Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 8 E 9/04

Primeira Leitura

11/04/2006 na edição 376


CRISE POLÍTICA
Reinaldo Azevedo


Inspirado em Eliane Cantanhêde e Clóvis Rossi


‘Duas colunas de jornal nesta quinta-feira chamaram a minha atenção, ambas publicadas na Folha de S.Paulo. Uma é de autoria de Eliane Cantanhêde, e outra, de Clóvis Rossi. Decidi comentá-las, uma homenagem que faço à inteligência e ao tirocínio de ambos. Sempre aprendo muito lendo o que eles escrevem.


Começo com Cantanhêde. Segundo entendi (clique aqui para ler íntegra do seu texto), a patrulha petista anda pegando no seu pé para que ela desça o sarrafo em Alckmin. Petistas são assim mesmo: eles não se conformam em ler o pensamento de um analista, seja ele reacionário, conservador, porra-louca, neoliberal ou neokeynesiano. Eles só o aceitam no mundo dos vivos se você escrever o que eles querem ler. E a analista política da Folha se deixa patrulhar lindamente. E até se excede.


Desafiada a malhar Alckmin, ela cumpriu a tarefa com uma violência que raramente vi em seus artigos: fez suposições, baseada em chute e preconceito, de como seria o tucano no poder e atribuiu a um grupo religioso, ao qual ele não pertence, práticas que, até onde sei (se ela sabe mais, que o diga), são alheias ao mesmo – ainda que não fossem, a referência não seria menos impertinente.


Leiam o que ela escreve: ‘E o Opus Dei? Com uma pitada de marketing, Alckmin transformou um insosso ‘picolé de chuchu’ em algo bastante digerível. Mas é bem melhor a imagem do barrigão de Lula correndo atrás da bola na Granja do Torto do que imaginar seu adversário ajoelhado em cacos de vidro e açoitando as próprias costas pelas madrugadas adentro.’


É claro que se trata de uma questão de gosto. Entre as duas ‘imaginações’ propostas pela jornalista, eu, por exemplo, ficaria com o flagelo, nem que fosse o meu próprio, porque ainda vislumbro uma nesga de busca da ascese. Ademais, o ‘barrigão atrás da bola’ não chega a ser uma suposição, é um fato. E, como diria Jefferson, o Roberto, ‘provoca em mim os piores instintos’ (quantos lerão isso com humor? O mundo anda bronco!). Mas este não é o maior problema.


Se Alckmin, Lula ou qualquer outro político cultivassem, sei lá, alguma crença animista africana, um orientalismo qualquer, nem Cantanhêde nem ninguém ousariam se referir com tal desrespeito à sua crença. Até porque o Manual de Redação da Folha, se não me engano, o proíbe. E Cantanhêde é uma moça disciplinada. A coisa no jornal é tão severa que, até outro dia, não se usava ‘Maomé’ porque estava lá escrito que o termo era desrespeitoso. Não era. A questão foi parar até na coluna do ombudsman.


Mas, com o Opus Dei, tudo bem. Trata-se apenas de uma prelazia católica – à qual, reitero, Alckmin não pertence. Atribuir-lhe esquisitices ou práticas que chocam o senso comum é um sinal de jornalismo combativo e de inteligência altiva. Ai do coitado que fizer uma piada sobre dar ao santo frango com farofa numa encruzilhada. Esta frase já pode ser lida como evidência de como me refiro a religiões africanas com desprezo… Quando se trata de católicos, vale até chutar a santa. Se eu disser, então, que a teologia católica não é apenas diferente, mas filosoficamente superior a qualquer outra, mereço é ser apedrejado.


Nem eu nem Cantanhêde sabemos se o ex-governador, na intimidade de sua crença, pratica o que ela diz. Se o fizesse, nem eu nem ela nem ninguém teríamos nada com isso. Não, ao menos, até o momento em que este hipotético governante tentasse impor à população o autoflagelo como uma obrigação. Ela escreva o que bem entender – porque faço o mesmo -, mas observo aqui que se excedeu na brutalidade.


Cacos de vidro e açoite são apenas caricaturas para se referir ao uso do cilício, que alguns membros do Opus Dei adotam. E daí? Ainda que fosse uma coisa, em si, ruim. Estariam seus praticantes, Eliane, fazendo algum mal que não fosse apenas a si mesmos? Pascal, além de ser um gênio, era um católico jansenista, doutrina depois considerada herética pela Igreja. Kierkegaard também rezava. Ignoro se sobre cacos. Posso garantir que o pensamento e a obra de ambos não eram menos interessantes do que os seus. Tratou-se uma convicção religiosa pacífica, intimista, silenciosa, legalista, como se fosse uma agressão pública, uma subversão de valores.


Quanto ao resto, vejam lá no texto da autora. Caso Alckmin seja eleito, ela infere que a estrela do PT sairá do jardim para dar lugar a um tucano; que também a cadelinha dos Alckmin (eles têm uma?) iria passear de carro oficial e que os vestidos que Lu Alckmin ganhou de um costureiro, no fim das contas, mostram que todo mundo é mesmo igual neste vale de lágrimas.


E é nesse ponto que Eliane, depois de ter sido preconceituosa com uma doutrina religiosa; depois de ter tratado com desrespeito ímpar convicções que nada têm a ver com a vida pública, presta, querendo ou não, um servicinho ao PT – e tudo para mostrar que ela não tem lado. Respondam: a quem interessa, hoje, a máxima de que ‘todos são iguais’? Mais: repercutindo a ladainha dos petistas, diz que ‘Lula está sendo soterrado por três CPIs, e Alckmin, ao contrário, soterrou 69 CPIs em São Paulo’, para concluir, ironicamente: ‘A diferença é ‘estrutural’.


Está tudo feito, e as conclusões, todas tiradas. Parece que um governo recorrer à maioria que tem para impedir CPIs é um crime. Não é. Lula mesmo bombardeou a dos Correios e a dos Bingos. É que foi malsucedido. Ademais, se o Apedeuta está sendo soterrado, o que é duvidoso, não é pelas oposições, mas por aqueles que decidiram invadir o sigilo de um ‘simples caseiro’: gente da sua cozinha, seus ‘irmãos’, a quem deu ‘cheque em branco’.


Quanto às acusações que envolvem a Nossa Caixa, agências de publicidade etc… Bem, não estou aqui pedindo que Eliane acredite, por profissão de fé, nas palavras de Luiz Gonzáles, sócio da Lua Branca, uma das agências acusadas de participar de um ‘acerto’ para vencer licitações em São Paulo. Mas fato é fato. Reproduzo as palavras dele: ‘No ano de 2005, a Lua Branca participou de nove licitações de propaganda no âmbito do governo do Estado de São Paulo. Perdeu oito e ganhou uma. Ganhamos limpo uma e perdemos, limpo, oito. Qualquer insinuação em contrário é irresponsável e não condiz com os fatos’. É isso: ou os adversários do petismo perdem licitações por 9 a zero ou, é claro, tudo será sempre suspeito.


Acho que Eliane não precisa de nada disso para fazer análises isentas e deveria se sentir desobrigada de prestar satisfações à patrulha. Mas isso é com ela.


E agora Rossi


Em seu texto (clique aqui), Rossi dá a entender que alguns leitores o acusam de ‘uma suposta defesa e simpatia por Lula e pelo PT até que chegassem ao governo federal’. Também acho que houve. Não é acusação. Não é crime. Eu, por exemplo, defendia José Serra para a Presidência. Agora defendo Geraldo Alckmin. Não escondo nem tento fazer com que o leitor tenha outra impressão. Fato é fato.


O jornalismo é majoritariamente petista ainda hoje. Mesmo os que não viam no partido o caminho da redenção dos oprimidos nutriam por Lula uma admiração meio basbaque e complacente, como a exorcizar uma culpa. Parecia que o homem tinha de ser protegido de qualquer outra abordagem que não tivesse no centro a sua origem social.


E é o próprio Rossi quem deixa isso claro. Escreve ele: ‘Na peculiar democracia brasileira, permitia-se a Lula e ao PT que se candidatassem desde que não ameaçassem ganhar. Se houvesse essa possibilidade, partia-se para o terrorismo, como o de Mário Amato, então presidente da Fiesp, de dizer que, se Lula ganhasse (em 1989), 600 mil empresários abandonariam o país’.


É, entendo, um jeito vesgo de contar a história. Quem ‘permitia’ ou ‘não permitia’ o quê? Lula foi candidato à Presidência quatro vezes. Ninguém o impediu. A sua primeira candidatura, diga-se, só foi possível porque, bem antes, nas sombras, Golbery do Couto e Silva havia operado para que se tornasse o líder daquele tipo útil de oposição.


A predição de Mário Amato só não se cumpriu porque, evidentemente, o PT não chegou lá. Mas e se chegasse e se levasse a sério? Dos males, o menor: eram uns picaretas. Perigosos, mas picaretas. Em 1989, o partido se dizia socialista (levou essa piada até 2003) e se negava a fazer alianças. Recusou o apoio de Ulysses Guimarães no segundo turno. Ulysses não servia à ‘moral’ daquela gente! Não servia mesmo! Quem fazia terrorismo era o PT, não Amato.


Rossi escreve mais: ‘Houve muitos outros episódios que poderiam, de fato, ser confundidos como defesa da vitória de Lula, e não apenas de seu direito de concorrer e vencer, do que decorria o patrulhamento. É do jogo da vida, não me tira o sono’. Em primeiro lugar, ninguém deve desejar que Rossi perca o sono. Eu prefiro que ele durma. Em segundo, quem tem arquivo tem história. Houve defesa, sim. E não era confusão. E isso não é doloso.


Eu sempre achei que Lula tinha o direito de se candidatar e sempre torci para que perdesse. Não porque um ‘operário’ não possa isso ou aquilo. Mas porque a muitos sempre pareceu claro que essa era uma falsa questão. Tentava-se esconder o óbvio: ele não tinha projeto, programa, noção. E o que se vê aí prova que não. Rossi faz essa digressão num texto intitulado ‘Viva Itamar’ e comenta a suposta candidatura do mineiro (ou quase) à Presidência: ‘Como é ex-presidente, como o lançamento é meio exótico, rompeu o monopólio do noticiário exercido pela dupla Luiz Inácio Lula da Silva/Geraldo Alckmin, o que é saudável e necessário. Falta, é verdade, que o rompimento se dê também na TV’.


Bom, aquele monopólio que aponta, suponho, não é obra criada nem por Lula nem por Alckmin, mas pelos fatos. Não sei como nem por quê, no texto de Rossi, o ‘exótico’ acaba se combinando com o ‘saudável’ e com o ‘necessário’. O que é saudável? Que se tenha mais um candidato? Que esse candidato seja Itamar? Que se tenha mais uma fonte geradora de notícia? O que ele quis dizer? Antes três do que dois? Que Itamar é dotado de qualidades que o habilitam a comandar o país hoje? Que o jornalismo está muito chato e agora vai ficar bacana?


Mais adiante, Rossi lamenta que se dê pouco espaço, por exemplo, a Heloísa Helena (PSOL-AL), ‘que passa a ser a amaldiçoada de turno, no lugar de Lula, rendido ao convencionalismo’. Ai, ai. A senadora me parece irrelevante até para ser amaldiçoada. Estaria Rossi com saudades de Lula, daquele outro, o da mitologia do jornalismo?


Dia desses debati com um figurão (?!) do PSOL. Ele quer porque quer socializar todos os meios de produção e diz que seu partido é contra a propriedade privada. Eu quis saber como ele pretende extingui-la se chegar ao poder. Vai ser no papo ou na bala? Daremos tudo de mão beijada ou ensangüentada? Ele não respondeu e me acusou de… ‘terrorismo’! Entenderam? O cara diz que vai tungar a propriedade alheia, eu só quero saber como ele vai fazê-lo e, por isso, sou terrorista. Bom amigo, sugeri a ele que ficasse longe do meu apartamento, das minhas cachorras e da minha tartaruga aquática. Tudo meu! Se ele tentar tomá-los, dispararei uma saraivada de substantivos, adjetivos e advérbios contra ele…


Não sei se a Folha vai expressar em suas páginas o inconformismo de Rossi e começar a dar a HH e a Itamar o mesmo espaço que concede a Lula e Alckmin. E, claro, como somos todos contra as mais variadas formas de terrorismo e preconceito, espero que Doutor Enéas também participe da reforma agrária jornalística.


Alguém tem de defender o nióbio.’




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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.


Folha de S. Paulo – 1


Folha de S. Paulo – 2


O Estado de S. Paulo – 1


O Estado de S. Paulo – 2


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