Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA E DISCRIMINAÇÃO

Sensacionalismo, violência e intolerância

Por Cecilio Ricardo de Carvalho Bastos em 09/01/2007 na edição 415

Quem não se lembra do nosso país antes dos anos 1990, do ‘Brasil burguês’? Tudo na vida urbana brasileira era padronizado: ruas, pessoas, rituais, sorrisos e lágrimas, tudo parecia programado por uma máquina social norte-americana e européia.

No entanto, alguma coisa estava fora da ordem: os negros, os marginalizados e os depositados em ‘aldeias’ (não como as dos índios, as quais, pelo menos, um dia foram organizadas e estruturadas) na periferia das cidades. Nas ruas, o que se via era o ‘Brasil norte-americano e europeu’ embrutecer as vistas, torcer o nariz e esconder as bolsas dos negros que passavam de cabeça baixa, com rosto torcido de humilhação, em um sentimento de ódio sufocado e inútil. Estes amontoavam-se na parte baixa das cidades ou nas pirambeiras dos morros, onde os esgotos fediam, onde tudo de ruim acontecia. A maioria desses ‘favelados’ estava desempregada em decorrência do neoliberalismo, que cada vez mais excluía a mão-de-obra das atividades industriais do país.

A injustiça não espantava os veículos de comunicação. A ausência total de compaixão era suplantada pelas belas paisagens. Não se via, nas telas da TV, gente excluída e moldada pelo sofrimento e desesperança, mas, sim, o favelado infrator.

O interesse dos formadores de opinião

Anos depois, na época da ‘igualdade racial e da integração globalizada’, tudo continua como antigamente, ou até pior. O roubo, o assassinato, o tráfico, o estupro, a gente porca, preguiçosa e prostituta, o artista marginal da novela, todas essas personagens continuam sendo associados a pessoas negras e/ou periféricas. Frases e termos como ‘o morro desce e aterroriza o asfalto…’; ‘jovens de classe média estão sendo induzidos por traficantes e indo morar nas favelas…’; ‘traficantes, vagabundos, marginais, assassinos etc.’… são disseminados na mídia televisiva, freqüentemente sem qualquer escrúpulo ou investigação empírica do que está sendo abordado. Associa-se o mal e o inferior à cor da pele e à classe social, constituindo e moldando uma sociedade com padrões perigosos e discriminatórios. Bezerra da Silva, por exemplo, não era cantor nem compositor – era ‘malandro do morro’.

Nesse contexto, pouco se exibe sobre os criminosos engravatados, sobre a violência das elites massacrando os oprimidos e sobre o policiamento vergonhoso e opressor nas favelas. Paira, no mundo midiático, um clima de intolerância que informa através de uma disfunção narcotizante. Os meios de comunicação estão sobrecarregando os indivíduos com informações e essa sobrecarga tem um efeito perverso. A existência de amplas massas da população socialmente apáticas e impotentes é de interesse dos formadores de opinião. Tal conformismo se constitui em um mecanismo útil para que estudiosos reiterem a concepção de um receptor passivo, inconsciente, viciado, sem domínio sobre si próprio.

O ‘protesto do morro’

Para agravar ainda mais a situação de exclusão, os meios de comunicação de massa disseminam padrões de conforto e bem-estar que não são acessíveis à maioria da população, mas apenas ao seu segmento privilegiado. Os programadores dos conteúdos divulgados para as grandes massas, estrategicamente, dissimulam o alcance do seu usufruto, estimulando a busca incessante por uma realidade ilusória e provocando frustrações. Em 1963, Lerner já advertia sobre a rapidez com que a revolução das expectativas crescentes, desencadeada pela popularização dos canais de mediação simbólica, poderia conduzir à revolução das frustrações crescentes se à expansão das redes nacionais de comunicação de massa não correspondessem alterações estruturais na sociedade que equalizassem as oportunidades de acesso dos cidadãos aos benefícios da modernidade.

Freqüentemente, a TV aplica doses de medo e sensacionalismo, manipulando e regulando o sistema. Um exemplo recente foi o que nós chamaríamos de ‘o protesto do morro’, decorrente da insatisfação das massas que permanecem à margem do progresso econômico e social da cidade de São Paulo, com o intuito de chamar a atenção da ‘sociedade do asfalto’, dos ‘civis narcotizados’. O que se viu nos noticiários foi que integrantes de facções criminosas foram localizados pondo fogo em ônibus, matando pessoas, aterrorizando o comércio, gerando um indescritível pânico na cidade. Em minutos, a metrópole parecia um campo de refugiados, de perdedores, com cabeças inchadas, humilhados pelos ‘marginais’ invasores. Os jornais (principalmente o Jornal Nacional, da Rede Globo) tinham como plano de fundo o caos.

Os ‘dois lados da moeda’

Nos morros, o povo ria e comemorava o sucesso, por demonstrar que ali existem cidadãos que possuem voz e vez. Não estavam nem um pouco preocupados com o reflexo da uma imagem cruel, assassina e inconstitucional, massificada pela mídia. Para as elites detentoras das redes televisivas – os famosos ‘formadores de opinião’ –, o protesto, isto é, a voz da periferia marginalizada, soou como terrorismo e tornava-se nas telas uma arma violenta e assassina propulsora de um cenário caótico e baderneiro.

É preciso que se tome consciência de que essa segregação urbana (morro vs. asfalto) brasileira, que está sendo fomentada pela TV e por outros veículos de comunicação de massa, não resolve a questão da violência no país; muito pelo contrário, com toda certeza agrava ainda mais o problema. O caminho da integração social e a criação de vínculos de solidariedade com as diferentes comunidades mostram-se uma estratégia viável para estimular os governantes a buscarem mecanismos de aceleração das transformações indispensáveis a um desenvolvimento que potencialize as riquezas regionais e as converta em fatores de satisfação das necessidades básicas de suas populações. A grande força das comunicações do Brasil, concentrada para os interesses de algumas classes, precisa ser democratizada. Em resumo, é necessário ouvir e abordar ‘os dois lados da moeda’, respeitando as diferenças culturais e os interesses reivindicatórios de cada classe.

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Estudante de Jornalismo em Multimeios na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Juazeiro, BA

Todos os comentários

  1. Comentou em 13/01/2007 Marcelo del Questor

    que lhe possibilitem a chance de competir igualmente com VC no mercado de trabalho. E ninguém faz apologia ou quer distorcer o fato de que a favela é feia. Todos sabemos que ela é. Que viver nela é sub-humano. Mas a burguesia só se lembra disso, quando a mídia deseja causar impacto. Já sua colocação sobre a propriedade ilegal dos terrenos por ela ocupados não me causa estranheza. È um comportamento até mesmo esperado. Melhor seria, para muitos, que em seu lugar estivessem belas casas e prédios bonitos e de alto luxo, com lindas e saudáveis crianças correndo em segurança, ao invés de um bando de negros sujos, violentos e analfabetos e de suas crianças doentes, sem esperanças e “oportunidades”. Algo “binário” este comentário, acredito eu. Qual o destino deve ser dado a eles. Mas aqueles que tiveram a “oportunidade” de ter suas casas, e viver em conforto, não querem saber para onde eles irão. Só não os querem à vista. Querem que não estejam próximos. Querem a cena burguesa da qual fala o artigo. E a mídia, que não pode ser esquecida, reflete, já que é um espelho dessa provinciana burguesia, isto todos os dias. Mas essa tem o seu revés nefasto. Causa em parte dessa pobre dessa burguesia a mesma frustração que causa aos moradores da favela. A mídia pinta tudo de dourado e coloca um peso no coração dessa burguesia, que mesmo em detrimento de sua luta e trabalho duro, sabe que não vai

  2. Comentou em 12/01/2007 Marcelo del Questor

    A mim causa indignação justamente essa burguesia tupiniquim. E não só os mais abastados e suas crias. Minha indignação se estende a todos que assumam esse comportamento. Se estende aqueles que desejam ver desaparecidas as feias favelas, mas com tudo que existe dentro dela. Aqueles que torcem o nariz, de forma decadentemente arrogante aos não caucasianos, que para esses são todos ladrões, incapazes e que só prestam para meros serviçais. Que levam mais em consideração a cor da pele, do que dignidade, caráter, competência e honestidade. Essa é a minha visão lógica sobre o problema. A minha real lógica nessa análise possivelmente “inaquedada, militante e raivosa”. Concluindo, e já me desculpando por comentários tão longos, a burguesia tupiniquim, hipócrita, medíocre e tacanha e de comportamento desprezível a que me referi é esta. Que não exclui indivíduos de nenhuma classe social. Por que, de todas elas, brotam este indivíduos. Que aparentam ser cidadãos exemplares, cumpridores de suas obrigações, mas que escondem o mais baixo comportamento que um ser humano pode Ter. Em contrapartida, dessas mesmas classes sociais emanam seres humanos de verdade. E para reconhece-los, só com a convivência.

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