Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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JORNAL DE DEBATES > RESCALDOS DO TERROR

Quando o governador enlouqueceu

Por Deonisio da Silva em 23/05/2006 na edição 382

O governador Cláudio Lembo, num desvario seu, semelhando a Ismália de Alphonsus de Guimaraens, uma vez passado de vice a titular, ‘pôs-se na torre a sonhar,/ viu uma lua no céu,/ viu outra lua no mar’. E na seqüência, no meio do tiroteio, ‘no sonho em que se perdeu,/ banhou-se toda em luar…/ queria subir ao céu,/ queria descer ao mar…’.

Vieram os jornalistas em busca do que achava o governador do mais importante estado da federação a respeito dos graves eventos. Ele não deixou por menos: ‘E no desvario seu,/ na torre pôs-se a cantar…/ estava perto do céu,/ estava longe do mar…’.

Os jornalistas ficaram perplexos, pois o que fez o governador? ‘E como um anjo pendeu/ as asas para voar,/ queria a lua do céu,/ queria a lua do mar…’. Nos telejornais do mesmo dia e nos jornais do dia seguinte, ‘as asas que Deus lhe deu/ ruflaram de par em par…/ sua alma subiu ao céu,/ seu corpo desceu ao mar…’.

No sábado (20/5), Ricardo Noblat fazia este insólito registro no seu blog:

’20/05/2006 ¦ 16:28 Heloísa não se perdoa [sic]

Não convidem para a mesma mesa a senadora Heloísa Helena (AL), candidata do PSOL à presidência da República, e o governador Cláudio Lembo, candidato a ir para casa em janeiro próximo. À procura de um vice de peso, ela está indignada por não ter descoberto a tempo o radical que se escondia por trás do moderado Lembo’.

Excetuada a violência do conflito entre o crime e o Estado, sobraram metáforas para todos. O céu de Lembo talvez seja sua alma de cidadão bem pensante, provisoriamente instalado no governo de São Paulo, mas como quem não deixa dúvidas de que ainda teria preferido ser vice, pois titular não pode culpar ninguém por omissão. E o mar, a realidade cruel.

Complexidades sutis

Mas o que disse Cláudio Lembo? ‘Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa. A bolsa da burguesia vai ter de ser aberta para sustentar a miséria social brasileira’.

É triste sina de muitos membros da classe política paulistana, ilustrados, mas que ignoram o que se passa no que eles chamam de ‘o resto do Brasil’, perder a visão de como é complexo o país de que a contragosto fazem parte.

O governador exarou um juízo muito controverso, perdido num jogo de palavras que reduz o conflito a uma questão racial. Suas palavras não resistem sequer à fronteira com o estado vizinho do Paraná, onde o governador encontrará favelados de olhos azuis convivendo com criminosos muito semelhantes a eles, com a diferença de que, em vez de estarem empregados na produção, estão no negócio do crime, já que, todos sabem, o crime dá certo por ser um bom negócio, apesar dos riscos de todo negócio que não seja o assalto habitual que o Estado faz aos bolsos dos cidadãos em forma de impostos líquidos.

O problema é: o que o Estado faz com os impostos, se não dá segurança, nem saúde, nem transporte adequados? E, claro, Estado aqui engloba as forças reunidas em São Paulo (estado e prefeitura) e em Brasília, a sede da República, instâncias coercitivas que agem sobre os cidadãos, com desempenho irretorquível quando cobra impostos e fracasso estonteante na sua devolução em forma de benefícios sociais.

No domingo (21/5), a voz da razão parecia de volta nas palavras do prefeito paulistano José Serra (Folha de S.Paulo, pág. 3), ao dar definição precisa do contexto das batalhas travadas entre o PCC e a polícia:

‘As democracias reconhecem que apenas ao Estado é facultado o uso legítimo da força. Muitos não se dão conta da sabedoria desse princípio. Ele supõe que a sociedade elabora um contrato que define os entes que podem usar da coação para fazer valer a vontade coletiva, consubstanciada nas leis’.

Por sutis complexidades muito difíceis de serem resgatadas, foi a cara, e não a face ou o rosto, a palavra preferida para expressar as diferenças de comportamento.

Personalidade jurídica

Quando surgiu o provérbio ‘cara de um, focinho de outro’, a recusa de face e semblante para construir a expressão já trazia implícito o sentido pejorativo da aplicação, pois a gente fina e nobre não tem cara ou focinho. (O ‘focinho’ de Cláudio Lembo não é ‘a cara’ de Geraldo Alckmin, assim como Lula e José Alencar não são ‘cara de um, focinho de outro’. Ah, os vices!).

E rosto já estava redimido como sinônimo de face. Consagraram-se, assim, pelo uso, a caradura, a cara-de-pau, a cara de poucos amigos, a cara amarrada, a cara de tacho, a cara de quem comeu e não gostou, a cara no chão, a vergonha na cara etc, com um séqüito de verbos de que são exemplos dar de cara, quebrar a cara, entrar com a cara e a coragem, meter a cara, livrar a cara, fechar a cara e passar na cara – esta última uma expressão de evidente conotação sexual, como está claro nesta passagem de A falta que ela que faz, de Fernando Sabino:

‘De um conde italiano a um marinheiro das profundas caldeiras do porão, de um gigolô marselhense a uma múmia egípcia, o que estiver disponível em forma de homem neste navio, a mamãe aqui há de passar na cara, não tem talvez’.

A unidade é uma velha utopia, para os indivíduos como para as instituições. Sábios e experientes, o romanos criaram, a partir de persona, pessoa, palavra de origem etrusca, o adjetivo personalis, e a partir dele o substantivo personalitas, personalidade. Porém, curiosamente, já no latim tardio, ao definirem as características que dão a cada indivíduo a sua personalidade, dotaram também suas instituições de personalidade jurídica.

Contudo, persona designou originalmente, não a pessoa, o indivíduo, mas o papel que ele cumpria no teatro, onde escondia a facies, face, atrás da persona, a máscara da figura que representava no palco.

O latim rostrum, focinho, de onde veio o português rosto, veio a designar o semblante humano apenas no latim tardio, como sinônimo de cara, vocábulo que Roma trouxera do grego kára, cabeça.

Daí que podemos pelo menos imaginar que não somos o que aparentamos, nem aparentamos o que somos, verdades de que psicólogos, psicanalistas e psiquiatras devem ter certeza absoluta.

O medo como tema

Os franceses pareceram mais cônscios do que a herança latina trazia embutido na palavra persona. Tanto que dão a personne o sentido de pessoa, como substantivo, e de ninguém como pronome.

É preciso prestar atenção a essa sutileza francesa, pois no século 12 eles já tinham personne, e no século 14 já tinham personalité, enquanto o português somente terá pessoa a partir do século 13 e personalidade apenas na segunda metade do século 19, acolhida nos cinco volumes do Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Lingua Portugueza, de Frei Domingos Vieira.

As recentes revelações de velhas máscaras nas batalhas que o PCC travou contra o Estado tiveram um grande mérito para o público leitor: revelaram traços até então mal revelados da personalidade do presidente, do vice-governador, agora titular, do prefeito, assim como de muitos outros políticos, candidatos ou não.

E revelaram também a personalidade da cidade de São Paulo: São Paulo morre de medo, vive do medo, o medo enseja grandes negócios e provavelmente os eleitores votam com medo. E um anúncio quase fúnebre: os eleitores não votam por convicção. Se assim fosse, no passado, Luíza Erundina não derrubaria Paulo Maluf apenas no último dia de recente eleição, quando o paulistano teve que escolher entre ela e ele.

O medo será um dos grandes temas das próximas eleições. É preciso personalidade bem estruturada para enfrentar o medo, sejam elas de pessoas físicas ou de pessoas jurídicas.

******

Escritor, doutor em Letras pela USP, diretor do Curso de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro

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