Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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JORNAL DE DEBATES > CONSELHO FEDERAL DE JORNALISMO

Senhora de Nazaré, a cara da mídia

Por Ayrton Centeno em 31/08/2004 na edição 292

Corporações não têm compaixão. Nem amor, amizade, honra, bondade, dever e outros sentimentos imantados à concepção generosa do ser humano ideal. Não é este o material de que são feitas. Embora uma facilidade de terminologia as associe a gente de carne e osso, não podem ser pessoas plenamente. São apenas pessoas jurídicas. Portanto, simulacros. Podem alardear pulsões de alma nobre desde que isso convenha ao seu coração feito de marketing. No entanto, se a referência humana for a desumanizante obsessão por poder e/ou dinheiro, pessoas jurídicas podem ser, sim, muito parecidas com os humanos.

Criaturas forjadas à imagem e semelhança do Criador, as corporações podem reagir em situações de conflito ou iminência de conflito com uma intensidade próxima das baixas paixões ou fraquezas de quem as trouxe ao mundo. Sentindo-se em perigo, real ou imaginário, podem ser emocionalmente imaturas, irresponsáveis, mesquinhas, mimadas e perversas. E responder com arrogância e fúria.

Um documentário, A corporação, de Mark Achbar e Jennifer Abbot, singra estas águas obscuras e imprecisas que delimitam os perfis psicológicos da criação humana e do homem criador. A pergunta que faz é: ‘Se as corporações fossem gente, que tipo de gente seriam?’. Um dos entrevistados do filme é o economista e prêmio Nobel Milton Friedmann. ‘Pedir a uma corporação que seja socialmente responsável faz tanto sentido quanto pedir a um edifício que o seja’, compara ele. Outro entrevistado, o historiador Howard Zinn, nota que as corporações ‘sempre foram amigas de políticas totalitárias’. Sem qualquer sinal de culpa pelos seus atos – mesmo que danosos para outrem – movem-se estritamente na busca de satisfação ‘pessoal’, consubstanciada na preservação ou na obtenção de poder e/ou dinheiro objetivos que, muitas vezes, são apenas a mesma moeda observada de ângulos distintos.

Todas estas semelhanças e diferenças podem oferecer um interessante viés de reflexão a leitores, ouvintes e telespectadores, todos eles engolfados pelo impressionante alarido das últimas semanas. Alarido uníssono desferido por jornalões, rádios e redes de TV, perpassado por uma harmonia estridente porém tão delicadamente esculpida que pareceu até ensaiada. Mas talvez tudo não passe de uma suspeita tola. Afinal, todos sabemos que a mídia brasileira, embora uma das mais concentradas do mundo, só abre mão de sua pluralidade quando se trata de greve, eleição e MST. Nestes casos, costuma destemidamente marchar unida, de passo firme e resoluto, em defesa do patronato, dos candidatos do patronato e dos simpáticos latifundiários. Mas não se tratava de nada disso. Era apenas o reles projeto do Conselho Federal de Jornalismo.

Reação destemperada

Mais pitoresco ainda que esta orquestra, integralmente composta por maestros, extraiu da mesma partitura uma sinfonia bizarra, que atingiu seu ápice tonitroante no primeiro acorde, sem movimentos preparatórios, prosseguindo neste patamar de dramaticidade e arrebatamento dias a fio sem perder o fôlego ou decibéis. Ganhou tal proporção de gigantismo que as pessoas, a maior parte delas sem conseguir perceber direito do que se tratava – até mesmo porque isso não era necessário, bastava apenas que ficassem alarmadas –, tornaram-se aflitas. As explosões sonoras ou de estilo sublinharam termos como ‘autoritarismo’ e ‘totalitarismo’, realçando sua conotação cavernosa e medonha, muito embora nossos meios de comunicação tenham, na sua maioria, apoiado a irrupção da última experiência nativa de 21 anos de ‘autoritarismo’ e ‘totalitarismo’ sólidos e reais.

Na condição de coadjuvante – mas com direito a rápidos improvisos no trombone –, muita gente boa acompanhou a melodia soturna. Alguns guias geniais dos povos até se jogaram intrepidamente às ondas e, mesmo acossados por crocodilianas pretensões da Fenaj, cruzaram o rio e juntaram-se aos nove sobrenomes que dizem o que este país deve ler, ouvir, ver e pensar. Ali, ergueram bem alto a tocha da liberdade de expressão em raios fúlgidos, ameaçada por ideologias exóticas e estranhas à índole pacífica do nosso povo.

Por que, afinal, os archotes iluminaram a noite à procura daquele ser aberrante não para compreendê-lo, mas para destruí-lo? Não para uma observação mais profunda e necessária em nome, talvez, da ciência ou, quem sabe, da simples curiosidade, mas para um linchamento? Por que uma atitude tão pouco próxima da função que a sociedade atribui ao jornalismo, a de buscar a compreensão dos fatos e de procurar a verdade das coisas? Por que sacar o revólver e abrir fogo à singela menção da palavra ‘Conselho’? Por que uma reação tão destemperada e agressiva?

As duas se merecem

Será que isso acontece porque as corporações podem reagir como gente, de maus bofes, mas ainda assim gente, como especula o filme de Achbar e Abbot? Se for assim, que personagem teria o leiaute psicanalítico da grande mídia cabocla no episódio CFJ? Quem se encaixa no papel? A TV Globo pode nos ajudar nesta procura. É verdade que, no Jornal Nacional, ela abriu os trabalhos de apedrejamento ao projeto ao editar matéria sobre o assunto ouvindo quatro adversários do Conselho e apenas um a favor – o próprio presidente da Fenaj –, numa lição prática de jornalismo de resultados.

Mas, se a dramaturgia de telejornal nos oferece o tema, a dramaturgia de novela nos oferta o personagem. Que está no ar diariamente sempre ocultando seu passado, mentindo sobre seu presente e fantasiando sobre o futuro. Fazendo do peito do outro o seu tapete vermelho, a Nazaré, de Renata Sorrah, em Senhora do destino, é uma vilã emocionalmente imatura, dissimulada, hipócrita e arrogante ao nível da caricatura. Nada mau, já que foi como uma caricatura de gente emocionalmente imatura, dissimulada, hipócrita e arrogante que a corporação-mídia atuou no episódio.

Nazaré virou a cara da mídia. A mídia virou a cara da Nazaré. As duas se merecem. O problema, para o Brasil, é que, daqui a alguns meses, uma será apenas uma figura a se esvaecer na memória coletiva. A outra, porém, continuará um espectro pairando sobre a frágil democracia brasileira.

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