Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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JORNAL DE DEBATES >

Protérvias e contumélias

Por José Inácio Werneck, de Bristol (EUA) em 25/03/2008 na edição 478

Estou na expectativa para descobrir o que o New York Times vai fazer com o aleive de seu colunista neocon, William Kristol. Tal cavalheiro foi contratado por um ano, em meio a grande controvérsia, porque o executive editor, Bill Keller, achou que o órgão necessitava de mais uma voz à direita em sua op-ed page, além da de David Brooks.

A idéia parece ser de que Kristol ocuparia a lacuna reacionária deixada (?) por William Safire, ex-speech writer de Richard Nixon. Algo como o extremamente conservador talk show host Rush Limbaugh procurou fazer ao iniciar sua carreira de (mau) imitador de William F. Buckley Jr., que tinha na televisão o programa Firing Line e morreu há pouco.

Mas nem William Kristol chega aos pés de William Safire nem Rush Limbaugh pode ser comparado a Buckley. Tanto William Safire é um estilista brilhante (ele mantém ainda uma coluna semanal sobre linguagem no New York Times Magazine e escreve uma vez por ano no jornal uma coluna de previsões, geralmente erradas, para os 12 meses seguintes) quanto William F. Buckley Jr., entusiasta de palavras sesquipedais, o foi.

Definições zoológicas

Kristol, fundador e editor do The Weekly Standard, defendeu ardentemente a invasão do Iraque, argumentando que Saddam Hussein tinha armas de destruição massa. Com a mentira desmascarada, passou a alegar que a guerra ainda assim é um bom negócio. Talvez seja para ele.

Na segunda-feira (17/3), William Kristol procurou demolir a chamada ‘geração Obama’ e saiu-se com a seguinte frase:

‘Ao contrário do que Barack Obama garante, sabe-se agora que ele estava sentado nos bancos de sua igreja em Chicago, a Trinity United Church of Christ, no dia 22 de julho de 2007, quando seu pastor, o reverendo Jeremiah Wright, culpou a, em suas palavras, arrogância dos Estados Unidos da América Branca pelo sofrimento do mundo, especialmente a opressão da raça negra’.

Mas, ao contrário do ‘ao contrário’ de Kristol, o que está comprovado é que naquele dia Obama estava em Miami, a milhares de quilômetros de distância. William Kristol irresponsavelmente copiou, sem checar, o que leu no blog direitista Newsmax.

Quando vozes se levantaram em protesto na redação, no domingo, Bill Keller mesmo assim deixou a coluna sair e só depois mandou colocar no alto, na edição online, uma nota lamentando o ‘erro’. Mas o jornal-papel saiu sem correção. Vão esperar a próxima coluna de William Kristol, que só sai uma vez por semana? Clark Hoyt, o public editor, vai dizer alguma coisa no domingo?

Depois de pintar Obama como um terrorista muçulmano, Kristol agora pretende descrevê-lo ainda como terrorista, mas cristão. Uma tentativa canhestra, que o deixa longe da verve e da inteligência de Safire. Este era mui justamente apontado como um falcão. No terreno das definições zoológicas, Kristol enquadra-se mais na categoria de quadrúpedes.

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Jornalista

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