Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > CASO CÉSAR BENJAMIN

Sobre cultura e poder

Por Carmen Vieira em 02/12/2009 na edição 566

Cena 1: jantar com o candidato a Presidência da República com a presença de dois marqueteiros, um deles gringo que veio ajudar na campanha e mais alguns assessores e gente da confiança do partido, inclusive um ex-militante de esquerda, que fora preso e torturado.


Cena 2: O candidato se vira para o ex-militante e pergunta:


– Você foi preso muito tempo, né Zezinho?


– Fui sim.


– Eu não conseguiria ficar preso com um monte de negros. Negro quando não faz na entrada, faz na saída.


Fecha o pano.


Alguns anos depois, candidato eleito e governo com índices de aprovação nunca vistos nesse país, Zezinho resolve contar esse episódio, em artigo ocupando página inteira em jornal de grande circulação nacional, como contraponto ao filme recém-lançado sobre a vida do agora presidente, onde nem de longe episódios desse tipo aparecem.


O artigo cai como uma bomba entre a bem-pensante opinião pública nacional. Imediatamente a assessoria do governo reage, dizendo que a frase do presidente não passara de uma ‘brincadeira’, piadinha inocente a que todo bom brasileiro está acostumado a ouvir e a contar nos botecos da vida. E mais, o presidente é um ex-pau-de-arara e ex-operário, cabra macho, ‘ralou’ muito para chegar onde chegou, tem um ‘reconhecimento nacional e internacional nunca vistos’; o que significa uma piadinha dessa, tão inocente, diante de uma biografia tão espetacular? E as declarações continuam: quem é esse tal de Zezinho, que importância tem o que ele diz? Não passa de um ressentido, vai ver que queria ser presidente e não conseguiu…


Elite branca


O desconforto, no entanto, é patente. Mas como todo bom profissional de marketing sabe muito bem, diante de um ‘pepino’ desses, a alternativa é mudar rapidamente o foco do problema.


E isso é fácil. O problema é a ‘mídia’, que está sempre contra o presidente. Como prova de que isso é verdade, recentemente o mesmo presidente declarou seu inconformismo diante da opinião jornalística: jornal só devia dar os fatos (sic). Pudesse ele, acabaria com 500 anos de história do jornalismo no Ocidente, calcado fortemente no ‘comment’ (comentário), em oposição à ‘news’ (notícia), os dois pilares do jornalismo que funda a modernidade.


Também tem culpa o jornal que publica esse tipo de artigo, diz renomado jornalista, um lixo que não merece o lugar que ocupa. O mesmo jornalista, de repente, esquece toda a tradição de relação com a política que fundamenta o jornalismo aqui e em qualquer outra democracia e que forma a espinha dorsal de qualquer bom jornal: poder é para ser fiscalizado e criticado, o jornalismo deve, inclusive, ser o quarto poder. Jornal subserviente ao poder, qualquer poder, não é jornalismo, ‘é marcenaria’, disse outro também afamado jornalista.


Mas tem mais: tem a elite branca que não aceita um operário no poder; que não quer ver o povo melhorar. Tenho certeza que você, leitor, tem ‘zilhões’ de exemplos que confirmam os marqueteiros (e também Freud): a culpa é do outro.


Baixa oportunidade


No meio desse fogo cruzado, nem tão amigo assim, mas de grosso calibre, alguns poucos que procuram compreender a estória de uma perspectiva, digamos assim, mais racional, são simplesmente massacrados. Não pode existir vida inteligente fora do maniqueísmo e do moralismo mais rasteiro, imaginam os marqueteiros, fazendo coro com os políticos. Estamos tão felizes comprando carro, geladeira e vamos à faculdade, o que esse chatos querem mais?


Mas alguns ainda insistem e fazem a pergunta essencial, jogada para escanteio por todos: o que a brincadeira inocente, na mesa do bar, quer dizer? Ela esconde uma profunda ignorância e rudeza cultural, mostra pouquíssima elaboração da sensibilidade, e abre para uma das questões mais graves da democracia de massas: como elevar os pobres (ou humildes para ser politicamente correta) a uma cultura mais elevada, em contato com grandes temas da civilização que por décadas passaram ao largo das discussões no Brasil. Nesse sentido, Caetano Veloso tem razão: o analfabetismo é muito mais grave do que se pode supor à primeira vista. Brecht dizia do analfabeto político, agora estamos diante do analfabetismo strictu senso, aquele cultural, de consequências inimagináveis.


Gabar-se de comportamentos machistas e autoritários, afirmar a pretensa superioridade masculina pela performance sexual e, em conseqüência, ver a mulher como aquela para ‘usar ou exibir’ como bem denunciou o poeta há muitos anos, ver o negro como inferior, o homossexual como desprezível, são todas manifestações da mesma origem: a tosca cultura popular, fruto da baixa oportunidade de vida, do pouco desenvolvimento econômico, tecnológico e social do pais, da exploração a que a grande massa é submetida, que devemos combater em qualquer um que a manifeste, principalmente se for um presidente da República.

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Jornalista e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/12/2009 sergio ribeiro

    Quanta deturpação. A colunista pelo jeito não deve ter parentes do sexo masculino ou são todos lordes ingleses. Quem, principalmente do sexo masculino, já não ouviu piadas sujas ou mesmo de mau gosto nos casamentos, churrascos e bares da vida? No meu caso, fui estagiário do Senai e ouvia todo o dia em oficinas de eletricistas e mecânicos. Aliás foi um deles que me disse ter ouvido piadas inglesas as quais não viu a menor graça. Pobres humildes pobres. Agora o que isso tudo tem a ver com racismo?
    O fato de ninguém ter confirmado a estória do Zezinho parece também não fazer a menor diferença para a colunista; e nem os constantes factóides usados para prejudicar o governo (que não cabem neste espaço). Seria ótimo que as críticas fossem ao governo e suas atitudes e não baseadas em folclore.

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