Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

JORNAL DE DEBATES > CASO JOÃO HÉLIO

‘Razão e sensibilidade’ e culto à hipocrisia

Por Flávio Paranhos em 06/03/2007 na edição 423

Não tenho procuração do professor Renato Janine Ribeiro para defendê-lo e imagino até que ele nem queira esticar mais o assunto. Entretanto, não posso deixar passar a oportunidade de me valer da polêmica em torno de seu artigo ‘Razão e sensibilidade’ (publicado na Folha de S. Paulo, 18/02) para discutir um pouco acerca da hipocrisia que, assim como a violência, vem ocupando cada vez mais espaço nos noticiários.

Sendo toda leitura uma co-autoria, quem dá a cara a tapa, tornando público o que pensa nos jornais, deve se acostumar a interpretações diversas da pretendida. Ainda assim, não pude deixar de me surpreender com a leitura completamente enviesada que o inteligente e erudito jornalista Elio Gaspari fez do artigo do prof. Janine (‘O professor acha que pena de morte é pouco’, Folha de S. Paulo e O Popular, 18/02). Admitindo que não haja nada por trás de sua interpretação e que se trate apenas de leitura apressada mesmo, Gaspari perdeu a oportunidade de saborear uma peça de rara beleza filosófica.

Precocidade no crime

‘Razão e sensibilidade’ não é uma defesa da pena de morte. Ou de torturas, ou de endurecimento das estratégias públicas para a segurança, ou de seja lá o que for. É, sim, a confissão angustiada de um intelectual chamado a opinar num caso inacreditavelmente monstruoso. Intelectuais, como lembra Janine, devem tomar posições. Espera-se deles que sejam sempre muito racionais. Mas como ser racional quando arrastam uma criança por quilômetros (e fazem manobras para soltá-la do carro, demonstrando que sabiam o que acontecia)? Nem é preciso ter filho da mesma idade (embora quem tenha, faça a transferência inevitável) para querer aplicar a lei de talião. Arrastaram o menino? Arrastem cada um dos desgraçados por vários quilômetros até que morram.

Tal é o que passa pela cabeça de todos nós, sem exceção e hipocrisia. Entretanto, entre confessar essa vontade e defendê-la há uma enorme distância. Como diz Janine: ‘Quer isso dizer que defenderei a pena de morte, a prisão perpétua, a redução da maioridade penal? Não sei. Não consigo, do horror que sinto, deduzir políticas públicas, embora isso fosse desejável.’ Até porque é preciso ser muito ingênuo pra acreditar que uma das mais famosas medidas de ‘endurecimento’, a diminuição da maioridade penal, resolverá o problema. Se hoje colocamos apenas maiores de 18 em escolas de tempo integral de bandidagem, amanhã colocamos os maiores de 16, depois 14, depois 10 e só conseguiremos é precocidade no aprendizado de malfeitorias profissionais.

Razão e emoção

O problema é tão maior do que isso, tão mais profundo, que dá desânimo pensar nele. Não me refiro ao argumento fácil das desigualdades sociais do país. Não que não seja válido, mas é fácil demais invocá-lo. Tão fácil que virou lugar-comum de político malandro (quase uma redundância, o ‘quase’ por conta de algumas honrosas exceções). Por outro lado, de tão difícil resolução que sua aparente inatingibilidade serve de eterna desculpa. Desculpa essa que encobre outra hipocrisia, já que os maiores bandidos do país, os mais nocivos, são ricos e acreditam piamente na Lei de Karamazov (adaptada aos seus interesses): se não existe punição, tudo é permitido.

Voltando a Janine. O equilíbrio entre razão e emoção, no momento, é impossível. Ele poderia ter se calado, esperar a poeira baixar, ruminar racionalmente à exaustão o problema, que seria, então, reduzido a uma fria questão filosófica. Fez bem em ter aberto o bico.

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Médico, doutor (UFMG) e postdoc fellow (Harvard) em Oftalmologia, mestre (UFG) e doutorando (UFSCar) em Filosofia

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/03/2007 geleia geleiageral

    Eu também acho que devemos pedir a execução sumária daqueles filhos da alta classe brasiliense que mataram o índio queimado…devemos queimá-los em praça pública.

    Eu também gostaria de que fossem trucidados em campos de futebol, por leões e outras feras, todos aqueles cometeram crimes parecidos com os da Suzane Reichstofen. A forca é pouco para ela.

    Também acho que aquele governador do Rio deve ser executado na frente da Candelária, ante os aplausos de familiares, por ter implantado a gratificação faroeste, que levou policiais inescrupulosos a tirar a vida de centenas de inocentes em troca de maiores vencimentos.

    Da mesma forma, quando Caco Barcelos descobriu que havia 3.000 mortos pela Rota sem qualquer passagem pela polícia (o equivalente ao atentado 11 de Setembro), eu acho que todos os governadores de SP que compartilharam com isso também tinham que ser esfolados pelas ruas da capital…aplaudidos de pé, enquanto pedaços dos seus corpos ficassem pelo caminho.

    Observação o esquartejamento é uma outra solução para que a cidade não seja lavada com o sangue dos imundos.

    Eu acho justo que se pense nessas soluções. Pois até a barbárie tem que ser justa. E igualitária.

    Se é para pensar vamos para pensar. Sem medo.

    Eu topo discutir essas soluções. Quem topa? Tenho certeza que alguns nobres colegas, incluindo Dines, darão um passo atrás.

  2. Comentou em 06/03/2007 Adalberto Lana

    Esse Paulo Mora é um hipócrita (não censurem meu comentário)!!!

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