Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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JORNAL DE DEBATES > CHINA

Questão de problemas e providências

Por Maria Luiza Franco Busse em 25/03/2008 na edição 478

A imprensa brasileira tem o costume de escrever torto por linhas retas sobre a China. Muito por ignorância e por ideologia, o que me parece impróprio quando o objetivo é informar. O primeiro caso é preocupante porque não é mais possível que nós, jornalistas, continuemos especialistas em generalidades num mundo cada vez mais evidenciado pelas nuanças, e no segundo porque a dimensão ideológica contaminada pela ignorância produz o pior jornalismo, ou seja, o texto calcado na reflexão medíocre que empobrece totalmente a realidade e toma o acontecimento como uma ocorrência encerrada em si mesma.

Então, a China. Sem querer, o jornalista Arthur Dapieve acertou no que não viu no artigo ‘Longe de Pequim – Colunista protesta e não assistirá às Olimpíadas’, publicado no ‘Segundo Caderno’ de O Globo, na sexta-feira (21/3), e abriu para uma oportunidade de esclarecimento e debate . Na sua decisão de ‘não vou botar azeitona neste pastel chinês’, em decorrência da implacável reação chinesa à luta de tibetanos por independência, o parágrafo que encerra o texto diz: ‘Pelo CCTV-9, não havia problema, só providências anunciadas pelo Ministério dos Transportes. O clima era de extrema leveza. Acho que eu preciso assinar a TV chinesa.’

Finais infelizes são mudados

Bingo! Mas não pela mesma razão que levou João Armitage, o viajante inglês do século 19, a escrever em sua História do Brasil que a ‘julgar-se do Brasil pelo seu único periódico, devia ser considerado como um paraíso terrestre, onde nunca se tinha expressado um só queixume’. O acerto involuntário do artigo está na oração coordenada ‘não havia problema, só providências’. Efetivamente, a China não pensa o mundo como problema. Quem gosta de problema, e de discutir problema, é o Ocidente. No Brasil, por exemplo, a dengue está matando enquanto se discute o mosquito. Nós, faz cinco anos, seguimos debatendo a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, que atropelou a ONU em causa própria, e o pau continua comendo sem previsão de término.

Já na China, onde a inflação é basicamente causada pelo desequilíbrio entre a pouca oferta de alimentos e a forte demanda, no instante em que a doença da ‘orelha azul’ começou a dizimar o plantel de suínos, lá estava o vice-presidente Wen Jiabao junto aos criadores e, com ele, dinheiro, vacina e estoque regulador acionado para botar a situação em ordem. E quando trinta operários ficaram presos numa mina de carvão, dezenas de engenheiros, técnicos, soldados e voluntários cavaram um buraco enorme por onde derramaram leite, de soja, naturalmente, sem parar, durante três dias, numa operação que o Ocidente teria considerado primitiva e até nojenta, mas que salvou a vida de todos, eternamente gratos à Mãe China.

Problema é uma noção incompatível com sabedoria, princípio constitutivo do mundo chinês e que tem como requisito a dissolução dos problemas. Lu Xun, que simplificando a apresentação a um bit é conhecido como o pai da moderna literatura chinesa, lembra de modo crítico que muitos romances tiveram seus finais infelizes modificados para atender à tradição chinesa de dissolver os problemas. Diz ele: ‘Suponho que na China sabemos que a vida não é perfeita, mas não gostamos de admitir porque, se admitimos abertamente, o problema aparece. (…) Já que os chineses não gostam nem de problemas nem de preocupações, (…) os finais infelizes dos romances são mudados para finais felizes: todas as dívidas se pagam e nos enganamos uns aos outros. Esse é um dos problemas do nosso caráter nacional.’

E o conteúdo do canal?

Pois é sobre essa matriz que tanto contrariava Lu Xun que está posta a questão do Tibete. E se a minha intuição não falha e meus olhos não piscaram mais do que ficaram atentos enquanto estudava sobre centenas de livros para entender um pouco da China, lamento informar que ‘Free Tibet’ é coisa que até o Dalai Lama já sacou ser algo difícil de alcançar. De minha parte, arrisco uma única e suficiente razão: as nascentes dos rios que cortam a China estão todas no Tibete e a lógica da defesa da integridade territorial chinesa não coloca em risco esse patrimônio. Sendo assim, nossos atletas não contarão, mesmo, com a assistência de Dapieve.

Quanto à CCTV Internacional, o canal 9 da Central Chinesa de Televisão, estou certa de que a nossa TV Pública, a TV Brasil, prestaria um excelente serviço à pluralidade de informação se passasse a receber matérias dos telejornais ali produzidos e – sugestão – levasse ao ar o programa Dialogue, uma aula diária de debate jornalístico democrático, no qual a pergunta tem lugar soberano, independente se o gato é preto ou branco, importando mesmo é que dê conta do rato. E, breve digressão, no momento estou traduzindo o livro publicado pelo programa, dirigido e apresentado pelo certeiro jornalista Yang Rui, que contém as entrevistas consideradas mais relevantes e que vão do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter ao presidente do Comitê Olímpico Chinês, He Zhenliang.

Se assim a TV Pública proceder, o colunista que promete boicotar as Olimpíadas para ficar em paz com a sua consciência não vai precisar pagar para ver o que o incomoda e os demais telespectadores não precisarão ir a Paris, ou à China, só para ter acesso à CCTV Internacional. Quando muito, arranjarão mais um problema para pensar: é democrático ou não é o conteúdo desse canal chinês?

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Jornalista, professora e doutora em Semiologia pela UFRJ com tese sobre a China

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