Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ENTRE ASPAS >

Políticos bem comportados

Por David Brooks em 14/06/2011 na edição 646

Uma razão para muitos políticos comportarem-se mal hoje em dia é que nós passamos menos tempo pensando no que significa comportar-se bem.

Isso era um problema menor em séculos passados quando líderes, professores e o clero faziam debates detalhados sobre o que significava ter bom caráter.

No século 18, por exemplo, Edmund Burke compôs uma longa e famosa passagem definindo os padrões da excelência política: “Ser instruído a ter respeito próprio; ser habituado à inspeção crítica do olhar público; dispor de ócio para ler, refletir, conversar; ser capacitado a atrair a corte e atenção do sábio e instruído, onde quer que ele se encontre; ser habituado em exércitos a comandar e a obedecer; ser levado a uma conduta contida e regrada, no sentido de ser considerado um educador de seus concidadãos em suas mais elevadas aspirações, e também que aja como um reconciliador entre Deus e homem.”

No século 19, Anthony Trollope escreveu uma série de romances populares tratando do que significa comportar-se bem na vida política. A visão de Trollope era diferente da nossa. Muitos americanos hoje supõem que as pessoas nascem com um “eu interior” bom, mas são corrompidas pela política. Os eleitores americanos estão sempre buscando o “estranho ao meio inocente” capaz de trazer uma mudança radical.

Trollope admirava os “iniciados prudentes”, não os “estranhos inocentes”. Suas personagens mais admiráveis foram educadas por uma longa experiência. Elas amadureceram exercendo a responsabilidade. Elas foram enobrecidas por costume e civilização. Em seus livros, os estranhos sem poder com frequência se comportavam de maneira autoindulgente e irresponsável. Os que estavam no governo tinham de lidar com o mundo tal como ele realmente é.

A tensão central no romance Phineas Finn, de Trollope, é entre independência e prestação de serviço. A personagem-título é um irlandês estranho ao meio que entra no Parlamento prometendo ser fiel à sua consciência individual. “Permita-me assegurar-lhe que eu não mudaria meus pontos de vista em política nem por você nem pelo Conde”, diz Finn a um líder partidário logo no começo.

Mas ele ingressa num Legislativo cheio de “iniciados”, alguns deles virtuosos e outros não. Finn terá de mapear seu próprio caminho ou deixar-se encilhar para o bem do esforço comum.

Trollope parece ter uma admiração momentânea pela independência de Finn. Este é um homem encantador e bem intencionado. Mas ele nunca foi realmente testado pelo poder. Ele se classifica numa curva, sem jamais realmente fazer frente a suas fraquezas.

Sendo um amador na vida, pode se dar ao luxo de ser inconstante em seus afetos, e apoiar-se na boa aparência e não na força do caráter. Os políticos ideais de Trollope − que têm nomes como Plantagenet Palliser, Joshua Monk e o Duque de St. Bungay − colocam o serviço à frente da independência, seu partido e seu país pediram-lhes que aceitassem certos deveres e enfrentassem certos problemas, e eles simplesmente se entregaram a isso. Eles são mais graves, mas também mais aborrecidos.

Justiça

Os políticos ideais de Trollope compartilham certos traços. Eles são reservados, prudentes e escrupulosos. Empenham-se em questões práticas tediosas como, por exemplo, converter o sistema monetário.

Eles não são pensadores de ideias largas, mas fazem discriminações sensatas sobre as pessoas e as circunstâncias que as cercam. Eles aprendem a operar dentro de limites impostos por seu idioma, e não choramingam nem se queixam sobre essas limitações. Eles desenvolvem entendimentos delicados do que é preciso num dado lugar no tempo.

Os líderes ideais de Trollope não são celebridades glamorosas do tipo que viemos a almejar desde John F. Kennedy. Eles se parecem mais com marinheiros e carpinteiros. São julgados por sua competência profissional.

Eles são extremamente sensíveis sobre qualquer transgressão moral que possam cometer e rigorosamente honestos quando julgam a si próprios.

Eles tentam melhorar as coisas, mas são agudamente conscientes de que tudo que fazem pode piorá-las.

Como escreveu Shirley Robin Letwin em seu livro The Gentleman in Trollope (O cavalheiro em Trollope, em tradução livre), o Duque de St. Bungay tinha “expectativas modestas com seus semelhantes”, mas jamais era cínico. Os líderes de Trollope não abraçam a mudança rapidamente e precisam ser arrastados a abraçá-la após muitas indagações, e a mudança que preferem é incremental.

Trollope elogia um de seus primeiros-ministros, Plantagenet Palliser, por “aquela curiosa combinação de conservadorismo e progresso que é a força presente (de seu país) e sua melhor segurança para o futuro”.

Os leitores de Trollope teriam saído de seus livros com um certo modelo de como pessoas práticas deveriam se comportar, que eles deveriam ou copiar ou questionar. Não estou certo de que seus exemplares poderiam prosperar em meio à política de TV de hoje, que pede promessas grandiosas. Mas há pessoas prudentes e reservadas no governo mesmo agora. E se mais pessoas passarem suas noites ao menos pensando no que significa um comportamento exemplar, poderia ser menos provável vê-las enviando tweets emocionalmente retardados tarde da noite.

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