Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL

Por um jornalismo investigativo e crítico

Por Marcelo Guimarães em 19/01/2010 na edição 573

O jornalismo empresarial brasileiro deve ser repensado. A abordagem superficial, comumente adotada pela imprensa de negócios no Brasil, impede que ele exerça um papel fiscalizador, seja mais ativo e influente no aprimoramento da gestão das empresas e contribua, significativamente, para desenvolver uma maior consciência gerencial na população.

Muitas vezes, ao reproduzir o discurso formal da cúpula dirigente e matérias pautadas pela área de relações públicas/assessoria de imprensa das empresas de forma acrítica, como verdades absolutas, acaba funcionando como passarelas para os executivos mostrarem os seus ‘rostinhos’ e divulgarem as suas marcas na calçada da fama, similar ao ocorrido nos desfiles fashion de moda e programas de colunistas sociais.

Normalmente, têm-se artigos escritos por especialistas, ou cases, histórias e biografias de sucesso reproduzidos pelo discurso (bla-bla-blá) empresarial, formalizados, impossibilitando o leitor e/ou acionista de tomar contato com o contraditório dos fatos e fazer um julgamento mais criterioso da realidade. Transmitindo uma realidade ilusória – ‘mentiras bem contadas’ – sobre a verdadeira dinâmica e funcionamento do sistema capitalista. Histórias para ‘boi dormir’, para quem entende do assunto.

Business, palavra non grata

Investigação e crítica não fazem parte da rotina da imprensa de negócios no Brasil. Analisar (fuçar) documentos típicos do universo corporativo, como atas de reunião, relatórios de atividades, balanços financeiros, demonstrações contábeis ou comunicados aos acionistas não é comum. Questionar e colocar ‘contra a parede’ os entrevistados, ao invés de ser ‘engolido’ por eles, menos ainda. Falar em abordagens ‘tipo’ Watergate, e em casos como os retratados por Frederico Vasconcellos em seu livro Anatomia da Reportagem: Como Investigar Empresas, Governos e Tribunais (Ed. Publifolha, 2008), ainda é pura miragem quando o assunto são empresas. Infelizmente. Tem-se mais propaganda do que reportagens efetivamente jornalísticas.

Demandam-se capacitar recursos humanos capazes de integrar formação jornalística com gestão empresarial. Normalmente, tem-se o administrador de empresas sem o entendimento, a vivência e o interesse necessários de jornalismo; e o jornalista, sem o entendimento, a vivência e o interesse necessários de administração de empresas. Para mudar, é necessário, acima de tudo, questionar a própria formação universitária que contribui para manter esta situação.

As universidades, divididas por departamentos, áreas do saber, dificultam a realização de formações híbridas, multidisciplinares, necessidade crescente no mercado de trabalho, em geral, e na imprensa em particular. Muitas vezes, a saída são programas de trainees, formais e informais, aos recém-formados, para suprir tal deficiência. Esse viés na formação reproduz-se nas redações. Ainda há grandes resistências e, muitas vezes, até certo preconceito, entre os profissionais de imprensa, quando o assunto é gestão. Business é palavra non grata.

Papel da imprensa é mais pedagógico

Em termos de senso comum, a expressão empresa está associada com a idéia de entidade lucrativa privada hierarquizada, significando de maneira simplória que seus dirigentes possuem a mais ampla autonomia discricionária em seu processo decisório, quando comparada com outras instituições públicas, sociais e filantrópicas, associando-se o seu funcionamento à visão intuitiva de pequena empresa familiar. Isto é um equívoco. Deixa-se de perceber que a busca da racionalidade operacional e resultados superavitários (lucro) é condição para a sobrevivência de qualquer tipo de organização a médio/longo prazo. Não há como contrariar a lógica e competição do mercado.

Como qualquer outra instituição social, as empresas são órgãos que influenciam e são influenciados, reciprocamente, pela sociedade. Devendo prestar contas. Há uma dimensão pública inerente à lógica do seu processo decisório, passível de uma gestão mais participativa (co-gestão). Ainda mais nos últimos anos, em que conceitos de governança corporativa e transparência empresarial passaram a ser atributos mais valorizados pelo mercado, a comunicação de ‘portas abertas’ tornou-se essencial. A crescente importância e desenvolvimento da área de relações com investidores nas empresas é um bom indicador disso.

Esta visão ‘reducionista’ de gestão empresarial presente na cultura popular, induz a um comportamento de impotência e submissão frente às organizações. Os meios de comunicação reproduzem este ‘telefone sem fio’, ao invés de revertê-lo.

Hoje, conhecimentos sobre administração, assim como português, inglês ou informática, possuem, cada vez mais, um caráter básico, são necessários a todas as pessoas, de qualquer tipo de formação. A cidadania empresarial veio para ficar. Basta repararmos no crescimento generalizado dos cursos MBA´s e de empreendedorismo. Tais assuntos não poderão mais restringir-se a editorias especializadas e publicações segmentadas de negócios para públicos específicos. Devem ir além. A imprensa tem um papel pedagógico a exercer, produzindo pautas mais relacionadas e contextualizada ao cotidiano do leitor comum, motivando o seu entendimento e participação no debate.

As universidades e as redações

Nesse sentido, a universidade, lócus de geração de conhecimento, através das suas atividades de pesquisa, ensino e extensão, também poderia exercer um importante papel junto à mídia como fonte de informação e notícia e indutora de pautas ‘inovadoras’.

Jose Luiz Proença, chefe do departamento de jornalismo e editoração da Escola de Comunicação e Artes da USP, ainda na década de 90, em projeto de pesquisa intitulado ‘A participação da USP na produção jornalística’, identifica um potencial inexplorado pela universidade como fonte de informação para a produção da notícia. Defendendo uma maior proximidade entre o ‘saber’ acadêmico e o ‘informar’ jornalístico no seu dia-dia, que vá além das editorias especializadas. Para o professor:

‘Identificar as grandes tragédias não exige maiores genialidades dos jornalistas, mas é nos fatos rotineiros que se escondem os pequenos avanços que ocorrem continuamente. Nesse momento do processo jornalístico, rapidez e clareza são atributos dos mais valorizados pelos jornalistas e os cientistas mais capazes de fornecerem informações rápidas e precisas tem seus pontos de vistas usados com mais freqüência pela mídia.’

Há um grande espaço inexplorado para a universidade ser mais ativa junto à mídia. É necessário preenchê-lo. Esta proximidade entre as universidades (cientistas) e o cotidiano das redações, com potencial para dinamizar a produção de notícias, ainda é muito restrita. Falta um elo para induzi-la.

São grandes as deficiências

Assim como o professor Proença, constatei tal potencialidade na UFRJ, em especial, no curso de Administração, como fonte de notícias. Tal evidência ficou clara ao desenvolver projeto monográfico e laboratório, o Jornal de Educação Empresarial, agência universitária de notícias independente e blog acadêmico (ver aqui), criado no âmbito do grupo de pesquisa Laboratório de Educação Estratégica Empresarial (ADM/ FACC/ UFRJ – coordenador científico: professor Luis Eduardo Potsch), para proporcionar maior integração entre universidade e empresa e induzir novas pautas jornalísticas, principalmente, em assuntos relacionados a negócios. Urge dinamizar o tripé universidade-mídia-empresa através de um agente de comunicação integrador. É interesse comum.

A estabilização da economia, a consolidação do mercado de capitais, o aumento do número de investidores e a crescente profissionalização e competição das empresas estimulam um cenário de governança corporativa e transparência, ampliando a necessidade por informações e o interesse e a participação da população em assuntos de gestão.

Nesse contexto, crescem os desafios e a importância do jornalismo empresarial no noticiário brasileiro. São grandes as suas deficiências. Reconhecê-las é o primeiro passo para superá-las. Mesmo com as limitações comerciais e publicitárias, que podem inibir uma possível abordagem mais investigativa e crítica frente às empresas pelos veículos de comunicação, temos muito a avançar. O próprio Observatório da Imprensa (TV/rádio/internet) deveria dar maior atenção e importância ao tema, estimulando o debate e contribuindo para o seu aprimoramento.

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Administrador de empresas, desenvolve projeto de pesquisa (mestrado) sobre o tema ‘Interação Universidade-Empresa e Jornalismo de Negócios’

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