Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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JORNAL DE DEBATES > OI NA TV

Protesto contra o programa

Por Sami Armed Isbelle em 27/08/2010 na edição 604

Aos senhores editores e redatores do programa Observatório da Imprensa.


Fiquei estarrecido ao assistir a edição de ontem, dia 24/08, do programa Observatório da Imprensa, razão pela qual desejo demonstrar textualmente a minha indignação. Antes de mais nada, porém, gostaria de salientar que sempre tive muito respeito pelo OI, e por conta disso aceitei prontamente o convite para comentar o caso da iraniana Sakineh Ashtiani. E somente o fiz por ser um conceituado jornalístico da TV Brasil, pois sabia que se desse alguma declaração para certos veículos provavelmente a minha fala seria manipulada.


Mas, para minha surpresa e grande decepção, observei incrédulo o apresentador e editor do programa, Sr. Alberto Dines, ao tentar justificar a ausência de um representante muçulmano na mesa de debate – o que se fazia mais do que necessário, diante do tema em questão –, dizer de forma debochada e mentirosa que havia me convidado a participar de tal debate, e que eu recusei devido ao jejum do mês de Ramadan.


Em nenhum momento fui convidado por quem quer que fosse a participar desta mesa de debate. Apenas fui chamado para dar uma opinião acerca do caso da iraniana, acusada de adultério e participação no assassinato de seu ex-marido, o que foi feito no dia anterior (23/08) às 14h30m. Se de fato eu tivesse sido convidado certamente eu iria ao debate, uma vez que o nosso desjejum acontece às 17h40m, e à noite eu estaria disponível para participar normalmente do programa.


A ausência de um representante muçulmano nesta mesa só permitiu que pessoas sem conhecimento algum do Islam emitissem opiniões como catedráticos no assunto, cometendo erros grosseiros sem serem questionados ou corrigidos. Além disso, o Sr. Alberto Dines, contrariando o espírito jornalístico da imparcialidade, ainda mais em um programa como esse, que pretende fazer uma crítica à própria imprensa escutando as diferentes partes, tentou de forma clara induzir as respostas dos debatedores ao seu ponto de vista, o qual deixava claro através de seus comentários irônicos quanto à minha fala. Isso aconteceu pelo menos duas vezes. Primeiro em relação ao que eu disse sobre as informações que a imprensa brasileira recebe através das agências de notícias internacionais, o que graças a Deus acabou sendo confirmado pelo jornalista de O Estado de S. Paulo, e depois quando questionou o meu comentário sobre a importância da família, dizendo ‘mas manter a família a pedradas?’.


Atualmente, e já há bastante tempo, o Islam é a religião que mais cresce no mundo, tendo inclusive ultrapassado o catolicismo em número de adeptos. No entanto, a ignorância acerca da mesma ainda é grande, e isso fica ainda mais grave quando tal ignorância está presente em grande parte dos jornalistas, que em vez de informar corretamente para estimular a reflexão crítica e a formação de opinião própria de seus telespectadores, ouvintes e leitores, acabam por desinformá-los, já que não têm o mínimo de cuidado de ler ou buscar o conhecimento diretamente de fontes islâmicas. A consequência de tais desvios éticos é a acentuação da islamofobia que presenciamos no mundo contemporâneo.


Caso queiram ter uma noção correta do Islam através de fontes islâmicas, para não mais repassarem adiante ideias preconceituosas e pré-concebidas sobre a religião islâmica e os muçulmanos, poderão adquiri-la nos livros Islam: a sua Crença e a sua Prática e O Estado Islâmico e sua Organização (Editora Azaan) de minha autoria. Inclusive no segundo título é explicado o sistema penal no Islam e a questão de se vincular o Estado Islâmico com um Estado Teocrático, que é um erro comum e que inclusive foi cometido pelo jornalista Alberto Dines na infeliz noite de ontem. [Rio de Janeiro, 25 de agosto de 2010.]


***


Resposta do OI na TV


Rafael Casé (*)


O Observatório da Imprensa na TV, há mais de uma década ininterruptamente no ar, tem o orgulho de ser um programa sério e aberto às mais diversas vertentes de opinião, pois acreditamos que só assim poderemos ter um debate proveitoso para nossos telespectadores. Na edição da última terça-feira [24/8] tentamos trazer algum convidado, para o estúdio, que passasse ao público a visão islâmica da condenação da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani. Marcamos uma entrevista com Sami Armed Isbelle, diretor do departamento educacional e de divulgação da Sociedade Beneficente Mulçumana do Rio de Janeiro. Chegamos mesmo a pensar em chamá-lo para o estúdio, mas por conta das limitações impostas pelo período do Ramadan, as quais o próprio entrevistado havia citado, acabamos buscando outras opções, como os professores Paulo Gabriel Hillu (UFF), Nizar Messari (PUC/RJ, que se encontrava fora do Brasil) e Reginaldo Nasser (PUC-SP, que não podia se deslocar para o Rio de Janeiro). Isso se fazia necessário pois já tínhamos dois convidados em São Paulo e, tecnicamente, este é o nosso limite.


Ainda tentamos uma entrevista com um representante da Embaixada do Irã, o sr. Mohsen Shaterzadeh. Mas ninguém do corpo diplomático iraniano deu qualquer retorno sobre nosso pedido. Também buscamos trazer para a mesa de debate a opinião do movimento feminista. Infelizmente Rose Marie Muraro, só pôde dar uma entrevista gravada. Outra convidada foi a escritora Rosiska Darcy, mas neste caso nem uma entrevista conseguimos por incompatibilidade de horários.


Como dissemos, o Observatório da Imprensa visa ser um fórum de discussão, e, eventualmente, opiniões podem desagradar a um ou outro telespectador. Mesmo assim continuaremos firmes no nosso propósito de oferecer, todas as semanas, discussões sérias e equilibradas sobre os principais temas relacionados à imprensa.


(*) Editor-executivo e diretor do Observatório da Imprensa na TV

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Diretor do departamento educacional e de divulgação da Sociedade Beneficente Mulçumana do Rio de Janeiro (SBM)

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/08/2010 Rema Al Assar

    Do exposto acima, entendo que houve uso de má fé, uma vez que se afirmou no programa que foi feito um convite ao sr. Sami, mas que este recusou em função ‘das limitações do Ramadan’. e na resposta do programa OI ao protesto dele, se afirmou que ‘pensou-se em convidá-lo’, OU SEJA, O CONVITE REALMENTE NÃO FOI FEITO. Espero como uma espectadora assídua deste programa, que este tipo de erro não se repita, para não acabar com a credibilidade do mesmo.

  2. Comentou em 03/02/2009 michel augusto

    Na cobertura dos recentes tumultos na favela Paraisópolis, em SP, o único comentário inteligente que ouvi na mídia ocorreu no jornal televisivo do SBT “Olha você”, dia 03.02.2009, 17h30, pelo jornalista Alexandre Bacci (em nítido contraste com o posicionamento de sua companheira de bancada – como será descrito a seguir).

    A jornalista Roberta Peporine deu o típico posicionamento legalista de que “isso não pode ser feito, é absurdo, outras formas devem ser buscadas”, posicionamento que frequentemente esconde a opinião de que “o problema social é caso de polícia”.
    Já o jornalista Alexandre Bacci (bacharel em direito, e ator), de modo surpreendente para o atual padrão de jornalismo televisivo público, opinou que esses tipos de convulsões são fruto (podre) da falta de políticas públicas para o desenvolvimento humano, e que isso só tende a se agravar se sociedade civil e governo nada fizerem (é claro que isso é óbvio, mas exatamente por isso ele precisa ser dito!). Mais que isso, o jornalista chegou mesmo a fazer uma autocrítica da mídia, que vende valores como consumismo e materialismo (valores que implicam nosso círculo pouco virtuoso de ignorância e pobreza). Não estava acreditando! Salve!

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