Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > O POVO

Plínio Bortolotti

09/01/2006 na edição 363

‘Tradicionalmente, a primeira coluna do ombudsman, no mês de janeiro, é a última do mandato. Nela, o ocupante do cargo faz o balanço de seu ano de trabalho, despede-se dos leitores e anuncia o sucessor. Com uma única exceção, nenhum outro ombudsman teve o mandato renovado, privilégio/penitência que agora me cabe. Portanto, esta é a última coluna do mandato terminante e a primeira do próximo período – nos 78 anos de fundação do O Povo, completados ontem.

Como sabem os leitores, o ombudsman é designado pelo presidente do O Povo, Demócrito Dummar, a quem cabe a responsabilidade renovação do meu mandato. Portanto, as queixas pela medida a ele devem ser dirigidas. De antemão, o ombudsman se compromete a reenviar-lhe as manifestações que receber no mesmo sentido. Peço desculpas aos leitores se tento parecer espirituoso, mas desta maneira busco assimilar a responsabilidade redobrada advinda por ter sido reconduzido ao cargo, distinção obtida anteriormente apenas pela professora Adísia Sá, ombudsman emérita, a primeira pessoa a ocupar o ofício no O Povo, em 1994 – por recondução em 1995 -, e por outras duas vezes alternadamente.

Na sexta-feira, na sede do jornal, tomei posse para o novo mandato, juntamente com os 15 componentes do novo Conselho Consultivo de Leitores. Esses dois instrumentos fazem parte do compromisso do O Povo de manter uma relação transparente e dialógica com os leitores – um seguro na trilha do jornalismo crítico, pois este é o que responde à responsabilidade social.

Balanço

Entre fevereiro e dezembro de 2005 recebi 1.145 manifestações de leitores, com a média de 104 atendimentos por mês. A maioria entra em contato com o ombudsman para fazer algum tipo de queixa. Foram 626 manifestações enquadradas nessa categoria: 438 críticas a alguma matéria e 188 apontamentos sobre erros nas edições. Os elogios foram mais escassos: 80. É normal o ombudsman ser mais exigido quando o leitor se sente incomodado: temos a natural tendência de distribuir elogios com mais economia. O leitor ou o consumidor devem imaginar, com uma boa dose de razão, que ao entregar um produto de boa qualidade (seja um jornal ou um bem material), o fornecedor está apenas cumprindo a sua obrigação.

Um bom número de pessoas – 346 – manteve contato para fazer comentários e sugerir pautas ao jornal. Nesse aspecto, a Redação deixou de levar em conta boas propostas lançadas por leitores. As mudanças pelas quais vêm passando o jornalismo exigem que os periódicos se abram cada vez mais à participação do leitor. Ouvi-lo é apenas o começo. A minha impressão – derivada da experiência -, é que a rotina das redações, em certa medida, tolda a visão e a curiosidade que o jornalista deveria exercitar cotidianamente. A quem tem pouca intimidade com a profissão, pode parecer estranho usar um termo sugerindo monotonia para defini-la. Mas o jornalista gasta boa parte de seu tempo com atividades rotineiras (e estressantes): prazos cada vez mais curtos de fechamento, decisões administrativas (quando se trata de editores), o monitoramento diário de outras publicações; ou mesmo na repetitiva forma de produção de boa parte das notícias, consultando fontes por telefone. O habitat do jornalista é a redação e isso, às vezes, o impede de ver o mundo; dificulta-lhe o raciocínio mais livre, aberto e criativo.

Independentemente de serem críticas ou elogiosas, as manifestações dos leitores são anotadas nos comentários internos do ombudsman, estes são lidos e discutidos pela Redação. Todos os que escrevem, obtêm resposta. Repórteres e editores, de maneira geral, demonstram boa vontade para complementar alguma explicação ao leitor, quando acionados pelo ombudsman.

Na primeira coluna do ano passado, anotei haver demanda dos leitores por ‘um texto bem escrito, preciso, claro, substantivo – e sem erros gramaticais’. Em comentários internos, insisti bastante no tema, secundado por queixas de leitores. Algumas falhas foram corrigidas, mas certos erros continuam se repetindo em textos e até nos títulos. Também escrevi que procuraria ampliar o debate sobre o ‘fazer jornalístico’, ajudando a desvendar ‘a forma como jornalista trabalha, como e por que seleciona tal ou qual notícia, por que escolhe determinada angulação’. Publiquei algumas colunas com essas análises, tentando mostrar ao leitor como é o mecanismo que movimenta uma redação de jornal.

Nas colunas semanais, enfrentei temas polêmicos, alguns incômodos aos colegas e à direção do jornal. Concordei e discordei de leitores. Procurei ser firme, sem ser agressivo; escrevi tudo o que achei necessário sem apelar para ofensas. (Sou contra um certo ‘jornalismo de indignação’, em voga atualmente, que abusa dos adjetivos e distribui xingamentos como substitutos da análise e da apuração.) Sem falsa modéstia, na medida das minhas possibilidades, considero ter cumprido o papel de ombudsman de forma aceitável. (Os números do mês de dezembro e o balanço do ano podem ser vistos ao lado.)

Livramento condicional

Gostaria ainda de registrar o seguinte: o exercício da função por mais um ano livra-me de cometer algumas das falhas apontadas em meus próprios comentários, que certamente cometeria, voltando à Redação. O jornalismo é uma profissão sujeita a erros, como qualquer outra. O jornalista e o jornal precisam de humildade para reconhecê-los e coragem para corrigi-los.

Férias

Com esta coluna inicio as minhas férias. Retomarei os atendimentos no dia 6 de fevereiro. Até lá, as secretárias Mirtes e Luíza ficarão encarregadas de receber as ligações dirigidas ao ombudsman, encaminhando os casos à direção da Redação. Os e-mails, vou procurar respondê-los na medida do possível.’

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