Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > MEA-CULPA DO ‘GLOBO’

Resposta velha para um Brasil novo

Por Mauro Malin em 04/09/2013 na edição 762

A manobra tentada pelo O Globo com a publicação de sua “Memória” não terá o resultado esperado por seus promotores, o de dar uma boa guaribada na imagem da casa, por uma razão básica: é uma operação concebida e, na maior parte do tempo, executada antes de junho de 2013. Atrelada, portanto, a uma narrativa caduca de Brasil.

O que as Organizações Globo têm de competência para fazer negócios, têm de incompetência para fazer política. Política com P maiúsculo, de que tanto carece o país. Qualquer balanço superficial mostrará essa inépcia. Apoiaram o golpe e a continuação do golpe. Apoiaram Moreira Franco contra Leonel Brizola em 1982. Entraram relutantes na campanha das diretas. Apoiaram Collor contra Lula em 1989. Manipularam, sim, a edição do último debate entre os então candidatos, por exigência da cúpula da emissora: pode-se afirmar que, apesar dos esforços de reconstituição do episódio, alguns fatos ainda não vieram à tona. Quem sabe na próxima encarnação.

Apoio cego a Cabral e Paes

O erro mais recente, regido por interesses comerciais ligados à Copa e à Olimpíada, e a um governismo pavloviano que faz lembrar o personagem Franco de O Ateneu, aquele cuja “insensibilidade pétrea o encouraçava para as humilhações”, o mais recente despautério político, é o apoio cego a Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes.

Em compensação, toda vez que o grupo pensa o país com grandeza, consegue bons resultados. Por exemplo, a TV Globo é um baluarte da integração nacional no bom sentido (nada a ver com a dos milicos). Não se vê no seu jornalismo uma gota de localismo antidemocrático. É só dar uma olhada para o estado do mundo, em matéria de particularismos, antagonismos e outras mazelas do imaginário coletivo, para valorizar essa característica da Globo.

“Somos cômicos”

Mas, nas manobras políticas, sempre cometendo gafes. Nunca me esqueci de uma primeira página canetada com tinta vermelha pelo então diretor de Redação do jornal, Evandro Carlos de Andrade (1931-2001), em 1983 ou 1984, em que ele apontava uma patacoada gerada por excesso de pretensão do editor, ou do redator, ou de ambos: “Somos cômicos”. Evandro tinha razão, embora não fosse nada alheio ao processo. Ao contrário.

Dicionário do CPDOC

Quem quiser ter um apanhado mais sólido da trajetória do O Globo pode e deve consultar o verbete dedicado ao jornal pelo Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro do CPDOC da FGV. Está disponível gratuitamente na internet. Veja aqui.

Faço, atarefado leitor, um “compacto” desse abalizado texto. Uma sucessão de recortes.

Cassação do PCB

“O período imediatamente posterior ao Estado Novo era considerado por O Globo como de redemocratização lenta, em que a vida política nacional se recompunha, ‘somente perturbada pela ação subversiva dos comunistas, que, através de sua atividade partidária e parlamentar, mantiveram a nação permanentemente agitada… com a fomentação de greves e outras provocações’.”

O jornal “solidarizou-se com o lançamento do PCB na ilegalidade (1947) e fez campanha para que fossem cassados os mandatos dos representantes comunistas, tanto na Câmara dos Deputados, onde chegavam a 14, quanto na Câmara do Distrito Federal, onde ocupavam 18 cadeiras, num total de 50. O Globo apoiou igualmente o rompimento das relações diplomáticas com a União Soviética.”

“Nos debates em relação à estratégia do desenvolvimento econômico a ser seguida, O Globo era o principal porta-voz da linha neoliberal, que tinha como teórico Eugênio Gudin.”

Lustrar a autoimagem não é novidade

“Os debates relativos à sucessão de Dutra se articularam em torno das candidaturas de Getúlio Vargas, lançado pela coligação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) com o Partido Social Progressista (PSP); do brigadeiro Eduardo Gomes, novamente indicado pela UDN; e de Cristiano Machado, do PSD. O Globo, o primeiro órgão de imprensa a levantar, já em 1949, a possibilidade de retorno de Vargas ao poder, apoiou mais uma vez o brigadeiro, o que se deveu, segundo Ricardo Marinho, ‘à sua figura de grande democrata e patriota’. Ainda assim, a edição comemorativa do 30º aniversário do jornal declarava que, ‘durante a campanha eleitoral que se desdobrou intensa não só na capital da República como em todo o país, O Globo manteve uma linha de conduta de real imparcialidade. Procurava esclarecer a opinião pública e trazê-la bem informada, sem manifestar-se favorável a esta ou àquela corrente em luta. Dentro de tal propósito, ofereceu ampla cobertura de todos os setores, com reportagens, entrevistas de candidatos e completo noticiário, fartamente ilustrado’.”

Embelezar a autoimagem não é novidade.

Petrobras, salário mínimo…

“O jornal desencadeou também violenta campanha contra a Petrobras, cuja criação foi aprovada nesse ano pelo Congresso. Ainda em 1953, o aumento em 100% do salário mínimo, decidido pelo ministro do Trabalho, João Goulart, foi considerado nefasto pelo jornal, que viu aí a principal causa do aumento do custo de vida.

À medida que se intensificava a crise política do governo Vargas, O Globo acirrava a oposição ao presidente encampando a tese do impeachment proposta pela UDN e participando da intensa campanha que a imprensa movia contra o jornal situacionista Última Hora, de Samuel Wainer. Segundo Ricardo Marinho, O Globo justificava sua atitude contra um governo eleito constitucionalmente em função dos ‘desmandos’ que cometera.”

Suicídio de Vargas

“O suicídio de Vargas, 19 dias após o atentado da Toneleros, em 24 de agosto de 1954, determinou o apedrejamento da sede de O Globo e a queima de caminhões de entrega do jornal. Em consequência disso, o jornal evitou tecer comentários sobre o episódio, limitando-se a noticiá-lo.”

“Com o início dos debates sobre a sucessão presidencial, articularam-se as candidaturas de Juscelino Kubitschek e João Goulart, pela coligação entre PSD-PTB, e de Juarez Távora, pela UDN. O Globo permaneceu fiel aos princípios udenistas que o orientavam. Durante esse período, aproximou-se igualmente de elementos do Exército ligados à UDN, identificando-se sobretudo com o general Canrobert Pereira da Costa e acreditando na veracidade da chamada Carta Brandi. O documento, divulgado em julho de 1955, seria endereçado a João Goulart pelo deputado argentino Antônio Jesus Brandi e aludiria a supostas articulações com o governo peronista para a deflagração de um movimento armado no Brasil. Um inquérito instaurado no mesmo ano comprovou tratar-se de um documento forjado por falsários argentinos para ser vendido aos opositores de Goulart.”

“Ao longo do governo de Juscelino Kubitschek, O Globo manteve-se na oposição, apoiando a política do Fundo Monetário Internacional (FMI), que preconizou maior combate à inflação e restrição ao crédito, com o qual o presidente acabou rompendo. Em editoriais e mesmo através de colaboradores, o jornal criticava a construção de Brasília, atribuindo a inflação que se verificava aos excessivos gastos de Juscelino.”

Apoio a Jânio

“Por ocasião dos debates em torno da sucessão de Juscelino, O Globo apoiou irrestritamente a candidatura Jânio Quadros, que com o apoio da UDN venceu o pleito, derrotando o candidato petebista, o marechal Henrique Lott. O vice-presidente de Jânio, contudo, seria João Goulart, filiado ao PTB.”

“Durante o governo de Jânio Quadros, o jornal recebeu com perplexidade algumas das medidas presidenciais, sobretudo as relativas à política externa. A condecoração de Ernesto ‘Che’ Guevara, ministro das Relações Exteriores de Cuba, e o projeto de reatamento de relações diplomáticas com os países socialistas foram violentamente combatidos.”

“A renúncia de Jânio, em 25 de agosto de 1961, foi igualmente recebida com perplexidade. De imediato, O Globo foi contra a posse de João Goulart, apoiando, no entanto, a opção parlamentarista, adotada pelo Congresso em setembro de 1961, como forma conciliatória para propiciar a posse do vice-presidente. Durante o governo João Goulart, O Globo permaneceu na oposição, defendendo os interesses do capital estrangeiro e atacando as reformas de base propostas pelo presidente.

O jornal declarou-se contrário à reforma agrária, mesmo se esta fosse feita com indenização, afirmando considerar o minifúndio economicamente prejudicial. Manifestou-se contra o plebiscito de janeiro de 1963, que promoveu o retorno ao regime presidencialista, alijando o parlamentarismo do cenário político. Condenou igualmente a desapropriação dos bens da American and Foreign Power Company (Amforp) em abril de 1963, permanecendo ao lado das proposições do FMI, que dera parecer desfavorável à política econômica levada a efeito por João Goulart. O Globo pronunciou-se também contra a Lei de Remessa de Lucros, cuja regulamentação foi emitida em janeiro de 1964.

Por fim, a eclosão do movimento militar de março de 1964, que derrubaria o governo João Goulart, foi prontamente apoiada por O Globo.

Apoio a Castello

O Globo deu apoio ao governo do marechal Castelo Branco, presidente eleito pelo Congresso em 11 de abril de 1964. Contudo, tendo rompido com Carlos Lacerda em 1963, nas eleições de outubro de 1965 Roberto Marinho apoiou a candidatura oposicionista de Negrão de Lima ao governo da Guanabara contra o candidato de Lacerda, Flexa Ribeiro. A despeito do apoio a Negrão de Lima, O Globo permaneceu identificado com Castelo Branco, encampando as renegociações do governo com o FMI, o Plano de Ação Econômica organizado por Roberto Campos e o programa de austeridade monetária, e não se manifestando contra as diversas cassações perpetradas pelos primeiros atos institucionais. Ainda em 1965, o jornal opôs-se à Frente Ampla, movimento articulado por elementos descontentes com o governo Castelo Branco, entre os quais Lacerda e políticos cassados pelo movimento de 1964, como os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart.”

Apoio entusiástico a Médici

O Globo foi favorável à prorrogação do mandato de Castelo Branco. Durante o governo do marechal Costa e Silva, empossado em 15 de março de 1967, o jornal, embora seguisse em seu apoio às principais teses do movimento militar de 1964, mostrou algumas reservas. Já o governo do general Garrastazu Médici recebeu total adesão. Transformado gradualmente no mais governista dos jornais, O Globo deixou lentamente sua posição favorável à privatização das empresas, encampando, a partir do governo Ernesto Geisel, a política de estatização, num momento em que órgãos da imprensa liberal, como o Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo, lhe faziam restrições e combatiam a Petrobras. O Globo, ao contrário, embora fosse um tradicional inimigo da Petrobras, passou a apoiá-la durante o governo Geisel.”

“O editorial comemorativo do 50º aniversário do jornal, em 1975, reafirmou o propósito de O Globo de dar ‘firme combate à subversão’, declarando ao mesmo tempo que o crescimento econômico do país criara ‘condições de trabalho profícuo, ensejando que, embora sempre vigilantes, possamos partir para a implantação do desenvolvimento político e social’.

“O projeto de distensão ‘lenta, gradual e segura’, apresentado pela facção liberal do regime militar, foi tratado nas páginas de O Globo como um processo contínuo de transição para a democracia. Momentos conturbados como o Pacote de Abril, que redundou no fechamento do Congresso, em abril de 1977, para a aprovação de um conjunto de leis com o intuito de fortalecer o partido governista, foram vistos pelo jornal como momentos de intransigência por parte da oposição, capazes de impedir a ‘boa evolução do problema institucional brasileiro’.”

Excelente trabalho: Riocentro

Nem tudo foi governismo pró-ditatorial. O jornal fez um bom trabalho contra os militares terroristas que promoveram o atentado do Riocentro e outras torpezas.

“Em 1979, quando foi aprovada a lei da anistia, permitindo a libertação de presos políticos e a volta do exílio de personagens como Luís Carlos Prestes e Leonel Brizola, O Globo elogiou o encaminhamento dado à questão e procurou encontrar na atitude do presidente João Figueiredo um sentido de conciliação e compromisso com os princípios de liberalização do regime. A escalada de atos terroristas promovidos por grupos militares de direita, iniciada logo após a aprovação da anistia, recebeu imediata desaprovação do jornal. Todos os principais atentados a bomba foram listados na edição de 2 de maio de 1981, como parte da cobertura do caso Riocentro. Nessa ocasião, uma bomba explodiu durante um show em comemoração ao Dia do Trabalho, atingindo dois militares num automóvel estacionado naquele centro de convenções localizado no Rio de Janeiro. A reportagem de O Globo divulgou a explosão de uma segunda bomba, meia hora depois, na casa de força, contrariando a versão oficial de que os militares seriam vítimas, e não autores.”

Passo o episódio da Proconsult, em 1982. Vamos direto ao primeiro governo Brizola no Rio de Janeiro.

Contra Brizola

“O governo Brizola foi duramente criticado pelo jornal como centralizador e ineficiente. Seu principal projeto ligado à educação, a construção dos CIEPs, foi tratado como dispendioso e movido por objetivos de promoção política. Na data em que se completaram cem dias de mandato, O Globo anunciou uma crise administrativa, com reflexos na segurança pública e na discussão do aumento do funcionalismo, cuja natureza estaria no estilo personalista do governador.”

“A sucessão do presidente João Figueiredo foi marcada pela tentativa de promulgação da emenda Dante de Oliveira, que propunha, de imediato, a eleição direta para presidente da República. O Globo não apoiou a campanha nacional a favor da emenda, iniciada no fim de 1983. Entretanto, a cobertura dos últimos comícios ganhou destaque, tendo sido considerado o comício da Candelária, no Rio de Janeiro, a maior concentração política da história da cidade. Porém, quando o governo do presidente João Figueiredo decidiu encaminhar uma proposta que mantinha o Colégio Eleitoral e definia as bases das eleições diretas, adiadas para o próximo pleito, O Globo enfatizou: ‘O reconhecimento pelo governo de uma vontade nacional de mudança, na direção única da abertura política, confere ao projeto de reforma constitucional do presidente Figueiredo uma índole democrática que nenhuma imperfeição ou omissão tópica da emenda pode desmerecer’.”

Contra as diretas

“As medidas de exceção impostas em Brasília para evitar concentrações públicas de apoio às diretas também receberam aprovação do jornal, sendo consideradas perfeitamente de acordo com a ordem constitucional vigente. Na data da votação da emenda Dante de Oliveira, O Globo conclamou o Congresso a votar afastado do apelo das ruas, cumprindo seu papel específico. Após a derrota da emenda, em 25 de abril de 1984, o jornal passou a defender ainda mais enfaticamente a proposta do presidente Figueiredo, entendendo-a como a única possibilidade de negociação entre o governo e a oposição.”

“Em 7 de outubro de 1984, no editorial ‘O julgamento da revolução’, publicado na primeira página, Roberto Marinho fez um balanço da atuação de seu jornal durante os anos do autoritarismo e concluiu: ‘Não há memória de que haja ocorrido aqui, ou em qualquer país, que um regime de força, consolidado há mais de dez anos, se tenha utilizado de seu próprio arbítrio para se autolimitar, extinguindo os poderes de exceção, anistiando os adversários, ensejando novos quadros partidários, em plena liberdade de imprensa. É esse o maior feito da Revolução de 64’.”

Fiquemos por aqui, até segunda ordem.

Os autores do texto do Dicionário são Carlos Eduardo Leal e Sérgio Montalvão.

 

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