vertical, que tem como redator Eliomar de Lima, publicou nota informando que a Associação Beneficente Amigos Solidários doara uma tonelada de alimentos à Toca de Assis, no ‘mês passado’. A própria diretoria da associação esclareceu ao jornalista que a doação ocorrera há mais de um ano, em abril do ano passado, e que a informação errada estava causando problemas às duas entidades. A correção, na edição de 22/11, só foi feita depois que um diretor recorreu ao ombudsman.

Ainda a propósito da Vertical, há dois meses mantenho um pedido de esclarecimento a respeito de uma nota na muito lida seção ‘Elevador’ – que tem dois itens: ‘Sobe’ e ‘Desce’. Na edição de 27/9, escreveu-se o seguinte: ‘Desce – Brasil, que piorou no ranking da corrupção. Efeito de mensalão, sanguessuga…’ Um leitor escreveu contestando: ‘Penso que a notícia foi incompleta e, talvez equivocada, visto que a nota atribuída pela ONG Transparência Internacional ao Brasil, a rigor, melhorou: era 3,3 passou a 3,5. A queda deveu-se ao ingresso de novos países na pesquisa, e não ao efeito de mensalão e sanguessugas, a que induz a redação da coluna’. O leitor ficou sem resposta e quem confia na coluna continua com uma informação, como diz o leitor, ‘incompleta’.’

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