Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > ENTREVISTA / ANTONIO CARLOS PEIXOTO

Radiografia do Peru. E de sua imprensa

Por Mauro Malin em 09/12/2009 na edição 567

Elite aceitou independência do Peru por medo de liberalização na Espanha


Esta aula-entrevista foi concedida por Antonio Carlos Peixoto em junho de
2008. Não foi possível editá-la e publicá-la antes. Mais uma vez (ver ao final
lista com outras entrevistas) constata-se que uma certa dose de conhecimentos
históricos sólidos muda a percepção a respeito da trajetória de um país. A
conversa chegou até o panorama após as eleições de 2006, mas isso não lhe tira
um fiapo da relevância para ajudar a entender o que acontece agora no país
vizinho.


Independente contra a própria vontade


O que caracteriza o processo de independência do Peru?


Antonio Carlos Peixoto – A primeira singularidade do Peru é que ele
realizou sua independência contra sua própria vontade. Existe uma coisa curiosa
no que se refere à independência, nesse caso não da América do Sul, mas da
América Latina no seu conjunto. Há um certo número de lugares que se tornaram
depois países nos quais a independência se dá ou de fora para dentro, no caso
peruano, ou por desconfiança das elites – caso mexicano. Quer dizer, os dois
países não queriam a independência. Um era o vice-reino do Peru, o outro era o
vice-reino de Nova Espanha.


O grande escritor mexicano Octavio Paz chama a atenção para isso: quando
houve a revolução liberal espanhola em Cádiz, como houve a do Porto, a elite
mexicana ficou com medo de uma metrópole liberal. Essa informação, por sinal, eu
tinha antes de ler Octavio Paz, porque fui professor de História da América
durante um bom tempo


As forças dominantes no Peru tiveram medo do que poderia vir de Madri?


A.C.P. – É melhor ter uma ex-colônia se separando da metrópole, mas
mantendo uma base conservadora de poder, do que se arriscar a ter uma metrópole
liberal. ‘Podem começar a inventar aqui em cima de nós’. E se separaram. O
México teve lá a trajetória que teve.


O caso peruano é o seguinte. [Simón] Bolívar tinha completado o processo de
independência no Norte da América do Sul, quer dizer, Venezuela e Colômbia, que
ele quis unificar, chamando de Grande Colômbia, e o Equador. O Equador estava
libertado.


O senhor poderia traçar alguns paralelos?


A.C.P. – Na Argentina de [José de] San Martín – um caso que era o oposto
dos casos do México e do Peru – existe um consenso das elites pela
independência. Não há guerra. Não há um tiro contra ou a favor da independência
da Argentina. Todo mundo queria. O caso chileno é mais complicado. É importante
para entender o Peru, porque se faz a independência, chega a tropa espanhola
vinda justamente do Peru, esmaga a independência. [Bernardo] O´Higgins, que é o
patriarca deles, o José Bonifácio deles, cruza os Andes, foge com alguns fiéis,
e na Argentina, então, se organiza um exército chefiado por San Martín para
resolver o negócio porque a Argentina, obviamente, não queria um vizinho –
claro, separado pela Cordilheira dos Andes –, mas um vizinho próximo que
estivesse ainda sob o jugo espanhol.


Há a famosa epopéia de San Martín. Ele atravessa os Andes num passo não muito
alto, entra em território chileno, ele era um bom militar, derrota os espanhóis
e a independência do Chile é feita. É uma coisa que os chilenos não gostam muito
de lembrar, mas eles devem a independência deles à Argentina. Isso é fato, não é
interpretação.


Os exércitos que libertaram o Peru vieram da Argentina via Chile, e da
Venezuela e da Colômbia via Equador


Bolívar está no Equador, San Martín no Chile. O que fica no meio dos dois? O
Peru. Ocorre um fato histórico, o famoso encontro realizado em Guaiaquil, no
Equador, em que os dois – Bolívar e San Martín, que são os dois grandes homens
da independência da América do Sul, do ponto de vista militar – discutem. Esse
encontro fixa algumas coisas. San Martín se apaga diante de Bolívar. Ele não
compete. Ele é um militar, não é um homem da política, ele gosta mesmo é do
ruído da corneta acordando a soldadesca todas as manhãs. Ele tem um problema
complicado, porque ele é monarquista, e fez parte de uma articulação que ocorreu
na Argentina logo depois da independência para que a Argentina fosse uma
monarquia.


A Argentina só não foi monarquia porque faltou príncipe.


A.C.P. – Exatamente. Eles não encontraram governante. O Brasil encontrou
por causa de Napoleão. Devemos isso a Napoleão, para o bem e para o mal. A
Argentina não encontrou príncipe, rapidamente a opção republicana predominou.
Mas San Martín, pessoalmente, é um monarquista. Ele não pode se entender com
Bolívar. Bolívar é um homem ardoroso, aquela fogueira de ideias, de projetos, de
tudo. San Martín é um sujeito que só entende do campo de batalha. Então, ele se
apaga. Pega o navio e volta para o Chile. Do Chile volta para Argentina e depois
vai morar na França. Vai morrer na França, mais especificamente em
Boulogne-Sur-Mer. Eu visitei a Casa Museu dele.


Bolívar fica absoluto. Mas a combinação está feita. O exército argentino vem
do Sul, quer dizer, vem do Chile; os exércitos coligados venezuelanos e
colombianos vêm do Norte, do Equador. San Martín, aliás, já tinha desembarcado
em Callao [o porto de Lima]. O Exército argentino estava estacionado em Callao.
Bolívar chega, tomam Lima e têm lugar as duas últimas batalhas pela
independência da América do Sul, Junín e Ayacucho, que os argentinos chamam de
‘Ajacucho’.


Um sistema de dominação sobre massas indígenas


A independência poderia colocar em risco a opressão dos indígenas?


A.C.P. ‒ Essa é a primeira singularidade: o Peru realizou a independência
contra a vontade dele. Isso já mostra alguma coisa, as bases da sociedade
peruana são extremamente conservadoras, porque é um sistema de dominação sobre
massas indígenas. É o caso boliviano também. Como se terá liberdade? Dando
liberdade às massas indígenas. O que significa isso? Há um dos textos primorosos
do pensamento conservador aqui na América Latina, um poeta [González Prada, ver
adiante] que ridiculariza a ideia de uma constituição liberal, e vai gozando em
várias estrofes a situação do índio. O índio olha e diz, ‘agora tenho
liberdade’, mas ele não sabe ler. Liberdade… Não lê, é analfabeto.


E não é o caso da elite peruana. Você deve ter visto no Sérgio Buarque [em
Raízes do Brasil
] que a diferença principal, de certos pontos de vista – não
é a principal de todos os pontos de vista –, do Brasil em relação às colônias
espanholas é que elas tinham universidade. Havia difusão de ensino. Mesmo que a
Igreja controlasse muito, mas sempre passava alguma coisa nas malhas da rede.


Esse é um primeiro dado em relação ao Peru. Há uma estruturação social
conservadora. A questão indígena é uma questão extremamente complicada e no
século 19 isso vai se alternando entre conservadores que querem manter o
statu quo colonial e liberais que não conseguem realizar seu projeto
liberal.


Liberalismo não é possível sem adesão de uma parte da sociedade


Por que não conseguem?


A.C.P. ‒ Porque não há como. Não existe base social em cima da qual
operar. Para haver liberalismo é preciso que a sociedade, pelo menos uma parte
dela, possa aderir ao projeto liberal. Se essa base social não existe, não se
tem como. O liberalismo vai ser de fachada, como foi no caso peruano e em vários
outros.


A questão central é que existe um problema da terra. Ele se complica porque
na linha de clivagem entre conservadores e liberais há um elemento chave que é a
Igreja Católica, que não pode ser dissociada da questão indígena.


A escravidão brasileira é uma instituição privada, o dono da plantação compra
o escravo, alimenta o escravo, garante a capacidade de trabalho do escravo,
ainda que seja debaixo do chicote, ele não apela para a instituição pública. Ele
só apela em caso de grave distúrbio da ordem. Mas no caso espanhol, nos países
de alta concentração demográfica indígena, é mais complicado, porque a força de
trabalho indígena não é uma instituição privada, é uma instituição pública. É
uma questão da Coroa Espanhola.


Terra nas mãos da Igreja Católica


Como se combinam os interesses coloniais e da Igreja no Peru?


A.C.P. ‒ Logo no começo do século 16, logo que termina, digamos, o
processo de conquista, a Coroa Espanhola regulamenta isso. Ou seja, o índio é um
súdito da Coroa, ainda que em condições especiais. É claro que ele não tem o
mesmo estatuto do espanhol que emigrou para a Colônia ou do filho de espanhóis
que já nasceu na Colônia, mas ele é protegido pela Coroa. De que modo? Pelo
Exército? Não. Pela Igreja… É por isso que existe o processo de evangelização,
de catequese, essa praga.


A Igreja detém – os percentuais podem não ser exatamente estes, mas é a
proporção – 42% da terra agricultável no México, na Colômbia esse percentual
baixa para 38% e no Peru ele é um pouco menor, baixa para 33%. Existe terra à
disposição, mas tem o abade, o bispo, o cardeal, sei lá, sentado em cima da
terra.


Obviamente, é preciso liberar esse fator de produção. Os famosos três
fatores: terra, mão de obra e capital. É preciso liberar isso, botar esse
percentual de terra, que é um terço da terra do país, à disposição do mercado.
Mas é preciso também assegurar a mão de obra. Ou seja, os índios que trabalhavam
naquela terra têm de ir para o mercado de trabalho.


Latifúndio usou muita violência contra os ejidos


E, além disso, certa parte da propriedade agrícola, mas essa eu não sei de
modo nenhum de quanto era, pertence aos índios, por meio das comunidades
tradicionais, os chamados ejidos. Esse processo de pressão em cima dos
ejidos é um processo permanente na história do Peru. Ele vai durar desde
a independência, cento e tantos anos. São os latifundiários avançando na terra
ejidataria.


E aí não tem mutreta jurídica, é pau puro. Invadem, mesmo. Organizam meia
dúzia de jagunços, como foi feito aqui no Brasil, só que aqui no Brasil não
havia terra demarcada, não tinha ejido. Invadiam, matavam índio. Lá,
aliás, se fez muito mais do que aqui. Avançavam em cima dos ejidos,
principalmente os ejidos que eram limítrofes ao perímetro da propriedade
agrária do hacendado espanhol. A pressão em cima do ejido era
total.


Existe, portanto, um elemento importante de violência na história
peruana.


Internamente, aquilo era extremamente violento… O choque entre
conservadores e liberais passava em algum medida por aí, porque os conservadores
queriam manter o estatuto da Igreja e queriam manter a Igreja como responsável
pelas populações indígenas. Achavam que era a melhor maneira de garantir a paz
social. Tinham medo de uma indiada solta pelo país. Achavam que isso era fator
de distúrbio.


Os liberais – e nisso eles captam algum apoio dos conservadores,
principalmente dos proprietários agrários conservadores – querem liberar a terra
da Igreja e liberar a mão de obra indígena, assaltando os ejidos. Isso é
a base da sociedade peruana durante a maior parte do século 19.


Chile tirou terras do Peru e da Bolívia


Quais são os fatos mais significativos?


A.C.P. ‒ Eu disse, quando falei do Chile, que no final dos
anos 30 do século 19existe uma tentativa de união Bolívia-Peru. Andrés Santa
Cruz tenta uma união Bolívia-Peru. Santa Cruz é do altiplano. Ele nasceu no que
hoje é o altiplano boliviano. Mas naquela época, em termos de altiplano, não
havia grandes diferenças entre Bolívia e Peru. Chega a tomar o Peru, o então
ditador do Peru, que é [Agustín] Gamarra, vai buscar refúgio no Chile, Diego
Portales vê que uma união boliviano-peruana não é a melhor coisa para o Chile,
vem, ataca e derrota a ideia da confederação boliviano-peruana. Gamarra volta
para o Peru e mantém a ideia da confederação, invade a Bolívia, mas dessa vez
ele é derrotado pelos bolivianos e a ideia da junção dos dois países acaba. Isso
é significativo.


O segundo fato importante é a mesma guerra do Pacífico que tirou o mar da
Bolívia. Eu já me referi a isso quando falei do Chile. O pampa mineiro, como é
chamado no Chile, la pampa minera, la pampa salitrera, é terra de
ninguém. É da Bolívia, mas os bolivianos não cuidam disso. Empreendedores –
empreendimento de risco –, homens de negócio chilenos, uns cinco ou seis, vão
para lá, ocupam o território. Em algum momento a Bolívia pede pagamento de
impostos. Eles se recusam a pagar, por razões óbvias. Deviam ter cobrado no
início, agora é tarde, Inês é morta. Vamos para o pau. Vem a guerra. O Peru
entra na guerra ao lado da Bolívia não só por uma questão de solidariedade…
Existe. Existe solidariedade do povo peruano com o boliviano. Existia. Pode ser
que agora, com Evo Morales, as coisas estejam um pouco diferentes. Mas
existia.


Qual o desfecho do conflito?


A.C.P. ‒ São derrotados. O Chile toma Antofagasta, que é província
boliviana. Toma duas províncias peruanas, Tacna e Arica, e ocupa Lima.


Um caso único na América Latina de ódio entre dois povos


Outro fator que impregna o Peru é o ódio ao Chile. O ódio ao Chile é muito
forte. Eu acho, pelo que eu conheço, que é o único caso na América do Sul – eu
diria Latina – em que se tem, efetivamente, ódio da população de um país em
relação a outra.


Vale lembrar umas declarações desse maluco, [Ollanta] Humala, pouco antes das
eleições peruanas. Saiu na imprensa. Dizia o seguinte: Eu só entro no Chile
montado num tanque. Isso é uma maluquice, eles não vão recuperar isso nunca. A
não ser que haja um terremoto no Chile e metade da população morra. Eu ainda
brinquei com o cônsul do Chile, ele está querendo apressar a morte dele. O
chileno disse: é melhor que você diga do que eu, mas é isso que iria
acontecer.


O senhor teve a esse respeito uma experiência pessoal.


A.C.P. ‒ Eu fui professor em Paris de uma garota peruana, Clara Garland.
O pai dela era um jornalista, ligado até a algo que está na antologia política
do Peru, foi um assassinato dele por meio de uma esquadra de ‘búfalos’ do Apra
[Aliança Popular Revolucionária Americana]. Búfalos do Apra são uma tropa
de choque para dissolver comício adversário na porrada, ou para garantir os
comícios do Apra. Incidentalmente, Alan García [atual presidente do Peru] foi
búfalo do Apra.


Clara é da família Miró Quesada, do mais importante jornal peruano, que é o
El Commercio. Todo país sul-americano tem um grande órgão de imprensa
ligado às classes conservadoras. No Brasil era o Estadão. Quando eu andei
pelo Peru, nos anos 1980, ainda era o El Commercio. Ela foi minha aluna,
voltou para o Peru e um ano depois eu comecei a andar pelo Peru. Passei um ano e
pouco andando bastante por lá, cheguei a dar aula no Instituto Rio Branco de lá,
na Academia Diplomática.


Então, localizei-a, ela me convidou para almoçar num sábado e me disse o
seguinte, pelo telefone: ‘Ay, maestro, no se olvide’ – ela já tinha me
dito isso em Paris – ‘na casa de meu avô a palavra Chile não é mencionada’.


Eu fui almoçar lá, ela me recebeu na porta, repetiu: Nesta casa não se
pronuncia a palavra Chile. ‘Aqui não entra nada chileno, nem vinho’. Eu disse:
‘Isso é ótimo, Clara, porque, como não vamos beber vinho peruano, o vinho vai
ser francês’. Ela aí riu e disse: ‘É, francês’.


Chilenos usaram a mansão dos Miró Quesada como alojamento


Era uma mansão enorme no bairro de San Isidro. Lima tem dois bairros
elegantes, San Isidro e Miraflores. Miraflores tinha até um pouco mais de
comércio, mas San Isidro, não, era uma coisa puramente residencial. Parecia os
Jardins em São Paulo. Pega o Jardim mais elegante, não sei qual é, e aquilo é
San Isidro. Era uma mansão gigantesca, um palácio. E a palavra Chile não se
pronuncia por patriotismo, mas também porque na Guerra do Pacífico a casa deles,
dos Miró Quesada, que era a mesma, foi ‘requisitada’ pelo comando do exército
chileno de ocupação de Lima, e alguns oficiais do Estado-Maior se alojaram ali.
Ou seja, os Miró Quesadas foram desalojados. O ódio era realmente mortal.


Interessante, eu tive um colega na Faculdade de Arquitetura, até tinha um
nome inesquecível, e único, chamava-se, salvo engano, Rodolfredo Tolentino
Navincopa. Era um índio paraguaio, por sinal um índio grande. Grandalhão. Era da
minha turma. E quando chegamos ao 5º ano, eu falei: e você, Rodolfredo, vai
ficar no Brasil? Ele falou: ‘Meu avô me desonra, meu pai me desonra se eu ficar
no Brasil. Não vou ficar.’ Efeitos da Guerra do Paraguai, cem anos
depois.


A.C.P. – Mas ali, Peru e Chile, existe mais ódio do que do Paraguai em
relação ao Brasil.


O presidente pega o dinheiro do Peru para gastar em cabarés
parisienses


Voltemos à Guerra do Pacífico.


A.C.P. ‒ Essa guerra tem alguns fatos que mostram bem o que é o Peru. O
primeiro deles é o seguinte, o então presidente do Peru, que era Mariano Prado
[1865-68], recolhe todo encaixe em ouro que existe no equivalente ao banco
central peruano, pega um navio e vai para a Europa dizendo que vai comprar
armamentos. Desce na França, passa quase todo tempo da guerra em Paris, no meio
de cabaré, das putas… Coisa escabrosa. O país foi sangrado, realmente.


Foi condenado à morte por traição à pátria. Deixou passar alguns anos, para
esfriar um pouco o negócio, e voltou ao Peru. Obviamente, como havia uma ordem
de prisão e de condenação à morte, havia ali uma escolta do Exército esperando
por ele no porto. Ele desceu do navio e fez que nem o papa [João Paulo II]
costumava fazer, caiu de quatro e beijou o solo amado do país, e disse com voz
embargada pela emoção que ele beijava o solo pátrio, e tal, e diante dessa
demonstração de patriotismo exacerbado ele foi perdoado. Que essa elite
latino-americana é calhorda! Disputou a eleição seguinte, Mariano Prado. Quase
ganhou. Não ganhou porque a eleição foi roubada, não quiseram dar a vitória a
ele porque acharam que era demais.


É isso! É América do Sul!


Peru e Bolívia sofrem até hoje com separação entre o topo da pirâmide e o
resto do país


Como o senhor resumiria a questão social do Peru à época?


A.C.P. ‒ Uma parte ínfima da população está no topo da pirâmide social e
esse topo não tem nada a ver com o resto do país. Nada. Na verdade, você não tem
é país. Não existe país. O problema de inclusão, em casos como o Peru e a
Bolívia, é dramático. Continua sendo. Porque o México começou a resolver isso
mais cedo, com a Revolução Mexicana de 1910. Agora, Peru e Bolívia, não; isso
adentra o século XX, e envolve a esmagadora maioria da população.


Existem relatos documentados da Guerra do Pacífico que dizem o seguinte: os
soldados peruanos foram para a guerra acreditando que se tratava de uma guerra
pelo poder travada entre dois generais: general Peru e general Chile…


Não existe uma comunidade nacional, não existe país. O resultado é que o Peru
tem de perder a guerra, como a Bolívia tem de perder a guerra. Porque o Chile é
um país estruturado. Ele já tem uma ideia nacional, uma ideia de nacionalidade,
de pátria, coisa que o Peru não tem.


Esse fato marca a história do Peru, você tem o Mariano Prado se mandando,
gastando dinheiro do país na putaria lá na França. Você tem uma total ausência
de consciência nacional e o desastre econômico. O Peru se endividou. Diante da
Inglaterra, principalmente.


O grande produto de exportação do Peru, nessa época, é o guano, um adubo que
é esterco. Em algumas ilhas do litoral peruano, ilhas desertas, secas… Porque
em Lima não chove…


Quem visitou Lima diz que as casas nem precisariam ter telhado…


A.C.P. – Eu me hospedei num hotel, que não era ruim. O hotel tinha uma
espécie de varanda, de jardim de inverno, que não tinha telhado. Fui lá, estive
lá no inverno duas vezes, peguei umas temperaturas até gostosas, 12º, 13º, e não
tem chuva. O céu pode ficar meio acinzentado e pode ter garoa dez vezes mais
fraca que a de São Paulo. Então, tem umas ilhas secas ali perto, o estrume de
aves marinhas é depositado, e em algum momento aquilo pode ser exportado como
adubo.


Londres ficava com o dinheiro da alfândega peruana


Para pagar dívidas contraídas durante a guerra o Peru é obrigado a entregar,
a entregar – eu disse entregar, não é se comprometer a pagar nada, não – a
alfândega para companhias inglesas. O dinheiro vai direto para Londres, são eles
que controlam a alfândega peruana.


O terceiro fato importante no caso peruano, do século 19 – além das guerras e
do conflito entre conservadores e liberais –, que vai continuar marcando a vida
social e cultural do país, é uma intelectualidade que se destaca dentre as
colônias sul-americanas.


A elite intelectual mais poderosa da América do Sul


O senhor sustenta que é de um padrão superior às dos outros países do
continente.


A.C.P. – Não há na América do Sul uma intelectualidade como a peruana.
Ela é explosiva. É um ponto sobre o qual eu e Werneck [Luiz Jorge Werneck
Vianna] concordamos. Principalmente na literatura. Pelo amor de Deus, não vamos
comparar a literatura brasileira com a literatura peruana, porque não vai dar
para a saída… Você pode jogar talvez Graciliano Ramos, Guimarães Rosa… Não
joga Machado de Assis, porque aí é deprimente. O placar é deprimente…


É porque o senhor não gosta do Machado de Assis, já conversamos sobre
isso…


A.C.P. – Não vai disputar com os grandes escritores peruanos.


Quais são os escritores?


A.C.P. – No século 19 havia esse poeta que ridiculariza o liberalismo
aplicado às coisas indígenas, [Manuel] Gonzáles Prada. É o primeiro que diz
claramente: ‘Com este tipo de sociedade não há guerra que nós possamos
ganhar…’ Não existe. Este aqui é um país ferrado… Isto aqui não é país… Só
tem jeito por uma via, que é pela educação. Ou nós integramos a população
indígena pela via da educação, ou vamos continuar na situação em que
estamos…


Ele não diz ‘Vamos perder todas as próximas guerras’, mas é como se tivesse
dito. Esse, na minha opinião, é um dos maiores intelectuais sul-americanos do
século 19. Ele entra no positivismo, mas não é um positivista ortodoxo, de
religião positivista, com apostolado, como Auguste Comte. Ele é o que se chama
de positivismo ilustrado. Pega algumas coisas do positivismo, forma o pensamento
incorporando essas coisas…


Ricardo Palma escreve um lindo livro chamado Tradiciones peruanas, é
um bom poeta também, um grande poeta. Tem mais gente no século 19, mas isto aqui
não é um tratado de literatura.


‘Não há ninguém como Mariátegui na América Latina’


Nós vamos chegar ao fim do século 19, quando o Peru começa a se desvencilhar
do fardo que foi a Guerra do Pacífico do ponto de vista econômico.


No século 20, um dos maiores intelectuais da América Latina… Não. Eu diria
que é um bom intelectual para o mundo, que é [José Carlos] Mariátegui. Não tem
homem como Mariátegui na América Latina. Não nos equivoquemos. Não me venham
falar de Euclides da Cunha, que é brincadeira. Euclides da Cunha foi um homem
que passou pela escola. Mariátegui nunca passou por nada. E você tem o opositor
dele, [Victor Raúl] Haya de la Torre. Mas ainda tem água para rolar…


Voltamos, então, ao relato histórico?


A.C.P. – O que eu acho importante nas três primeiras décadas do século 20
peruano não são tanto os incidentes políticos, mais ou menos normais. Eles
obedecem a uma certa lógica que é própria da América do Sul, eu não diria nem
mais da América Latina. Acho que a América Central é outra história. E o México,
que em 1910 teve a famosa revolução que jogou o país numa outra direção, pelo
menos de estabilidade institucional, não teve golpe de Estado.


O caso peruano é um caso em que se sucedem presidentes, ditadores, não há
nada de excepcional.


Mineração diversificada


Algo a assinalar do ponto de vista econômico?


A.C.P. ‒ Eu diria que há um deslocamento da base da economia, que deixa
de lado o guano e passa a operar mais a mineração, com uma característica um
pouco diferenciada: se o Chile depende pesadamente de um produto mineral, o
cobre, o Peru tem uma capacidade exportadora de minerais um pouco mais
diversificada. A base da atividade mineradora é mais larga. Tem cobre, tem
prata. A mesma prata que era explorada pelos espanhóis desde o final do século
16, no século 17. Continua sendo um grande exportador de prata. Ele tem cobre,
ouro, ferro, zinco, chumbo.


Deslocamento para uma economia baseada essencialmente na mineração. O
Altiplano entra um pouco no comércio internacional com a lã de vicunha. Vicunha
é uma prima da lhama, só que mais sofisticada. A lã da vicunha tem preço alto no
mercado internacional.


‘Europeus não reconhecem, mas Mariátegui foi um pensador marxista de
categoria mundial’


Mas o grande elemento que diferencia o Peru dos demais países da América do
Sul encontra-se no terreno do pensamento. Qual pensamento? Filosófico? Não. Não
é bem o caso. O pensamento peruano foi extremamente rico e é um pensamento
voltado diretamente para a questão social e política. Primeiro, porque se tem no
Peru, sem dúvida alguma, o maior nome do marxismo latino-americano, e eu diria
até um dos bons nomes do marxismo do ponto de vista mundial.


É claro que a Europa, com aquela sofisticação na qual existe uma boa parte de
ser metida a besta, não reconhece isso. Os grandes teóricos do marxismo,
alemães, franceses… Apesar de que a base mesmo, os grandes foram sem dúvida os
alemães. Tinha um ou outro francês, um ou outro inglês, mas a base mesmo foi
alemã. Eles não vão reconhecer isso, mas o nome de José Carlos Mariátegui é um
nome que dispensa apresentações.


E, por outro lado, há, na complementaridade de Mariátegui, o nome de um
indivíduo – finalmente ele vem à tona, acho que eu já citei o nome dele diversas
vezes, Víctor Raúl Haya de la Torre, que, como já mencionei, é o pai de todos os
populismos latino-americanos, e, apesar de ser um homem teoricamente menos
formado do que Mariátegui, é de uma inteligência, de uma agudeza intelectual,
sem dúvida alguma, excepcional.


São dois livros que todos os interessados nesta parte do mundo têm que ler.
Um deles é Sete Ensaios sobre a Realidade Peruana, de Mariátegui. E o
livro de Haya de la Torre, que se chama O Anti-imperialismo e o
Apra
.


O chollo e o militante estudantil


Fale um pouco sobre esses personagens.


A.C.P ‒ As trajetórias são diferentes. Mariátegui é um homem de origem
pobre, é um chollo, tem mestiçagem de índio. Ele ganhava a vida, quando
jovem, duramente como linotipista. Ele vai organizando a vida intelectual dele,
lendo, é um autodidata, um homem excepcionalmente inteligente, que vai se
formando a duras penas, e começa a organizar círculos de discussões e de
aprendizado do marxismo. Aqueles famosos círculos que nós tanto odiávamos. Eu,
você, alguns outros éramos consensuais em relação a isso.


Ele edita [1926] uma revista chamada Amauta. Esse nome tem um
significado simbólico do ponto de vista dos índios [sábio quéchua; entre as
populações indígenas, pessoa idosa, com autoridade moral].


Enquanto Haya de la Torre é um homem que vem de uma classe média bem situada,
não de Lima, de uma cidade que fica mais ao norte do Peru, Trujillo. Ele vai
estudar em Lima e começa uma militância política extremamente intensa no
movimento estudantil. Está em Lima fazendo a Faculdade de Direito, mas é um
ativista estudantil em tempo integral. Ele é da Universidade de San Marcos, a
grande universidade pública do Peru. Foi fundada pela Igreja Católica [primeira
universidade das Américas, 1551], agora é estatal.


Haya de la Torre dirige lá uma greve. Essa greve não é muito diferente
daquelas coisas que a UNE do meu tempo propunha. Só que ele estava propondo isso
uns quarenta anos antes. Coisa interessante, um dos pontos reivindicatórios
dessa greve é que a universidade fosse aberta à noite, que à noite houvesse
cursos para operários. Era a famosa ideia da aliança operário-estudantil, que já
estava na cabeça do Haya de la Torre ainda garoto – 21, 22 anos. Era a inclusão
da classe operária no plano educacional.


Luta pioneira para universidade receber operários


A ideia da democratização passava por isso.


A.C.P. – A ideia da democracia de um modo geral. Uma democracia de
massas, ampla, que incluísse o proletariado. A ideia básica de Haya é a reforma
universitária. A ideia de uma reforma universitária, na América Latina, surge em
dois países. Primeiro na Argentina, não podia deixar de ser, que era o país mais
culto. É o famoso Manifiesto de Córdoba, de 1918. Não fala em universidade
aberta aos operários, de noite. Isso é Haya de la Torre, esse era um dos pontos
da reforma universitária.


Haya de la Torre foi comunista. O Armenio Guedes tem
razão quando dizia, hoje em dia, é claro, isso já mudou, mas até algum momento
ele estava certo quando ele dizia que o maior partido do Brasil era o partido
dos que já foram do Partido [Partido Comunista Brasileiro, Partidão]. Só que
isso não é uma coisa muito diferente para vários outros países aqui desta parte
do mundo. Haya de la Torre foi comunista, ele cruzou com Mariátegui, mas tinha
uma militância que era mais direta, de ativista político. Não quer dizer que não
lesse, Haya de la Torre não era ignorante. Você pode ser extremamente
inteligente e ser meio ignorante. Não era o caso do Haya, ele lia as coisas, mas
era diferente de Mariátegui, intelectual em tempo integral.


Mariátegui, na Europa, tem contato com as ideias de Gramsci, Labriola, Croce,
Sorel


Mariátegui começa a incomodar um pouco o governo, porque a Amauta
torna-se uma revista de boa circulação, obviamente nos meios intelectuais, nos
meios da elite. Vários deles liam para saber o que o outro estava pensando. Isso
coincide com um momento dos anos 20, da criação do Partido Comunista – em toda
parte do mundo os partidos comunistas foram criados nos anos 20, depois da
Revolução Russa –, o então ditador, que se chamava [Augusto] Leguía, um sujeito
também esperto, resolve tentar cooptar Mariátegui. Ele dá uma bolsa de estudos
para Mariátegui ir para a Europa. Era tudo o que Mariátegui queria, para
aperfeiçoar a formação marxista dele. Não é um período muito longo. Não foi
fazer um doutorado de quatro anos. Ele passa algum tempo principalmente na
França, mas passa algum tempo também na Itália, onde vai ter contato com o
pensador marxista ali dominante, ainda não é [Antonio] Gramsci, é [Antonio]
Labriola. Ele é muito influenciado também por um pensador liberal italiano,
[Benedetto] Croce. E pelo pensamento do sindicalismo revolucionário de Georges
Sorel, que foi ligado ao Partido Socialista e depois saiu. Era um pensamento
extremamente vigoroso, apesar de pouco sistemático.


O nosso herói passa algum tempo lá pelas Europas, volta para o Peru e
continua suas atividades intelectuais. Leguía até gostava dele, tinha certa
simpatia por ele… Vai deixando. Não existe uma política de repressão mais
pesada contra Mariátegui, ele vai desenvolvendo as atividades ligadas ao PC, tem
a revista Amauta, e ele escreve esse livro, que, como livro, pelo menos
que eu saiba, é a única obra de Mariátegui. Mas existem inúmeros artigos que ele
ia publicando na Amauta. E é quando começa a se dar a polêmica, a famosa
polêmica, que é a mães das polêmicas dos marxismos contra os populismos, a
polêmica contra Haya de la Torre.


Haya de la Torre se afasta do Partido. Ele vai tentar criar um partido dele
mesmo, que vai receber o nome de Apra, porque, tal como Trotski, Haya pensava
numa revolução que fosse continental. Não era Aliança Popular Revolucionária
Peruana; era Americana, mesmo, porque aquilo era para o conjunto da América.


Haya de la Torre cria uma categoria nova, a Indo-América


Isso inclui o México?


A.C.P. ‒ Não sei se Haya chegava a pensar especificamente no caso
mexicano. O México já vivia um processo de institucionalização da Revolução,
quer dizer, o PRI [Partido Revolucionário Institucional] já estava sendo criado.
Mas ele pensa claramente na América do Sul.


O negócio dele é muito voltado para a América do Sul, e ele introduz no
projeto revolucionário dele uma categoria que não é muito bem especificada, mas
que faz muito sentido, principalmente se nós olhamos as coisas de hoje, é a
Indo-América, a América dos países onde as massas indígenas são mais numerosas,
constituem a maioria sensível da população, 60%, 70%, 80%. Naquela época o grau
de mestiçagem era menor, as populações indígenas viviam mais segregadas.


A articulação da ideia da Indo-América e de uma revolução que fosse
continental, que é uma ideia mais trotskista, não é muito clara e nem muito bem
feita em Haya. Mas Haya era um escritor político, não tinha o cuidado, o
refinamento do intelectual de articular muito bem todos os conceitos que criava.
Ia jogando as coisas. O que não o desmerece em nada. Eu não sou partidário da
superioridade do texto do intelectual sobre o texto do político. De modo nenhum.
Existem textos políticos que são coisas maravilhosas. Pessoalmente, acho que o
texto de Haya é uma dessas coisas. Há dois livros no Peru que são faróis, vão
iluminar a América Latina e, mais especificamente, a América do Sul.


Esses livros tiveram alguma influência nos partidos comunistas?


A.C.P. ‒ É claro que para os Partidos Comunistas que estavam então se
formando, e eram povoados por gente muito primária do ponto de vista
intelectual, o contato com o livro do Mariátegui é mais difícil, mais precário.
Eu não sei, por exemplo, quando Astrojildo Pereira, o único intelectual entre
aqueles nove soturnos que criaram o PCB em Niterói, leu Mariátegui. Certamente
leu, mas eu gostaria de saber quando. A influência intelectual que o PCB sofreu
foi muito mais dos argentinos, por causa daquele tempo que [Luís Carlos] Prestes
viveu em Buenos Aires. Foi de Américo Ghioldi, creio que também de Álvaro
Yunque. Mas isso já é uma questão dos anos 30 do século 20, não é um problema
dos anos 20.


O primeiro a enunciar os princípios do populismo


O livro de Haya de la Torre, não. Teve curso. Quais são as principais ideias
ali expostas? Para quem tem ideia do que é populismo, é muito fácil de entender.
Só que ele foi o primeiro a dizer. Onde você tem classe, substitua por povo. O
primeiro ponto. O povo, por motivos tautológicos, que não precisam ser
explicados, constitui a Nação. Então, a revolução tem um caráter nacional. Não é
uma revolução de classe. Todas as ideias da burguesia nacional, sobre a qual nós
nos fartamos de discutir, Haya de la Torre já tinha levantado no final dos anos
20. É porque realmente aqui no Brasil as coisas deviam ser mais difíceis, eu
tenho a impressão que nem o texto de Haya de la Torre apareceu por aqui, acho
que demorou bastante.


Uma revolução antiimperialista…


A revolução é nacional, porque existe um fator externo que atropela, perturba
e atravanca a vida dos países, que é o imperialismo. Por isso o próprio livro
tem o nome de O Anti-imperialismo e o Apra.


Dentro do país existe a representação do imperialismo que Haya de la Torre
vai chamar de antinação. Aquela velha ideia dos comunistas dos anos 50, aqui no
Brasil, isso é uma coisa que vinte e tantos anos antes, trinta anos, está em
Haya de la Torre. Antinação, imperialismo, isso precisa ser extirpado,
eliminado, apesar de que Haya não é, de modo nenhum, um indivíduo sanguinário,
sedento de sangue. Quer dizer, não é nisso que ele pensa.


… sem poder apoiar-se em classe operária e campesinato


Mas o que ele diz muito claramente é o seguinte: Não vamos sonhar ‒ é uma
porrada no Mariátegui, ele não diz mas deve ter pensado – como Mariátegui está
sonhando. Como é que se vai fazer uma revolução aqui com classe operária e
campesinato? Não tem como fazer. Isso sozinho não faz revolução em lugar nenhum
da América do Sul nem da América Latina. Não vai dar certo. É preciso uma
aliança muito ampla de segmentos da sociedade, de classes. Isso é dirigido
contra a antinação e contra o imperialismo. Aí, tudo bem, nacionaliza uma porção
de coisas, faz a reforma agrária, etc.


Mariátegui também tem alguns dados estatísticos sobre o tamanho da classe
operária, e ele é obrigado a confessar, constatar, mas isso até antes do Haya
escrever O Antiimperialismo e o Apra, que a classe operária é pouco
numerosa. Mas ele não pensa em aliança com o que seria o setor nacional
produtivo. Ele pensa numa aliança com as camadas médias urbanas, pequena
burguesia.


Em 1931, derrota eleitoral contestada


Quando foi a primeira eleição disputada por Haya de la Torre?


A.C.P. – Haya de la Torre cria o Apra. Ele então vai disputar uma eleição
presidencial [1931]. Ele foi derrotado por [Luis Miguel] Sánchez Cerro. Sánchez
Cerro ganha as eleições, é uma coisa muito tumultuada porque os apristas dizem
até hoje que essa eleição foi roubada. Os outros, os partidários de Sánchez
Cerro, já morreram todos. Mas a elite peruana diz que não foi bem assim. Essas
coisas é impossível saber.


Há um analista peruano extremamente inteligente, escreve bem, Guillermo
Thorndike, ele é de origem se não me engano irlandesa, ou inglesa. Escreveu um
livro muito interessante sobre a história política peruana. Ele é aprista. Era,
hoje não sei. Ele diz que as eleições foram nitidamente roubadas.


Apra, o grande partido político popular


Mariátegui morre muito cedo, em 1930. O fator principal vai ser agora que o
Apra existe já como partido político. O Apra aparece na cena peruana, nos anos
30, como o grande partido político popular. Mas acontece um incidente que
mutatis mutandi, do ponto de vista factual, formal, se parece um pouco
com o que ocorreu aqui no Brasil na chamada Intentona [tentativa insurrecional
comunista de 1935]. Haya de la Torre, após a ilegalização do Apra, em 1932,
chama uma insurreição. Na cidade de Trujillo aconteceu uma coisa que marcou o
destino do Apra, como o que aconteceu na Intentona marcou o destino do PC aqui
no Brasil, do ponto de vista das relações com as Forças Armadas.


Militares assassinados, pecha eterna


Em Trujillo aconteceu que a Guarnição Militar de Trujillo em algum momento se
rendeu. Foi presa. E a revolução, o levante estava sendo debelado e as chamadas
tropas fiéis ao governo estavam marchando sobre Trujillo, quando um maluco, pelo
que se sabe, um doido qualquer entrou no cárcere onde estavam os militares, eram
setenta e poucos, e deu ordem de fuzilamento.


Nunca mais o Apra conseguiu se desfazer da pecha de assassino, covarde.
Fuzilar criaturas presas e indefesas. As Forças Armadas não aceitavam o Apra em
hipótese alguma. É claro que não aceitavam por outras razões, mas o discurso era
esse. Era um partido de assassinos, de covardes que assassinavam gente indefesa,
etc. [Sánchez Cerro será assassinado em 1933 por um militante isolado, em Lima.]


Vida dura para o Apra…


A.C.P. ‒ Os anos 30 são um período difícil. O aprismo é reprimido, vai
para a clandestinidade, mas é um partido forte, bem estruturado. A militância
aprista também é uma militância extremamente corajosa, isso, diga-se de
passagem, subjetivamente, porque frequentemente nós, os antigos comunistas,
achamos que coragem na clandestinidade era um monopólio nosso. Não é bem assim;
o aprismo ensina que não é isso. A militância aprista era uma militância pesada.
Acreditava na redenção do Peru, acreditava numa porção de coisas, e mesmo com a
maior parte da direção aprista, Haya de la Torre à frente, no exílio, os
militantes continuavam ali batalhando.


Um ano bom para a democracia no continente, 1945


O assassinato de Sánchez Cerro desencadeia uma crise de poder. No governo de
Manuel Prado Ugarteche [1939-45] haverá alguma estabilização. Em 1945, o quadro
se clareia. Foi um bom ano para a democracia na América Latina. Fim da Guerra,
os Estados Unidos apoiando a derrubada dos ditadores. Convocadas eleições, ganha
[José] Bustamante y Rivero [1945-48]. Quem garante a sobrevivência política de
Bustamante y Rivero no Parlamento é o Apra. O Apra ganha o nome de Partido
Aprista Peruano. Bustamante y Rivero, coisa curiosa, era casado com uma tia de
[Mario] Vargas Llosa e morava em La Paz. Era peruano, mas estava metido lá em La
Paz. Voltou e foi eleito presidente.


Começa então outro período tumultuado. Em 48, o Apra, que garantia
politicamente a viabilidade do governo, ou, para usar um termo atual, dava
governabilidade a Bustamante y Rivero, decide romper o pacto constitucional e
apelar para o golpe, para a sublevação, o levante.


Levante na Marinha, cinco anos de exílio numa embaixada


É um levante que começa e acaba na Marinha peruana, cuja principal base se
encontra em Callao. É um levante principalmente de marinheiros. Marinheiros,
cabos, sargentos dos navios de guerra, eles tomam a esquadra, descem em Callao e
marcham sobre Lima. A situação fica sob controle, mas Bustamante y Rivero perde
a capacidade de governo. Esse golpe é uma coisa muito estranha. Eu já ouvi
inclusive versões de que o golpe não foi coordenado por Haya, mas por outros
integrantes da direção aprista, que Haya ficou furioso porque não foi informado
e o negócio acabou dando em água de barrela, como se diz na gíria. O que valeu
um novo período longo de repressão para o aprismo e forçou Haya de la Torre a um
exílio maluco durante o qual ele ficou cinco anos na embaixada da Colômbia.


A ditadura de Odria


Vai-se ter longa ditadura de [Manuel] Odría, que vai durar de 48 a 58, dez
anos. Ele carrega o país até 58 nessas condições: não é uma ditadura cruenta,
sanguinária, mas é um governo altamente repressivo. O aprismo, o comunismo são
perseguidos, reprimidos, existe prisão, e mais uma vez a militância aprista vai
lutar na clandestinidade. De um ponto de vista literário quem dá uma boa ideia
desse período é Vargas Llosa no livro que eu considero a obra-prima dele,
Conversa na Catedral.


Em 58 há novas eleições e volta ao poder aquele mesmo cidadão do final dos
anos 30, Manuel Prado Ugarteche. É parente, de outra geração, daquele Mariano
Prado que foi o sujeito que fugiu do Peru, botou em caixa o ouro no navio e se
meteu lá nos cabarés de Paris. É uma família que, realmente, prestou grandes
serviços ao país.


Comunistas apoiam Belaúnde Terry em 1962


Em 62 há uma eleição importante. Haya se apresenta candidato, ganha a
eleição, mas tem um veto das Forças Armadas. Em 63 há outra eleição, [Fernando]
Belaúnde Terry ganha com apoio dos comunistas. Os comunistas odiavam o aprismo,
por motivos óbvios. Como nós odiávamos Getúlio.


Antes de completar o mandato, Belaúnde Terry é deposto por um golpe de Estado
de Velasco Alvarado. Como eu costumo dizer não só para os meus alunos da UERJ,
mas também em conferências para outras pessoas, é aquele tipo de golpe com o
qual toda esquerda latino-americana sonha. Sonhava. É o golpe militar de
esquerda. Nacionalista.


A síndrome da derrota no Peru


O que houve de relevante antes da ascensão de Alvarado?


A.C.P. ‒ É preciso dizer algumas coisas sobre esse período conturbado do
século 20 que termina em 68.


Primeiro, assim como a Bolívia, o Peru também é um país que sofre de uma
síndrome da derrota, que é uma das coisas mais fortes da vida boliviana. Essa
síndrome da derrota também ocorre no Peru. É um país marcado pelo insucesso nas
questões que o levaram à guerra. Tenha ele provocado essa guerra, ou tenha a
guerra sido provocada por outros.


Nós já vimos, no final dos anos 30 do século 19 é a guerra movida pelo Chile
contra a União Peruana-Boliviana. É a guerra do final dos anos 70, a Guerra do
Pacífico, na qual o Peru, país mais forte do que a Bolívia, é derrotado. Em 1932
há um problema grave de fronteiras esbarrando aqui no estado do Amazonas, numa
cidade chamada Letícia. Havia ali uma disputa de fronteiras entre o Peru e a
Colômbia. Uma situação muito tensa, muito difícil, conflituosa, e, como de
costume, a Colômbia foi mais rápida… Quer dizer, não a Colômbia ser mais
rápida, é de costume Peru e Bolívia serem mais lentos. [Em 1941 o Peru
conquistaria 200 mil quilômetros quadrados de selva amazônica num conflito com o
Equador.]


O pensamento militar peruano segue o padrão dos vizinhos?


A.C.P. ‒ O problema central para as Forças Armadas peruanas passou a ser
o seguinte. O que torna fraco um país como o Peru, que não é inteiramente
miserável, tem uma certa capacidade exportadora, tem uma intelectualidade de
peso? É claro que essa questão já estava levantada pelo Gonzáles Prada no século
19. Era a estrutura social, a exclusão social, o tema que mais frequentemente
aparece e reaparece na nossa vida sul-americana.


E está de novo aí, na ordem do dia com Evo Morales e com Lula inclusive,
ainda que obviamente por outros caminhos e mecanismos.


As Forças Armadas peruanas criaram, em 1948, na mesma época em que aqui no
Brasil se criou a Escola Superior de Guerra, o Caen – Centro de Altos Estudos
Nacionais. Depois desses conflitos com a Colômbia e com o Equador. O Caen tomou
uma direção diferente de todas as escolas de altos estudos militares criadas na
América do Sul e na América Central. Ele se dedicou a estudar as fraquezas do
país e como superá-las, em vez de colocar a ênfase no inimigo interno, na
subversão, e definir um papel de aliança com os Estados Unidos na luta do mundo
livre contra o comunismo.


Uma doutrina voltada para a questão nacional, não para o ‘inimigo
interno’


As Forças Armadas peruanas tiveram uma socialização e criaram um tipo de
doutrina inteiramente diferente, mais voltada para a questão nacional e não para
o combate ao inimigo interno e para a aliança com os Estados Unidos no plano
internacional contra o comunismo.


Isso explica a tal ditadura nacionalista que sobe ao poder em 68, com Velasco
Alvarado.


Há alguns livros interessantes sobre essa questão do Caen e do pensamento, da
doutrina do exército peruano, por um sujeito que era ele mesmo major do
Exército, chamado Víctor Villanueva. Escreveu algumas coisas interessantes sobre
o Exército peruano. Eu li há muito tempo.


Nos anos 60, há a guerrilha que estoura no Peru. São dois focos
guerrilheiros, na melhor tradição castrista, que Cuba procurou imprimir por
aqui, criar o foco guerrilheiro. Um é feito em 1963 por Hugo Blanco. O outro,
por Luis de la Puente Uceda, em 1964.


Guerrilhas fracassaram, mas alimentaram opção por golpe militar


Que importância política tiveram essas guerrilhas?


A.C.P. ‒ O golpe militar de 68 tem muito mais a ver com a percepção de
perigo vinda das guerrilhas, apesar de que as guerrilhas foram debeladas, não
criaram graves problemas. Não houve uma guerra civil pesada, nada disso. O
exército peruano conseguiu rapidamente debelar esses focos guerrilheiros.


Teve muito mais a ver com isso do que alguma coisa que tenha se passado com o
governo de Belaúnde Terry, que não provocou uma insatisfação generalizada. A
lógica do golpe militar é muito simples: esses dois focos guerrilheiros nós
conseguimos debelar, mas e se vier algum que não consigamos debelar? Não é
melhor que nós façamos as coisas que eles dizem que vão fazer? Vamos tomar o
poder e vamos acertar uma série de coisas. O golpe militar tem muito mais a ver
com isso, ele é uma resposta às frentes guerrilheiras que foram criadas.


Um contexto de ditaduras


Nós estamos num contexto no qual o Brasil já é uma ditadura, 68 é o ano
trágico, que nós conhecemos, do Ato Institucional; a Argentina é uma ditadura,
ainda não é a ditadura sanguinária do Videla [Jorge Rafael Videla, 1976-1981]; a
Bolívia está sob a ditadura de [René] Barrientos. O Chile ainda iria caminhar
para ela, porque [Salvador] Allende é eleito em 70, e também o Uruguai toma um
rumo que vai desembocar em ditadura.


Outra razão para o golpe é que, como já se viu, em 63 Haya de la Torre se
candidatou e recebeu um veto. As Forças Armadas disseram ‘não assume’,
convocaram outra eleição. Nessa eleição, Haya quer se candidatar novamente, mas
aí o veto não é à vitória possível do Haya, provável, eu diria, é à candidatura
dele. Não se candidata.


E em 68 as Forças Armadas iam sofrer um novo desgaste ao ter que vetar outra
vez Haya de la Torre. Ora, junta-se isso com a percepção de risco que estava
sedimentada dentro do exército peruano, a alternativa é o golpe.


Uma ditadura antiaprista


A ditadura de Alvarado perseguiu o Apra?


A.C.P. ‒ O golpe é dado. E nós vamos ter um período de dez anos no qual o
Peru vive sob governos militares. É claro que nós vamos ver adiante o que ocorre
nesses governos, mas digamos desde logo que em 78 o então presidente ditador,
mas um ditador brando, convoca uma eleição para eleger uma constituinte. Essa
constituinte vota uma Constituição em 80. Constituição promulgada, abre-se o
processo eleitoral e há eleições para a presidência.


O golpe visa, de um lado, executar um conjunto de políticas chamadas
nacionalistas, mas de outro lado deslocar a força do Apra dos setores populares.
A ditadura peruana é uma ditadura anti-aprista, e é preciso esmagar o Apra. Mas
não se trata de um esmagamento pelos métodos clássicos utilizados para esmagar
uma série de partidos, não só comunistas, mas outros tipos de partidos também na
América Latina, mais particularmente América do Sul, ao qual nós estamos nos
referindo, ou seja, a prisão, a tortura, o assassinato político, etc. Não foi
esse o método, apesar de que houve arbítrio, houve violência, mas mínima,
ínfima, se nós comparamos com outros casos semelhantes nesta parte do mundo.


O Apra é tão persistente no Peru quanto o peronismo na Argentina


A questão é política. É preciso apresentar esse regime militar como sendo um
regime popular, do povo peruano, e enfrentar o aprismo nas suas bases. Não deu
certo. O Apra é um fenômeno persistente na história peruana, extremamente
persistente, como o peronismo na Argentina. Tentar deslocar, acabar com o
peronismo na Argentina, que loucura, isso! Tentar acabar com o aprismo no
Peru… Em 2001, Alan García, que concorreu pelo Apra, não ganhou a eleição. Em
1985, o mesmo Alan García, pelo Apra, ganhou eleição. E ganhou novamente em
2006. Não conseguiram.


As políticas efetuadas se revestem realmente de um fortíssimo conteúdo
nacionalista. Se nós aqui nos anos 90, desde o final dos anos 80, falamos muito
nas privatizações, a política do Peru se caracteriza, ao contrário, pelas
estatizações. Não estatização de setor privado nacional, que era extremamente
tênue, mas existia. Não era inexistente. Existia alguma coisa que poderia ter
sido estatizada. Mas não é isso. O que se estatiza é tudo que é investimento
externo. A epopéia das estatizações começa com a encampação de dois campos
petrolíferos, La Brea e Talara. Foram estatizados o sistema de telecomunicações,
os bancos, os seguros, filé mignon do investimento estrangeiro.
Praticamente não sobra investimento estrangeiro no Peru. Criou-se um capitalismo
de Estado, de base nacional, que convive com o setor privado nacional, mas isso
equivale a colocar o mico-leão dourado em frente a um gorila. Uma coisa ínfima
diante de um setor estatal reforçado.


Temporada de estatizações


Mais do que isso, o que era uma atividade privada, fragmentada, é estatizada.
É a questão da pesca. Um dos grandes produtos de exportação do Peru é a pesca,
principalmente a farinha de peixe, a farinha de anchoveta, que é o grande
produto marinho deles. Criou-se uma espécie de cooperativa de pescadores, mas de
diferentes áreas do litoral peruano, é um litoral longo, e uma espécie de
direção central disso. Rompeu-se a relação entre o produtor, no caso, o barco
pesqueiro, algum entreposto privado ou um supermercado, ou uma tenda de venda de
peixe e o consumidor. Isso agora é regulado diretamente pelo Estado. Todas as
atividades significativas na economia peruana passaram para as mãos do Estado.


Investimentos, se não me engano, americanos que existiam na agricultura
também são nacionalizados. Se não me falha a memória isso acontece
principalmente na agricultura canavieira. O Peru tem uma faixa de agricultura
canavieira perto do litoral que não é grande, obviamente, se comparada com a
brasileira, mas é significativa. O que levou a ameaças de retaliação vindas de
Washington, com base numa emenda apresentada [no início dos anos 60] pelo
senador [Bourke B.] Hickenlooper.


A caminho do inferno com uma ditadura bem-intencionada


É preciso levar em conta também que é um período distante apenas oito
ou nove anos dos fatos cubanos.


A.C.P. – A revolução cubana? Sim. As relações entre o regime de [Juan]
Velasco Alvarado e os Estados Unidos são influenciadas por isso. Se é verdade
que o caminho do inferno é pavimentado de boas intenções, essa é uma ditadura
bem-intencionada. Ela é uma ditadura voltada, o quanto pode ser, para as
necessidades do povo de um país pobre. Havia uma parcela gigantesca da população
vivendo em condições da mais extrema miséria. Ela é uma ditadura preocupada com
a resolução disso. Mas eu acho que o Peru é certamente o melhor exemplo de que
todo processo ditatorial sul-americano que pretende governar sem partido, sem
base de apoio, não funciona, não dá certo.


Quando falarmos da Argentina eu vou ter que tocar nesse tema com maior
profundidade.


Por que o senhor diz isso?


A.C.P. ‒ O sistema partidário peruano tinha um eixo de vertebração
central que era dado pelo Apra, historicamente o grande partido do Peru desde os
anos 30. O golpe se dá em 68, há trinta e tantos anos que o Apra é o centro
estruturador do sistema partidário. O resto é um conjunto extremamente
heteróclito de pequenos partidos, legendas de ocasião, e existe um Partido
Comunista, que é um partido fraco.


Mesmo que a ditadura peruana não tivesse colocado os partidos na ilegalidade,
mas, repito, sem um processo de perseguições sistemáticas, mesmo que não tivesse
feito isso, não poderia contar com o Apra para governar, porque o Apra era o
único partido do Peru que tinha capacidade de exercício de governo através dos
seus quadros de direção. O resto ele ia ter que comprar apoio no varejo desse
conjunto heterogêneo de partidos. Ela poderia retirar um certo número de quadros
para ocupar as posições chaves de governo, já que não podia contar com o Apra
para isso, porque o Apra era o inimigo a ser destruído.


O governo de uma burocracia militar despreparada


Mas Alvarado não fez isso. Ele não podia contar com os comunistas, porque é
uma coisa impensável que no ano de 1969, 70, uma ditadura militar nacionalista
se apóie nos quadros que um partido comunista fraco, débil, poderia
eventualmente fornecer. Aí não dava. Outra Cuba? Nesse caso as coisas seriam
muito complicadas.


Quem governa? Quem governa é uma burocracia militar sem competência para tal.
Eu não quero desfazer das Forças Armadas, que em todos os países da América do
Sul foram celeiro dos quadros governamentais. Você pode recrutar um certo número
de quadros, mas você não pode montar governo única e exclusivamente apoiado em
quadros que saem das Forças Armadas. Daria para fazer algumas coisas, para
preencher alguns vazios, alguns claros, mas não daria para montar um governo
baseado única e exclusivamente em pessoal militar.


Essa é a tragédia de Alvarado. Além disso, homens pouco habituados às
maleabilidades da política, do jogo político. Homens que na sua grande maioria,
na sua quase totalidade, eram pobres. Você sabe que se se fizer uma análise da
renda, do consumo do pessoal das Forças Armadas em quase todos os países, não é
só na América do Sul, no mundo, você pode encontrar alguns indivíduos que vêm de
algumas famílias ricas, mas não é a média. Homens pobres que de repente são
guindados a posições chaves do aparelho de Estado. Ou do primeiro, ou do
segundo, ou do terceiro escalões. O que acontece nesses casos? Misturou-se essa
incompetência com a corrupção.


Houve corrupção, essa corrupção não vinha a público – já vamos saber por que
–, mas houve casos em que o problema não era de corrupção, era de incompetência,
mesmo: o sujeito, simplesmente, no exercício dessa ou daquela função, não sabia
o que fazer. Em bom português, meteu os pés pelas mãos. O resultado foi muito
ruim, péssimo.


Um caso ímpar de setorialização da imprensa


Por que é que as coisas não vinham a publico? Não vinham a público porque…
Eu nunca tinha ouvido falar, nunca soube de uma experiência desse tipo que
tivesse ocorrido com a imprensa em lugar nenhum do mundo. Eu não sei, eu acho
que talvez na União Soviética se tivesse encontrado algo de semelhante. Os
proprietários dos jornais perderam o controle sobre os jornais, entregues às
diferentes corporações da sociedade peruana.


Por exemplo, o funcionalismo público. Entrega-se um jornal a ele e diz-se:
‘Toma que o filho é teu. Agora, edita o jornal’. Eu falo mais particularmente do
funcionalismo público porque Guillermo Thorndike, um aprista, mas que era
simpatizante do governo militar, ficou encarregado de dirigir o jornal que seria
dos funcionários públicos.


As federações camponesas ganharam um jornal, quer dizer, loteou-se a imprensa
para ninguém botar defeito. O resultado, você que é jornalista pode até me dizer
com mais exatidão qual seria o resultado dessa alucinação, desse ensandecimento.


Os jornais viraram, na realidade, espécie de boletim de notícias do que
ocorria com o setor…


Depende da fonte de renda deles. Se o jornal tivesse receita própria poderia
até ser instrumento de conflito de determinados segmentos da sociedade com o
governo. Se não tinha, se o governo ficava com o dinheiro e dizia, ‘Olha, está
aqui a tua mesada’… Aí, acabou.


A.C.P. – A imprensa peruana perdeu a capacidade de ter um enfoque
nacional dos problemas. Virou um boletim de notícia dos eventos e das coisas que
aconteciam com cada setor da sociedade.


Quando ocorreu esta medida, estabeleceu-se que essa imprensa setorializada
teria a capacidade, quer dizer, que estaria dentro das regras do jogo ela
criticar o governo. Não se estabeleceu, pelo menos no inicio, um mecanismo de
censura ditatorial, mas isso foi a teoria, na prática não ocorreu.


Sempre que um ou outro jornal ousava protestar ou reclamar do governo, corria
todo mundo, diretor era chamado… Enfim, um jogo de pressões se desencadeava. O
resultado é que essa imprensa não teve mais capacidade de se transformar num
instrumento crítico, de denúncia de casos de corrupção, de incompetência,
daquilo que ocorreu.


Militares preparam a retirada


Havia oposição?


A.C.P. – Havia oposição, mas era muito velada. Eu andei bastante no Peru
durante os anos de 84, 85, e tive a oportunidade de conversar com o ministro do
Exterior do Alvarado, um general, um sujeito bem-formado, inteligente. Cheguei a
estabelecer uma boa relação pessoal com ele, esqueci o nome ele agora. Um
sujeito inteligente, inclusive imaginou como um recurso simbólico na política
exterior peruana a ideia de apresentar o Peru como o pai e a mãe das culturas
autóctones latino-americanas, por causa dos Incas. Foi uma coisa que Saddam
Hussein também tentou no Iraque, o negócio das antigas civilizações
mesopotâmicas. Isso aparecia às vezes no discurso de Saddam. Apareceu no
discurso desse sujeito.


Mas o certo é que em 75 os próprios comandos militares peruanos veem que
estão se metendo numa sinuca de bico. Alvarado já é um homem que perdeu a força,
principalmente depois do episódio em que a perna dele foi cortada [devido a
uma doença
], e nessas condições [Francisco] Morales Bermudez dá um golpe
branco, quer dizer, simplesmente diz: ‘Alvarado, chega!’


Guillermo Thorndike tem um livro no qual ele se refere ao processo de
nacionalização da imprensa peruana, um livro bem escrito, uma leitura
interessante, e da deposição do Alvarado, chama-se No, mi general. Como
quem diz, ‘Basta, general, chega, assim não dá mais’.


Apelação marqueteira calcada no ódio ao Chile derruba candidato
aprista


E nós vamos ter o processo que leva à eleição da constituinte e à promulgação
da Constituição, e chegamos dessa maneira às eleições de 1980.


O Apra está absolutamente seguro da vitória. Ele não só não foi esmagado, ele
reivindica para si o título de principal elemento de oposição à ditadura, ao
governo militar peruano. Lança a candidatura de um senador eleito da
Constituinte que é um homem da velha direção aprista, foi companheiro de Haya de
la Torre ‒ Haya já tinha morrido, em 1979 ‒ Armando Villanueva. E volta à cena
numa articulação do centro direita liberal a mesma figura que tinha sido eleita
em 63, Belaúnde Terry . E realmente está tudo caminhando para a vitória do
Villanueva quando algum marqueteiro esperto de Belaúnde resolveu aproveitar
eleitoralmente o fato de que a mulher de Armando Villanueva era chilena ‒ porque
uma parte da direção aprista nos anos mais duros, ditatoriais, foi exilada no
Chile, terra de asilo, como todo mundo sabe ‒, e bolou uma frase que inundou a
televisão: ‘Mulher peruana, você votaria numa chilena para primeira-dama?’


Eu acho que já explicitei isso: se há casos de ódio nacional na América do
Sul, entre esses casos estão o ódio entre Peru e Chile e entre Bolívia e Chile.
Mas no caso peruano é mais forte, porque a Bolívia é um país fraco, ela não
poderia derrotar o Chile. Mas o Peru achava, até hoje acha ‒ eu conversei com
gente do Peru que atribui o insucesso na Guerra do Pacífico a incompetência
militar ‒ que poderia derrotar. Fica aquela história: ‘Se nós tivéssemos feito
isso, se nós tivéssemos feito aquilo, teríamos ganhado a guerra’.


Não sei se é verdade, se é mentira, mas pouco importa. O certo é que o ódio
em relação ao Chile é muito grande, é muito forte. E essa mensagem eleitoral
calou fundo. O resultado qual foi? É que o Armando Villanueva ganhou
folgadamente entre os homens, mas foi esmagadoramente derrotado no eleitorado
feminino. O resultado foi a vitória de Belaúnde Terry, que assume novamente em
1980 e leva até 1985.


Uma política liberal antes do Consenso de Washington


Talvez, eu acho, que é o primeiro país da América do Sul a aplicar uma
política liberal antes que o Consenso de Washington entrasse em vigor. Eu me
lembro lá de algumas pessoas que me falavam claramente, tinham contas em dólares
mas em bancos nacionais peruanos. Podia ter conta na moeda peruana, que era o
sole, se não me engano, e conta em dólares.


Bancos ainda estatizados?


A.C.P. – Havia uma situação confusa no sistema financeiro. Alguns já
tinham passado de novo para mãos privadas.


Eu ainda não estou me referindo ao grande fator de perturbação da vida
peruana, nos anos 80, e num pedaço dos 90, que é o Sendero Luminoso. Mas vamos
nos referir então, rapidamente, à eleição de 85, quando ganha Alan García.


Alan García foi lançado pelo aprismo e conseguiu se eleger. O único partido
que tem enraizamento na vida peruana é o Apra, o resto são legendas de ocasião,
como nós temos não sei quantas aqui no Brasil. Aqui, de enraizado, o que é que
tem? PT, PMDB, PSDB e os DEM. O resto… Quer dizer, sem falar em PCdoB, Partido
Socialista, que têm outra trajetória.


Um presidente que era da tropa de choque do Apra


E nessas condições o Apra ganha a eleição. O Alan García era uma figura já
com longo tempo de militância no Apra e tinha sido o que se chama no Apra de
búfalo. Os búfalos eram a tropa de choque do partido. Aquela
encarregada de dissolver os comícios dos adversários na porrada e de proteger os
próprios comícios. Era um cara forte, sarado, como se diz na gíria hoje em dia.


Ele passou algum tempo em Paris estudando, esteve lá na École de Hautes
Études, frequentou seminário também no Instituto de América Latina. Eu me lembro
até de tê-lo visto uma ou duas vezes por lá. Casado, não com uma chilena, mas
com uma argentina, que no Peru pode ser um trunfo, porque por causa do Chile as
relações entre Peru e Argentina sempre foram muito próximas.


Charmoso, excelente orador de frases vazias


E Alan García foi lançado candidato exatamente para quê? Para recuperar o
voto feminino. Excelente orador, mas aquele tipo de orador que enquanto você
está ouvindo, você aplaude extasiado. Na hora em que acaba o comício, você está
voltando para casa e se pergunta ‘mas o que é que ele disse?’ Você não vai se
lembrar de nada porque ele não disse nada. Aquele orador que arrebata multidões,
mas que não tem mensagem, não tem discurso, não tem nada. Esse é o homem, cujo
governo foi outra catástrofe.


Mas vamos fazer um parêntese aí. O que é que acontece mais ou menos a partir
do comecinho dos anos 80? Em 1980 houve a primeira ação violenta do Sendero, que
havia começado a atuar na política estudantil em 1973.


O Sendero operava no Altiplano peruano. Em 1983, consegue, para usar uma
linguagem marxista, dar um salto de qualidade: as células do Sendero Luminoso
começam a operar em Lima.


Sabotagens da rede elétrica, assassinatos: Sendero em cena


O senhor visitou o Peru nesse período?


A.C.P. – Foram dois anos em que eu andei bastante pelo Peru: de meados de
84 até algum momento do começo de 86. O aeroporto de Lima, Aeroporto Jorge
Chávez, era um entroncamento importante, porque pega muita rota pelo Pacífico.
Você desembarcava, as luzes do aeroporto eram garantidas por gerador, porque
várias torres de transmissão tinham sido dinamitadas, sabotadas. Lima era uma
cidade que vivia às escuras. De noite aquilo era um terror. ‘Apagón!’ era
o que eles gritavam, e o ‘apagón!’ significava exatamente isso. Áreas
inteiras da cidade estavam às escuras.


Ao lado disso, não só explosões que deixavam a cidade sem iluminação, mas
começaram a existir também os atentados a vidas humanas.


E se a implantação do Sendero em Lima se dá durante o governo do Belaúnde, um
dos pontos- chaves da plataforma de Alan García era justamente debelar a
ofensiva do Sendero e esmagar o Sendero.


Um aprendiz de Pol Pot nos Andes


O que aconteceu?


A.C.P. ‒ Ao contrário. Durante o governo de Alan García o Sendero
prosperou, se tornou mais forte em Lima, desafiou abertamente o governo peruano
e se colocava a alternativa de tomada de poder. Quer dizer, depois de ter o Kmer
Vermelho no Camboja, o Pol Pot lá do Camboja, nós íamos ter o Pol Pot dos Andes,
porque esse homem que dirigiu o Sendero, acabou sendo preso, Abimael Guzmán…
só não era o Pol Pot porque a expressão fisionômica dele não era de um asiático.


Eu acho importante que alguma outra coisa seja dita sobre o Sendero.


Base da guerrilha não era camponesa


O quê?


A.C.P. ‒ É preciso retificar em profundidade uma versão que é muito
difundida, a de que o Sendero era uma guerrilha de base camponesa. Não era. As
fontes de recrutamento do Sendero se encontravam basicamente na rede de pequenos
e médias cidades do Altiplano, por exemplo Cuzco, que é uma cidade importante do
Peru. Uma cidade alta. Não é a parte a mais alta do altiplano, mas Cuzco é uma
cidade que está a dois mil oitocentos e tantos metros. Perto de três mil metros
de altitude.


Quem foi recrutado?


A.C.P. ‒ As baixas camadas médias, gente que terminava o curso secundário
ou até tinha o diploma universitário, mas um diploma universitário tão
desvalorizado que o sujeito não sabia o que fazer com aquilo. O Sendero não foi
um movimento guerrilheiro de base camponesa. Os centros de recrutamento dele
estavam principalmente nas cidades médias e nas cidades pequenas. De baixas
classes médias que não encontravam alternativa de colocação no mercado de
trabalho. Funcionários públicos de prefeituras dessas cidades, cujo salário,
provavelmente, era miserável, mal dava para a subsistência.


Para os camponeses, terror


É aí que o Sendero recruta, é daí que ele puxa seus quadros, porque diante
das comunidades camponesas do Altiplano a política do Sendero é uma política de
terror. Ele aterrorizava as comunidades tanto quanto o Exército aterrorizava.
Talvez até mais, porque ele entrava lá matando. Ele tinha uma política
sistemática de obrigar as comunidades camponesas a servirem de apoio logístico,
fornecimento de víveres, de alimentos e de esconderijo, esconder armas, esconder
gente, e isso era feito na base do terror.


Existem relatos mais do que conhecidos dos grupos terroristas do Sendero
entrando numa comunidade, começavam matando oito ou dez, que era a melhor
maneira de assegurar a lealdade futura dos integrantes dessa comunidade. Não
estou dizendo que isso foi feito em todos os casos, mas em alguns casos,
foi.


Então, o Sendero não pode ser considerado uma guerrilha camponesa. Começa por
esse sujeito que é um intelectual, entre aspas, era um professor de filosofia,
Abimael Guzmán, de Cuzco, com um projeto de tipo maoísta, o cerco da cidade pelo
campo, mas que não tem a base camponesa.


Reforma agrária de Alvarado acabou com latifúndio


Por que não tem base camponesa?


A.C.P. – É algo de essencial, que deveria ter sido dito a respeito do
governo de Alvarado, não sei como escapou: faz-se a reforma agrária. A ditadura
militar peruana faz a reforma agrária. É um caso um pouco semelhante, eu me
referi a isso quando nós conversamos sobre a Bolívia, à reforma agrária feita
logo depois da revolução de 52 na Bolívia.


A terra do Altiplano é repartida. Volta às comunidades. Só que se a terra era
ruim do lado boliviano, não tinha razão para ser boa do lado peruano. Mas dá às
comunidades uma sensação de quê? De autossatisfação e de autopreservação, quer
dizer, a colheita pelo menos é deles. Eles não colhiam muito, mas o que eles
colhiam ficava nas mãos deles. A terra foi repartida. O latifúndio no altiplano
peruano desapareceu, ao mesmo tempo que as fazendas de uma agricultura de
exportação que ficavam na área do litoral, e essas que eram frequentemente de
proprietários externos, investimentos estrangeiros, foram nacionalizadas.


O latifúndio realmente desapareceu no Peru. O campesinato peruano ia se meter
numa guerrilha a troco de quê? Não tinha razão pra isso. Da mesma forma como eu
mencionei a você que nos anos 60 o campesinato boliviano apóia a ditadura de
Barrientos, quando se dá o golpe contra [Víctor Paz] Estenssoro, no final de 64.
Eles não têm razão para se meter numa guerrilha. Eles são coagidos pelo Sendero,
e coagidos sob ameaça das armas.


Primeiro governo de Alan García, um desastre


A situação se deteriora. Quando nós chegamos às eleições de 1990, nós temos
um Apra inteiramente desacreditado. A estrutura do Apra ficou intacta, mas a
força popular dele, conjunturalmente, está muito ruim, porque o governo de Alan
García foi um desastre.


Tentando orientar o fluxo de investimentos para os projetos econômicos dele,
Alan García nacionaliza os bancos. Esse episódio me foi contado na França, não
sei se é verdade, mas eu não duvido que seja.


A culpa era do conselheiro francês


Alan Garcia, quando andou no Instituto de América Latina, foi aluno de um
antropólogo lá, o Henry Favre, com quem eu me dava bem nos tempos em que eu era
professor lá. O Favre me contou essa história soltando enormes gargalhadas.
Favre era um especialista em Estudos de Comunidades Camponesas do Altiplano, e
ele ia ao Peru quase todo ano. Apareceu lá no Peru uma vez e em algum momento
Alan Garcia, que gostava dele, convidou-o para tomar um café da manhã. E Favre
lá foi ao palácio. E no café da manhã, durante o tempo todo, o Alan García está
se queixando dos bancos. Que os bancos transformavam a vida dele num inferno,
que os bancos tinham que emprestar dinheiro ao Estado a uma taxa de juros mais
em conta. E lá pelas tantas o Favre, que já estava de saco cheio, disse o
seguinte: mas, senhor presidente, nesse caso só lhe resta uma saída,
nacionalizar os bancos. E continuaram a conversar, se despediu, voltou para o
hotel e está ele lá no dia seguinte, de manhã, lendo os jornais, ia viajar no
dia seguinte para o Altiplano, pegar um avião até Cuzco, depois pegar um trem,
ia lá para as pesquisas dele. No finalzinho da manhã a porta do quarto dele é
aberta a pontapés, entram lá dez indivíduos com ar truculento, mandando ele
arrumar as malas com rapidez, porque ele ia ser levado dali imediatamente para a
embaixada francesa, porque de noite, ao que eu me lembro não tinha saído ainda
nos jornais da manhã, o Alan García tinha assinado a nacionalização dos bancos.
E o sindicato, sindicato no sentido anglo-saxão da palavra, de donos de banco
tinha sabido que Alan García tinha tomado essa medida aconselhado por um francês
que tinha sido chamado da França como conselheiro político dele, e tinha
colocado a cabeça dele a prêmio. Estavam contratando assassinos profissionais,
pistoleiros, para liquidar o homem.


Uma história estranha demais para ser inteiramente mentirosa


O homem saiu correndo dali, foi para a embaixada da França, felizmente nessa
noite passava o vôo da Air France, desses vôos que vão pela rota do Pacífico,
que terminam em Santiago do Chile. Santiago, Lima, Bogotá, Paris. Alguns param
em Caracas. Eu não sei como é hoje, mas na época tinha esse vôo. E pela
embaixada tinha conseguido um lugar de qualquer maneira, o cara sai da embaixada
debaixo de um fortíssimo esquema de segurança, entra lá no aeroporto, não tinha
passarela, obviamente, e entra no avião diretamente lá do asfalto do aeroporto.


Aí, me disse o Favre, é claro que depois disso não entrou no Peru e não
pretendia voltar lá tão cedo. Eu não sei essa história é verdadeira, mas acho
engraçada, é estranha demais para ser inteiramente mentirosa.


E nós chegamos então ao ano de 1990. Como eu disse, a conjuntura eleitoral
era uma conjuntura lógica. O Apra é um partido desacreditado. E lança candidato,
não me lembro o nome do candidato [Luis Alva Castro]. Grosso modo, a mesma
coligação que tinha levado Belaúnde Terry ao poder em 80, e tinha sustentado
como apoio político o governo do Belaúnde, se agrupa em torno da candidatura de
Vargas Llosa.


Vargas Llosa, liberalismo puro-sangue


Que aí não é uma aglutinação frouxa de uma centro-direita liberal, é o
projeto liberal na sua integridade. O Consenso de Washington já tinha ocorrido.
Vargas Llosa encarna realmente um projeto liberal puro-sangue. Contra o
estatismo do Apra, que levou ao fracasso do governo do Alan Garcia, etc. e tal,
e tudo isso que a gente conhece. Mas tem um tertius, tem uma candidatura
do Apra, teve essa coligação liberal, que hoje em dia seria chamada de
neoliberal, mas que na minha opinião de neo não tem nada, é liberal, mesmo, mas
tem um tertius, aquela figura sinistra de Alberto Fujimori.


Um cidadão desconhecido na política, um engenheiro agrônomo de profissão. E
como engenheiro agrônomo esse homem tinha andado pelo Altiplano praticamente
todo. Um sujeito que conhecia o campo peruano, conhecia a terra peruana.


Enquanto isso, o Sendero, na cidade de Lima, está mais do que atrevido. Ele
agora não está mais implantado, não, implantação ele conseguiu uns oito, nove
anos antes. Ele agora já é uma força considerável dentro da cidade de Lima.


E Fujimori, então, surpreendentemente, derrota Vargas Llosa, o que sempre me
leva a dizer o seguinte, aqui na América do Sul, América Latina de um modo
geral, esse negócio de projeto liberal não passa pelo povo, o povo não entra
nisso.


Eu não estou dizendo que o povo está certo, que o projeto está errado, isso é
outra discussão. Eu quero dizer o seguinte: é muito difícil isso passar. Porque
Fujimori tem duas mensagens-chave, a sua bandeira política é o seguinte: acabar
com o terrorismo e acabar com a inflação, que estava muito alta. Vargas Llosa
também prometeu as duas coisas. Ele prometeu por meio de um discurso liberal.


Fujimori, antes desconhecido, é eleito e reeleito


O resultado é que Fujimori foi eleito. Ele é reeleito em 95. Fujimori não tem
partido político, ele tem uma legenda que se chama Cambio 90, que é o ano da
eleição em que ele ganha. Mudança 90. Engraçadamente, não é diferente do slogan
do Barack Obama, ‘Stand for change‘, quer dizer, alinhe-se para a
mudança.


E Tancredo, ‘Muda Brasil’.


A.C.P. – Quando Fujimori se recandidata, ele consegue uma emenda
constitucional, como vários outros, inclusive mais democráticos do que ele,
também conseguiram, em ocasiões próximas, e obteve um segundo mandato.


Não há dúvida de que Fujimori tem uma base eleitoral, ele não tem uma base
política, ele tem base eleitoral consistente, porque ele efetivamente cumpriu
aquela história que dizíamos do Tancredo, ele promete e entrega. O Fujimori
prometeu e entregou. Em 95, a inflação está sob controle, o Sendero está
praticamente destroçado.


Houve aquele famoso episódio, não sei se você lembra, um atentado do Sendero
numa festa na embaixada do Japão, e Fujimori pagou para ver, aquelas mesmas
coisas que o [Vladimir] Putin fez naquele teatro de Moscou e naquela escola de
Beslan, ‘não me interessa quantos vão morrer, mas eu não entrego’, que, abrindo
um parêntese, eu acho que é o que tem que ser feito, não tem saída. Você sabe
que em Israel uma coisa semelhante foi feita. Eu não sei se foi o Setembro Negro
que tomou uma escola. Tomou uma escola e claro que o número de alunos, de
crianças, era infinitamente menor, tinha 28 ou 30 crianças ali, mas o governo de
Israel não negociou, mandou atacar.


Segundo governo de Fujimori, uma tragédia


E em 95 a situação de Fujimori é eleitoralmente confortável. Ele ganha a
eleição, mesma legenda, Cambio 95. Agora, o segundo governo do Fujimori é uma
tragédia, é uma desgraça. Por quê? As características autoritárias que já vinham
se manifestando desde o primeiro governo, mas que encontravam uma justificativa
‒ uma justificativa, não estou dizendo uma explicação aceitável, mas uma
justificativa ‒, na medida em que eram empregadas na luta contra o terror. Essas
tendências autoritárias vão aumentando, vão se reforçando.


O Sendero já não é mais o inimigo que era, restam poucos núcleos dele. A
inflação está sob controle. Então nós temos aí, efetivamente, uma ameaça de
ditadura. Métodos de coerção, o Congresso está aberto, os partidos estão
funcionando, mas existe coerção contra a oposição e existe corrupção, também.


Você deve ter visto na televisão o caso daquele sujeito que era o diretor da
agência nacional de inteligência deles, o tal do Vladimir Montesinos, negociando
num quarto de hotel, entregando não sei quanto de grana para um deputado. Isso
apareceu claramente. E nessas condições o Fujimori obtém a licença do Congresso
para disputar um terceiro mandato, e se apresenta pelo Cambio 2000.


Governo FHC lavou as mãos diante do continuísmo


Aí as coisas realmente se complicaram. Se complicaram porque no conjunto da
América do Sul começa a haver perplexidade, inquietação, e o governo americano é
o [Bill] Clinton, o governo de Clinton dá um murro na mesa, diz ‘não’. Num show
de primor de política externa, o que é que faz o governo brasileiro, do nosso
querido Fernando Henrique? Isso é um problema interno do Peru, não temos que nos
meter em problemas internos de outros países, é tradição da política brasileira.
Deixou os Estados Unidos levarem as glórias de serem o grande país a se insurgir
contra isso.


O candidato oposicionista, Alejandro Toledo, ganha a eleição, mas a eleição
foi roubada, descaradamente roubada, os observadores da OEA que foram pra lá
ficaram escandalizados, estarrecidos com o volume de corrupção. Termina a
eleição, Alejandro Toledo se refugia na Colômbia, foi morar em Bogotá durante
algum tempo…


E o Brasil de braços cruzados. O resultado é um governo sem legitimidade, um
governo que não tem mais base eleitoral, ele não tinha base política e você sabe
muito bem que quando um governo não tem base política forte, a base eleitoral
pode se desfazer. Não tem nada que amarre aquilo.


Toledo nunca perdoou a passividade brasileira


O resultado era de se prever. Fujimori, pouco tempo depois, é obrigado a
entregar o poder, debaixo de acusações de roubalheira, ladroeira, malversação de
recursos públicos, de intimidação de adversários, da corrupção sistemática
empregada em cima das oposições, sai correndo do Peru e vai se refugiar no
Japão, porque por alguma razão legal japonesa o homem tinha direito à
nacionalidade japonesa.


Alejandro Toledo, que tinha sido derrotado, ocupa o poder. E não engoliu essa
de Fernando Henrique. Alejandro Toledo foi um presidente do Peru que não quis
saber de conversa com o Brasil. Ele estava muito irritado com o que tinha se
passado. Nem a eleição do Lula em 2002 conseguiu amenizar isso.


Benefícios da alta das matérias-primas


Alejandro Toledo, sem dúvida alguma, apesar de não ter o mesmo vigor, a mesma
consistência neoliberal do Vargas Llosa, é um homem dessa cartilha. É um
presidente liberal na economia que se encontra no governo e que foi beneficiado,
principalmente a partir da segunda metade do seu mandato, por um fenômeno que
beneficia o Peru, beneficia o Peru, o Chile, a elevação sistemática dos preços
das matérias-primas minerais, base das exportações peruanas. O Peru tem uma
diversificação na exportação de minérios maior do que a do Chile. O Chile não
exporta só cobre, mas a exportação de minérios dele é muito concentrada no
cobre. O Peru tem um leque maior de exportação de minérios. Todos eles foram
atingidos por essa onda de elevação dos preços. O Peru tem crescido a uma taxa
alta, seis, seis e meio, sete por cento. Crescido mais que o Brasil, bem mais.


Candidatura de Lourdes Flores provocou derrota de Ollanta Humala


Há, portanto, uma onda de satisfação na sociedade peruana. E nós chegamos
nessas condições às últimas eleições, em 2006, quando se assiste a uma
triangulação. Existe uma candidatura que tenta reproduzir aquilo que teria sido
Vargas Llosa e aquilo que foi Alejandro Toledo. É uma candidatura do setor
privado, liberal, uma mulher, Lourdes Flores. O Apra ressurge, e ressurge o Evo
Morales do lado peruano, que é Ollanta Humala, candidatura de um movimento
indigenista que é mais fraco no Peru do que na Bolívia, candidatura mais rural
do que urbana, porque a implantação aprista nas cidades continua sendo forte, e
o fato de que a Lourdes Flores, por uma diferença relativamente pequena, chega
em terceiro lugar, e dá portanto a possibilidade Alan Garcia de ir para o
segundo turno, garante assim a vitória de Alan García, porque quem votou na
Lourdes Flores votou em Alan Garcia para barrar o ascenso de Ollanta Humala. Se
fosse o contrário, o Ollanta teria ganho, porque o eleitorado do Apra não iria
votar em Lourdes Flores. Não gosta do eleitorado da Lourdes Flores.


Então nós temos no Peru o mesmo fenômeno da emergência de setores populares,
no caso indigenistas, do Altiplano, que se sentem menos beneficiados do que os
outros, principalmente do que os setores urbanos, pela onda de prosperidade que
vem ocorrendo no Peru nos últimos anos. Há uma mobilização desses segmentos.


Interesses privados são mais consistentes no Peru do que na Bolívia


O que aconteceu no lado boliviano do Altiplano não deixa de influenciar. O
Peru é sensível a isso. Com uma diferença, é que se o que Evo Morales quer fazer
já encontra uma forte resistência, no núcleo um pouquinho mais desenvolvido do
capitalismo boliviano que é Santa Cruz de La Sierra, Ollanta Humala teria muito
mais dificuldade de fazer isso no Peru. Por quê? Porque ali já existe uma
agregação de interesses privados. Isso na Bolívia é muito tênue, mas no Peru ela
já é relativamente sólida. Ela conseguiria fazer face a um presidente como
Ollanta Humala caso ele quisesse efetuar o mesmo tipo de política que Evo
Morales vem efetuando na Bolívia, e que não está conseguindo. Ollanta
conseguiria menos ainda.


A opinião dos diferentes analistas é que se isso ocorresse no Peru, era banho
de sangue. Não ia conseguir. A agregação dos interesses privados no Peru é
relativamente sólida, no litoral peruano.


Alan García tem se beneficiado do mesmo fenômeno, o preço das matérias-primas
minerais continua em ascensão, aumentou mais do que tinha aumentado nos tempos
de Alejandro Toledo. O Peru continua mantendo taxas de crescimento relativamente
elevadas. Pode ser que esse boom da economia consiga garantir uma nova
vitória do Apra nas próximas eleições.


Além disso, Evo Morales não cometeu certas barbaridades que a família do
Ollanta Humala na campanha eleitoral, você se lembra? Chamando os homossexuais
de depravados, ou de doentes.


O Peru na contramão da América do Sul


Há uma última coisa que eu acho que é preciso dizer. A trajetória dos países
sul-americanos, dos que passaram por ditaduras, é uma trajetória mais ou menos
linear, passam pelas ditaduras, existe um momento da redemocratização, e a
partir daí existem os avanços da institucionalização democrática. A democracia
se institucionaliza, se aprofunda, avança cada vez mais. O caso peruano é o
contrário. Ele sai de uma ditadura militar, supõe-se que a democracia vai se
enraizar e aí existe uma regressão autoritária que é o Fujimori, mas que se
explica por causa da questão do Sendero Luminoso, e de uma gestão incompetente
do primeiro governo de Alan García na economia, que permitiu uma inflação
absolutamente descontrolada.


E mal as coisas caminham de novo na direção de uma institucionalização
democrática, eu diria mais enraizada, mais profunda, existe a sombra de Ollanta
Humala, que quase ganhou as últimas eleições. [Transcrição de Maria
Almeida
]

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