Quarta-feira, 05 de Agosto de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº862

CADERNO DO LEITOR > LEITURAS DA FOLHA

Sem pé nem cabeça, irresponsável, delirante

Por Evandro Carvalho em 08/12/2009 na edição 567

Jean Baudrillard, pensador francês falecido em 2007, afirmava categoricamente que a chamada Guerra do Golfo (1991) não existiu. Para ele, o que a TV americana mostrou, em especial a CNN e Peter Arnett, foi um grande vídeo-game. À luz dos fatos, a investida militar dos americanos no Iraque durou menos de um mês. Ela se resumiu a um intenso bombardeio aéreo sobre a cidade de Bagdá, o qual o Pentágono chamou de ‘Operação Tempestade no Deserto’, um bombardeio ‘cirúrgico’ que preservou a patrimônio histórico/cultural da cidade. Depois de alguns dias, a infantaria se encarregou de fazer o resto da ‘limpeza’. Ao todo, apenas 36 soldados americanos morreram no ‘conflito’. Para Baudrillard, a Guerra do Golfo não aconteceu e nunca existiu, pelo menos nos moldes convencionais. Foi uma criação da mídia.

O jornalista Cláudio Abramo, falecido em 1987, fez a cobertura da Guerra Civil espanhola. Relatou uma Barcelona maltrapilha, nos escombros. Descreveu um povo sem esperança, famélico, sem emprego. Informou sobre um país à beira do caos e da desgraça. [Nota da Redação: Cláudio Abramo nasceu em 1923; é improvável que tenha sido correspondente de guerra dos 13 aos 16 anos de idade.] O norte-americano John Reed, em seu relato jornalístico Os 10 dias que abalaram o mundo, descreveu a Moscou czarista e efervescente nos bastidores, pouco antes da Revolução Russa de 1917. Euclides da Cunha, num português neologista quase indecifrável, relatou o homem Antônio Conselheiro na pele de um messias em Canudos e a investida covarde e genocida das tropas brasileiras. Muito mais passional que Abramo, Reed e Euclides fez Edgar Peréa, da Rádio Caracol, da Colômbia, que, num olimpo de histeria e felicidade, chorou o gol do atacante Rincón no último minuto contra a Alemanha. Gol este que classificou a Colômbia para a fase seguinte da Copa 90 de futebol.

Mentiras, notícias e verdades

Cada um à sua maneira ou estilo, esses jornalistas buscaram ser fiéis ao máximo ao que viram e ouviram. Trataram de se ‘distanciar’ daqueles fatos para buscar a tal da isenção e imparcialidade. É claro que Edgar Peréa, se pudesse, pularia da cabine de rádio para abraçar Rincón, mas traduziu no melhor estilo latino a alegria de um povo que experimentava depois de muito tempo as emoções de uma Copa do Mundo. Nenhum dos quatro citados plantou coisas, inventou ou distorceu fatos.

Na sexta-feira (27/11), a Folha de S.Paulo publicou artigo de César Benjamin, ex-assessor do presidente Lula desde os tempos da fundação do PT. Benjamin relatou no artigo que Lula comentou em 1994 que teria violentado um jovem no período em que esteve preso durante a ditadura. A estapafúrdia história depois foi desmentida, nada mais era do que uma das incontáveis brincadeiras de Lula. A Folha, portanto, que sequer se deu ao trabalho de pesquisar o assunto ou levantar e ouvir outras fontes, plantou uma notícia, deu crédito a uma história sem pé nem cabeça, irresponsável, delirante.

Que instituição é essa que deveria traduzir o que de fato está acontecendo hoje, mas que dá crédito a uma mentira de quase 30 anos? Veja e Estadão foram a reboque no embuste. O Globo, felizmente, ignorou a história publicada na Folha. E pensar que estamos ainda em 2009. Ano que vem será um ano dramático para imprensa brasileira: Mentiras transformadas em notícias; notícias transformadas em verdades.

******

Jornalista, Belo Horizonte, MG

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/12/2009 Marcelo Ramos

    Prezado Sérgio, a fama de mentiroso do Cesar não é gratuita, ele merece. Inclusive, acho até que ele merece outros nomes, os quais, de tão baixos, eu seria censurado se tentasse dizê-los. O mais é que a Folha se reduz ao mesmo nível do Cesar. É um ditado antigo: Confiança leva anos para se construir, e segundos para se perder. O que assistimos no Brasil de hoje é totalmente inédito. Acho que vou fazer um filme.

  2. Comentou em 09/12/2009 Fábio de Oliveira Ribeiro

    Hoje me ocorreu que o tal Benjamim da Folha (que obviamente está a anos luz do magnífico Walter Benjamim) confundiu Lula com Nicolo Di Bernardo Dei Machiavelli. Deve ter tomado uns whiskies e cruzou a biografia escrita por Maurizio Viroli sobre o diplomata e escritor florentino com a trajetória do líder sindical e político brasileiro. A mim me parece que a únicas semelhanças entre Lula e Machiavelli são as seguintes: ambos tiveram origens humildes, ambos demonstraram grande habilidade diplomática e ambos foram presos políticos. Ao contrário de Lula, Machiavelli não foi só acusado, ele foi formalmente processado por praticar sexo anal, coisa que na época era um crime grave. Reproduzo aqui o fragmento citado por Viroli que deve ter feito o tal Benjamim da Folha acusar Lula após alguns whiskies ‘Notifica-se a Vós, Senhores Oito, como Nicolau de Messer Bernanrdo Machiavelli fodeu Lucrécia, dita Riccia, no cu. Interrogai-a e descobrireis a verdade.’ Lula foi interrogado antes ou depois de ser acusado do mesmo feito que Machiavelli? Eu penso que não.

  3. Comentou em 09/12/2009 Rogério Ferraz Alencar

    Acho que Alexandre Marino tem razão, em parte. César Benjamim não narrou um estupro, mas a única maneira de checar a veracidade da narrativa não era perguntar a Lula. Poderiam perguntar aos citados por César Benjamim. Sylvio Tendler confirmou a narração, porém, como piada. Mas também disse que não se lembrava da presença de César Benjamim no almoço onde a gozação teria sido feita. Tarso Santos, outro citado, negou a narração, e também disse que não se lembrava de Benjamim no tal almoço. Ou seja: se a Folha checasse antes, poderia não publicar a narrativa, pois a presença de Benjamim no local estaria seriamente posta em dúvida. Como Benjamim não estava no local, quando a narração teria sido feita, e como diz que Lula dirigiu-se diretamente a ele, a narração, nessa parte, é mentirosa. O policial não desmentiu Lula, pois Lula não disse nada. O que o policial disse – que a situação não poderia ter ocorrido – reforça o tom de piada descrito por Sylvio Tendler. Se a Folha tivesse perguntado a Lula, ele negaria, claro. E a negativa dele não valeria?

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem