Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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JORNAL DE DEBATES >

Sherlock Holmes nas CPIs

Por Deonisio da Silva em 13/12/2005 na edição 359

Aqueles que adoram estatísticas gostam de repetir que o analfabetismo vem diminuindo no Brasil e que agora temos apenas 35 milhões de analfabetos. Escrevem o advérbio ‘apenas’, comemorando a cifra!

Algumas reflexões se impõem. O problema não são esses 35 milhões, são os outros, em número muito menor, encarapitados em altos cargos, mandando e, mais do que isso, desmandando.

A atuação desse círculo restrito de analfabetos vem tendo efeitos devastadores sobre o país. Não fossem as CPIs, pensaríamos que seria pura maledicência o que relatava a imprensa a respeito do modo de falar e operar, naturalmente reflexos do modo de pensar daquela gente cuja ignorância, maior do que o Oceano Atlântico, vem sendo exposta em carne viva nos depoimentos.

Quem abomina a inteligência e a cultura, temendo a qualificação, espada de Dâmocles sobre cabeças de governantes ignaros, cercando-se daqueles tipos, pode se queixar do que lhe aconteceu, está acontecendo e voltará a acontecer?

A última estratégia que estão imaginando nas trevas é o controle da imprensa. Assim, o que dizem e fazem, não sendo noticiado e nem comentado, não existe!

Fico imaginando o que faria Sherlock Holmes, se lhe fosse dada a oportunidade de apenas ouvir aquele caudal de contradições. Aliás, o detetive não morreu. Os ingleses só acreditam que uma personalidade morreu quando o obituário é publicado no Times.

Eufemismos brutais

O romance policial consolidou-se no século passado, mas surgira no anterior. Vários detetives foram criados, mas apenas alguns tornaram-se referências solares, entre os quais o investigador particular Monsieur Dupin, de Edgar Poe; o policial francês Monsieur Lecoq, de Émile Gaboriau, que inspirou um grupo de extermínio do Rio a chamar-se Escuderia Lecoq; Hercule Poirot, de Agatha Christie; o comissário Maigret, de Georges Simenon; e Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle.

Sherlock Holmes passou a reinar absoluto na memória popular. Tem clubes de fãs espalhados no mundo inteiro. E há tempos é, ao lado de Mickey Mouse e de Papai Noel, uma das três personalidades mais conhecidas do planeta.

Estudando o fascínio que exerce sobre os leitores, disse o jornalista inglês Edgar W. Smith em 1946:

‘Nós vemos Sherlock Holmes como a expressão acabada de nosso anseio por esmagar o mal e corrigir erros de que o mundo anda infestado. Ele é a expressão de algo que perdemos ou nunca tivemos. Não é ele que está em Baker Street, somos nós que estamos lá, complacentes na presença do humilde Watson. Este é o Sherlock Holmes que amamos – o Holmes implícito e eterno em nós mesmos’.

Sherlock Holmes ficou tão famoso que inventaram coisas que ele nunca disse, como a frase ‘elementar, meu caro Watson’, que jamais pronunciou nos livros, apenas nos roteiros de adaptação da obra para o teatro, o rádio, o cinema e a televisão.

Uma coisa é certa: todos esses detetives fariam bonito nas CPIs. Para todos eles, o caso é contado como o caso foi. E nenhum criminoso, por eles flagrado ou descoberto, pode alegar em sua defesa esses brutais eufemismos que chamam roubos e outros ilícitos de ‘recursos não contabilizados’.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá (Rio de Janeiro), onde dirige o Curso de Comunicação Social

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