Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Quem se importa com a opinião pública?

Por Luiz Geremias e Eduardo Requião em 19/05/2009 na edição 538

O ideal é um parâmetro de avaliação da realidade. Através de um ideal, uma abstração que fala de um estado de perfeição, é possível avaliar a distância entre o que percebemos na realidade e o que de melhor poderemos almejar para modificá-la. No entanto, se o ideal substitui a percepção da realidade, é possível falar de um distúrbio de pensamento, pois o ideal é, por natureza, imaginário. Nos casos em que há confusão acerca disso, perde-se a noção daquilo que Sigmund Freud chamou de ‘princípio de realidade’ e, assim, ocorre o que podemos nomear como alienação, uma situação na qual o indivíduo não tem a noção do que ocorre consigo mesmo, deixando, assim, de ter a capacidade de governar a própria vida.


A alienação não é, porém, um ‘privilégio’ do indivíduo. São inúmeros os exemplos históricos de imposição de uma idealização em detrimento da realidade. Em nome de um ideal étnico, a Alemanha do III Reich engendrou o plano da Solução Final, resultando no extermínio de milhões de seres humanos. Segundo Zygmunt Bauman, pela busca da pureza de um tipo de consumidor ideal, as sociedades de consumo contemporâneas condenam outros tantos à execração pública, impedindo-os de frequentar determinados locais e tratando-os como pessoas de segunda categoria.


Modelos de pensamento e comportamento


Substituir o real pelo ideal remete à proposta de estabelecimento de uma verdade única e inquestionável. Se isso é feito inconscientemente, falamos de psicose; se deliberadamente, de má-fé. Em ambos os casos, quem o faz demonstra arrogância. Ora, a realidade é sempre plural, dotada de múltiplos sentidos e versões e é preciso muita humildade para tentar entendê-la. A verdade, por sua vez, é uma versão consensual construída por um grupo social, mas depende de discussões, de debates e embates de ideias e ideais. Todo e qualquer consenso é momentâneo e conjuntural. Em outro momento, em uma conjuntura diversa, será preciso agregar novas ponderações para reformular a postulação tida como verdadeira em oportunidades anteriores.


Se não há espaço para o debate, a verdade se afigura como ilusoriamente permanente, o que significa que é uma imposição artificial de um indivíduo sobre outros ou de um grupo sobre outros. Politicamente, essa injunção pode se dar pela força física ou pela sedução subjetiva. No primeiro caso, temos, como bom exemplo, as ditaduras estatais; no segundo, as ditaduras midiáticas, que podemos observar na contemporaneidade, voltadas para aquilo que se convencionou chamar de opinião pública.


A chamada opinião pública, segundo João Pissarra Esteves, pode ser compreendida como a cultura de pessoas isoladas não fisicamente, mas espiritualmente. Apesar de juntas, essas pessoas se sentem geralmente sós e se integram não pela reflexão ou pelo debate de questões coletivas – quando poderia receber o nome de esfera pública, como diria Jürgen Habermas –, mas pela sujeição aos dispositivos difundidos pela mídia e patrocinados por empresas. E todo veículo de comunicação é, ele mesmo, uma empresa que, em tese, tem interesses comerciais que tendem a fazer vigorar uma ‘opinião privada’. Não se pode, nesse caso, falar em identidade, mas em identificação, ou seja, cada pessoa se liga às demais e ao conjunto da sociedade pela absorção de ideais sobre os quais não refletiu – geralmente modelos pré-moldados de pensamento e comportamento. Não é demais falar, nesse caso, que a opinião pública é o nome de fantasia de um público sem opinião que ‘pensa’ quase que unicamente com as mensagens midiáticas.


O caos, a outra face do ideal


A prática comunicativa que governa esse processo é conhecida como perlocução – a transmissão de mensagens de modo a conseguir, prioritariamente, um efeito persuasivo. A comunicação perlocutória trabalha no sentido de exercer um efeito emocionalmente envolvente que subtrai do indivíduo o senso crítico e a capacidade de formulação subjetiva. Nesse caso, pela identificação, há uma simulação identitária na qual não existe individualidade ou mesmo subjetividade, no sentido estrito do termo.


A mensagem perlocutória da mídia tem, via de regra, o objetivo de incutir o temor de modo a que a pessoa tenda a aderir ao modelo ideal para buscar segurança. Forma-se uma subjetividade impotente na qual o sujeito clama por uma ordem que o livre do caos e, ironicamente, da impotência, quando, na verdade, está mergulhando voluntariamente num estado de estupor e de alienação. Esse mecanismo perverso de articulação subjetiva funciona nos moldes hobbesianos e a mídia contemporânea pode ser entendida como um leviatã: oferece, através de um modelo metafísico fechado em si, uma falsa segurança que se funda na ameaça de eclosão de um ‘estado natural’ de desordem.


O indivíduo aceita trocar o real pelo ideal de modo a manter sua liberdade, mas está, de forma evidente, abrindo mão dela, pois teme o caos que lhe vendem como ameaça – e o caos é a outra face do ideal: este se sustenta pelo suposto risco de queda naquele. Usualmente, o nome dado ao caos nos noticiários é ‘crise’, sendo que, segundo muitos jornais e telejornais, vivemos em crise. Às vezes, no caso de certas manifestações populares, o nome é ‘baderna’.


Reação imediata e truculenta


Com a manipulação de um modelo ideal de abordagem do real, o leviatã midiático produz o simulacro da dissolução das diferenças e promete o nirvana do fim dos conflitos pela adesão a um esquema universal de pensamento que trabalha com a distinção fictícia, idealizada, do Bem contra o Mal. A riqueza da realidade, com suas singularidades múltiplas, com seus conflitos constituintes, fica perdida no emaranhado de noções moralistas e idealizadas. Através da promessa da salvação e da libertação pela adesão a uma forma metafísica de ‘pensar’ o real, a imprensa tem incentivado a constituição de pessoas castradas em sua potencialidade transformadora da realidade. Tudo indica que essas pessoas compõem a tal opinião pública, para a qual um deputado declarou, recentemente, estar ‘se lixando’.


Mas, afinal, quem se importa com esse público sem opinião, essa massa abstrata que oscila entre a ordem metafísica e o caos terrorífico? Nem mesmo a dita grande imprensa, que diz defendê-la. Não é absurdo dizer que os veículos de comunicação de massa tratam essas pessoas como idealmente livres e incrivelmente potentes. Mas, na realidade, fica a impressão de que as compreende de forma diametralmente oposta. Em outros termos, a tal declaração do deputado bem poderia sair da boca de boa parte dos jornalistas que o julgaram e condenaram. Talvez essa seja uma das razões que os levou a reagir, nos termos de Carlos Heitor Cony, de forma tão imediata e truculenta.

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Respectivamente, jornalista e secretário da Representação do Paraná em Brasília

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