Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

JORNAL DE DEBATES > ELEIÇÕES 2010

Rumo à intolerância?

Por Júlio Henrique Canuto da Silva em 26/10/2010 na edição 613

A atual campanha presidencial tem mostrado um baixíssimo nível. A espetacularização promovida pelo marketing de ambos os lados leva-nos a uma discussão bem distante da realidade e que beira a irracionalidade. Sim, os dois candidatos evocam os valores democráticos ao mesmo tempo em que procuram desmoralizar seu adversário impondo uma verdade única, unilateral.

Foi pela internet que as manifestações desrespeitosas ganharam força e têm conquistado as mentes de muita gente. Logo a internet, símbolo da tecnologia de comunicação de nossos dias, está repleta de mensagens absurdas. Os candidatos e suas equipes mostraram que não sabem utilizar este meio de comunicação. Acompanhei todas as candidaturas pelo twitter e, ao invés de promover o diálogo, suas mensagens apenas falam de comícios, carreatas e denúncias contra o adversário. Apenas Plínio de Arruda Sampaio parece ter compreendido o potencial das redes sociais e tem dialogado com os usuários, independentemente de serem favoráveis ou contra suas ideias. Até mesmo hoje, apesar de estar fora da eleição, ele segue comentando os debates e dialogando.

Nos e-mails, a baixaria chega a um nível insuportável, revoltante. Os conteúdos mostram claramente que estamos bem distantes de um ideal democrático, pois não sabem dialogar. Sempre colocam uma opinião diminuindo e ridicularizando a opinião do outro. Este comportamento estende-se a qualquer outro meio de informação. É só entrar em site de qualquer jornal e ler os comentários. Não existe troca de ideias. Ao invés de criar meios de diálogo, incitam o ódio. E o que me deixa mais desanimado é que as pessoas repassam isso sem se importar com o conteúdo.

Incapacidade ou competência?

Daí, penso: ora, por que me espanto? Os telejornais também são sensacionalistas e é assim que conseguem tamanha atenção. É o gosto pelo escândalo, pelo escárnio (vejam-se as baixarias dos programas de TV com grande audiência). De tudo isso, alguns comportamentos me deixam mais indignado. Enumero abaixo:

1. Distorcer a história do país. Vejam: quando acusam Dilma de terrorista – e, sem sombra de dúvidas, a candidata petista foi a que mais sofreu ataques deste tipo, provavelmente por ser a primeira nas pesquisas –, penso que estão se igualando aos ditadores brasileiros que espalhavam cartazes com esta mesma palavra para se referirem a quem, na verdade, estava arriscando a própria vida pela conquista da democracia. Democracia esta que, quando veio, tinha um pouco do gosto amargo da anistia geral e irrestrita, que assegurou a liberdade de todos os torturadores e seus mandantes. Igualando-se, assim, com as revoluções passivas pelas quais nosso país passou, desde nossa independência;

2. A elevação da ‘verdade’ religiosa cristã como absoluta, num Estado laico e em uma nação evidentemente plural: cultural, étnica, religiosa etc. Por que a opinião de um segmento religioso tem que ser colocada como parâmetro para decidir o que é melhor para o país que abriga toda essa diversidade de visões de mundo? E vejam que muitos cristãos não concordam com essa imposição, apesar de particularmente terem suas convicções religiosas;

3. A constante presença do nosso atual presidente da República nos palanques, abrindo mão, por este tempo, de sua obrigação primeira, para a qual foi eleito há quatro anos: governar! É evidente, para mim, que Dilma é uma candidata inventada, que aí está como consequência dos erros cometidos pelo PT em passado recente. Tudo bem o presidente defender sua candidata no programa eleitoral e até em alguns comícios. O apoio de um presidente com grande percentual de aprovação é mesmo fundamental. Porém, considero exagerado o papel que ele está desenvolvendo na campanha. Por outro lado, há que se fazer justiça e entender que apesar da candidata ser uma ‘alternativa de emergência’ do PT, não se pode, por conta disso, usar esta constatação como prova da incapacidade dela para governar. Chegar, pelas circunstâncias, à condição de candidata é uma coisa, julgar por isso sua competência para o exercício do cargo é outra, bem diferente;

Que lição podemos tirar?

4. O imediatismo das propostas. Não se fala num projeto de país. Ou melhor, fala-se, porém excluindo todas as demais visões e opiniões que compõem o todo e que tem que ser levadas em consideração para se chegar a algo mais próximo da realidade. Atualmente, não vejo diferença em essência entre PT e PSDB, isto porque a base na qual se afirmam como melhor opção é a insistente repetição de um objetivo, tido de forma superficial: crescimento. Apenas no sentido de produzir mais. É óbvio que maior poder de consumo faz o país se fortalecer economicamente e se modernizar. Porém, chamo a atenção para o desenvolvimento humano. Este, sim, representa a única base sólida, fértil e estável de modernização. Desenvolvimento este que vem sobretudo através da educação. Não num sentido raso de formação para o mercado de trabalho, mas a formação cidadã, educação até mesmo no modo de consumir.

O que se aprende com as eleições?

Se, como acredito, a participação política e o exercício da cidadania vêm através de nossas experiências sociais, de nossa relação com as instituições, suas respostas às nossas demandas e a reciprocidade a partir do comportamento destes atores, me pergunto qual a lição que podemos tirar deste processo eleitoral, qual exemplo, sobretudo para os mais jovens? Aqui, destaco a opinião de dois colunistas da grande mídia, cada um com suas posições políticas bem definidas, que considero muito interessantes.

O ‘jeitinho’ que inviabiliza o exercício da cidadania

No dia 13 de outubro, o jornalista Luis Nassif publicou artigo em seu blog com boa reflexão – após discorrer sobre o ódio anti-Dilma que se espalhou pela internet – sobre o futuro do país após as eleições: Que país sairá destas eleições? Até desanima pensar.

Mas demonstra cabalmente as dificuldades embutidas em qualquer espasmo de modernização brasileira, explica as raízes do subdesenvolvimento, a resistência histórica a qualquer processo de modernização. Não é a herança portuguesa. É a escassez de homens públicos de fôlego com responsabilidade institucional sobre o país. É a comprovação de porque o país sempre ficou para trás, abortou seus melhores momentos de modernização, apequenou-se nos momentos cruciais, cedendo a um vale-tudo sem projeto, uma guerra sem honra.

Em artigo de 20 de outubro para o jornal O Estado de S. Paulo, o antropólogo Roberto Da Matta, em texto que manifesta apoio à candidatura Serra, faz um paralelo entre a cultura do homem do meio oeste americano e o brasileiro, através de um traço de caráter que fala sobre o sentido da cidadania. Descrevendo os costumes do local, Da Matta observa, logo após uma rápida refeição:

‘Depois que comemos, somos obrigados pela etiqueta indisputável e indiscutível do local a – eis a ofensa para o meu lado brasileirinho – levarmos os nossos restos para o lixo! A igualdade tem preço. Um preço alto para quem foi criado com criados, para quem adora mordomias. Pois nesta Illinois que não conheceu nenhuma execrável escravidão, cada um é seu próprio dono e mordomo. Temos, pois, a obrigação de levar nossos restos para o lixo. Esse é um aspecto do liberalismo pouco visto e falado no Brasil e, no entanto, crítico para sua existência. Aqui, reitero, não há criados.’

Descartando as opções políticas dos dois colunistas, os dois trechos, assim destacados do restante do conteúdo dos artigos, falam de uma resistência histórica e cultural de alcançarmos melhorias concretas. O primeiro nos mostra a resistência doentia de reconhecer as virtudes de seus opositores e a tendência a recontar a história a partir do ponto que melhor nos favorece. O segundo fala da resistência pessoal de aceitar estar submetido às leis, de ser igual e ao mesmo tempo manter sua individualidade. Nossa tendência à corrupção cotidiana, o popular ‘jeitinho brasileiro’, que inviabiliza o exercício da cidadania.

O país já perdeu

Chega a minha vez de dizer: qual a lição deixada nestas eleições?

Ora, é a certeza de que as aparências valem mais do que a verdade. De que tudo é válido para alcançar nossos objetivos e que esse ‘nosso’ é algo particular, não público. Aprendemos a praticar o egoísmo, a desprezar a história, ou utilizá-la exclusivamente para benefício próprio, desmoralizando o opositor. Aprendemos que ser cidadão, ser igual, não tá com nada. Aprendemos a mentir. Aprendemos a citar valores de forma rasa, sem compromisso, mas apenas para fazer pose.

Ora, ambos candidatos se acusam de participarem de esquemas de corrupção. Disso, se tiram três possibilidades: os dois têm razão (e daí, ambos são corruptos), os dois estão caluniando (e daí, ambos são mentirosos). Nestas duas circunstâncias, as duas candidaturas são inviáveis, pois estaríamos elegendo um corrupto ou um mentiroso. Por fim, resta a possibilidade de que um candidato esteja dizendo a verdade e sendo duramente caluniado, neste caso, o caluniado pode recorrer à justiça contra o acusador, algo que só o desenrolar (e uma futura apuração da justiça) dirá. Ainda assim, custa-me acreditar que das acusações, algo será investigado.

Os candidatos à Presidência da República deveriam pensar no exemplo e nos valores que estão passando através da conduta que seguem. Enfim, entendo que o país, com estas eleições, se inclina para o caminho da intolerância. Temos, assim, de forma evidente, o paradoxo de nossa pretensa democracia: o mais moderno sistema de votação, com ampla cobertura e divulgação de informações e a intolerância nas opiniões.

Complacente a tudo isso, ou ao menos com o ‘seu lado’, a mídia alimenta as rivalidades e, pior, despeja denúncias sem qualquer prova, muitas vezes ouvindo apenas um lado. Na certa apostando na repercussão comercial dos escândalos e também na certeza da impunidade, a mídia (jornal, TV, rádio, revistas etc) coloca seu lado formador de opinião muito acima de seu tímido interesse investigativo, de forma claramente tendenciosa.

O que esperar da conduta de nossos jovens? O que esperar da conduta do nosso povo, com estes exemplos? Assim o senso comum vai sendo moldado. Deverá persistir e, depois destas eleições, talvez até mesmo se aprofundar a resistência e hostilização cotidiana aos legítimos movimentos sociais, atores fundamentais do regime democrático.

Com a farsa da ‘defesa da democracia’ sendo martelada, quando na verdade se está pisando na democracia, nosso futuro próximo pode não ser dos melhores. Penso que, independente de quem sair vitorioso desta eleição, o país já perdeu.

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Sociólogo, São Paulo, SP

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