Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

JORNAL DE DEBATES > MÍDIA & COMPORTAMENTO

Sob o regime da excitação

Por Ivo Lucchesi em 11/09/2007 na edição 450

É fato incontestável que os meios de comunicação de massa exerçam influência sobre o público ao qual se destinam. A influência não deriva, ao menos obrigatoriamente, de tramas diabólicas que seriam engendradas a cada 24 horas. Se levarmos em conta o montante de fatos cotidianos e a velocidade crescente com que as notícias têm de ser processadas, haveria a necessidade de cérebros dotados de requintada astúcia para, em estado contínuo, gerarem as tais ‘manobras manipuladoras’.

Óbvio que, aqui e ali, por conta de situações e ocorrências, os veículos de informação codificam de um modo a intensificar ou suavizar essa ou aquela matéria. É da natureza mesma do ofício que isso se dê. Assim o é em todas as partes do mundo. Codificação e intencionalidade são inerentes à construção textual, seja na escrita de um romance, seja na divulgação de um acontecimento, guardadas, é claro, as instâncias de diferenciação relativas a cada uma delas.

Fixar a ênfase da manipulação dos meios de comunicação no campo da política pode representar um equívoco de percepção. Quem está habituado a lidar com o conhecimento, tanto na área de Teoria da Comunicação quanto em outra correlata, a Semiótica, afora a Lingüística, tem plena clareza de que a efetiva estratégia de manipulação não se situa em processos de codificação cujo efeito se traduza em marcas de materialidade, capazes de o receptor as perceber.

Se a manipulação for um processo de dominação, por marcações explícitas, ou que estejam na superfície de frases ou imagens, seu efeito tornar-se-á contrário. Ninguém tolera reconhecer-se manipulado. Daí que o processo tenha de ser interno, implícito.

Algo além da lógica fechada

Assim, a verdadeira e eficaz trama de caráter manipulador é aquela que, na ausência de vestígios passíveis de identificação, atinge subliminarmente o imaginário do receptor, fazendo com que este dê a ‘resposta’ desejada. O que está escrito ou é exibido, de certo modo, conta a priori com a cumplicidade do receptor. Os veículos apostam no horizonte de expectativa de seu público majoritário. Eles ratificam mais do que convertem. Leitores e telespectadores consolidam seus hábitos em ‘produtos’ por reconhecerem neles algo com o qual se identificam.

Propostas as iniciais reflexões, cabe analisar em que esfera do público receptor os meios de comunicação atuam decisivamente, deixando nele conseqüências do processo manipulador. Não faz muito tempo, Marcelo Coelho, articulista da Folha de S. Paulo, escreveu rentável artigo (‘Medalhas? Cansei’ – ‘Ilustrada’, 1/8/2007). Reproduzo, abaixo, três de seus parágrafos:

‘No regime do general Galtieri, os argentinos estavam certos de que a Inglaterra não reagiria à invasão das Malvinas e que, se reagisse, o poderio do país platino haveria de esmagar a força naval britânica.

Milhares de argentinos foram mortos devido a essa ilusão; muitos voltaram para casa amputados (…). Será que os argentinos não sabiam no que estavam se metendo? Imagino que sabiam, mas ao mesmo tempo não queriam saber.

É o caso de toda manipulação de massas: não se substitui apenas verdade por uma mentira. O grau de torcida vai chegando a tal ponto, que cada pequeno acontecimento positivo adquire dimensões gigantescas, como se multiplicado pelo número das pessoas que o festejam; evidências no sentido oposto são recalcadas.’

A frase ‘mas ao mesmo tempo não queriam saber’ é emblemática para o que aqui se pretende configurar. Ela ratifica a observação formulada em parágrafo anterior: a mídia, publica o que se sintoniza com o imaginário majoritário. Qualquer desatenção a esse ponto pode levar a avaliações distorcidas. No mais, é evidente que corporações da informação conduzam seus veículos de comunicação na rota de seus interesses.

A questão, entretanto, não se esgota nesse ponto. E aí, para a devida compreensão dos demais fatores, é que se exige algo mais para além de uma lógica fechada, sob pena de se cair num emaranhado de imagens desfocadas a turvarem a criticidade.

Menos lêem e compreendem

O recorte propiciado pelo artigo de Marcelo Coelho fornece o gancho perfeito para o que pretendo pontuar. Como se explica que pessoas indignadas com alguma tentativa de manipulação de uma notícia sobre política, minutos após, permaneçam na emissora, dando-lhe prestigiosos pontos de audiência, por conta da exibição exclusiva de um jogo de futebol do qual participa o time de seu ‘coração’? Deixariam, em nome da indignação, de assistir ao jogo? A resposta é não. A indignação diante da cena ‘a’ não é forte o bastante para abdicar da cena ‘b’. É nisso que a manipulação se concretiza. A rede fatura nas duas cenas. E o receptor? Vive a indignação e, em seguida, no mesmo veículo, frui a compensação prazerosa. Esta é a verdadeira equação com a qual se tramam as armadilhas.

Alguém dirá que uma coisa não tem a ‘ver’ com a outra? Quem dirige a emissora sabe que tem. Em síntese, a eficiência no processo de manipulação depende do elo afetivo que se firma entre veículo e receptor, isto é, a manipulação profunda não está na codificação de unidades temáticas, mas na montagem de ‘grade de programação’ e na sintaxe com a qual se compõe uma página de jornal.

Supondo que o argumento exposto no parágrafo anterior não ilustre o suficiente, somemos outro. Se é verdade que veículos de comunicação, em função do que codificam e tematizam como prioridade, exercem, sobre o público, sérias ameaças às sua consciências, como explicar que uma ‘poderosa’ rede de televisão cuja audiência, em média, atinge 70 milhões de telespectadores no país e, segundo alguns, trama todo o tempo contra o governo Lula, não consegue alterar resultados eleitorais e nem reverter índices de popularidade do presidente, a despeito da carga nociva, em doses diárias, lançadas contra o governo? Ter-se-á de concluir que há forte crescimento de massa crítica no país e, como tal, a estratégia de manipulação não gera o resultado esperado.

Evidências de cunho conjuntural afirmam o contrário: segundo dados oficiais, na última década, tem havido rebaixamento na rentabilidade do que brasileiros lêem e compreendem. Igual deficiência foi registrada no campo de cálculos e raciocínio abstrato. Não se trata, pois, de aumento de massa crítica.

Imaginário conservador

O que está em jogo nesse exercício de especulação é o esforço em compreender uma rede de acontecimentos, superando a tentação pelas explicações fáceis ou aparentes. Houve tempo em que, no Brasil, se acreditava na relação entre Copa do Mundo e eleições. Como uma vez, durante a ditadura, tal fato se deu, foi o bastante para, a partir daí, se estabelecer o nexo que a história se encarregaria de negar. O Brasil conquistou, em 1994, o ‘tetra’ e, meses após, elegeu FHC. Certo. Em 1998, o Brasil perdeu a Copa na final e, meses após, reelegeu FHC. Em 2002, o Brasil conquistou o ‘penta’ e, meses após, FHC não fez seu sucessor. Por fim, em 2006, o Brasil foi vergonhosamente eliminado e, meses após, reelegeu Lula. Ante a prova irrefutável da história, espera-se que se tenha varrido dos cérebros a ‘dobradinha’ futebol/política.

Agora, vamos a outro fato. Até hoje, responsabiliza-se a Rede Globo pela derrota de Lula, nas eleições de 1989. Diz-se repetidamente que a edição do Jornal Nacional um dia antes das urnas teria modificado a consciência do voto. Nenhuma pesquisa foi realizada a respeito. Será crível imaginar que milhões e milhões de eleitores, à última hora, por uma esperteza de codificação, foram arrastados para uma escolha que antes não desejavam? É melhor acreditar em ficção científica.

Terá a edição influído em algum indeciso, aqui e ali? Sim, é bastante provável. O certo, entretanto, é que Lula, em função do que dizia e defendia, não venceria aquela eleição, com ou sem edição. E mais, perdeu as duas outras (1994 e 1998), em face das mesmas razões que lhe decretaram a derrota de 1989. Venceu as eleições de 2002, sem o apoio da mídia, exatamente pela capacidade de convencer majoritariamente o eleitorado de que o candidato se convertera ao papel de ‘conservador’, conforme atestava a tal ‘Carta de Brasília’ (ou ‘Carta ao Povo Brasileiro’), divulgada meses antes da eleição. Foi reeleito em 2006, sem o apoio da mídia, exatamente por haver provado ao eleitor (rico, médio e pobre), ao longo do primeiro mandato, tratar-se de um ‘conservador’.

O que se afirma aqui é simplesmente isto: a força da mídia é menor do que a resistência do imaginário dominante de perfil conservador. Por outro lado, ao chamar a atenção para essas questões, não está em jogo, ao menos no plano das intenções do presente artigo, nenhuma recusa a ‘a’ e adesão a ‘b’. A postura de isenção crítica, tentei firmá-la no artigo ‘Criticar é preciso‘, neste Observatório (3/7/2007). A propósito dessa tentativa árdua em manter distanciamento crítico, valho-me de uma passagem do artigo de Fernando Gabeira publicado na Folha de S. Paulo (edição de 08/09/2007):

‘Os que calam hoje, com medo de fazer o jogo da direita, deveriam consultar a história, capítulo Stálin. Os momentos de cumplicidade com o crime são doces e suaves. A vergonha vem depois.’

Emocional x conceitual

A manipulação real não repercute na área cognitiva do receptor, e sim na esfera sensorial. Sob esse aspecto, pode-se afirmar que o modelo midiático dominante no Brasil é, por excelência, manipulador, em razão de sua ênfase (noticiários, reportagens, eventos esportivos e cobertura política) se dar em base mais emocional e menos conceitual. Seus conteúdos privilegiam a excitação, em prejuízo da reflexão. O saldo acaba em carga residual de meras sensações (favoráveis ou desfavoráveis).

Uma cultura, a exemplo da brasileira, forjada em sobrecarga de conteúdos midiáticos, apenas produz uma ‘vivência epidérmica’, fruto da sensibilidade porosa da excitação, cuja característica é a exacerbada ‘tagarelice’, cúmplice da visão distorcida. Tudo parece tomado pela ‘desmedida’, seja na hora da celebração, seja no momento da discordância. Assim, tendemos a igualar o comportamento que tanto pode ser a comemoração pela vitória de nosso time quanto a glorificação deste ou daquele político ou partido. O mesmo se repete se o cenário for o da derrota.

Em síntese, o regime da ‘excitação’ é o expediente do qual bem se servem as redes de televisão do país. Na esfera política, o regime é o mesmo. Quem sabe capitalizar o estado de excitação do eleitor preserva tanto o voto quanto a popularidade. Isto quer dizer, por exemplo, que uma emissora, quando explora determinada matéria propositalmente denuncista, assim o faz pelo viés da ‘excitação’, o que conturba o estado cognitivo do receptor. Por sua vez, quando o presidente responde a qualquer denúncia contra seu governo, age discursivamente na mesma sintonia da ‘excitação’, ou seja, o efeito da denúncia é neutralizado.

A astúcia comunicacional de Lula consiste nisso. O mesmo se dá na ambigüidade de sua competência discursiva: ao discursar para a elite, oferece-lhe o que ela deseja ouvir; ao dirigir-se à população pobre, ele condena a elite. A manipulação não está no que ele diz na cena ‘a’ ou na cena ‘b’. A eficácia da retórica por ele usada se situa no plano do ‘não-dito’. É o processo centrado na mesma lógica: o horizonte de expectativa do receptor. O princípio foi bem conceituado pelo teórico, já falecido, Wolfgang Iser.

A configuração aqui proposta, sujeita obviamente a outras angulações, deseja apontar certo grau de preocupação quanto aos modos de recepção de setores escolarizados. Estes se têm, principalmente dos anos 1990 para cá, impregnado de fontes de informação que acentuam a exploração de conteúdos guiados por apelos de ordem sensorial, em detrimento de bagagem conceitual. É sabido que o regime da excitação dita o procedimento para a efusiva alegria e para a indiscriminada violência.

Esta é a grave ameaça da qual não nos damos conta. Não percebemos o crescente ‘arrastão das emoções’ que deixa, no horizonte, a sombra da incerteza, como aquele morcego a cortar os raios de sol na famosa gravura ‘Melancolia’ (1514), do renascentista alemão Albrecht Dürer. Bem, à parte as questões restritas à vida nos Trópicos, há o restante do mundo que tem de se habituar às mortes de Bergman, Antonioni e Pavarotti. Afinal, um dia os Trópicos tiveram de se habituar à perda de Villa-Lobos, Glauber, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e… tantas outras inteligências cujas obras, para quem as quiser conhecer, estão à disposição.

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Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha, Rio de Janeiro)

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/09/2007 ivo lucchesi

    Ao comentarista-economista, contrariando sua avaliação, e sem lhe retrucar agressões que lhe seriam merecidas, apenas adianto que a ‘ferramenta comunicacional on-line’ existe exatamente para potencializar a interatividade entre emissores e receptores. Quando tivermos a TV digital, um entrevistado num programa poderá, no exato momento, comentar o teor do entrevistado e este ter a possibilidade, caso queira, de réplica e tréplica e… O rádio já realiza essa interatividade há algum tempo. Piada, sr. economista, não é eu ser professor de Teoria da Comunicação, em função do que escrevo. Piada é um economista desconhecido avaliar a qualificação de um profissional de Teoria da Comunicação. Não acha? Se outros articulistas não usam este espaço, é uma escolha e nada mais. Por alguns anos, também não usava. Ocorre que o perfil do comentarista se tem modificado, ao longo dos anos. Nesse caso, opto pelo recurso legítimo de comparecer sempre que eu o desejar. Por fim, abomino, por princípio, qualquer raciocínio calcado na lógica binária.

  2. Comentou em 12/09/2007 ivo lucchesi

    Á publicitária, nada tenho a dizer. Eu não me comunico com quem tem mente persecutória. Talvez, algum terapeuta solucione, em caso de haver cura. Desculpe. Uma pessoa normal não perde tempo de leitura com quem, sabidamente, é um péssimo autor. Assim, só a doença pode gerar tal desvio de comportamento. Será que, sem perceber, escrevi um artigo sobre publicidade? He,he,he,he,he,he,he…

  3. Comentou em 12/09/2007 Ricardo Camargo

    Ao que me parece, o texto é bem claro no sentido de versar a localização da sede do convencimento muito mais na emoção do que na razão (‘sensibility, more than sense’, parafraseando, aqui, o título do livro de Jane Austen). E é claro que, para se poder fazer com que o destinatário se identifique com a mensagem – por exemplo, eu acho a Música do Fogo Sagrado, de Wagner, de uma beleza extraordinária, embora, caso eu venha a tocá-la em um CD para muitos amigos meus, ela não signifique nada, porque eles não se ouvem nela, não receem qualquer mensagem dela (e a beleza da música é uma impressão que se tem não de sua qualidade intrínseca, mas da identificação do ouvinte com a música) -, é necessário um alto grau de conhecimento técnico, no sentido de verificar quais as tendências do povo em termos de gostos e medos e quais podem ser induzidos com maiores chances de sucesso. Alguns autores antigos são muito bons, e merecem ser revisitados, de vez em quando, como é o caso de Merleau-Ponty, com a sua ‘Fenomenlogia da percepção’.

  4. Comentou em 11/09/2007 José Orair Silva

    Gostei do artigo por abordar com propriedade e sem partidarismo cego a questão da imprensa no Brasil. Entretanto, não entendí a expressão ‘Não faz muito tempo, Marcelo Coelho, articulista da Folha de S. Paulo, escreveu rentável artigo (‘Medalhas? Cansei’ – ‘Ilustrada’, 1/8/2007)’ O termo ‘rentável’ talvez tenha sido aplicado no sentido cultural, mas numa apressada leitura fica parecendo que o jornalista foi muito bem remunerado o que, segundo alguns, não tem acontecido nas redações brasileiras….

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