Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Presidenciáveis no debate Folha/UOL

Por Celio Levyman em 24/08/2010 na edição 604

Eu estive lá. Presenciei o debate entre os presidenciáveis promovido em 18/08 pela Folha de S.Paulo e pelo UOL no teatro da PUC de São Paulo, o Tuca. Considerado e alardeado como o primeiro debate entre candidatos tendo como veículo a internet, acho interessante compartilhar algumas opiniões.


O debate foi entre os candidatos Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva e dividido em seis blocos. Houve perguntas de candidatos para candidatos, de internautas para candidatos (que previamente enviaram vídeos de 20 segundos com suas questões, selecionados pelos organizadores) e um bloco final em que três jornalistas da casa faziam uma pergunta para cada candidato.


Antes de mais nada, devo ressaltar que foi muito bem organizado. Estive na sabatina com presidenciáveis e candidatos ao governo de São Paulo em 2002, forma embrionária no teatro da Folha. O atual foi no Tuca, que embora tenha capacidade para 700 pessoas, os organizadores alertaram que os candidatos solicitaram vagas para seus convidados e 150 assinantes da Folha e/ou UOL, sorteados. Portanto, sobraram lugares. Ao contrário de 2002, houve organização, mas rigidez também na segurança: crachás previamente confeccionados, duas solicitações de apresentação da identidade, detector de metais, revista pessoal. Aí até aconteceu episódio curioso: um dos primeiros políticos a chegar foi Paulo Maluf e, como todas as demais pessoas, também teve que ser revistado. Difícil não rir da situação, ainda mais ouvindo as inúmeras piadas feitas em volta relativas ao fato.


Limitação imposta pelos candidatos deixou local semi-vazio


A Folha/UOL realmente mostrou ser a dona do evento: além dos candidatos, do mediador (Fernando Rodrigues) e do staff, apenas os convidados dos partidos e os assinantes escolhidos puderam entrar. Imprensa escrita também apenas nos cinco primeiros blocos, proibido o uso de câmeras. No último bloco, as porteiras foram abertas e a manada de fotógrafos e cinegrafistas entrou com tudo para gravar o final e tentar entrevistar pessoalmente alguém. Seja como for, creio que é direito de quem organiza trabalhar dessa maneira.


Interessante foi o dado de que o debate foi transmitido ao vivo pela internet,com sinal aberto para quem quisesse reproduzir o mesmo. Segundo as informações prestadas pelo mediador,mais de 80 sites e blogs estavam reproduzindo online o evento, além do próprio portal UOL,Twitter etc.


Entra aí a primeira crítica: a democrática transmissão pela internet, as vantagens da mesma. Sem dúvida, é algo bom. Mas a tão alardeada interatividade do método deixou a desejar: foram seis vídeos de internautas selecionados apenas, havendo a resposta do candidato, sem réplica ou tréplica. Nas sabatinas anteriores, as perguntas eram feitas por escrito e selecionadas na hora, mas também não havia réplica. Esse pormenor precisa ser aperfeiçoado no futuro, pois a internet assim o permite e os candidatos passam a poder ter um diálogo direto e menos artificial com o eleitor. Desse modo, como funcionou o debate no Tuca, na prática não foi muito diferente dos debates tradicionais da TV.


A limitação de participantes também é algo de se notar. O teatro da Folha no shopping Higienópolis é pequeno e a opção pelo Tuca, bem maior, foi lógica. Mas a limitação imposta pelos candidatos deixou semi-vazio o local do evento. A bem da verdade, acho que eu e alguns outros gatos pingados éramos assinantes ‘puro sangue’. O restante era maciçamente composto pelos convidados dos partidos, o staff e jornalistas. Outro detalhe em evidência: metade das fileiras do teatro estavam reservadas aos partidos e os assinantes e demais órgãos de imprensa sem imagem ficavam na metade de trás, impedidos de ir à frente por um batalhão de seguranças. Qualquer tentativa de conversar, nem com um dos candidatos a presidente, mas mesmo com outros políticos, estava obstaculizada. Quem estava na posição de assinante ou jornalista que não fosse da casa ficou como mero espectador presencial – talvez fosse até melhor ter assistido pela internet.


Perguntas bem formuladas


O debate em si foi, como de hábito, ressaltando-se uma agressividade maior do Serra e uma Marina mais produzida, falando sobre todos os assuntos e pouco sobre meio-ambiente, o que me pareceu um avanço.


Claro, houve um brinde: exemplares gratuitos da Folha para quem quisesse. Mas como os escolhidos eram assinantes, isso também se relativizou…


Algumas considerações das fundamentais.


1) O debate em si: em tudo semelhante aos anteriores. Observei uma Dilma um pouco mais centrada, tentando ser menos agressiva, ao passo que Serra, embora tentando sorrrir sempre que possível, alfinetava Dilma sempre que possível. E, como já comentei, Marina Silva com novo look, abordando vários assuntos, procurando se diferenciar.


2) Dilma Rousseff centrou-se nas manifestações e respostas esperadas, sua vinculação com Lula e o governo presente, nada de muito especial. José Serra centrou-se muito nas microquestões do ensino técnico e da saúde, com nanotemas associados a estes – não me pareceu um caminho bom para quem almeja a presidência, talvez mais uma prefeitura de cidade pequena. E Marina postou-se como real alternativa, embora nitidamente sem chances de ir a um segundo turno, salvo tsunamis inesperados.


3) Perguntas dos internautas foram bem selecionadas, respondidas de acordo com o perfil esperado do candidato, mas ficou a dever a interatividade e o meio pode ser – e espero que seja – muito melhor explorado.


4) Perguntas dos jornalistas bem formuladas para Marina e Serra. Na questão particular de Marina Silva, a jornalista Renata Lo Prete fez a seguinte questão: em um eventual segundo turno entre Serra e Dilma, se o presidente Lula solicitar pessoalmente seu apoio a Dilma, ela o fará?A resposta foi baseada em que ela não tem nenhum partido de apoio, apenas é o PV e que segundo turno é segundo turno, o resto se vê depois. Cada um interprete à sua maneira, mas considerei a única resposta possível.


Ficou a dever em termos de interatividade


Ficou um certo amargo na boca em relação ao jornalista que questionou Dilma. Sua pergunta foi sobre saúde, mas não saúde pública, como ele colocou, e sim, a saúde da candidata. Como ela está?Faz controles médicos? Está curada?


Dilma teve um diagnóstico de linfoma, foi tratada e e informa estar curada. Em outros países, nos EUA, por exemplo, essa questão sempre é levantada – o presidente chegará ao fim do mandato?Talvez eles tenham alguns traumas, seja por assassinatos (Lincoln, Kennedy), seja pela poliomielite complicada que vitimou Franklin D. Roosevelt na metade de seu quarto mandato, em plena Segunda Guerra. Quer me parecer que no Brasil as pessoas não pensam bem assim; temos exemplos recentes, como Mário Covas e José Alencar. Percebi que não fui o único a pensar assim, pois eu estava cercado por jornalistas dos mais variados orgãos de imprensa, inclusive um star boy da Globo, e houve até um início de vaia quando foi formulada a questão. Dilma respondeu bem: que está curada, que faz acompanhamento médico regular, que segue os protocolos, que é preciso desestigmatizar o câncer e assim por diante. Talvez tenha havido um tropeço da Folha aí.


Como conclusão desse observador incidental, como debate em si não diferiu muito dos outros. A grande novidade, contudo, que era o uso da internet, embora tenha democratizado a audiência com sinal livre para quem quisesse, ficou muito a dever em termos de interatividade e seria aí o grande diferencial nesse evento Folha-UOL.


 


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Médico, mestre em Neurologia pela Unifesp

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