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POSTV, de pós-jornalistas para pós-telespectadores

Por Elizabeth Lorenzotti em 25/06/2013 na edição 752

Como diria Henfil, deu até no New York Times. “One group, called N.I.N.J.A., a Portuguese acronym for Independent Journalism and Action Narratives, has been circulating through the streets with smartphones, cameras and a generator held in a supermarket cart – a makeshift, roving production studio” (NYT, 20/6/2013, íntegra aqui).

N.I.N.J.A., sigla em português para Narrativas Independentes Jornalismo e Ação é o grupo responsável pela POSTV, sua mídia digital independente. E não nasceu agora, mas há um ano e meio, e está ancorada no movimento nacional Circuito Fora do Eixo. Nas manifestações que tomaram as ruas de várias capitais, ganhou maior visibilidade e chegou a picos de audiência de 120 mil espectadores. O que significa uma marca de 1,2 dos ibopes oficiais – e não é pouco, pois muitos programas da TV aberta não o atingem.

Nesses tempos fora do eixo e de paradigmas, talvez seja este o embrião da nova mídia do futuro que já é hoje – uma POSTV feita por pós-jornalistas, para pós-telespectadores.

Com seus smartphones e câmeras, eles protagonizam uma grande novidade na cobertura dessas manifestações e na alternativa à mídia tradicional. Segundo um dos ninjas, Bruno Torturra, trata-se de outra concepção de mídia. E sua diferença com a tradicional começa pela “honestidade, a ética, o posicionamento integrado dentro dos protestos e não lançando mão de analistas; sem drones, sem helicópteros, mas testemunhando. E a credibilidade pela não edição, a não mediação de interesses comerciais. A grande mídia teve e tem grande papel no tamanho da alienação política do país”.

“Tenho de ficar”

Mas o que é, e como é feita a POSTV? Na semana passada, no meio das manifestações, um garoto tuitava: “Não precisamos de mídia partidarista, temos celulares!”.

Síntese perfeita de novos tempos aos quais os jornalistas da mídia tradicional precisam ficar atentos. Enquanto a Globo ficava do alto de edifícios, sitiada, a mídia independente sempre esteve no meio das ruas nesses dias de rebelião. “Estamos aqui, do alto deste edifício”, diziam os repórteres globais. Mas quem quer ficar vendo manifestação do alto de edifícios?, eu me perguntei. E fui às redes, onde encontrei www.postv.orgpor meio de chamadas no Facebook, onde o N.I.N.J.A. tem uma página.

E vi, na noite/madrugada de terça-feira (18/6), a cobertura de Filipe Peçanha, 24 anos, comunicador da Casa Fora do Eixo já há alguns anos, documentando ao vivo, em São Paulo, durante horas e sem edição, os embates entre manifestantes e a tropa de choque da Polícia Militar, desde a Praça da Sé até a Avenida Paulista. “Antes de a polícia chegar, a manifestação era totalmente pacífica. Saímos por volta das 17 horas, demos a volta pelo Parque Dom Pedro, subimos de novo para a Sé, partimos para a Augusta. Em todo o trajeto que acompanhei, enquanto não houve polícia não houve tumulto. Daí voltamos porque soubemos dos incidentes na sede da Prefeitura. E voltamos para a Paulista, porque a tropa de choque foi para lá.”

Chegaram às 20 horas, não havia mais muitos manifestantes. Mas o painel da Copa do Mundo, da Fifa com Coca Cola, foi incendiado. Caíram muitas latinhas, um catador veio retirar e os manifestantes disseram: “Que bom, pelo menos alguém aproveita alguma coisa da Coca Cola”.

Estes relatos todos foram feitos pela POSTV. Quando chegou a polícia, manifestantes foram muito agredidos e um deles praticamente enforcado por meia dúzia de policiais. Filipe entrevistou dois rapazes de branco que ajudaram a apagar o fogo.

– Quem são vocês? Bombeiros?

– Não, nós somos protestantes.

– Protestantes? Da igreja?

– Não, viemos aqui por vontade própria protestar, mas somos contra o vandalismo.

“Depois”, conta Filipe, “entrevistei os dois de novo, sentados no meio fio. Um deles disse que tirar as latinhas do painel tudo bem, mas incendiar não, e que a PM estava de parabéns por ter acabado com aquilo.”

O repórter comentou: “Não, eu vi muita violência da PM, acho que você não viu o que eu vi”.

“Coloquei o meu ponto de vista”, diz Filipe.

Alguns criticam, via Twitter, e dizem que a cobertura não é plural. Responde Filipe: “Nós documentamos o que está acontecendo do ponto de vista de quem participa também. A Mídia Ninja se compreende como narrativa independente de jornalismo e ação, e essa ação é o ativismo, que nos coloca em movimento em tempo real, não só fazendo produção de conteúdo, mas também nos envolvendo com o processo. O Ninja está envolvido com as manifestações de rua. A gente estava dentro, junto com os manifestantes”.

Portanto trata-se de uma cobertura com lado. Mas quem não tem?

No meio das manifestações, eles dão voz a gente de todos os tipos e matizes, numa espécie de método socrático de entrevista. Como o rapaz que se dizia a favor do Movimento Passe Livre (MPL), mas contra partidos.

– E como você acha que deveriam dirigido o país?

– Ah, eu acho que quem devia dirigir é uma mulher de cabelos vermelhos que começou o movimento, não sei o nome dela.

– O país deveria ser dirigido por ela?

– É, eu acho. E não devia ter partidos.

– Mas o MPL não é contra partidos, você não apoia o movimento?

– Apoio, mas não nessa parte.

Um certo major Felix, durante os conflitos na Paulista, também foi entrevistado. Depois de muito tempo, deu este nome.

– Por que o senhor não está com a identificação na farda?

– (Sem resposta)

– Quem é seu comandante?

– Não sei.

– O senhor é comandando por ele e não sabe o nome dele?

Outra entrevista, feita em Belo Horizonte, palco de repressão violentíssima da Força Nacional em dia de jogo, no sábado (22/6), houve outra entrevista parecida feita por Gian Martins. Transmiti a íntegra do Facebook, onde muitos de nós sabemos que há censura e a sentimos, mas foi deletada, junto com vários outros posts referentes às manifestações. Mais ou menos assim, era uma espécie de coletiva de um coronel no meio da rua:

POSTV- A proibição de manifestações em capitais onde há Copa, imposta pela Fifa, na cria um Estado de exceção?

Coronel – Não posso opinar, mas quando você elege um representante político, está dando a ele um cheque em branco…

Depois de algum tempo a POSTV se retira e comenta: “Jornalistas são muito redundantes em suas perguntas, só querem saber quantos feridos.

Repórter do Hoje em Dia: “Que pergunta não foi feita?”

POSTV quer que conversem, mas o colega vai embora.

“É uma pena”, diz ele, “poderia ser um bom debate.”

Em certo momento a POSTV, junto a várias pessoas, leva gás lacrimogêneo e ninguém tem vinagre. Um fogo de artifício desencadeou o gás e muitas cacetadas.

“Estou com medo”, diz o repórter da POSTV na Praça Sete, que já estava havia doze horas trabalhando direto.

Já em Salvador, um colaborador que se juntou à POSTV no sábado (22/6), também dia de jogo de Copa e de manifestações, e de repressão violenta, que conquistou 8 mil pós-espectadores, exclamava: “Quero ver agora quem diz que baiano é preguiçoso”, enquanto corria esbaforido da polícia pelas ruas de Salvador. Atingido por gás pimenta, foi se recuperar no banheiro do Shopping Iguatemi, teve de tirar a camiseta e lavar, porque “ardia como churrasquinho”.

“Eu não vou embora, eu tenho de ficar” ele dizia. Em outro momento, comentou que um policial pediu para diminuírem o gás. Nem eles estavam aguentando.

Colaboradores no Brasil e no exterior

Pós-repórteres “precisam ter disposição e também coragem de ficar no meio dos manifestantes, questionar a polícia e os próprios manifestantes”, diz Bruno Torturra.

O bravo pós-repórter de Salvador é novíssimo membro da mídia, ofereceu seus serviços em cima da hora. Assim tem acontecido na POSTV por esses dias. Muita gente chegando, de todo o país e do exterior – onde várias transmissões são feitas na Europa, com brasileiros se solidarizando ao movimento.

No domingo (23/6), a página do NI.N.J.A. no Facebook postou uma convocação de correspondentes para ajudar na cobertura em tempo real dos protestos:

“Fotógrafos, repórteres, cinegrafistas, cidadãos a fim de entrar em nossas tropas, escrevam para midianinja@gmail.com dizendo de onde são e como podem colaborar. Estamos começando a cadastrar gente do país todo. Primeiro passo na montagem de uma rede nacional de jornalismo independente antes do lançamento do nosso site. Quem anima?”

Em 30 minutos já havia 125 compartilhamentos. No dia 24, até às 19 horas, havia 735 “curtir” e 413 compartilhamentos. Gente oferecendo material de todos os cantos, gente perguntando o que é preciso, muita gente.

Segundo Bruno Torturra, é impossível dizer o número de colaboradores porque, devido ao caráter de rede, há pessoas que se dispõem a ser um ninja por um dia, ou por horas. Na quinta-feira (20/6), o N.I.N.J.A. cobriu 50 cidades. Em São Paulo, o núcleo é de seis a oito pessoas, com idade média de 22 anos e nenhum com formação jornalística.

A cobertura via internet chama-se streaming. Da Wikipédia:

Streaming, fluxo de mídia, é uma forma de distribuir informação multimídianuma redeatravés de pacotes. É frequentemente utilizada para distribuir conteúdo multimédia através da Internet. Em streaming, as informações multimédia não são, usualmente, arquivadas pelo usuário que está recebendo o stream (a não ser a arqueação temporária no cache do sistema ou que o usuário ativamente faça a gravação dos dados) – a mídia é reproduzida à medida que chega ao usuário, desde que a sua largura de banda seja suficiente para reproduzir os conteúdos em tempo real. Isso permite que um usuário reproduza conteúdos protegidos por direitos de autor, na Internet, sem a violação desses direitos, similar ao rádio ou televisão aberta. A informação pode ser transmitida em diversas arquiteturas, como na forma Multicast IP ou Broadcast.”

A POSTV utiliza o TwitCasting, mas é possível usar também o Android, entre outras plataformas. E o trabalho é completamente copyleft. Em todas as praças, eles explicam como transmitem e convocam as pessoas a também serem o que chamam de “midialivristas”. Com um celular, uma banda 3G e um laptop na mochila para recarregar. A cada meia hora saem do ar, recarregam e voltam em minutos. Claro que perdem espectadores; os insistentes voltam, outros chegam.

Há dificuldades de sinal quando há muita gente com celular, há raros locais com wi-fi. “Fazemos cobertura de rua faz tempo, criando tecnologia há um ano e meio”, conta Bruno Torturra. E não é só streaming. A mídia tem fotógrafos que mandam da câmera para o fone, do fone para a rede, e a cobertura é instantânea na página do Facebook. “A gente faz o que dá, mas vai até o fim. Se não tem 3G, temos alguém com carro, que leva o cartão do fotógrafo até onde encontra internet e volta”.

Liberdade de expressão e força da rede

O projeto começou em junho de 2011, após o sucesso das transmissões ao vivo das Marchas da Maconha e da Liberdade, em São Paulo, Depois, foram lançados alguns programas, como o Supremo Tribunal Liberal (Claudio Prado), o Segunda Dose (Bruno Torturra) e Desculpe a Nossa Falha (Lino Bocchini). E começaram as transmissões de festivais independentes de música em todo o país.

Eles explicam que a POSTV, na prática, reinventa e potencializa a tecnologia do streaming, baseando-se em dois pontos centrais: “Liberdade de expressão absoluta (aproveitando que não temos anunciantes nem padrinhos) e a força da nossa rede, que é grande e divulga forte todos os programas”.

Os formatos também são livres: programas de debate, transmissão de shows, sofá armado no meio da rua com o apresentador entrevistando os passantes. E como estão na internet sempre ao vivo, a interatividade é outro ponto responsável pelo sucesso da iniciativa. Quem está assistindo manda comentários e perguntas por Twitter, e-mail e até mesmo entra por Skype e participa do papo. Já deram vários furos, como as imagens da prisão do rapper Emicida durante um show em Belo Horizonte. E também foi o veículo escolhido pelo ex-ministro Franklin Martins para sua primeira entrevista após deixar o governo.

E o financiamento? Quem sustenta?

A rede Ninja faz parte do Circuito Fora do Eixo; em São Paulo tem base em uma das Casas, no Cambuci. Circuito Fora do Eixo é uma rede de trabalhos concebida por produtores culturais das regiões centro-oeste, norte e sul no fim de 2005. Começou com uma parceria entre produtores das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR) que queriam estimular a circulação de bandas, o intercâmbio de tecnologia de produção e o escoamento de produtos nesta rota desde então batizada de Circuito Fora do Eixo. 

Hoje o circuito está em 25 das 27 unidades federativas do Brasil. O sul, o centro-oeste, o sudeste e o norte são regiões totalmente associadas, já que contam com todos os estados inclusos. Há 72 pontos espalhados pelo país, que “gostam de produzir eventos culturais, debater comunicação colaborativa, pensar sustentabilidade, pensar políticas públicas da cultura”.

Dezesseis gestores de diferentes pontos do Brasil migraram para São Paulo, formando a Casa Fora do Eixo SP, nos limites da Liberdade. “Mas basicamente, nós experimentamos, compartilhamos e aprimoramos tecnologias livres de se produzir cultura”, dizem em seu site.

Atualmente a sustentabilidade da POSTV se dá via Circuito Fora do Eixo, mas continuam as discussões sobre crowdfunding – ou financiamento coletivo, que consiste na obtenção de capital para iniciativas de interesse coletivo por meio da agregação de múltiplas fontes de financiamento, em geral pessoas físicas interessadas nos projetos – e toda e qualquer ideia de autossustentabilidade.

Aliás, na terça-feira (25/6) foi convocada uma discussão aberta na Praça Roosevelt, em São Paulo, atual “Praça Rosa”, para “discutir as saídas para garantir a comunicação como um direito e não como um simples negócio comercial”.

Esta é a integra da convocação

“A cobertura das manifestações mostrou que a velha mídia está mais caduca do que nunca, mas que ainda tem um grande poder. A mídia tradicional no Brasil é concentrada, nada plural e nada diversa. Muitas vezes ela se comporta como um partido político, tentando dar a pauta e organizar os setores mais conservadores. Enquanto isso, a internet tem sido o espaço arejado de diálogo e organização, mas o acesso à rede ainda é limitado a 40% das residências, com um serviço péssimo das empresas de telecomunicações, que ainda querem acabar com a neutralidade da rede. As grandes corporações que atuam na rede faturam bilhões sobre a violação de privacidade dos usuários, e vários governos usam essas informações para controlar os cidadãos. Venha discutir as saídas para garantir a comunicação como um direito e não como um simples negócio comercial.

Censura no Facebook

No sábado (22/6), amigos denunciaram no Facebook o bloqueio da página do N.I.N.J.A.

“Fomos denunciados por conteúdo impróprio ou pornográfico. Estão ‘analisando o caso’. Mas não tivemos qualquer argumento detalhado ou chance de defesa escrita. Acreditamos que pode ter sido fruto de denúncias de usuários contra fotos da manifestação anti-cura gay, anti-Feliciano de ontem. Fotos em que não havia qualquer pornografia, apenas material de afeto e felicidade explícita. Pedimos que compartilhem e pressionem o Facebook a recolocá-la no ar. Infelizmente, por enquanto, essa é nossa principal plataforma de divulgação da nossa dedicada cobertura independente dos protestos no Brasil.”

A página foi desbloqueada depois de cerca de quatro horas. O mesmo não aconteceu com a do jornal Brasil de Fato, bloqueada desde o dia 16 de junho. Os jornalistas não conseguem postar a não ser com um programa especial (ver aqui). [Nota do OI: O bloqueio ao Brasil de Fato foi suspenso em 22/6.]

Portanto, não se trata de paranoia, e existem páginas em todo o mundo denunciando a censura no Facebook. No ano passado, jornalistas, escritores, poetas e artistas protagonizaram um “Dia contra a Censura ao Nu no Facebook”. O robô censor de Mark Zuckerberg atira a esmo e censura qualquer nu, seja de Michelangelo, Leonardo, os grandes clássicos e/ou menos famosos. Nem Lady Godiva escapou. Além de mães amamentando, que são alvos planetários da censura facebookiana. O protesto consistiu em publicar nus variadíssimos e foi parar nos jornais.

Instalou-se a discussão sobre quem censura. Robôs? Censores contratados? Denúncias de anônimos? Muitos concluíram que se trata de todas as alternativas, em vigor até hoje. O portal UOL divulgou texto, no ano passado, afirmando a existência de censores contratados em todo o mundo por um dólar a hora de trabalho. Além de imagens, textos também são censurados. O que se estranha é que, por mais que denúncias sejam feitas, páginas como “Golpe Militar 2014” continuem no ar, assim como páginas neonazistas e propagadoras de violência (ver aqui).

O poeta, ensaísta e tradutor Claudio Willer deste então compõe um dossiê sobre censura nesta rede, que até o dia 24 de junho contabilizava 61 relatos (ver aqui).

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Elizabeth Lorenzotti é escritora e jornalista, autora de Suplemento Literário – Que Falta ele Faz (ensaio), Tinhorão, o Legendário (biografia) e As Dez Mil Coisas (poesia)

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