Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > ‘CHARLIE HEBDO’: A FRANÇA NAS RUAS

Por quem os sinos dobram, cara-pálida?

Por Alberto Dines em 12/01/2015 na edição 832

Os sinos dobram pelos caídos em defesa do laicismo, contra a chantagem fundamentalista e a barbárie das guerras santas.

Quase quatro milhões de franceses foram no domingo (11/1) às ruas do país – num espetáculo emocionante pelas dimensões, pela serenidade e simplicidade – para se identificar com o projeto na qual se engajou o Charlie Hebdo nos últimos anos: “Penso, logo me manifesto”. Ou esperneio. Ou chuto o pau da barraca. Este é o mandamento elementar do cartesianismo jornalístico. O resto é diletantismo, conversa fiada, frivolidade.

Jornalistas resistem contra as forças que os oprimem diretamente e não dão trégua àqueles que rondam as redações para silenciá-los.

E quem ameaçava os “Charlies” massacrados na quarta-feira (7/1) – o governo francês, a liga neofascista europeia, o imperialismo ianque, a máfia russa, o narcotráfico internacional?

Não há o que discutir: as Kalashnikovs foram acionadas dezessete vezes entre quarta e sexta-feira nas ruas de Paris em nome do fanatismo e do fundamentalismo religioso.

Os “Charlies” franceses foram longe demais? Problema dos que não querem se incomodar, os não-me-importistas de sempre. Se no hemisfério democrático há jornalistas que recusam ser Charlie, lamentam a matança, mas denunciam as vítimas como incendiários, blasfemos e obscenos, é um direito que a democracia oferece aos que preferem ver o mundo em cima do muro.

Memória coletiva

Se a grande imprensa americana registrava as reações, porém não reproduzia as charges de Charlie Hebdo, não é prova de sua integridade nem excelência. É demonstração de tibieza e bom-mocismo hipócrita. Ressurgência do deletério “radical-chic”.

A república americana não é nem nunca foi laica. Deus está na moeda e no culto à Bíblia, imposto mesmo aos que rejeitam a sua sacralidade. Os porteiros das principais redações da república americana não têm coragem de apontar os desvãos teocráticos da sua sociedade. Que laicismo é este que obriga um muçulmano a proferir um juramento com um livro sagrado nas mãos que não é o seu?

Tudo bem: o Brasil é uma jovem democracia, não limita consciências nem constrange os direitos de manifestação. E por que na magnífica botucúndia nem todos os jornalistas querem ser Charlie? Simples: não querem contrariar a toda poderosa Opus Dei, tão próxima do patronato.

Alguém duvida de que uma eventual regulação da mídia manteria incólumes os cultos religiosos na TV aberta? Repararam na discrição com que nossa grande imprensa assumiu o seu charliesme laico?

Na histórica jornada de domingo (11), em logradouros parisienses como o Boulevard Voltaire milhares manifestaram-se a favor do laicismo e da tolerância, talvez sem lembrar que o filósofo iluminista designava o fanatismo religioso como “o Infame” e escreveu o delicioso Candide como panfleto contra a inquisição portuguesa – a al-Qaeda do século 18.

Americanos ou americanófilos não dão muita trela à Revolução Francesa, posterior à sua própria revolução (com a exceção de Rober Darnton, um dos mais importantes pesquisadores do período). Com isso passam ao largo de uma das suas demandas mais veementes: fim do poder e dos privilégios do clero. Além de ressuscitar a monarquia, a Restauração trouxe de volta o clericalismo que voltou a dividir a França cem anos depois por meio do vergonhoso “Affaire Dreyfus”, e inseminou as doutrinas da direita francesa até a capitulação ao nazismo, em 1940.

Intransigência na França não é defeito, é atributo. “Je suis Charlie” não é apenas uma casual defesa da liberdade da expressão: é um compromisso com a memória coletiva do primeiro país a separar com o necessário rigor e intransigência a Igreja (= religião) do Estado.

Relativismo

A dupla de canalhas que banhou de sangue a redação do “Charlie Hebdo” era bronca, estúpida, errou o endereço, atrapalhou-se. Mas acertou o dia da semana em que se realizava a reunião de pauta. E assim matou todos os que deveriam ser calados. Também o cúmplice acertou o dia em que o empório judaico recebe mais gente, uma sexta-feira, véspera do Shabat.

Pretender que eram pobres diabos, pés-de-chinelo, é outro sintoma do desconcerto relativista que o inclemente verão pode causar nas mentes mais lúcidas.

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