Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & POLÍTICA

Quem não sujou as mãos?

Por Ivan Berger em 11/09/2007 na edição 450

Há várias maneiras de contar uma história. Difícil mesmo é depurar a verdade das versões fantasiosas que vão sendo disseminadas ao longo do tempo, de acordo com os interesses e a imaginação de cada um. Já se disse que a verdade é escrita pelos vencedores, que entre a verdade e a lenda geralmente prevalece a segunda, exatamente por já ter sido aplainada e adornada a gosto do freguês. Ainda mais quando existe uma predisposição de ordem cultural ou político-ideológica para comer enrolado, do que prestidigitadores como o professor Gilson Caroni Filho se aproveitam para produzir os brocados que sua claque tanto aprecia.


Nada que mereça ser levado muito a sério, partindo de um desses raros retro-ideólogos que ainda se dispõem a brandir um discurso que só encontra eco nas camadas mais retrógradas e radicais de nossa sociedade. E que, como se não bastasse, vem se notabilizando pela adulação incondicional ao governo e do que sobrou do conspurcado petismo, a quem ele reverencia com um fervor que até dá o que pensar.


Afinal, como Alberto Dines bem observou recentemente neste Observatório, se provavelmente nunca um governo contou com uma imprensa chapa-branca tão saliente e representativa como o atual, é lícito supor que o radicalismo exacerbado e a ferrenha pregação antimidiática de Caroni não sejam gratuitos. Seu grande objetivo, aliás, como já esboçado anteriormente, ficou ainda claro dessa vez, quando comenta que ‘a estrutura monopolista [da televisão] (…) clama por uma reforma política imediata e legislação [sic] que democratize o conteúdo dos meios de comunicação’, numa alusão ao término da concessão da Globo no próximo dia 5 de outubro [ver ‘Sobre organizações e seus crimes‘].


O feroz ataque à Globo tem sua razão de ser: o papel marcante da mídia na decisão do STF de indiciar os 40 acusados do escândalo do mensalão, com ampla receptividade junto à opinião pública. O mote foi a inoportuna divulgação de um inventário oficial, promovido com pompa e circunstância pelo governo, sobre as vítimas dos chamados anos de chumbo da ditadura. O que, muito mais do que uma satisfação à sociedade, soou como provocação desnecessária aos militares, além de remexer em feridas que a essa altura já deveriam estar cicatrizadas. Ainda mais com as indenizações que o governo lulista tem agilizado, incluindo os terroristas assassinos treinados nos moldes da guerrilha cubana.


Abordagem facciosa


Como se sabe, faz parte da recalcitrante retórica das esquerdas cavernais a estratégia de desacreditar e denegrir, de todas as formas possíveis, o desempenho da imprensa livre e independente, tradicionalmente refratária a idéias e regimes totalitários. Daí não serem novidade as elucubrações que se fazem sobre o papel da mídia durante a ditadura, algumas comprovadas e de conhecimento público, outras fruto da imaginação e tendenciosidade de narradores como o professor Caroni. O fogo centrado na Globo, por exemplo, além do revanchismo explícito, nada mais é do que retaliação à sua cobertura correta e equilibrada da apreciação do STF das denúncias aos 40 indiciados do esquema de propinas do mensalão.


O fato de chamar a organização de ‘braço jornalístico de oposição ao governo Lula’ não só confirma isso, como ancora a abordagem facciosa e leviana com que se tenta, concomitantemente, desqualificar e criar um clima desfavorável ao inimigo às vésperas do término de sua concessão de funcionamento. A rigor, só faltou o professor Caroni lembrar do ocorrido com a RCTV venezuelana, tirada do ar por não comungar do regime ditatorial de Chávez.


Tema recorrente das tertúlias esquerdistas, a possível cumplicidade da Globo com o regime militar quase sempre se baseou em suposições e ilações relacionadas à coincidência de o grupo ter crescido em meio a ditadura. Longe de mim garantir o contrário, ou seja, que a organização comandada por Roberto Marinho não tenha tirado proveito do tradicional escambo – prática tão corriqueira no meio político que seria ingenuidade imaginar que a Globo, como outros congêneres, não o fizesse. Por outro lado, é sabido que muita gente boa sujou as mãos e se for para levar a questão a ferro e fogo, não é justo que só a Globo fique com a fama. E muito menos que se ignore que a imprensa em geral, como a própria população, num primeiro momento reagiu com simpatia ao golpe militar, dada a baderna que tomava conta do país com um presidente, João Goulart, totalmente despreparado para o cargo.


Escarafunchar o passado


O fato é que só com o passar do tempo viu-se a cara feia do regime, o que a imprensa não tardou a descobrir e combater com as armas de que dispunha, em meio à censura e tudo mais. Como já disse, atrelar o crescimento e a expansão da Globo a um suposto comprometimento com a ditadura, mais do que nivelar a discussão por baixo, com o caráter difamatório do artigo de Caroni, é denegrir e subestimar a capacidade empreendedora de um jornalista que construiu uma das cinco maiores redes de comunicação do mundo e cujo padrão de qualidade não pode ser avaliado apenas sob o critério político-ideológico.


Ainda que no passado a Globo eventualmente tenha feito concessões aos militares e mesmo se beneficiado de ligações espúrias com políticos inescrupulosos como Antonio Carlos Magalhães e José Sarney, como afirmam categoricamente seus detratores, quem pode se arvorar a atirar a primeira pedra? Os despeitados e críticos oportunistas? Os mensaleiros e seus comensais? A escassa intelectualidade que se bandeou de mala e cuia para as hostes governistas? O zé-povinho, acostumado a ser tangido e manipulado por gurus de algibeira como Duda Mendonça e outros fiadores de um governo que, a exemplo dos demais, não se furtou a botar a mão no estrume para governar, como jocosamente definiu o ator Paulo Betti?


Não tenho procuração para defender a Globo e nem ela precisa disso, com a penca de profissionais de alto nível de que dispõe. Mas como observador descomprometido (e talvez por isso desempregado), me sinto compelido a reagir contra a campanha discricionária e discriminatória com que os governistas tentam neutralizar a atuação da imprensa. Independentemente de ter ou não culpa no cartório em tempos idos, em contrapartida ninguém com um mínimo de isenção pode ignorar a contribuição decisiva que os veículos dos Marinho vêm prestando à consolidação da democracia em nosso país. E o melhor exemplo disso é a própria chegada de um ex-pau-de-arara e metalúrgico precocemente aposentado à Presidência da República.


Nesse contexto, ao que se presta escarafunchar o passado e desvendar o que ainda existe nos porões, como sugere Caroni com seu discurso, senão a tumultuar ainda mais um ambiente contaminado pelo acirramento das diferenças políticas, em que já se ouve o ranger de dentes dos governistas diante do grito de independência dado pelo STF?

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Jornalista, Santos, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/09/2007 Ivan Berger

    De uma vez por todas, economista- metido-a- crítico- literário,meta vc. nessa sua cabecinha de hydra (não estou falando daquela marca de privada,se bem que talvez fosse o caso), que suas opiniões e ilasões disparatadas não significam nada para mim,e tenho certeza,nem para quem me lê com um mínimo de isenção. Certo está o Dines e os escribas mais experientes,que não estão nem aí para os manjados atrabiliários e sociopatas que aqui marcam ponto. Venho me dispondo a responder alguns comentários no sentido de esclarecer ou até mesmo justificar os pontos que por ventura não estejam suficientemente claros nos artigos,mas vejo que isso no mais das vezes é como jogar pérolas aos porcos. De modo que não perco mais tempo com quem não mrece outra coisa senão indiferença,desprezo.

  2. Comentou em 14/09/2007 arnaldo boccato

    Sobre o post do jornalista Fritz Nunes a respeito dos estudos do IPERJ e do prof Venício. Não quero questionar nenhum dos dois, mas seria extremamente interessante ter em mãos estudos sobre as eleições presidenciais de 2002 e verificar como Lula foi tratado pela imprensa. Fica aqui o convite ao IPERJ, à Fundação Perseu Abramo, ao prof. Venício, aos acadêmico. Seria uma forma científica de verificar o que e como foi noticiado – mesma metodologia, pegando exatamente os mesmos veículos, com os mesmos critérios de escolha e avaliação de notícia, espaço e tratamento editorial. O quanto do viés negativo apontado pelos dois estudos teve relação direta com o mensalão? Se o novo estudo verificar tendência para o negativo em 2002 na mesma proporção de 2006, então teremos um enorme pano pra manga a discutir em todos os blogs do país, aqui no OI, em toda a sociedade.

  3. Comentou em 12/09/2007 Ivan Berger

    dr. Ricardo,de Porto Alegre,agradeço suas observações,de certa forma pertinentes,mas gostaria de deixar claro que minha intenção no artigo não é isentar a Globo ou quem quer que tenha sujado as mãos na época da ditadura,e sim chamar a atenção para o fato de que muitos dos que agora posam de bonzinho não tem estofo moral para isso,pelo que fizeram no passado. José Dirceu é um deles. E vamos e venhamos,,não lhe parece muita coincidência os ataques a Globo em seguida da histórica decisão do STF e da proximidade do fim da concessão de funcionamento ? Puro oportunismo. Quanto aos que se ofenderam com o termo zé povinho, esclareço que não me refiro especificamente as camadas mais humildes,composta de muita gente de valor,mas aos que se deixam manipular e tanger pelos engodos do discurso petista. Por fim,servidor Gustavo, onde é mesmo que o professor Caroni faz tanto sucesso,que não seja perante sua manjada claque ? Se eu estivesse atrás de aplauso fácil,como o tal que lidera agora o patético movimento dos sem-mídia,bastaria aderir ao discursinho fajuto de nossa retrógrada esquerda,que faz a cabeça da maioria aqui,concorda ? Meu texto pode não chegar aos pés dos do grande Caroni, como o sr. diz,mas pelo menos minhas idéias não estão à venda e nem se prestam a ludibriar os incautos.

  4. Comentou em 12/09/2007 Ricardo Camargo

    No limite, válido que fosse o argumento de que se todos têm as mãos sujas não se pode falar no assunto, sequer o caso do ‘mensalão’ poderia ser objeto de apuração, porquanto parlamentares de todos os partidos estiveram envolvidos, mesmo restrito o processo aos quarenta denunciados pelo PGR. E ainda, vários temas que foram aflorando no ano de 2006, caso o texto do Prof. Caroni devesse ser considerado inoportuno por conta da questão da renovação da concessão da Globon- e há, hoje, quem defenda a tese da renovação automática das concessões e permissões, contrariando, inclusive, a disposição constitucional que manda presrevar, o mais possível, a concorrência, seja no âmbito geral das atividades econômicas (CF, art. 170, IV, e 173, § 4º), seja no âmbito específico da comunicação social (CF, art. 220, § 5º) -, mereceriam ser considerados também inoportunos, por poder a divulgação de tais matérias influenciar no resultado do pleito eleitoral. Por outro lado, a questão que se coloca, promordialmente, é a de se saber se a participação da Globo no período que ela própria considera ‘nada edificante’ da nossa história foi ou não foi dotada da intensidade que se apontou no artigo do Prof. Caroni. E, quanto a isto, o articulista parece não apontar para nenhum dado que infirme o texto que pretende refutar, mas tão-somente manifesta divergência no âmbito valorativo.

  5. Comentou em 11/09/2007 Clerton de Castro e Silva

    Bate-se em quem tem mais audiência. Como comentei na matéria do Gilson Caroni, tratava-se de um texto bobo para agradar aos petistas que patrulham este Observatório. A Globo já foi a queridinha do PT.

  6. Comentou em 11/09/2007 Clerton de Castro e Silva

    Bate-se em quem tem mais audiência. Como comentei na matéria do Gilson Caroni, tratava-se de um texto bobo para agradar aos petistas que patrulham este Observatório. A Globo já foi a queridinha do PT.

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