Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > CASO ISABELLA, A SENTENÇA

Sobre as vozes do espanto

Por Muniz Sodré em 30/03/2010 na edição 583

A propósito do amplo espaço concedido pela mídia ao julgamento dos Nardoni em São Paulo, vale a pena chamar a atenção para um aspecto particular da cobertura: a ausência de escuta das vozes favoráveis ao casal de acusados. É claro que a defesa dos réus fará valer todos os recursos jurídicos nesse sentido, além daqueles de que já lançou mão para procrastinar o julgamento. Mas não se trata aqui do fato legal, e sim, do jornalístico.

Um estudo em vias de realização pela professora Raquel Paiva no Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária (LECC/UFRJ) aponta para o descompasso entre o estilo de cobertura praticado na mídia norte-americana e a brasileira, em casos semelhantes. Em programas televisivos como o de Oprah Winfrey e outros do mesmo gênero, é comum entrevistar os envolvidos em episódios escabrosos, mesmo diante da evidência de culpa dos acusados. Semanas atrás, por exemplo, Oprah entrevistava, diante de um auditório, um grupo de pedófilos e estupradores, que tentavam redimir-se publicamente. Ao espectador não escapava a inquietação facial da apresentadora, a ponto de se temer que, a qualquer instante, ela pudesse avançar agressivamente sobre eles. Não parecia encenação, Oprah estava decididamente transtornada. Apesar disso, porém, a cada um dos freaks era franqueada a oportunidade de falar.

É claro que, diante das evidências de culpa do casal Nardoni, tudo o que parece desejar o grande público é ver cumprir-se a justiça reivindicada pela família da criança assassinada. Humanamente, é impossível não se ficar mobilizado com esse episódio ou deixar de se comover com as lágrimas da mãe e da avó de Isabella.

A irrupção das sombras

Mídia não é, porém, tribunal do júri. Cabe-lhe expor os fatos e as diligências em curso, mas sem julgar, a despeito do que possa parecer evidente aos olhos de todos. Seria, adequadamente jornalístico que se ouvissem as falas de membros das famílias dos acusados, como pai, irmão etc. Daí poderá surgir algo capaz de jogar alguma luz socialmente útil ao conhecimento das distorções perversas da consciência, daquilo que, no português quinhentista, se chamava de maleza.

Não é uma preocupação ocasional. Richard Rorty, conhecido como ‘o filósofo da democracia’ ou como o pensador que recolocou a filosofia norte-americana no cenário contemporâneo do pensamento, era de opinião que contar ‘histórias tristes sobre padecimentos concretos’ poderia ser mais transformador do comportamento das pessoas do que a citação de regras universais. Rorty era filósofo pragmatista e entusiasta quanto à função formativa do jornalismo enquanto recurso narrativo.

Justamente, há algum tempo, esse pensador – um homem preocupado em pleno século 21, até a sua morte, com uma ‘teoria da alma’ – especulava sobre a conveniência de se dar escuta às vezes do ‘outro lado’, isto é, das regiões de onde provêm os fatos que obscurecem a razão humana. Não se trata toscamente de ‘dar razão a quem não tem’, e sim, de atentar para tudo aquilo de racional que pode acompanhar a irrupção das sombras.

Jornalismo e poesia

Relatos dessa natureza podem revelar-se surpreendentes. Pessoalmente, recordo o que me contou certa vez um roteirista e cineasta, depois de ter entrevistado a mãe de um marginal paulista. Não apenas sobre o filho, mas também sobre os sobrinhos, era singular o juízo comovido da mulher. Contava ela que, no aniversário do filho, o primo aparecera com um automóvel de presente. Um automóvel, veja só, para o parente querido. Não parecia nada significativo à matriarca que o presente tivesse sido furtado do legítimo proprietário. E ela acentuava o ‘furto’, deixando entender que não se tratara de ‘roubo’, isto é, de ato perpetrado à mão armada, o que agravaria o delito.

Ainda há um quê de pitoresco nessa pequena história, o que não acontece com as outras em que o padecimento é cotejado com as manifestações de violência, perversidade ou todo o espectro das ações que a consciência ética conhece como a maldade dos homens, a velha maleza. Mas para que essa mesma consciência possa conhecer sem a atenuação das meias-palavras ou dos clichês, é preciso dar livre curso às narrativas, como sugeria Rorty. É preciso, como verseja essa extraordinária portuguesa chamada Sophia de Mello Breyner, que cada coisa seja ‘trazida à luz/ trazida à liberdade da luz/ trazida ao espanto da luz’.

Jornalismo e poesia podem ser antitéticos, mas podem também convergir diante do espanto.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/04/2010 Rogério Ferraz Alencar

    Para todos pensareme, especialmente, Renato Lombardi, jornalista da Record: Paulo Henrique Amorim entrevistou uma jurada, que condenou o casal. Ela disse que pesou na decisão de culpar o casal o fato dele ter trocado de advogados no transcorrer do caso. Pergunto: isso não é chegar ao júri já com a opinião de culpa formada? E culpar por troca de advogado? Outra: também na Record, na entrevista com a perita, a reportagem dizia que não foi possível concluir quem esganara Isabella, mas que as marcas no pescoço eram compatíveis com as mãos de Ana Jatobá. E as conclusões foram tiradas pelas fotos, já que não houve exame nas mãos dos acusados. Também é importante notar: a tal linha cronológica traçada pelo promotor parte da premissa de que o casal mentiu, ao dizer que Alexandre Nardoni subiu antes com Isabella e voltou para pegar os outros filhos que ficarm com a mãe, na garagem. O promotor diz que eles subiram juntos. Esse julgamento, a meu ver, é esdrúxulo. Não há confissão nem provas, mas há condenação.

  2. Comentou em 30/03/2010 Emily Cardoso

    Conforme eu já desconfiava, esse circo vai looonge… Desde o início desse caso, fiquei embasbacada com a atitude pop-star da mãe de Isabela. E assim tem sido. Hoje fico sabendo que teve a missa de dois anos da morte da menina. Como era de se esperar, não foi uma missa comum. Havia 800 pessoas dentro, a mãe pop-star chegou 15 minutos antes, devidamente uniformizada com camiseta da foto da vítima, p/cumprimentar o povo, que não faz parte da família dela, porém, igualmente uniformizado. Afinal, haverá câmeras/microfones por todos os lados. O promotor foi mais uma vez aplaudido, da mesma forma que ao final do julgamento, em que ele saiu do fórum sorridente e acenando p/ a turba que se postou na frente do tribunal. Será possível que qualquer coisa que a família da menina faça, precise ter a mídia e a multidão por perto? Será que a mãe de Isabela não percebe que está tirando proveito do caso, pra se promover? Enquanto isso, no presídio de Tremembé, a mídia nos informa que a família do pai de Isabela levou comida pro filho na cadeia. Isso é muito importante, com certeza… Estou muitíssimo interessada em saber o que um prisioneiro está comendo. Se Isabela pudese ver o que se passa no mundo dos vivos, como reagiria?

  3. Comentou em 30/03/2010 Eduardo Jencarelli

    Acho preocupante o fato de todo mundo aceitar declarações da terceira pessoa como algo inegável e indiscutível. Eu não posso nem cogitar meu ponto de vista desse ter sido um julgamento parcial e tendencioso, com a dúvida permanecendo em aberto, sem ser tratado como se tivesse perdoado Hitler.

    Tomando como exemplo o filme 12 Homens e um Segredo, do William Friedkin, me imagino fazendo parte em um juri num caso desses. Eu provavelmente seria a figura que ficaria sentada na sala, mantendo minha dúvida quanto a culpabilidade do réu, tendo 11 pessoas irracionais me ameaçando.

    É deprimente ter esse tipo de atitude, digna da sociedade de 1510, encorajada pela mídia em 2010. O único aspecto positivo nisso tudo é o fato de que o advogado se portou de maneira exemplar, fazendo o trabalho dele sem deixar o lado pessoal coibir suas ações. E o continua fazendo ainda agora.

  4. Comentou em 30/03/2010 PAULO HENRIQUE BARREIROS

    Não entendo por que NINGUÉM noticiou que, aceita integralmente a tese de ACUSAÇÃO (Alexandre jogou Isabela, desfalecida , depois que a Jatobá a esganou, supondo que estava MORTA), a DECISÃO juridicamente ADEQUADA seria a ABSOLVIÇÃO de Alexandre e a condenação da Jatobá (ningém mata um corpo – subjetivamente NÃO HOUVE HOMICÍDIO). E veja-se que o Perito MOLINA, que nem mesmo é advogado, concluiu assim sem dificuldade ! Será que a Imprensa não tem interesse em CHECAR essa exata TESE ? Ou as DESCRIMINANTES PUTATIVAS estão ABOLIDAS ?

  5. Comentou em 12/09/2008 joao batista gomes

    Raio-trator gravitacional pode salvar a Terra
    Redação do Site Inovação Tecnológica
    08/09/2008
    [Imagem: NASA]
    Agora é oficial. Nada de mísseis ou bombas atômicas. A NASA concluiu que, quando a Terra for ameaçada pelo impacto de um grande asteróide, a melhor defesa poderá ser um raio-trator gravitacional. A idéia havia sido apresentada em 2005, mas somente agora os cientistas terminaram uma análise conclusiva sobre a proposta.
    Raio-trator gravitacional
    Depois de inúmeras simulações em computador, os cientistas concluíram que uma nave de apenas 1 tonelada é capaz de desviar um asteróide de 140 metros de diâmetro que esteja em rota de colisão com a Terra, mesmo que ele esteja girando em alta velocidade.
    A nave exercerá uma suave força gravitacional – o chamado raio-trator gravitacional – sobre o asteróide, o suficiente para alterar sua velocidade em 0,22 micrômetros por segundo a cada dia. Isto é o suficiente para retirar o asteróide da região conhecida como cone de impacto, que o traria de encontro à Terra.
    Impacto profundo
    Os cientistas afirmaram também que uma abordagem híbrida poderá ser mais eficiente em casos de asteróides maiores.
    Uma primeira sonda se chocaria diretamente com o asteróide. Isto o induziria a uma mudança de rota, mas de forma totalmente descontrolada. Há o risco de que ele se centralize ainda mais no rumo da Terra, mas os pesquissado

  6. Comentou em 04/04/2005 Gilmara da Costa Silva

    Sou estudante de jornalismo e ando meio que sem rumos nessa futural profissão…Sou estagiária em duas assessorias, o que se diz aqui ‘a forma de se ganhar dinheiro com jornalismo’…Na real isso não me importa, estou no meio porque forma os espaços encontrados para vivenciar a prática jornalística, no entanto, estou confusa e decepcionada com o tipo de jornalismo que me proponho a fazer, totalmente contrário do que sempre sonhei…Jornal alternativo, linguagem sem as amarras de lead…E acabo em assessorias…Se a universidade não ensina, como irei saber se oq eu ecrevo é bom? É uma boa e inovadora forma de fazer jornalismo?Estou sem rumos…Queria ao menos um consolo…Como chegarei, por exemplo, a excrever para uma site com um OI, se meus textos não são avaliados por ninguém e eu ainda sinto-os fragéis perto dos que são veiculados no meio? Adoro jornalismop, sei que tem muito o que se fazer, mas por onde começar? Como ir? No final do ano quando me formar? O meu desejo é continuar estudando, estudando e pararalelamente escrevendo, sem a efemeridade da atual notícia, de forma livre, sem a técnica frequente em jornais, pelo menos nos daqui, desta pronvícia chamada Artacaju…Quero escrever bem…

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