Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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JORNAL DE DEBATES > ECOS DO TERROR

Só a mídia pode convocar um pacto nacional

Por Alberto Dines em 30/05/2006 na edição 383

A segunda-feira negra aconteceu há duas semanas, o governo do estado de São Paulo continua atarantado, sem saber o que fazer e, o pior, recusa-se a prestar contas à sociedade sobre a matança de inocentes que se seguiu ao motim do Primeiro Comando da Capital (PCC).


O Senado finge que está preocupado e vota um pacote de leis avulsas, sem costura ou sentido. Na Câmara dos Deputados, flagra-se um funcionário terceirizado que entregou documentos sigilosos de uma Comissão Parlamentar de Inquérito a um advogado-bandido e assim completa-se o arco que junta a corrupção política com o crime organizado.


A sociedade está intranqüila e perplexa: indigna-se, mas duvida das autoridades e dos políticos com suas promessas vãs. Os candidatos esbravejam, a mídia reproduz com alguma fidelidade tudo o que dizem, mas não consegue mediar, funciona apenas em um sentido: de cima para baixo. A mídia não consegue sensibilizar o sonar palaciano e o radar político dos andares de cima para o pânico que domina o seu público nos andares de baixo.


Além disso, há a Copa do Mundo, com sua infinita capacidade de abafar, desviar e disfarçar qualquer problema que não esteja diretamente ligado à conquista do caneco do hexa.


Neste panorama, soa como ironia os indícios de que talvez, em algum momento, provavelmente depois das eleições (portanto, em 2007), o PT e o PSDB resolvam conversar. Ironia, porque são balões de ensaio, desprovidos desta substância imprecisa e vaga que ficou conhecida como vontade política.


A hora da ação afirmativa


Aturdida por sua própria estridência, preocupada com as mudanças cosméticas e diminuída por uma competição mesquinha, nossa mídia não percebeu que esta é a hora de uma ação afirmativa, generosa e empolgante. Das Diretas até hoje, jamais houve oportunidade igual para que a imprensa demonstrasse a sua vontade de influir e mudar.


É alentadora a notícia de que o presidente Lula, se reeleito, pretende aproximar-se do PSDB. Mas faltam pelo menos duas perguntas candentes que só uma imprensa responsável e firme será capaz de fazer:


** Por que não agora?


** Por que não colocar a questão do combate ao crime organizado como prioridade nacional?


A Máfia começou a ser encurralada na Itália quando os partidos, todos os partidos, decidiram considerar a guerra ao crime organizado como emergência. O gangster Al Capone só foi preso quando a Receita Federal americana e o governo do estado de Nova York resolveram cooperar.


Só a mídia, na sua condição de vocalizadora dos sentimentos populares, tem legitimidade e ressonância para fazer este tipo de convocação. Só ela, porque teoricamente apartidária, tem a credibilidade para empurrar os partidos para um tipo de entendimento que não beneficia nenhum deles em particular, mas fortalece o Estado.


Qualquer que seja o seu formato, qualquer que seja o seu nome, quaisquer que sejam seus protagonistas e as regras que deverão regê-la é imperioso que esta aproximação seja uma iniciativa da imprensa. Para que ela possa fazer as cobranças. Para que o seu público perceba que nela pode confiar.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/06/2006 Haroldo Mourão Cunha

    ‘Só a mídia, na sua condição de vocalizadora dos sentimentos populares, tem legitimidade e ressonância para fazer este tipo de convocação. Só ela, porque teoricamente apartidária, tem a credibilidade para empurrar os partidos para um tipo de entendimento que não beneficia nenhum deles em particular, mas fortalece o Estado’. O ‘pobrema’ Sr. Dines, é que a mídia só se interessa por ele mesma, só capitaliza os bonus, quando há, para seus proprietários. Que se arvoram de donos da verdade absoluta, não admitindo contestação e no rastro disso seguem-se vários babas-ovo (perdão pelo termo) dizendo amém! Quando, êta utupia, realmente a imprensa for livre, tenho a certeza que seu sonho será realizado, não que ela seja apartidária, isso não existe, mas que seja justa ao emitir conceitos sem preconceitos.

  2. Comentou em 01/06/2006 Roberto Dala Barba Filho

    A resposta para as perguntas não é difícil. Em outros lugares do mundo os partidos conseguiram se unir contra o crime organizado, porque o crime organizado estava contra todos eles. Como no Brasil o crime organizado e grupos terrorista não apenas são aliados, mas ainda recebem a benção de partidos políticos nacionais, inclusive daqueles que estão no poder (basta ver o tratamento que o PT confere as FARC em encontros das ‘esquerdas’ latino-americanas) e já se descobre porque o crime organizado atua com tamanha impunidade em nosso país.

  3. Comentou em 01/06/2006 Roberto Dala Barba Filho

    A resposta para as perguntas não é difícil. Em outros lugares do mundo os partidos conseguiram se unir contra o crime organizado, porque o crime organizado estava contra todos eles. Como no Brasil o crime organizado e grupos terrorista não apenas são aliados, mas ainda recebem a benção de partidos políticos nacionais, inclusive daqueles que estão no poder (basta ver o tratamento que o PT confere as FARC em encontros das ‘esquerdas’ latino-americanas) e já se descobre porque o crime organizado atua com tamanha impunidade em nosso país.

  4. Comentou em 31/05/2006 João Vanderlei Eberhart

    O crime organizado mais uma vez está em questão. O assunto já é antigo, tanto quanto a fome, por exemplo, a educação, a saúde, a pobreza e muitas outras questões. O que parece é que não se quer acabar com os problemas. Por que não policiar melhor as fronteiras do país por onde as armas chegam ao Brasil? A partir do policiamento maior nas fronteiras, combater o crime organizado nas grandes cidades seria muito mais fácil.
    A imprensa tem poder para reivindicar um tratamento melhor para as questões de segurança, porém, é necessário que a comunidade toda se una. Há poucos dias os agricultores fizeram um protesto em praticamente todo o país, um pacote para a agricultura foi lançado, não agradou, e eles continuam o protesto. Por que a população não se une e pede mais segurança? Bem, isso pode parecer utopia…, mas, que pena, só a imprensa cobrando, se torna frágil sem a participação do povo, pois, os fatos todo mundo conhece.

  5. Comentou em 31/05/2006 Ana Raquel Samadello

    O papel da imprensa nas questões sociais tem sido esquecido pelos grandes chefões das redações, pois é ingenuidade pensar que o ataque do PCC é novidade na capital.
    Há quanto tempo o celular é utilizado nos presídios? E será que ninguém conhecia o Marcola? Ou será que o Sr. Lembo espera que a sociedade engula que está tudo sob controle?

    Realmente.

    Estamos todos sob o controle do descaso e omissão da imprensa brasileira que esquece de desempenhar seu papel de denúncia, mas não quando grandes eventos ocorrem, e sim, no feijão com arroz de todos os dias.

  6. Comentou em 31/05/2006 Sérgio Troncoso

    Nossas grandes rêdes de TVs e jornais são feudos que protagonizam apenas a vontade de seus donos,que geralmente são políticos ou amigos dêles.Por que deveriam capitanear algum tipo de movimento de massas,se ainda da para ganhar dinheiro com a situação atual?E tambem quando se põe o povo em movimento nunca se sabe onde a coisa vai parar,coisa que êles temem.Nossa imprensa e nossas elites sempre gostaram das mudanças do tipo ‘muda-se tudo desde que tudo continue como está’.Concordo com o que o Dines escreveu,mas duvido que aconteça.

  7. Comentou em 30/05/2006 MCostaSantos

    Não é só a mídia, mas toda a sociedade com o apoio da OAB, ABI, CREA, CRM, CRO, CRA, CRC etc, já, que durante décadas os Poderes Constituidos deste país usurparam praticamente todos os direitos civis do povo. São totalmente desprovidos de PATRIOTISMO, CIDADANIA E MATURIDADE e se preocupam apenas com o CORPORATIVISMO E O PROTECIONISMO covarde sem escrúpulos.
    Com certeza o único Poder Constituido que podemos contar é o Judiciário com certas restrições, mas tem demonstrado reação rápida a favor do povo contra as quadrilhas formadas, há décadas, pelo executivo e legislativo.
    Chegamos ao fundo do poço, as Instituições estão desacreditadas do povo e é o momento de resgatar a democracia. No legislativo assistimos a uma grande peça teatral.
    Precisamos urgentemente das reformas tão anunciadas há décadas e nem êles podem mais esticar o tapete vermelho nas cidades fedidas de tanta miséria.
    É o momento de resgagtar nossos direitos civis.

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