Terça-feira, 18 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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JORNAL DE DEBATES >

Sem espaços para a filosofia

Por Lilia Diniz em 11/11/2010 na edição 615





O Observatório da Imprensa exibido na
terça-feira (9/11) pela TV Brasil discutiu o reduzido espaço e a pouca
atenção que a mídia oferece para reflexões filosóficas e científicas. Em meio às
transformações constantes e profundas do mundo contemporâneo, a imprensa parece
trabalhar apenas com o imediato.

No corre-corre diário das redações, as
hard news acabam se impondo na pauta e temas mais complexos ficam em
segundo plano. Reflexo do estilo de vida cada vez mais veloz e fracionado


dos
leitores, a imprensa deixa de lado o seu papel de promover o debate em torno de
grandes temas. Os principais jornais de circulação nacional contam com cadernos
dedicados à cultura e arte em geral, mas a filosofia não consegue penetrar de
forma contínua e eficaz nesses espaços.

Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu três filósofos no estúdio do
Observatório da TV, no Rio de Janeiro. Adauto Novaes é jornalista e
professor, estudou Filosofia na Escola de Altos Estudos e jornalismo no
Instituto Francês de Imprensa, ambos na Sorbonne. Foi redator do departamento de
Pesquisa do Jornal do Brasil e fundou, há dez anos, o Centro de
Estudos Artepensamento, por meio do qual organiza ciclos de conferências.
Franklin Leopoldo e Silva é professor aposentado do departamento de
Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e
atualmente professor visitante do Departamento de Filosofia da Universidade
Federal de São Carlos (UFSCAR). Newton Bignotto é mestre em Filosofia pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e doutor em Filosofia pela École des
Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris. É professor de Filosofia Política
e de História da Filosofia do Renascimento do Departamento de Filosofia da
UFMG.


No editorial que precede o debate no estúdio, Dines questionou se a sociedade
contemporânea está desperdiçando a capacidade humana de buscar o sentido das
coisas. ‘Perdemos a capacidade de digerir as mudanças descarregadas pela galáxia
novidadeira? As tensões e o estresse – artificiais ou não – de uma sociedade
espetacularizada não estariam nos empurrando para uma banalização que encara a
Filosofia como chatice? A imprensa tem muito a ver com esta onda de
simplificações e esta perda de transcendentalidade. Ao abdicar do papel de
alavanca para indagações, ela estimula o simplismo, o reducionismo e a
irracionalidade’, avaliou.


Exemplo a ser seguido


No debate no estúdio, Adauto Novaes chamou a atenção para a pouca cobertura
da mídia sobre a morte do filósofo Claude Lefort (1924-2010), um dos grandes
pensadores da Filosofia política do século passado, ocorrida em 3 de outubro
último. Além de destacada carreira internacional, Claude Lefort foi professor na
USP e contribuiu para a formação de diversas gerações de intelectuais no Brasil.
Na visão de Adauto, a morte do filósofo não passaria em branco para o setor de
pesquisa do Jornal do Brasil porque o departamento, periodicamente,
preparava cadernos sobre personagens e momentos importantes do passado e da
atualidade. ‘Uma morte como esta teria, no mínimo, uma página no dia seguinte. O
espaço da reflexão se perdeu na imprensa escrita’, criticou.


O professor Franklin Leopoldo e Silva questionou o papel dos leitores nesta
conjuntura: ‘Será que a nossa oferta de boa qualidade na imprensa não está à
altura do público porque não há demanda sobre isso, ou será que a demanda
condiciona ou induz uma certa oferta de qualidade?’, perguntou. Para o filósofo,
a questão passa pelo caráter pedagógico da imprensa. A mídia não como função
conduzir os indivíduos nem formar opiniões, mas sim impulsioná-los em direção à
autonomia. Fazer com que o cidadão pense por si mesmo. ‘A formação, que não
envolve uma passividade do indivíduo, é realmente algo que só pode ser possível
se você oferecer ao público sempre um pouquinho mais do que aquilo que ele está
habituado a ter’, disse. O professor reconhece que seria necessário um esforço
maior do leitor, no entanto ponderou que o empenho é estimulante para a
mentalidade crítica.


Dines questionou se a universidade continua sendo o ‘lugar da reflexão’. Para
Newton Bignotto, a academia ainda ocupa este espaço, embora tenha perdido
atualidade. ‘Em busca de um modelo em que o produto, independente do seu
conteúdo, parece mais importante, muitas vezes nós estamos renunciando a
enfrentar temas contemporâneos mais árduos, mais difíceis’, disse. De um lado,
os intelectuais buscam se proteger de ‘um certo ensaísmo’ pouco rigoroso. Mas ao
fazer este movimento e tratar de ‘pequenos temas e problemas’, perdem o sentido
da atividade e acabam gerando um ‘produtivismo’ que os isola do tempo presente e
tem como consequência a restrição do público.


De olhos fechados para as mutações


Na avaliação de Adauto Novaes, os meios de comunicação talvez não estejam se
dando conta das profundas transformações pelas quais o mundo passa hoje. As
chamadas ‘mutações’, tema estudado pelo grupo de convidados do
Observatório há cinco anos em ciclos de conferência realizados por todo o
Brasil, ocorrem, de acordo com Adauto, a partir de uma impactante evolução
técnico-científica, biotecnológica e da informática. Dentro deste aspecto, todas
as áreas estão passando por transformações nas mentalidades, na ética, na
política e nos costumes. E é preciso refletir sobre esses temas. O filósofo
avalia que imprensa escrita oferece pouco espaço para discussões como esta,
novas em vários campos da atividade humana.


‘Talvez seja este um dos problemas. Querer entrar neste novo mundo onde
estamos vivendo. Aquilo que a Hannah Arendt (1906-1975) diz: a gente vive entre
dois mundos, um que não acabou inteiramente e outro que não começou
inteiramente. A gente está nesta passagem e talvez a imprensa esteja nesta
passagem também – e ainda não acordou para esta realidade’, disse. Adauto
sublinhou que atualmente vivemos em um momento de ‘passagem radical’. Após as
duas grandes guerras mundiais (1914-1918 e 1939-1945), teve início a grande
mudança gerada pelas transformações científicas, tecnológicas e da informação.
‘Os jornais também estão refletindo este impacto hoje. Eles estão perdidos’,
comentou.


Através da experiência com os ciclos de conferência organizados por Adauto
Novaes, o professor Franklin Leopoldo e Silva observou que este é um nicho que
poderia ser mais bem explorado. ‘Apesar de todas as dificuldades, como a
inflação de idéias, por exemplo, há ali um público em potencial capaz de
assimilar criticamente uma discussão feita em um nível razoavelmente elevado,
levando-se em conta, naturalmente, a maneira pela qual você aborda a
contemporaneidade’, afirmou.


O professor comentou que em todos os ciclos organizados por Adauto há uma
ligação entre a História do Pensamento e da Cultura com acontecimentos que são
capazes de despertar no ouvinte ou no leitor ‘certas ligações’; e levar o
público a perceber que o passado serve para compreender o presente e que os
acontecimentos podem ser mais bem analisados à luz de uma estrutura cultural
histórica.


Fatos e reflexões


Adauto Novaes aproveitou para homenagear os conferencistas que participam das
palestras e que hoje compõe uma ‘comunidade de amigos’. Para preparar os ciclos,
os palestrantes se reúnem para uma discussão de idéias e buscam integrar as
diversas disciplinas. Não há apenas filósofos. O grupo conta com cientistas
políticos, cientistas sociais e psicanalistas. Adauto comentou que a Filosofia
está segregada na sociedade e que os ciclos de conferência tentam expandir o
público interessado neste tipo de discussão. Adauto lembrou que o poeta e
filósofo Paul Valéry (1871-1945) começa o ensaio Prefácio às cartas
persas
afirmando que ‘a era da barbárie é a era dos fatos, nenhuma sociedade
se estrutura, se organiza, sem as coisas vagas’. Por ‘coisas vagas’ se entende a
Filosofia, as abstrações, as Artes, os ideais políticos. ‘A gente está vivendo
hoje a era dos fatos. Tudo se reduz a ‘fato’ e a idéia do Pensamento está a
reboque desses fatos’. Para o filósofo, este é o grande desafio da atualidade.


Dines comentou que o espaço da Filosofia na iniciativa privada ainda é muito
restrito e questionou se o mercado poderia ‘tirar as pessoas da barbárie dos
fatos’ para criar o hábito da reflexão. Para Franklin Leopoldo e Silva, o
mercado de bens culturais tende a facilitar e a simplificar. A maioria dos
eventos pretende oferecer ao público apenas o mínimo e fazê-lo pensar apenas o
mínimo. ‘O que a gente nota no mercado editorial e na oferta de eventos, de
maneira geral, é esta tentativa de contemporizar, simplificar, e não mexer muito
com a acomodação das pessoas. Não fazer com que a reflexão seja um instrumento
de mudança na vida pessoal e coletiva, porque isto incomoda’. Esta conjuntura
tem reflexos no patrocínio da iniciativa privada. ‘Muitos não querem ver a sua
marca associada a questões ‘estratosféricas’’, disse o professor. As leis de
incentivo promovem o interesse do setor, mas ainda de maneira lenta.


A participação da internet também esteve em pauta no Observatório.
Newton Bignotto comentou que as conferências inaugurais realizadas no Rio de
Janeiro são transmitidas em tempo real via web. Este ano, o ciclo foi seguido
pela rede de microblogs Twitter. ‘A internet é uma ferramenta essencial nisso.
Até porque justamente ela precisa, talvez, estar menos condicionada a grandes
meios, e é muito eficaz. Eu sou otimista neste sentido. Eu acho que a internet,
como o que está acontecendo com os blogs hoje, produz um debate, uma
possibilidade de encontro que é impossível em outros meios. Também para a troca
de pensamentos, é muito razoável nos servirmos da internet’, avaliou o filósofo.


Elogio à preguiça


O tema do próximo ciclo, revelado por Adauto Novaes aos telespectadores do
programa, será a preguiça. ‘Como diz o [Albert] Camus (1913-1960), é o ocioso
que transforma o mundo porque os outros não têm tempo’, disse. O filósofo
destacou que este assunto é interessante para a atualidade exatamente porque
quanto mais se trabalha, menos se pensa. Questões como o esgotamento do corpo e
do espírito através do trabalho, o ócio e o tempo para a reflexão estarão em
pauta. ‘É um tema muito sério. Veja o que estava acontecendo com os pobres que
estavam soterrados lá no Chile. A imprensa fala diariamente, mostra imagens
miraculosas, maravilhosas, mas nenhum jornal, nenhuma televisão falou das
condições de trabalho que levaram a isso. Isso é muito mais importante’,
assegurou.


***


Mídia e filosofia


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na
TV nº 571, exibido em 9/11/2010


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


Alguns otimistas etiquetam os nossos tempos como ‘a era da informação’,
outros preferem uma designação mais cautelosa, cética. Segundo eles, estaríamos
na ‘era da indiferença’. Uma terceira visão parece mais adequada e equilibrada:
a era da informação – o dilúvio informativo – produz uma fragmentação e uma
secundarização que deságuam numa espécie de letargia coletiva e globalizada.
Informação e indiferença, portanto, fariam parte do mesmo pacote.


Isso significa que a sociedade contemporânea está desperdiçando a capacidade
humana de buscar o sentido das coisas? Perdemos a capacidade de digerir as
mudanças descarregadas pela galáxia novidadeira? As tensões e o estresse –
artificiais ou não – de uma sociedade espetacularizada não estariam nos
empurrando para uma banalização que encara a filosofia como chatice? Penso, logo
existo saiu de moda?


A imprensa tem muito a ver com esta onda de simplificações e esta perda de
transcendentalidade. Ao abdicar do papel de alavanca para indagações, ela
estimula o simplismo, o reducionismo e a irracionalidade. Para o brasileiro
médio, Sócrates é uma grande estrela do futebol, médico, corintiano, capitão da
nossa seleção em 1982. Mas sobre o seu homônimo precursor, o filósofo grego
Sócrates, é uma abstração.


Mas nem tudo está perdido. Este Observatório traz hoje uma experiência
muito bem sucedida comandada por um jornalista-filósofo que em três décadas
organizou trinta ciclos de conferências em sete cidades brasileiras. Cada ciclo
resultou num livro e desta biblioteca foram vendidos 180 mil exemplares.


Adauto Novaes é o autor desta façanha que, de certa forma, tem o seu início
no velho departamento de pesquisa do recém-falecido Jornal do Brasil.
Também estão conosco neste programa Franklin Leopoldo e Silva e Newton Bignotto,
filósofos que participam constantemente dos ciclos de debates promovidos por
Adauto.

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