Terça-feira, 22 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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JORNAL DE DEBATES > EDITORIA DO ALÉM

Quem derreteu Russomanno foi a Cúria

Por Alberto Dines em 09/10/2012 na edição 715

 

Verbo do momento, “derreter” é a palavra-chave, o dernier cri em matéria de insights político-eleitorais. Começou a ser efetivamente usado em São Paulo a partir do anúncio das primeiras pesquisas de boca de urna, no início da noite do domingo (7/10). Serviu como uma luva para expressar o incrível encolhimento da candidatura até então imbatível de Celso Russomanno à prefeitura paulistana.

Quem acendeu o fogo e iniciou o derretimento de Russomanno foi o cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, quando, em 19/9, alegou dificuldades de agenda para receber o candidato do blusão de couro. No domingo anterior (16/9), 300 paróquias paulistanas receberam um édito sobre o voto consciente com críticas veladas e nem-tão-veladas-assim ao postulante que havia semanas mantinha-se inabalável no topo das sondagens.

Pouco antes, recomeçara a circular nas mídias sociais um texto de maio de 2011, de autoria do bispo Marcos Pereira, da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), presidente do PRB e chefe da campanha de Russomanno. Entre outras coisas, dizia o seguinte:

“Precisamos salvar o Brasil e torná-lo verdadeiramente laico, livre da influência da religião.”

A frase não contém qualquer blasfêmia ou heresia, poderia estar na boca de um antigo maçom, positivista, anarquista ou militante do laicismo. Relembrada naquelas circunstâncias, e com clara entonação beligerante, acionou os radares da hierarquia católica, antigamente designada como Cúria.

Naquele momento, tanto José Serra como Fernando Haddad afinal se animaram e começaram a bater no rival. Sem cancha, jogo de cintura e, sobretudo, sem o suporte de uma instituição com experiência milenar em matéria de poder, a candidatura Russomanno desmilinguiu e começou o inexorável caminho em direção ao brejo.

Fogo aceso

Estes são dados que não poderiam escapar à acuidade e experiência de nossos politólogos e opinionistas. Foram fartamente noticiados e, no entanto, permanecem no banco de reserva das interpretações porque a rivalidade – ou confrontação – religiosa é uma realidade no Brasil, mas está condenada a manter-se na sombra e enfurnada nos subterrâneos da notícia.

A mídia seria a única instituição capaz de revelar a existência desse conflito e alertar para os perigos de um acirramento. A mídia, porém, é parte dessa rivalidade (ou confrontação) e nesta terra do faz de conta não está autorizada a cair na real nem a criar um estresse capaz de potencializar outros, mais agudos.

Uma coisa não deve ser esquecida: o derretimento da candidatura Russomanno foi o primeiro. A fogueira – ou micro-ondas – está acesa.

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Ninguém tenta explicar o “milagre” Russomanno – A.D.

 

Alguém derreteu a outra qualificação de Sua Exa. Revma

A Folha de S.Paulo identificou o autor do artigo principal da sua seção “Tendências/Debates”, na página A3 de domingo (7/10), dia da eleição, como arcebispo do Rio de Janeiro. É, sem qualquer dúvida, um dos títulos de Dom Orani João Tempesta, autor do texto “Liberdade de expressão sem abuso”.

No entanto, Sua Excelência Reverendíssima tem outro título, igualmente honroso, mas na esfera secular, civil: é presidente do Conselho de Comunicação Social, órgão auxiliar do Congresso Nacional.

A dupla função foi omitida pela Folha e não porque o rigoroso Manuel (sic) da Redação determine que o autor dos textos tenha apenas uma qualificação (na pg. A14 da mesma edição, o historiador Federico Finchelstein ostenta duas).

É possível que o devoto jornalão, com a melhor das intenções, tenha atendido a um pedido de Dom Orani para omitir sua função política. De qualquer forma, por cortesia ou desatenção, criou uma embaraçosa situação porque o artigo é uma clara e firme reprimenda à capa da revista Placar que trouxe a ilustração do jogador Neymar crucificado.

Como explicar à sociedade brasileira que o presidente de um Conselho de Comunicação Social, cuja missão é preservar a liberdade de expressão, sugira limites a uma cláusula pétrea da Constituição e peça a intervenção do Estado para garantir o respeito à fé?

A Folha evidentemente contava com a ignorância do seu imenso leitorado da dupla função da autoridade eclesiástica, já que omitira a nomeação dos integrantes do CCS dois meses antes. Foi em frente no território do fingimento e do faz de conta.

Todos ficaram mal: o autor do artigo e o jornal que surrupiou do leitor uma informação de capital importância. 

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