Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > DEBATE SOBRE A MÍDIA

Quem ganha é a democracia no Brasil

Por Venício A. de Lima em 07/11/2006 na edição 406

Em artigo publicado neste Observatório no dia seguinte ao segundo turno das eleições [‘A mídia está em discussão‘], argumentei que um dos resultados do processo eleitoral era que a grande mídia havia entrado, finalmente, na agenda de discussão pública. E concluí afirmando que esse debate tardio só poderia ser bem-vindo e que quem ganhava com ele era a democracia brasileira.


Os desdobramentos da última semana indicam não só o quanto estava certo, mas, sobretudo, o quanto a grande mídia e seus principais porta-vozes, resistem e reagem a esse debate oportuno e democrático. Na verdade, esse comportamento não constitui nenhuma novidade.


A grande mídia – salvo as exceções que confirmam a regra – tem historicamente se recusado a discutir com a sociedade o seu papel e suas responsabilidades na democracia. Além disso, seus principais jornalistas padecem de uma dificuldade crônica de lidar com qualquer tipo de observação crítica. E muitos se consideram, até mesmo, inimputáveis, diferentemente dos outros cidadãos brasileiros.


Sustentam essa posição no uso massivo do arsenal de sempre:


** confundem deliberadamente qualquer proposta de discussão com uma tentativa de censura e relembram a ameaça de tempos sombrios como na ditadura militar;


** se escondem por detrás da liberdade de imprensa – que acreditam ser uma simples extensão do direito individual à liberdade de expressão;


** demonizam, sem qualquer discussão, tanto a expressão ‘democratizar as comunicações’ quanto as propostas para esse fim;


** desqualificam in limine aqueles que levantam a questão como fascistas, mentirosos, adeptos do totalitarismo e de ‘petistas’, como se a opção partidária legal e legítima fosse o disfarce contemporâneo de satanás (em passado não muito distante, esse disfarce diabólico era atribuído aos ‘comunistas’); e


** reaparece até mesmo o recurso usual à citação de apenas uma das frases de um longo parágrafo de Thomas Jefferson, do século 18 [ver ‘Anotações sobre Jefferson e a imprensa‘].


E tudo isso em nome e em defesa da democracia liberal.


Novos tempos


São várias as razões para essa atitude generalizada da grande mídia. A primeira, claro, é que apesar de suas divergências internas ela age de forma homogênea quando se sente ameaçada. Desde a fundação da Abert, em 1962, e da ANJ, em 1979, temos visto esse filme um sem-número de vezes.


Mas existem alguns fatores novos para os quais os recursos do velho arsenal não surtem mais o efeito desejado pela grande mídia.


A análise arguta do jornalista Carlos Castilho neste OI – apesar de não concordar com a sua adjetivação – ajuda a compreender parte do que está acontecendo [‘O leitor patrulheiro assusta editores‘ e ‘O novo papel das audiências‘]. Referindo-se à possibilidade de resposta que o jornalismo online e os blogs oferecem ao leitor, Castilho lembra que esse fato novo rompe com uma característica constitutiva da velha comunicação de massa, isto é, a sua unidirecionalidade. Até recentemente a mídia ‘falava’ e o leitor/espectador/ouvinte ‘escutava’, passivo. Essa situação está mudando rapidamente – sobretudo, mas não só – em relação ao reduzido universo de leitores de nossa mídia impressa. Diz ele:




‘O patrulhamento [dos leitores] rompe, pela primeira vez na história da imprensa, com a tradicional unidirecionalidade do fluxo informativo. Até agora, quase toda a informação fluía dos tomadores de decisões e formadores de opinião, através dos jornalistas, até o público, cujo poder de retroalimentar o circuito informativo era muito limitado. O rompimento ocorre em circunstâncias traumáticas, especialmente para os jornalistas, que passam a se sentir encurralados e hostilizados por uma massa de leitores que estraçalha reportagens e comentários com um ímpeto também inédito na história do jornalismo brasileiro.’


Com pouca ou nenhuma experiência prévia de serem diretamente interpelados por suas reportagens ou análises, os principais jornalistas e colunistas da grande mídia estão encontrando sérias dificuldades de se adaptar aos novos tempos. Quem está do outro lado agora é um leitor, cada vez mais ativo, que não é mais um ‘mudo’ hipotético e ausente, mas alguém que também quer ter a sua voz ouvida. A coluna ‘Começou mal‘ de Eliane Cantanhêde (Folha de S.Paulo, 2/11) constitui um exemplo claro dessa nova situação.


Juiz supremo


Mas há um segundo fator, decorrente do anterior, que parece ainda mais importante. Existe um número cada vez maior de leitores que têm acesso a pontos de vista discordantes daqueles predominantes na grande mídia e, mais ainda, que podem verificar, direta ou indiretamente, a veracidade da informação que está recebendo.


Não basta que uma nota indignada de jornalistas da Rede Globo de Televisão [‘Em defesa da correção profissional‘] acuse a ‘mentira covarde e desonesta de um certo grupo de detratores’ com relação à cobertura do acidente do avião da Gol. Milhares de telespectadores assistiram em outros canais ou leram a notícia em sites na internet, muito antes de ela aparecer na telinha da Globo. E os próprios telespectadores fazem o seu julgamento.


Não basta que a Central Globo de Jornalismo ainda chame de mentirosos observadores e críticos da cobertura que a Rede Globo fez do comício da Praça da Sé, pela campanha das Diretas-Já, em janeiro de 1984. Além da memória pessoal que muitos guardam dos fatos, existem sites, livros e artigos onde o assunto é discutido e, ademais, são divulgadas entrevistas e depoimentos de pessoas diretamente envolvidas no caso que são acessados/lidos por milhares de pessoas. E são essas pessoas que decidem quem é mentiroso e quem não é.


É exatamente esse o fator novo, fundamental: o aparecimento histórico de uma nova consciência cidadã que não se contenta com umas poucas fontes oligopolistas de informação e tem condições de buscar – e até mesmo de criar – fontes alternativas.


Quando o diretor-executivo da Central Globo de Jornalismo escreve que a grande imprensa ‘vive de sua fidelidade aos fatos, sua credibilidade vem daí. Trair esse compromisso é comprometer o próprio futuro. A grande imprensa sabe disso’ (cf. ‘Nem milagres nem bruxarias’, O Globo, 31/10/2006, pág. 7-A), ele está certo. Faltou apenas acrescentar que o juiz supremo da credibilidade da mídia é o leitor/espectador/ouvinte. E é este leitor/espectador/ouvinte que está fazendo valer seu julgamento – independente do que pensam os autoproclamados ‘formadores de opinião’ – não só em relação à mídia, mas também em relação às opções políticas que se colocam historicamente à sua frente.


Credibilidade em questão


Em pelo menos dois artigos anteriores publicados neste Observatório, em fevereiro e março deste ano [‘Revisitando o poder da grande mídia‘ e ‘O silêncio suspeito da grande mídia‘], tratei do que agora reaparece como ‘micromobilização estrutural’ (cf. Walder de Góes, ‘Micromobilização estrutural’, Correio Braziliense, 2/11/2006). Afirmava naquela ocasião (OI nº 370) que:




Feitas (…) as necessárias adaptações às circunstâncias de nossa realidade, há de se constatar um fato fundamental: o inegável fortalecimento da sociedade civil brasileira. Ao contrário do que ocorreu em outros países da América Latina, entre nós, esse processo vem se desenvolvendo desde o período autoritário e, sobretudo, nos últimos 15, 20 anos. Como desconhecer o enorme crescimento das ONGs e das inúmeras maneiras de organização dos movimentos sociais?


Registre-se, por exemplo, as diversas formas de participação popular institucionalizadas pela Constituição de 1988. Nos últimos anos – sem que a grande mídia considerasse o fato digno de ser noticiado – foram criados, reestruturados e ampliados vários conselhos e realizadas conferências municipais, estaduais/regionais e nacionais, mobilizando milhões (isso mesmo, milhões) de cidadãos para discutir e propor políticas públicas em setores como Políticas Urbanas, Meio Ambiente, Direitos da Criança e do Adolescente, Segurança Alimentar e Nutricional, Esporte, Direitos Humanos, Saúde, Igualdade Racial, Ciência & Tecnologia e Inovação, Cultura e Saúde do Trabalhador. Tudo isso sem mencionar as diversas experiências de orçamento participativo implantadas em prefeituras municipais pelo país afora.


A construção hegemônica – e, portanto, também a contra-hegemônica – passa cada vez mais pelas mediações da sociedade civil organizada. A mídia – o mais onipresente e poderoso dos aparelhos privados de hegemonia – sofre cada vez mais as mediações das organizações da sociedade civil.


O que isso significa?


Na medida em que aumenta o feixe de relações sociais ao qual o cidadão comum está interligado, diminui o poder de influência direta da grande mídia. Há cada vez mais mediações entre o conteúdo da grande mídia e a forma de seu ‘consumo’ pela maioria da população.


Esse é o fato novo, fundamental. E é por isso que a credibilidade da grande mídia entrou definitivamente em questão.


Em nome da pluralidade


O Brasil está mudando. As novas tecnologias de comunicações estão mudando. A pluralidade e a diversidade de informações, pelo menos para aqueles que têm acesso direto e/ou indireto à internet, é um fato. E a grande mídia terá que se adaptar à nova situação para manter alguma credibilidade e sobreviver.


Debater a construção de um sistema alternativo de mídia pública, os velhos oligopólios, a propriedade cruzada, a relação da mídia com as oligarquias políticas no Congresso e fora dele – é uma dívida histórica. Aprovar um novo marco regulatório que contemple a revolução digital e a convergência tecnológica – é uma exigência democrática. Buscar a complementaridade dos sistemas privado, público e estatal de radiodifusão – é o que manda o artigo 223 da Constituição de 1988.


O debate sobre a mídia – seu papel e suas responsabilidades – chegou para ficar. Independente da resistência e da reação da grande mídia. Está em jogo a construção de uma mídia verdadeiramente plural e diversa que priorize o interesse público. E quem ganha com esse processo é a democracia no Brasil.


***


Nota do OI: Esta matéria também está publicada na rubrica Interesse Público da edição nº 405. Clique aqui e vá até o fim da página para ler os outros comentários ali postados.

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Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) da Universidade de Brasília e autor, entre outros, de Mídia: crise política e poder no Brasil (Editora Fundação Perseu Abramo, 2006)

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