Sexta-feira, 20 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº983
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JORNAL DE DEBATES > CASO CASAGRANDE

Resposta da revista Placar

Por Sérgio Xavier em 03/04/2008 na edição 479

A acusação de praticar sensacionalismo, fazer jornalismo marrom, de ser a ‘Caras do futebol’, não parece fazer muito sentido [ver, neste OI, ‘O drama de Casagrande e a imprensa marrom‘]. Explico. Para valer a pena toda essa confusão, usando a lógica do sensacionalismo, colocaríamos o Casagrande na capa. Aliás, está mais do que na cara (sem trocadilho), que é a notícia mais importante da edição. Não colocamos, ficamos com o ônus da matéria e sem levar o lucro sensacionalista. Portanto, não se trata de fofoca, longe disso. O que nos moveu a fazer a matéria foi algo diferente, bem mais nobre: a necessidade de fazer jornalismo.


Aí começa, na minha opinião, a verdadeira discussão. Qual é o limite do jornalismo? Até onde vai a liberdade individual, até onde vai o interesse público? Isso é o que interessa, e estamos sendo muito cínicos ao analisar o caso do Casagrande sem olhar o comportamento da imprensa como um todo. Eu topo a discussão, mas vamos ser justos, certo?


Primeiro ponto é definir a figura de personagem público. Esse sujeito, que pode ser artista, político, jogador de futebol, Big Brother ou o que quer que seja, é alguém que só é o que é porque existe um público interessado nele.


Seus rendimentos são proporcionais a isso. Ganha bem porque atrai público. Casagrande só ganha seus 50 mil mensais porque existe um público que é atraído pelos seus comentários, gruda o olho na telinha e consome os comerciais mostrados na TV Globo. Casagrande entrava duas vezes por semana nas nossas casas e, de repente, sumiu.


Tratamento diferenciado


Se a imprensa assume o papel de propagar os feitos e fatos positivos dos personagens públicos, não seria nosso dever acompanhar também as trajetórias desses personagens quando algo está dando errado? Casagrande, aliás, em setembro passado, bateu em quatro carros e colocou mais gente em risco.


Deveríamos fingir que isso não aconteceu? Deveríamos (como a imprensa toda fez, aliás) fingir que foi um acidente, sem nenhuma vinculação possível com drogas ou álcool? Quando um desconhecido é flagrado pela imprensa não se vê protestos, aí achamos que a imprensa fez direitinho o seu trabalho…


Dois outros pontos que é preciso esclarecer. Poucos sabiam, muitos suspeitavam, outros tantos desconheciam a situação de Casagrande. E quem sabia achava que sabia tudo. Mostramos, antes que a revista chegasse às bancas, a reportagem para a família do Casagrande. Eles disseram desconhecer uma boa parte das histórias que contamos. E disseram que demos um tratamento justo e humano ao Casagrande. Eles queriam que publicássemos? Claro que não, ninguém se sente confortável ao ter a sua vida negativa exposta (a parte positiva geralmente não tem problema).


O segundo ponto é um engano que se comete em relação ao Maradona. O caso jornalístico dele é exatamente igual ao do Casagrande, sem tirar nem pôr. Só que aconteceu anos antes. Ele era dependente de cocaína, usava a droga enquanto era jogador (assim como o Casa) e também depois que parou. Tem família e filhos, já tentou se tratar e nunca quis divulgar nada. Mas a imprensa ali sempre cumpriu o seu papel de informar o que acontece com um personagem público. A imprensa brasileira, sobretudo, que não se cansou de fazer piadas sobre o assunto. Só que o Maradona está longe, além de ser argentino. Casagrande está perto e é legal. Devemos tratar sujeitos abjetos e legais de formas diferentes? Aos inimigos, a lei. Aos amigos, o afago. É por aí?


Palavras elásticas


Saiu na segunda-feira (21/3) em um tablóide inglês a notícia sobre uma suposta orgia nazista do chefão da Fórmula 1, Max Mosley. A prova é um DVD, e quem viu diz que não há a certeza de que era mesmo o Mosley. A reputação desse senhor, sobre quem não tenho a menor simpatia, foi para o vinagre. Aqui no Brasil, os mesmos jornais e jornalistas que estão criticando ou ignorando a nossa reportagem sobre o Casagrande fizeram um carnaval com a notícia. Não é um assunto privado do senhor Max Mosley? Não se trata de sua vida particular? Ele não será igualmente prejudicado com a divulgação da notícia? Há, claro, uma imensa diferença. Mosley é cartola da Fórmula 1 e malvado. E mora bem longe do Brasil. Casagrande é um dos nossos.


Não vou entrar nem na questão do ajudar ou prejudicar com a publicação da matéria. Pelo que falei com amigos do Casagrande, eles até acham que vai ajudar, para ele cair na real, se sentir mais vigiado. Mas, nessa discussão, isso não é importante. Estou sendo duro, mas o jornalismo precisa cumprir a sua função de informar. Uma notícia sobre desemprego no caderno de Economia pode fazer empresas reduzirem seus investimentos, gerarem mais desemprego, provocarem miséria, fome e morte. Melhor não falar nada então, certo?


Respeito e ética são palavrinhas com significados elásticos, podem significar muita coisa. Reli algumas vezes o que publicamos na Placar. Não me parece que tenhamos faltado com nenhuma delas.


***


Luiz Antonio Magalhães responde


O diretor de redação de Placar enrola, enrola mais um pouco, se vangloria de ter evitado dar capa à matéria sobre o drama de Casagrande (no que foi elogiado por este observador), mas não responde as questões sobre a reportagem da revista, levantadas no texto que deu origem à polêmica, a saber:


1. Qual o interesse público na divulgação do salário de Casagrande?
2. Qual o interesse público da informação de que a TV Globo está pagando o tratamento de seu funcionário?
3. Qual o interesse público no relato sobre os problemas conjugais do ex-craque?
4. Qual o interesse público de publicar uma frase sarcástica da ex-mulher de Casagrande sobre a atual namorada dele?


Xavier também não consegue explicar direito qual o interesse jornalístico de publicar uma matéria sobre fato conhecido há meses até por focas em qualquer editoria de Esporte do país, e que todos os demais veículos decidiram deixar de lado por se tratar justamente de assunto da vida privada do ex-jogador. O diretor de Placar alega que Casagrande é uma ‘figura pública’ e por isto sua vida particular pode e deve ser devassada. Para quem escreve que a palavra ética tem ‘significado elástico’, a alegação deve fazer mesmo algum sentido. (L.A.M.)

******

Diretor de redação da Placar

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/04/2008 Ulisses Lalio

    Interesse Público?? Vamos acordar para nossa vidinha de jornalismos cor-de rosa, amarelos, marrons, pretos, vermelhos… O jornalista (sem desmerecer ninguem) atualmente parece muito mais com um agricultor… Com uma pequena diferença.. O agricultor colhe abobrinhas.. O jornalista escreve abobrinhas…

  2. Comentou em 05/04/2008 Ulisses Lalio

    Interesse Público?? Vamos acordar para nossa vidinha de jornalismos cor-de rosa, amarelos, marrons, pretos, vermelhos… O jornalista (sem desmerecer ninguem) atualmente parece muito mais com um agricultor… Com uma pequena diferença.. O agricultor colhe abobrinhas.. O jornalista escreve abobrinhas…

  3. Comentou em 04/04/2008 Hugo Santos

    Parabéns Sérgio e Placar, espero que não se renda ao patrulhamento do LAM. Vc deu uma lição de profissionalismo e consideração com seus leitores. Li a matéria que não foi depreciativa ou sensacionalista, apenas informa aos seus leitores o que aconteceu a um ídolo da Fiel e comentarista renomado de todas as outras torcidas, que tantas vezes estrelou capas da revista, até dando uma força com depoimentos favoráveis. Certamente irá colaborar com a recuperação dele, pois ter omitido o problema como todos seus colegas do meio fizeram pensando em ajudar, até hoje não adiantou. Casagrande pode ser doente, mas não é de uma mal hereditário ou contraído acidentalmente, pois ninguém nasce viciado; depende de seu LIVRE ARBÍTRIO e infelizmente deve arcar com as conseqüências (repercussão) sendo bom caráter ou não. Também não é um coitado, afinal poderia ter sido muito pior, preso como o ídolo atleticano Reinaldo (que aliás só se recuperou depois da cadeia), mas teve melhor sorte: sobreviveu a um grave acidente e busca recuperação. É duro, pois o admiramos, mas fico mais aliviado do que em não saber. E se Deus quiser, voltará a nos brindar com seus comentários pertinentes na TV. Força Casão e saudações corintianas!

  4. Comentou em 04/04/2008 Milton Neves

    Tantos e tantos comentários e ficam dando trela a um patrulheiro juramentado e incoerente. O sujeito tortamente patrulha Placar por revelar o drama do querido Casagrande e “se esquece” que um dia publicou que Ricardo Teixeira tinha uma amante. Isso podia, mas falar do Casão não pode. Vai entender…

    E esse tema “amante” saiu também em “Caros Amigos” e, se não me falha a memória, José Trajano achou errado o que fez o eterno e pretensioso redator-chefe da editoria de patrulha da imprensa esportiva brasileira.

    Milton Neves, Jornalista e Publicitário.

  5. Comentou em 04/04/2008 Eduardo Belo

    Li a matéria de Placar. L.A.M. diz em seu comentário inicial que não a leu. Não vi nela nada que não fosse jornalismo. Concordo com algumas ponderações, como a de que não era necessário – e nem mesmo desejável – divulgar o salário do comentarista. Discordo de outras. A informação de que a Globo paga o tratamento do profissional (ou pagou, em um determinado momento) tem relevância. Dá a dimensão da importância de Casagrande tem para a emissora. Fora disso, vejo apenas uma polêmica estéril. Casagrande é, até onde parece, um grande sujeito. A matéria não desfaz essa imagem nem por um segundo. Achei infeliz a frase de Sérgio Xavier, de que respeito e ética são conceitos elásticos. Sem querer fazer a defesa de alguém que nem conheço, penso que entedi o que ele quis dizer. Ainda que a matéria possa ter exagerado aqui ou ali (o que eu não concordo, com exceção da questão salarial), ela merece mais aplaousos que vaias. Só a iniciativa de alguém fazer reportagem hoje já é uma notícia bastante alvissareira.

  6. Comentou em 04/04/2008 Eduardo Belo

    Li a matéria de Placar. L.A.M. diz em seu comentário inicial que não a leu. Não vi nela nada que não fosse jornalismo. Concordo com algumas ponderações, como a de que não era necessário – e nem mesmo desejável – divulgar o salário do comentarista. Discordo de outras. A informação de que a Globo paga o tratamento do profissional (ou pagou, em um determinado momento) tem relevância. Dá a dimensão da importância de Casagrande tem para a emissora. Fora disso, vejo apenas uma polêmica estéril. Casagrande é, até onde parece, um grande sujeito. A matéria não desfaz essa imagem nem por um segundo. Achei infeliz a frase de Sérgio Xavier, de que respeito e ética são conceitos elásticos. Sem querer fazer a defesa de alguém que nem conheço, penso que entedi o que ele quis dizer. Ainda que a matéria possa ter exagerado aqui ou ali (o que eu não concordo, com exceção da questão salarial), ela merece mais aplaousos que vaias. Só a iniciativa de alguém fazer reportagem hoje já é uma notícia bastante alvissareira.

  7. Comentou em 03/04/2008 José Orair Silva

    Podemos concordar ou não com Luiz Antonio Magalhães. Podemos concordar ou não com o diretor de redação da revista Placar. Eu particularmente fiquei sensibilizado com o argumento de Sérgio Xavier em relação à diferença de tratamento na imprensa brasileira em relação aos episódios Maradona e Casagrande. Criticar o argentino, pode. Criticar o brasileiro, não pode!. Só tenho uma dúvida. Não leio a revista Placar e gostaria de saber se ela deu espaço na sua reportagem para que os amigos de Casagrande tivessem a oportunidade de contestar eventuais exageros. De qualquer forma parabéns ao OI por divulgar as duas versões. Debate democrático e plural é isso. Os dois lados se manifestam. O pau que dá no Chico dá também no Francisco. O leitor é o único juiz da situação e, devidamente informado, fará a sua opção. Pena que a imprensa brasileira em geral não seja dada a tais práticas.

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