Domingo, 15 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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JORNAL DE DEBATES >

Plínio Bortolotti

22/08/2006 na edição 395

‘Da discussão em seguida ao seqüestro de dois funcionários da Rede Globo, o repórter Guilherme Portanova e o auxiliar técnico Alexandre Coelho Calado, há pelo menos uma unanimidade e uma divergência. A unanimidade: todos os textos que li, de pessoas nos mais diferentes pontos do espectro ideológico, consideraram inaceitável e escandalosa a pretensão do grupo criminoso, chamado de Primeiro Comando da Capital (PCC), intentando legitimar-se como ator político. Felizmente, nenhuma voz importante caiu na armadilha de justificar o crime usando sociologuês de botequim, supondo-lhe laivos de ‘banditismo social’. A divergência consiste em definir se foi correta a atitude da rede de televisão de maior audiência do País, ao dobrar-se à exigência da quadrilha, pondo no ar um vídeo com críticas ao sistema carcerário, sob a ameaça dos criminosos de matar o repórter.

Os que defendem a atitude da Rede Globo, argumentam ter a emissora agido com bom senso, em solidariedade ao repórter, no momento em que era preciso decidir rapidamente. Segundo informações, a emissora também atendeu à orientação de empresas internacionais de gerência de risco. Não havia como apelar para as forças policiais, pois para estas era impossível garantir o resgate do seqüestrado com vida – e acrescente-se o fato de que autoridades do governo paulista terem se posicionado contra o atendimento da exigência dos criminosos.

Dando como exemplo os governos que se negam a negociar com grupos terroristas, aqueles a condenarem a decisão da rede de TV, avaliam que ceder uma vez aos bandidos poderá levar a ações de chantagem cada vez mais ousadas. Para eles deve-se adotar a ‘tolerância zero’, política que poderia vir a preservar os jornalistas no futuro, pois provocaria um recuo nesse tipo de crime.

Em posição intermediária, alguns acham que a emissora cedeu com muita facilidade, pois teria sido possível ‘negociar mais’. Ora, não era dinheiro que os seqüestradores pediam; depois, não fizeram nenhum contato com a rede de TV. Entregaram o vídeo ao técnico Alexandre Coelho, que foi libertado para entregá-lo à emissora, junto com a ameaça de matar o repórter se a gravação não fosse divulgada. Para a Rede Globo, só havia duas possibilidades: passar ou não o vídeo. A última escolha poderia custar a vida do jornalista.

Uma coisa é certa. Não deve ter sido fácil à Rede Globo decidir pela medida que tomou. E, na pressão da hora, fez o que tinha de fazer: na dúvida, optou pela vida. Alguns do que agora a criticam, talvez fossem os primeiros a condená-la – no mínimo como insensível e, no limite, como criminosa – se resolvesse apostar a vida do jornalista e a perdesse.

A imprensa acordou

O seqüestro do repórter e a exigência de que o ‘manifesto’ da quadrilha fosse divulgado representou um aumento de tom nas ações do PCC. Depois de desafiar os três poderes da República, os malfeitores resolveram bater de frente com ‘quarto poder’, a imprensa. A organização criminosa deve ter a plena consciência do que fez e das reações que iria despertar – e isso talvez seja o mais preocupante –, pois os bandidos julgaram-se fortes o suficiente para levar o plano à frente. Portanto, chegou-se a um ponto de inflexão, no qual, ou se os derrota ou eles derrotam a sociedade, passando a constituir-se efetivamente um poder concorrente com os constituídos, como já aconteceu e acontece em outros países.

De fato, a reação dos meios de comunicação foi imediata. As entidades representativas das empresas e dos jornalistas, brasileiras e internacionais, emitiram notas condenando o ataque e solidarizando-se com os seqüestrados e com a Rede Globo. Os principais jornais do País publicaram editoriais e deram amplos espaços ao assunto em suas páginas. Os textos alertavam para o perigo que representa a escalada criminosa do PCC, ao tempo em que criticaram políticos e governantes pela incapacidade em lidar com os graves problemas de segurança pública que assustam o país.

Se é difícil discordar desses argumentos, é preciso lembrar ter sido necessário um choque em suas fileiras para que os meios de comunicação percebessem de forma mais clara o problema no qual todos estamos metidos. Desta vez, o assunto foi abordado com mais contundência em relação ao que ocorrera com as outras investidas, apesar do destaque sempre dado ao assunto. Desde maio, São Paulo já esteve submetido a três sucessivos de ataques comandados pelo PCC. Os criminosos fazem investidas indiscriminadas a pessoas, prédios e veículos, atirando, jogando bombas, atendo fogo e matando. Por conseqüência, o seqüestro da equipe da Globo foi um degrau a mais na escala da ofensiva criminosa que a quadrilha vem desenvolvendo contra a sociedade. Portanto, esse repto unificado que os jornais, jornalistas e suas entidades fazem aos governantes, poderia ter sido ensaiado há mais tempo, pois a situação vem se deteriorando rapidamente e a olhos vistos. Porém, antes tarde do que nunca. Esperemos ter este sinal soado para a imprensa, sociedade e governantes, de forma que passem a tratar o tema com a profundidade merecida e na sua exata importância: uma situação inadmissível, impossível de ser tolerada por mais tempo.

Plágio

Nas notícias sobre o seqüestro e a divulgação do vídeo pela Rede Globo, foi um portal da internet, o Consultor Jurídico, a dar uma informação inédita sobre o assunto. Em texto assinado por Débora Pinho e Aline Pinheiro (http://conjur.estadao.com.br/static/text/47269,1), o portal revela que trecho do texto lido pelo encapuzado representante do PCC no vídeo, reclamando do Regime Disciplinar Diferenciado, fora copiado de um parecer do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça, um argumento técnico a respeito do tratamento excepcional, e mais rígido, aos integrantes do PCC nas cadeias.’

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