Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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JORNAL DE DEBATES >

O subversivo fenômeno da não-opinião

Por David Campos Castro em 02/05/2016 na edição 901

Em tempos de folia pós-moderna, a não-opinião vem se mostrando um instrumento de cunho extremamente subversivo. As patrulhas ideológicas mantêm sob rédea curta a busca por elementos contra majoritários, e é notável a presença de um espectro que constantemente ronda a agonística da linguagem hodiernamente. Desta maneira, àqueles que insistem em se manter fora de combate no coliseu ideológico destina-se a pena do repúdio e do exílio social.

Deixem-me esclarecer a situação para que vossa confusão seja melhor estabelecida: a não-opinião, no que tange aos temas em debate (tudo), representa uma flâmula de incapacidade cognitiva, um estrangulamento das faculdades racionais; de forma que os seus agitadores podem já se considerar habitantes do purgatório intelectual, fadados à permanência neste limbo até que decidam voltar à lucidez e pronunciarem-se como detentores de verdades.

Para tal, não é preciso muito esforço. Afinal, as verdades pessoais são incontestáveis. Não? Em meio a todos estes átomos lançados em movimento browniano que compõem a matéria social [ver A Condição Pós-Moderna, LYOTARD], as epifanias dos particulares configuram, em absoluta medida, a constituição de solitários palácios ideológicos, fortalezas cognitivas.

No entanto, se enganam aqueles que, em seus lapsos de ingenuidade, possam acreditar que a construção destes palácios se dá por meio de assimilação epistemológica. O conhecimento, ao que parece, tornou-se via secundária para a formulação de posições. A grande fonte da qual bebem estes átomos é a deliberação particular e solitária, visto que, à medida que o acesso ao conhecimento se universaliza, menos atrativo ele parece tornar-se. E vale frisar que não me refiro ao conhecimento acadêmico ou literário apenas, e sim ao conhecimento lato sensu.

A razão comunicativa

Desta forma, deixo explícito que não me presto a conjecturar sobre a atual formação de um éden nietzschiano, visto que, claramente, o que se pode diagnosticar na matéria social não é o surgimento de Zaratustras [Assim Falou Zaratustra, NIETZSCHE] ou quaisquer outros protótipos de além-homem.

A grande questão problematizada neste ensaio é diametralmente oposta a esse quadro. O que salta aos olhos é, na verdade, a evidente depreciação do conhecimento, em prol da salvaguarda de posições enquanto prioridade. A supracitada agonística da linguagem encontra-se, por conseguinte, estéril, visto que sua composição é fragilizada pelo esvaziamento dos golpes e, principalmente dos contragolpes linguísticos [ver A Condição Pós-Moderna, LYOTARD].

A distribuição gratuita de lances na arena da linguagem reflete a emersão do terror lyotardiano, os discursos encontram-se destituídos de conteúdo, pelo fato de estarem tão atrelados a determinadas posições ideológicas que ojerizam o âmago da agonística pós-moderna: os deslocamentos ocasionados pelo efeito dos jogos de linguagem; a maleabilidade das opiniões perante a força argumentativa, ou o que Habermas denominaria razão comunicativa [ver Teoria da Ação Comunicativa, HABERMAS].

A crença nas verdades particulares

Desta forma, explica-se o enquadramento da não-opinião na lista negra da patrulha ideológica pós-moderna. De maneira que os portadores de incertezas estão convidados a retirarem-se do jogo, pois os deslocamentos são veementemente abominados pela sociedade da desinformação.

Os não-opinantes representam, portanto, uma categoria subversiva à doutrina pós-modernista, na medida em que buscam uma maior assimilação de conhecimento para consolidar suas posições, ou para abandoná-las. Como o propósito dos debates não perpassa mais a construção ideológica (visto que esta se faz, agora, na deliberação solitária), e sim, a guerra de valores, aqueles não dispostos a guerrear única e exclusivamente pelo sabor da batalha estão fadados à repulsa.

Por fim, vale ressaltar que o frenesi ocasionado pelo embate não trata de uma brincadeira niilista – antes fosse – e sim, de uma crença ferrenha da preponderância das verdades particulares sobre as de outrem. Desta forma, incorrendo-se numa verdadeira esquizofrenia.

***

David Campos Castro é estudante de Direito

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