Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

ENTRE ASPAS > BBB 4

Roberto da Matta

24/02/2004 na edição 265

‘Há um programa chamado Big Brother Brasil (deveria ser com ‘z’, mas não é…) e um Brasil do big brother. O primeiro é uma impiedosa experiência comparável em crueldade ao circo romano (quando os Césares ensaiavam Hollywood), onde um grupo concorda em ser visto por milhões de pessoas em todos os momentos de um cotidiano novo e inteiramente artificial, cujas regras o grupo fica impedido de traçar e conhecer. O segundo é como o Brasil e seus valores surgem inevitavelmente dentro da experiência.

Pior do que uma prisão, o confinamento voluntário (e por isso mesmo contraditório) do BBB cria uma sociabilidade sem rotina, perversamente fundada na competição, já que todos os membros do grupo têm o propósito explícito de derrubar ou tirar da ‘casa’ (o laboratório onde estão) todos os outros. Removendo a capacidade de prever o que virá e a simpatia mais profunda, fundamento de toda solidariedade humana, a vida dentro da tal ‘casa’ desfia um rosário de desencontros sociais e emotivos que vão do mais barato ridículo à mais grotesca exposição sentimental. Um deles, talvez o mais flagrante, é o que acontece entre a plausibilidade do real (aquilo que se percebe como sendo o ‘verdadeiro’, o aqui e agora, que contém limites e, por isso, pode magoar) e a fantasia – afinal, minha vida neste lugar e com estas pessoas não passa de um jogo; estou fazendo uma pausa na minha existência real para tomar parte num programa de televisão. Algo que, conforme sabemos, é impossível realizar sem conseqüências.

Uma das maiores atrações desse teatro jaz precisamente na completa submissão dos seus atores aos produtores do programa que têm total controle de suas vidas dentro da ‘casa’. De fato, quem está no BBB vive numa anticasa, pois existe temporariamente num lugar onde casa e rua, intimidade e vida pública, amizade e intriga, competição e harmonia, espontaneidade e cálculo social não só se confundem, mas trocam perversamente de lugar.

Não é, pois, por acaso, que o programa desperta uma das piores atividades da vida moderna: o voyeurismo, o ver sem ser visto, o observar os dramas de fora, descompromissadamente, sabendo que para delas sair, basta apertar um botão.

Oferecer a possibilidade de ver pessoas em todas as situações, violando sua intimidade, é algo que tem fascinado o Ocidente desde que, com o cristianismo, inventou-se a idéia de livre-arbítrio, de liberdade individual e, com ela, de escolha moral com implicações cósmica (pois o arbítrio leva a uma eterna danação ou salvação). Foi esse conjunto de valores que criou um espaço interno inviolável e verdadeiramente misterioso dentro de cada um de nós. Para alguns, esse espaço é um ego fragilizado, pressionado pelo id e pelo superego; para outros, é uma alma imortal; para muitos, é um espaço que a sociedade protege no que chamamos de subjetividade, aquela perspectiva pela qual vemos o mundo e o sentimos sem formalidades e etiquetas, como nós mesmos – se é possível imaginar um ‘nós mesmos’ sem os nossos países, línguas, narrativas, crenças e costumes, isso para não falar nos nossos pais, irmãos e companheiros de jornada e geração.

Não seria preciso enfatizar como é atraente poder profanar essas vidas expostas nos BBB nas suas intimidades, sobretudo quando se sabe que a ‘vida privada’ (e a privada) são tabus sociais. O paradoxo aumenta quando se sabe que os participantes do programa abriram mão dessa inviolabilidade como valor, motivados por dinheiro e por uma óbvia superexposição na mídia televisiva, que promove fama e celebridade instantânea, embora fugaz.

Mas, para além dessas possibilidades, é igualmente curioso observar como há um Brasil do big brother. Ou seja: como valores de nossa sociedade se revelam explicitamente no grupo. Há, assim, a ênfase desmesurada na aparência – todos se querem bonitos, atraentes, espertos, malandros, espirituosos e bem vestidos. Há o cuidado extremado com os problemas que antigamente se classificavam como ‘de cor’, hoje transformados em discursos sobre opressão e resgate. Revela-se a importância da ‘limpeza’ pessoal, sobretudo no que diz respeito à comida, seu preparo e ato de comer. Há uma clara tentativa por parte dos membros do grupo em encontrar um ‘pai’ e uma ‘mãe’ capaz de brasileiramente estabilizar certas dimensões da vida dentro da casa, seja acalmando sentimentos, dando conselhos ou tendo pressentimentos baseados em intuições maternais. Finalmente, a maior dificuldade: como criar uma hierarquia quando os participantes são definidos como sendo absolutamente iguais e cada qual representa um partido que compete por um prêmio milionário? Num certo sentido, portanto, todas as intrigas, futricas, simpatias e raivas passam por esse quadro tão antibrasileiro de se viver com pessoas sem nenhuma etiqueta, título ou sinal mais claro de posição social. Como não gostar, se a gente mora junto? E, pior que isso, como gostar demandando aquele invariável toque de lealdade nacional (que leva à gentileza e ao ‘fingimento’) e, ao mesmo tempo, competir?

A mim me parece que a maior fonte de angústia do programa não é bem a crueldade de se dispor a viver num mundo sem rotina e numa casa de vidro, mas ser obrigado a conviver com indivíduos no sentido pleno da palavra.

Salvo engano ou erro de cálculo, essa ausência – com raras exceções – de laços sociais balizadores, marco fundamental de nosso lado hierárquico, é o verdadeiro inferno para os participantes.’



Bia Abramo

‘Emoção medida sobre medida’, copyright Folha de S. Paulo, 20/02/04

‘Embora previsibilíssimo, não deixa de ser impressionante. Dia de eliminação no ‘Big Brother Brasil’, a quarta edição (já? Pois é…). As famílias e amigos dos contendores estão em pequenas arquibancadas, uma de cada lado do cenário.

Pai e mãe, irmãos, às vezes filhos, amigos, conhecidos do bairro e, desconfia-se, papagaios de pirata se engalanam como torcidas -alguns vêm uniformizados, alguns trazem cartazes e, todos, sem exceção, pulam e gritam quando a câmera focaliza.

Dentro da casa, àquela(e) que está em vias de ser eliminado é permitido(a) ver a família. Não importa quanto tempo ela(e) não vê seus parentes e amigos, a reação é sempre a mesma: levantam-se, gritam, põem a mão na cabeça, dizem os nomes de um e de outro, enquanto a torcida pula e grita. Grita-se muito, aliás.

O programa prossegue. Conversa vai, conversa vem. Instados pelo apresentador, os confinados fazem previsões sobre quem vai ou não ser escolhido pelo público, comentam os pequenos acontecimentos da vida na casa, os minutos passam. De novo, o apresentador faculta a um e depois ao outro a visão dos entes queridos. Como bonecos de engonço, novamente eles se levantam, e o ritual prossegue, como se obedecesse a um script.

É a chamada emoção, a pedra de toque da TV. Se na vida mais ou menos real a emoção corresponde a uma reação espontânea e um movimento afetivo despertado por algum estímulo externo, no mundo televisivo a palavra designa outras coisas. Na TV, emoção é aquilo que todos que estão diante da câmera acham que têm obrigação de demonstrar, como forma de convencer o espectador que merece atenção.

O moderno recurso do medidor de batimentos cardíaco tenta capturar, não a emoção de fato, que essa é inefável, mas esse esforço em se fazer notado(a). Os ‘reality shows’ são arenas privilegiadas para a observação desse estado alterado de consciência que é o comportamento de pessoas comuns, ou melhor, de não-profissionais, quando sabem que serão filmadas.

A consciência de que seus movimentos serão registrados e assistidos parece jogar as pessoas em um transe.

Mesmo em um ambiente menos manipulado do que a TV e de procedimentos mais transparentes, fica evidente que ninguém é ingênuo diante de uma câmera: em alguma medida, todos representam. Os documentários de Eduardo Coutinho, por exemplo, captam muito bem esse fenômeno. É como se a câmera fosse um outro mais poderoso, mais inquisitivo e intimidante do que qualquer pessoa de carne e osso e com uma expectativa muito fixa e definida do que são as reações e atitudes adequadas ou não.

A emoção passa ao largo. O que se observa quando uma pessoa como eu e você está em qualquer situação vigiada é uma luta entre os sentimentos de fato, pessoais e íntimos, e os postiços. Vencem, é claro, os últimos.’



Daniel Castro

‘‘Big Brother’ bate recorde’, copyright Folha de S. Paulo, 22/02/04

‘Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde praticamente um novo ‘reality show’ é anunciado a cada semana, no Brasil o único formato que se consolidou é o de ‘Big Brother’, na Globo, e seu parente no SBT, ‘Casa dos Artistas’, que deve ter sua quarta edição a partir de maio.

‘Big Brother Brasil’ é um fenômeno. A quarta edição, diferentemente do que se previa, é um sucesso. Mais precisamente, a mais bem-sucedida de todas.

Os programas exibidos às terças, quando um participante é eliminado, registraram até a semana passada média de 45 pontos no Ibope da Grande São Paulo. O primeiro ‘BBB’, o de maior sucesso até então, teve média de 42 pontos em suas seis primeiras terças-feiras. Aos domingos, a audiência aumentou de 29 pontos no ‘BBB1’ para 36 no ‘BBB4’.

Cada ponto no Ibope equivale a cerca de 48,5 mil domicílios.No Ibope, ‘Big Brother Brasil’ tem desbancado a novela das oito, ‘Celebridade’, do posto de programa mais visto da TV brasileira.

O Datanexus confirma o bom desempenho de ‘Big Brother Brasil’. Até terça-feira, a média de todos os episódios exibidos era de 30,4 pontos no instituto, onde cada ponto equivale a 51 mil domicílios. No Datanexus, no entanto, ‘BBB’ perde a liderança (por pouco) para ‘Celebridade’.

De acordo com o Datanexus, 58,5% dos telespectadores de ‘BBB’ são mulheres, e 23,3% têm menos de 17 anos.De cada cem telespectadores, só três têm curso superior completo (a média da população com diploma na Grande São Paulo é de sete pessoas a cada cem). A maioria do público (65,6%) não concluiu o ensino fundamental.

O ‘reality show’ é um fenômeno também na internet. Seu site oficial (www.globo.com/bbb) já recebeu 14 milhões de visitas desde o início de ‘BBB4’, um aumento de 323% em relação ao mesmo período de exibição de ‘BBB1’, entre janeiro e fevereiro de 2002.

Dados da Endemol, a produtora holandesa do grupo Telefônica que se associou à Globo no Brasil, mostram que a edição brasileira de ‘Big Brother’ é a mais vista do mundo: ‘BBB3’, no ano passado, teve média de 33 milhões de telespectadores por programa. Só a edição africana, exibida no ano passado em vários países, chegou perto do Brasil, com 25 milhões.

A Globo ainda não confirma, mas já é dada como quase certa a realização do quinto ‘Big Brother Brasil’ no início de 2005.

O programa é um fenômeno também na Itália. Lá, sua audiência quase triplicou da primeira para a terceira edição. Chamado de ‘Grande Fratello’, começou com 5,5 milhões de telespectadores, passou para 9,3 milhões na segunda versão e cravou 13 milhões na terceira.

Neste ano, a TV brasileira volta a investir em outros formatos de ‘reality show’, como ocorreu em 2002. A Globo vai realizar o musical ‘Fama’, a partir de junho. Planeja exibir a partir de abril ‘Barco do Amor’, gravado na Amazônia, como quadro do ‘Caldeirão do Huck’. A Record negocia com a Endemol a produção da versão nacional de ‘All You Need Is Love’, que promove encontros de pessoas.’



PRÊMIO FOLHA DE JORNALISMO
Folha de S. Paulo

‘Cobertura da guerra recebe Prêmio Folha’, copyright Folha de S. Paulo, 20/02/04

‘A cobertura da Guerra do Iraque realizada pelo repórter Sérgio Dávila e pelo repórter-fotográfico Juca Varella ganhou o Grande Prêmio Folha de Jornalismo de 2003. Os dois profissionais foram os únicos jornalistas brasileiros que acompanharam, do solo iraquiano, o início dos bombardeios a Bagdá pela coalizão liderada pelos Estados Unidos, na madrugada do dia 20 de março, e os primeiros 12 dias do conflito.

Eles permaneceram na cidade até o dia 31 daquele mês, quando seguiram para a Jordânia e depois para o Qatar. Retornaram a Bagdá um dia depois da queda do regime de Saddam Hussein, em 10 de abril. Somente no dia 13 de abril começaram a chegar à cidade correspondentes de outros veículos de comunicação do Brasil.

O Prêmio Folha foi instituído em 1993 e é entregue anualmente aos melhores trabalhos produzidos por profissionais da Empresa Folha da Manhã S/A, que edita a Folha e o ‘Agora São Paulo’.

Há premiações bimestrais e seleção final no término do ano.

Além do Grande Prêmio, ocorre o reconhecimento para outras seis categorias.

Outras categorias

Na categoria Reportagem, o Prêmio Folha de 2003 foi dividido entre duas duplas de profissionais. Uma delas, composta pelos repórteres Chico de Góis e Alencar Izidoro, foi responsável pela série ‘A máfia dos transportes em São Paulo’, publicada no caderno Cotidiano. O material revelou fraudes e outros delitos que envolviam sindicalistas e empresários do setor de transporte coletivo da cidade.

A outra dupla, formada pela repórter Fernanda Mena e pelo repórter-fotográfico João Wainer, elaborou as reportagens do caderno Folhateen que retratou o cotidiano dos jovens ‘soldados’ que trabalham para o tráfico de drogas no Rio de Janeiro.

O vencedor na categoria Edição foi o caderno especial denominado ‘450 anos de história – passado reconta o cotidiano de São Paulo’, em que a história da cidade de São Paulo, desde seus primórdios, foi reconstituída por intermédio de fatos e de costumes ligados ao dia-a-dia dos moradores da cidade.

O ‘Guia da reforma’, publicado em cinco edições do caderno Construção, no qual especialistas ensinavam a diagnosticar e a corrigir problemas nas redes de água e luz, paredes, coberturas e pisos de residências, recebeu o Prêmio Folha na categoria Serviço.

Na categoria Arte, venceu o projeto gráfico que reformulou o suplemento infantil Folhinha, que completou 40 anos em 2003, tornando-o mais bonito, colorido e divertido.

O vencedor na categoria Especial foi a edição da Revista da Folha que desenhou o mapa da juventude da cidade de São Paulo, oferecendo, por meio de pesquisa inédita, dados sobre hábitos, preferências e o cotidiano dos jovens moradores das diversas áreas.

Assim como em Reportagem, também a categoria Fotografia teve mais de um vencedor: a seqüência em que aparecem homens armados durante conflito num acampamento de sem-teto que resultou na morte do fotógrafo Luís Antônio da Costa, de André Porto, do ‘Agora São Paulo’, e a imagem de um paciente que sofreu operação cerebral abandonado em um leito, de autoria de Tuca Vieira.

A comissão julgadora do Prêmio foi composta por Paula Cesarino Costa, secretária de Redação, Cleusa Turra, secretária-assistente de Redação, Alcino Leite Neto, editor de Domingo, Contardo Calligaris e Fernando Bonassi, colunistas da Folha.’

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