Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

JORNAL DE DEBATES > GUERRA E PAZ

Por um pacifismo radical

Por Alberto Dines em 14/01/2009 na edição 520

Só existe um ponto onde há um consenso mundial: a batalha de Gaza deve ser imediatamente interrompida. O banho de sangue deve ser prontamente estancado, antes mesmo da posse de Barack Obama e do esperado início de um novo processo de paz. Os beligerantes talvez queiram prosseguir, insatisfeitos com os funestos resultados obtidos até agora, mas o cessar-fogo imediato é a precondição para impedir desdobramentos catastróficos.


Imperioso pensar no impensável; jornalistas têm – ou deveriam ter – a obrigação de temer a propagação do ódio. São os jornalistas – e não os historiadores, cientistas políticos ou ‘intelectuais’ – que correm riscos, são jornalistas que cobrem as guerras malucas, são eles que pisam em minas (como Robert Capa e José Hamilton Ribeiro, na Indochina-Vietnã). São eles as derradeiras vítimas do ódio: as primeiras são os civis inocentes.


Solidariedade é uma coisa, rancor, outra. Rancor ‘vende’ jornal, aumenta a circulação, gera polêmicas, panfletos, empurra a audiência. Mas, atenção: como os bumerangues, o rancor é imprevisível, incontrolável. Dor compartilhada e irrestrita não dá ibope mas é a única saída verdadeiramente decente, digna.


Deformações incuráveis


A continuação da Batalha de Gaza parece que acabou com os estoques de sabedoria e sensatez em nossa imprensa. Os lobistas dos dois lados agora sentem-se livres para cavalgar suas fúrias, certos das condecorações que ganharão. A busca da ‘imparcialidade’ só duplica as imbecilidades ao invés de neutralizá-las.


O conceito bíblico do guardião do irmão não deve ser entendido como aval à brutalidade. O clamor por revanches é um processo que acabará atingindo a todos.


Nesses 19 dias de guerra, diante da maré montante dos ressentimentos, a única posição verdadeiramente humanista e humanitária foi trazida por um colunista da Folha de S.Paulo, Marcos Nobre (6/1, pág. A-2). ‘Por um pacifismo radical’ (clique aqui, para assinantes) é um manifesto espiritualmente inspirador e jornalisticamente inovador. Soa quimérica, irrealista, demodée, mas é a única opção para aquela que foi considerada ‘a última profissão romântica’.


O pacifismo integral é o único recurso para proteger a integridade do jornalista na sua perene busca do entendimento. O mediador é imperiosamente pacifista, mas o pacifismo relativo, seletivo e condicionado, é esquizofrênico, capaz de gerar deformações incuráveis. Recusar a guerra, resistir aos beligerantes – todos os beligerantes – é a forma mais justa e humana de participar e ajudar.


***


Este Observatório da Imprensa breve completará seu 13º aniversário. Foi criado e vem sendo mantido com o objetivo claro, inequívoco e inalienável de discutir o desempenho da imprensa. Não adota códigos, manuais, carta de princípios. Tem um compromisso simples, óbvio, pétreo, transparente e expresso no seu nome – observar a imprensa.


Este observador tenta resistir à tentação de entrar no mérito dos assuntos cobertos pela mídia. Prefere examinar como a mídia os acompanha. É o nosso diferencial, especificidade. Segmentação anti-segmentadora, opção pelo universal.


Leitores das duas facções em luta (na Palestina e, infelizmente, no resto do mundo) têm cobrado maior encarniçamento. A controvérsia que nos aproxima aqui neste OI diz respeito à controvérsia em torno da validade desta instituição/poder/indústria chamada Imprensa.


O pai da crítica da mídia, o vienense Karl Kraus (1874-1936) celebrizou-se por denunciar os jornais austríacos e alemães pelo clima de beligerância que resultou na 1ª Grande Guerra (1914-1918). E o fez em plena guerra.


Estamos longe de Gaza mas não podemos ignorar a desgraça do nosso tempo: as guerras estão aqui, são mundiais.


 


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Todos os comentários

  1. Comentou em 20/01/2009 Alexandre Carlos Aguiar

    A safra de bandidos da humanidade deve estar com os dias contados a partir de hoje, 20 de janeiro de 2009. A era Bush será registrada na História como o momento em que os acordos internacionais de respeito e justiça ao ser humano foram jogados no lixo. Nunca devemos esquecer que antes dos atentados no WTC ele estava convicto em instalar seus satélites de guerra no espaço. O governo do Likud, fiel escudeiro bushista, deveria seguir o conselho do Raul Gil: pegar seu banquinho e sair de fininho, para nunca mais voltar. Sem antes passar ali no caixa da Justiça Internacional e pagar conta.

  2. Comentou em 19/01/2009 Wendel Anastácio Anastácio

    sr. Diniz e internautas, transcrevo para conhecimento:
    GIDEON LEVY

    Os que apóiam essa guerra apóiam o horror;
    Quem justifica essa guerra justifica todos os crimes. Quem prega mais guerra e crê que haja justiça em assassinatos em massa perde o direito de falar de moralidade e humanidade. Esse tipo de atitude é perfeita representação das duas caras de Israel, sempre alertas, ao mesmo tempo: praticar qualquer crime, mas, ao mesmo tempo, auto-absolver-se, sentir-se imaculado aos próprios olhos. O artigo é do jornalista israelense Gideon Levy.
    Gideon Levy
    Essa guerra, talvez mais que as anteriores, está expondo as veias profundas da sociedade de Israel. Racismo e ódio erguem a cabeça, o vingancismo e a sede de sangue. A ‘tendência do comando’ no exército de Israel hoje é matar, ‘matar o mais possível’, nas palavras dos porta-vozes militares, na televisão. E ainda que falassem dos combatentes do Hamas, ainda assim essa disposição seria sempre horrenda.
    A fúria sem rédeas, a brutalidade é chamada de ‘exercitar a cautela’: o apavorante balanço do sangue derramado – 100 palestinos mortos a cada israelense morto – não levanta questões, como se Israel tivesse decidido que o sangue dos palestinos vale 100 vezes menos que o sangue dos israelenses, o que manifesta o inerente racismo da sociedade de Israel.
    Direitistas, nacionalistas, chauvinistas …
    Vide Carta Capital
    Shalon

  3. Comentou em 17/01/2009 nelson lott

    Felipe, não seria tão suicida quanto agora quando seus comboios de mantimentos são atacados durante trégua, suas instalações civis são bombardeadas, seus mais representantes publicamente humilhados pelo Estado de Israel, seus tratados de paz vilipendiados e desrespeitados pelo Estado de Israel.
    Durante a II Guerra, quando solicitaram-lhe que moderasse o seu anticlericlarismo porqueo papa iria fazer uma declaração contra a Alemanha Nazista, Stalin perguntou, avaliando: ‘com quantas divisões blindadas conta o Vaticano?’
    Não se espera ver os tanques da ONU rolando rumo à Tel Aviv, mas sim um seu posicionamento político proporcional aos danos sofridos pelos seus representantes, enviados e funcionários, ou estará marchando para além da atual irrelevância no trato com o Estado de Israel/EUA, atingindo a passividade/cumplicidade diante dos crimes presentes, passados e futuros na Palestina.

  4. Comentou em 16/01/2009 Marúcia Cabral

    A imparcialidade diante do nazismo só favorece o próprio nazismo. O massacre israelense deve ser tratado como crime. Aliás já foi considerado crime pela ONU, eles é que ignoram a opinião do resto do mundo….

  5. Comentou em 15/01/2009 Oziel Ferreira Ferreira

    Sr. Diniz e internautas;
    Transcrevo para a apreciação de vocês.
    ‘Carta Aos Judeus
    “Por mais que o governo de Israel e todos os que o apoiam tentem, não irei odiar a vocês, irmãos judeus. Ainda que as tropas israelenses matem centenas de crianças e pessoas inocentes, não vou desejar a morte de suas crianças nem jogar a culpa na totalidade de seu povo. Mesmo que manchem a Faixa de Gaza com o sangue de um povo, que também corre em minhas veias, metade árabe, não vou revoltar-me contra nenhuma etnia nem julgar que há raças melhores ou com mais direitos que outras, como quer nos fazer acreditar o governo israelense. Embora eu também queira ouvir as vozes judaicas de protesto contra o massacre dos palestinos, não deixarei de condenar os que se calaram diante do holocausto judeu. E, mesmo que tomem à força a terra do povo árabe, não vou jamais apoiar o confisco dos bens do povo judaico, praticado há tempos pelo governo nazista. Por mais que o governo de Israel e todos que o apoiam traiam a tradição hebraica dos grandes profetas que clamaram por justiça e paz, ainda quero manter viva a esperança que eles anunciaram. Mesmo que joguem sua memória na lata de lixo, faço dos profetas do antigo Israel os meus profetas, pois o anúncio da justiça não distingue credos, nações ou etnias. Sei que muitos de vocês condenam a violência, não apoiam o massacre dos palestinos … leiam. Frei Betto.

  6. Comentou em 15/01/2009 Mauro Wainstock

    Quando lidamos com o mundo gago, repetitivo, que fala em genocídio e desproporcionalidade, de maneira tão constante quanto hipócrita; tão convincente quanto cínica, e que reluta em ouvir as palavras paz e justiça, ele se transforma no mundo surdo, mais pela inércia e pelo desconhecimento, do que pela deturpação proposital da inegável racionalidade. Que apelida o terrorismo de resistência, e qualifica a morte como bênção divina. É o verdadeiro mundo míope. Vencer a guerra é conseguir fazer com que o mundo da paz acorde o mundo consciente e, juntos, eliminem o mundo irracional.

    Por que os ‘humanistas’ de plantão, especialistas em diabolizar Israel, que surgem como técnicos de futebol em ano de Copa do Mundo não alertam para as “areias movediças” do mundo selvagem, como a divulgação de fotos deturpadas, informações manipuladas e declarações teatralizadas ?

    O mundo da inteligência precisa encontrar urgentemente o mundo da ação – e da conciliação. Que o mundo da paz possa comemorar algum acordo definitivo no Oriente Médio e que as palavras “Shalom” e “Salam” sejam realmente sinônimas de harmonia, convivência e civilidade no mundo do futuro.

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