Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > ASSESSORES vs. JORNALISTAS

Sem proteção nem muletas

Por Josué Duarte em 11/10/2005 na edição 350

A Carta do Rio de Janeiro, publicada no artigo de Delmar Marques ‘Nem uma palavra sobre as multas‘ neste Observatório, resultado do 15º Encontro Nacional dos jornalistas que trabalham em assessoria de comunicação, demonstra de forma inequívoca como esta atividade de assessor está distante mesmo do jornalismo: ao se engajar oficialmente na defesa da criação do Conselho Federal dos Jornalistas, coloca-se em posição oposta ao da grande maioria dos profissionais das redações.

É muito fácil entender por que o assessor pensa de forma oposta à do jornalista: não teve a oportunidade de conhecer a adrenalina da redação e, obrigado a seguir uma única opção profissional, acabou invadindo a área do relações-públicas e, ao mesmo tempo, condenando-se a uma visão limitada do burocrata de escritório. Jornalista não gosta de plaquinha de identificação no peito, nem da idéia de um CFJ. Já o burocrata no mínimo tem afinidade com este tipo de subordinação.

Eurico Andrade, que foi da Realidade, da Veja e do jornalismo da Globo São Paulo, disse que a ‘ousadia é fundamental’ no jornalista, numa época em que a ousadia tinha desaparecido das redações, por causa da censura da ditadura e do superpoder dos copidesques. Hoje, vemos a ousadia num nível que Eurico e outros críticos da época não imaginavam, colocando jornais e revistas a poucos metros dos tablóides ingleses especializados em escândalos. Situações opostas em épocas diferentes. Isto é jornalismo, nunca poderia ser aplicado a assessoria.

Promessas de campanha?

Mas Vera Lúcia Rodrigues, jornalista e assessora, apesar disso acredita que existe um campo que desafia o assessor: suscitar respeito nos jornalistas das redações. ‘Uma assessoria de imprensa só pode ser considerada eficaz e gerar bons resultados se levar em conta a equação cliente x jornalista, sabendo se posicionar e levando informações que possam atender à formação da imagem do seu cliente, mas, antes de tudo, ter pertinência e atender ao interesse das pautas dos jornalistas’, escreveu ela, em artigo publicado na Gazeta Mercantil [rolar a página para ver reprodução no OI]. Resta saber qual a relação da ousadia do jornalista, apontada por Eurico Andrade, da conquista do jornalista pelo assessor, defendida por Vera Lúcia Rodrigues. As duas situações poderiam ser colocadas na mesma balança – o que até facilitaria a análise das diferenças e demonstraria que o trabalho do assessor é avesso ao que levou o estudante à faculdade de Jornalismo e toda sua preparação para ser um profissional de imprensa.

Todas as justificativas possíveis para a criação do dito conselho já foram apresentadas pela Federação Nacional dos Jornalistas, numa campanha ridícula e sem razão de ser. Encontra ainda seus defensores, eventuais apoiadores da tese protecionista, por parte de alguns setores, como é o caso dos assessores de comunicação. Estes, no entanto, precisam estar conscientes de que não será nem o CFJ nem os dirigentes da Federação Nacional dos Jornalistas, que defende o projeto, que servirão de escudo na batalha que travam com os profissionais de relações públicas, os verdadeiros titulares da assessoria de comunicação.

Como um Peer Gynt, de Grieg, as variações de um mercado nascente oferecem oportunidades a jornalistas sem trabalho nas redações. Diga-se de passagem, muito mais jornalistas recém-formados do que colegas que perderam emprego. O romantismo dos jovens egressos da faculdade de Jornalismo acabou dando lugar à dura realidade da reportagem encomendada pelo cliente e àquela máxima para esta situação: ‘Já que você não pode fazer o que gosta, tem que gostar do que faz.’ Entretanto, a lei previa que assessoria de comunicação era atividade do relações-públicas e o ritmo dos acontecimentos acabaria mesmo numa Cavalgada das valquírias, de Wagner, ou até mesmo na Marcha húngara, de Berlioz, dada a perspicácia das entidades dos profissionais de relações públicas em busca neste momento da recuperação do terreno que vêm perdendo nesses 40 anos para os jornalistas. Apoiar a Federação Nacional dos Jornalistas na busca insana da criação do Conselho Nacional dos Jornalistas é uma cartada, fruto de uma esperança quase perdida. Estariam os assessores jornalistas sendo enganados por promessas de campanha?

‘Abrir as pernas’

O CNJ não tem nenhuma função prática, nem acrescentará nada mais de útil à atividade jornalística, a não ser representar um entrave que poderá se tornar sério obstáculo ao livre exercício da profissão. Além de tudo o que já foi dito a respeito desse malfadado órgão controlador, é importante salientar o caso dos jornalistas desempregados. Muitos deles conseguem sobreviver prestando serviços a pequenas publicações. Não é porque o profissional não está trabalhando para Frias, Mesquita, Marinho ou Civita que se vê impedido de defender seu salário. Mas, se houvesse um conselho, a falta de pagamento de uma ou mais anuidades, cujo valor seria de cerca de 500 reais (seguindo o valor das anuidades de conselhos e ordens de outras categorias de profissionais liberais), este profissional estaria impedido de sobreviver. E para que tirar de cada jornalista deste país esta contribuição obrigatória? Para sustentar uma estrutura que nada mais vai fazer do que criar empregos de boa remuneração para alguns privilegiados e, em contrapartida, dificultar a liberdade dos profissionais de imprensa?

Se já é difícil o jornalista de redação conseguir um mínimo de ética, por causa do interesse comercial, que muitas vezes não caminha em paralelo com o editorial, imagine o assessor de imprensa, que é contratado pelo dono da empresa que não tem razão alguma para abandonar o estilo não tão ético, muitas vezes, de sua organização. Na empresa de comunicação há um mínimo de parceria entre o jornalista e o dono, ambos têm o interesse comum que é o leitor ou espectador.

O contratante da assessoria de imprensa não tem nada a ver com ética jornalística, código etc. Aqui será o assessor que terá que adaptar-se à empresa que o contratou, não o contrário. Adilson Laranjeira e Luis Fernando Emediato são dois jornalistas respeitados em São Paulo. Será que quando fazem assessoria são tão rigorosos como eram na Folha da Tarde (Agora São Paulo) e no telejornal do SBT? É claro que o assessor de imprensa é muito mais flexível, tem mesmo que ‘abrir as pernas’ quando o seu contratante faz a exigência.

Com as próprias pernas

A ‘carta’ fala ainda de defesa da nossa profissão pelo CNJ e aqui a coisa se complica, pois na melhor suposição heideggeriana este conselho não tem ‘ente’, já que foi engendrado entre quatro paredes, sem o menor respaldo dos jornalistas. Isto está claro na reação causada quando o projeto foi apresentado: repudiado pela classe, criticado seriamente por diferentes pessoas de credibilidade incontestável, a criação do conselho acabou hibernando e deverá com o tempo morrer de vez.

Podemos dizer que o conselho chegou atrasado pelo menos 45 anos. Em 1960, os jornalistas organizavam-se para lutar por um conjunto de reivindicações, que acabou desembocando na greve de 1961, em São Paulo. Lutava-se por uma profissão digna, contra o aviltamento, pelo profissionalismo. A greve de 1961 foi um importante passo para a regulamentação ocorrida seis anos depois e, principalmente, para definir de vez o que os jornalistas queriam em termos de defesa de seus interesses. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo fortaleceu-se e, assim como todos os demais sindicatos da classe, assumiu a posição de órgão de defesa e de profissionalização. Quem defende os jornalistas são os sindicatos. E com a vantagem de que só se filia quem quer.

Então, 45 anos depois, vem um grupo tentar montar um conselho, para cobrar uma anuidade compulsória dos jornalistas e desempenhar um papel conquistado pela classe na greve de 1961. Nos anos que se seguiram, ninguém quis ordem ou conselho, nas oportunidades em que esta idéia veio a ser apresentada. Quem ganhou foram os sindicatos e os jornalistas, que não precisam da pretensa ‘proteção’ do conselho, nem da ‘muleta’, pois aprenderam há muito e sabem caminhar com as próprias pernas.

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