Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES > CASO JOÃO HÉLIO

Sensacionalismo e comoção social

Por Alveni Lisboa em 27/02/2007 na edição 422

A nova moda chegou ao país. E não tem nada a ver com roupas de grifes famosas. É a moda do sensacionalismo exacerbado e da comoção em massa.

É repugnante assistir a jornalistas, alguns muito bem conceituados, diga-se de passagem, inflamarem a população de forma errônea. No mínimo, uma falta de responsabilidade. Aliás, todos os dias, ao ler os jornais, vejo uma equipe de profissionais despreparados para exercer essa profissão tão digna e importante. Alguns bordões e palavras conhecidas: ‘menor’, ‘delinqüente’, ‘criança prostituta’, ‘o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) protege bandidos’, ‘Direitos humanos só servem para bandido.’ Creio que pessoas que dizem esses absurdos desconhecem totalmente a realidade brasileira. É inacreditável como as pessoas são hipócritas ao criticar algo que não é de sua competência.

É cômico ver Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e seus companheiros palacianos criarem um projeto de redução de maioridade penal. Duvido que ele tenha lido o Estatuto da Criança e do Adolescente. A intenção desses parlamentares é única: aumentar o caos na sociedade brasileira.

A ética jornalística

O falido sistema prisional brasileiro não serviria nem para enclausurar animais, quanto mais seres humanos. Pior ainda se estender essa ‘faculdade do crime’ aos adolescentes. Vão sair de lá formados com louvor na arte do crime. Além de não suportarem o enorme contingente que seria transferido para as cadeias, os presídios brasileiros pregam uma proposta totalmente contrária ao que prega o ECA. Nele está escrito que as medidas socioeducativas devem ser aplicadas em conjunto com a educação e saúde desses jovens. Como recuperar alguém sem lhes dar a oportunidade de estudar?

O dinheiro gasto em um mês de internação com cada adolescente daria para pagar uma bolsa-estudo para o mesmo durante 2 anos, caso ele estivesse em regime aberto. Sem contar que apenas 2.159 adolescentes em conflito com a lei (corresponde a 15%) atentaram contra a vida e apenas 154, correspondente a 1%, foi de forma hedionda. O resto foi detido apenas por crime contra patrimônio.

Reduzir a maioridade ou aumentar o tempo de internação não resolve e nem melhora o problema. Muito pelo contrário, ajuda na graduação na ‘universidade da bandidagem’. Misturar-se-á o joio ao trigo. Adolescentes acusados de pequenos furtos serão jogados num covil com grandes traficantes e estupradores. O governo deve investir na prevenção de crimes, proporcionando saúde, educação e uma melhora na qualidade de vida, e não na punição do ato infracional.

Deveríamos discutir a ética jornalística. Isso, sim, está deteriorando a pouca imagem que nós, jornalistas, temos. Antes de elaborar uma matéria, procure-se informar a respeito. Afinal de contas, o compromisso com a verdade é nosso lema. E sem criar polêmicas inúteis atrasam o país.

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Estagiário de jornalismo na Secretaria Especial dos Direitos Humanos; Brasília, DF

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