Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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JORNAL DE DEBATES >

Sede de vingança ou passatempo?

Por Karl Wilbrantz em 22/04/2008 na edição 482

Estamos entrando na quarta semana do ‘caso Isabella’ – assim denominado pela imprensa – e, ao que tudo indica, desde o primeiro dia de investigação já se sabia da culpabilidade do pai e da madrasta. Convenientemente, o desenrolar dessa história foi ministrado em doses homeopáticas pela mídia, com o apoio maciço dos já devidamente doutrinados telespectadores (que por alguma razão já não se satisfazem com notícias curtas e objetivas, buscando sempre ‘uma informação a mais’ em seu controle remoto).

Mas, o que leva uma pessoa comum a se envolver com histórias como a de Isabella Nardoni? Seria sede de vingança pelo ato bárbaro praticado pelos assassinos, ou apenas uma forma de passar o tempo em frente à televisão? Quem sabe por que as emissoras, já sem preposição em suas telenovelas e reality shows, encontraram uma forma de envolver o público – sem gastos com atores e prêmios – que, ansioso, aguarda pelo momento de pegar o celular, enviar uma mensagem e competir com a polícia para descobrir quem matou a criança?

Se for sede de vingança, por que não se envolver da mesma forma com as CPI’s instauradas de tempos em tempos no Congresso brasileiro? Ou com as guerrilhas do Movimento dos Sem Terra? E por que não se indignar com o Sistema Único de Saúde e a Previdência Social, que matam diariamente tantos outros brasileiros?

Gritos de ‘pára, pai’

Na primeira semana da ‘novela Isabella’, os ministros da Previdência, Luiz Marinho, e da Fazenda, Guido Mantega, propuseram o aumento das pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para quem ganha acima de um salário mínimo em apenas 5%.

Na mesma semana, a Secretaria de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro contou com um grande apoio na luta contra a dengue: foram convocados médicos para plantões semanais de 12h ou 24h. A medida teve como objetivo ampliar o atendimento à população, principalmente às crianças, pois a dengue já teria feito 80 mortos no Rio.

Oito dias após a morte da menina Isabella, o promotor do caso, Francisco Cembranelli, afirmou ser contrário ao depoimento do filho de três anos de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. O menino poderia ter sido responsável pelos gritos de ‘pára, pai’ ouvidos na noite do crime.

Justiça é parte da natureza humana

Os dias seguintes foram marcados pelos protestos anti-China pela libertação do Tibete em Paris. No Brasil, o secretário de Políticas de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Augusto Cesar Gadelha Vieira, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito da Pedofilia, reclamou da falta de uma legislação específica que obrigue os provedores de internet a armazenarem evidências de crimes cometidos pela rede, como os de pornografia infantil.

Na mesma semana, as centrais sindicais organizaram um coquetel no Salão Negro do Congresso para os parlamentares que foram favoráveis à aprovação do projeto de lei que destina às centrais 10% dos recursos arrecadados com a contribuição sindical. A expectativa é de que as centrais recebam cerca de R$ 100 milhões por ano. Os parlamentares receberam também um diploma que dizia: ‘Agradecimento. Os trabalhadores brasileiros agradecem o apoio recebido dos parlamentares que votaram a regulamentação das centrais sindicais.’

Mas, nem tudo é festa: o senador Magno Malta (PR-ES) apresentou febre, dores musculares, intenso mal-estar, e, segundo o boletim médico, não está descartado que o senador esteja com dengue.

Em recente estudo, o biólogo evolucionista Marc Hauser, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, afirma que o cérebro possui um mecanismo geneticamente determinado para adquirir regras morais. Mais: há mais de setecentos anos, o filósofo religioso Tomás de Aquino concluiu que a ordem moral não depende da vontade arbitrária de Deus: a justiça é algo essencial e parte da natureza humana, inseparável.

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Teólogo, João Pessoa, PB

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