Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

JORNAL DE DEBATES >

Sobre embusteiros e repórteres

Por Rafael Motta em 30/03/2010 na edição 583

Escrevo depois de refletir sobre um excelente artigo do jornalista (nenhum deixa de sê-lo quando exerce função como a dele, a de diretor executivo da Transparência Brasil; já o entrevistei duas ou três vezes nessa condição) Claudio Weber Abramo, veiculado neste Observatório (‘Sobre embusteiros e picaretas‘, edição 582, de 23/3/2010).

Estou prestes a completar 17 anos de trabalho em veículos de comunicação regionais e sou jornalista profissional diplomado há uma década. Em todo esse período, ai de mim se não acorresse à assessoria de imprensa de quem quer que fosse, caso não localizasse a fonte, para ouvir a resposta da outra parte e divulgá-la: levaria bronca.

Já aconteceu comigo. Ainda ocorre, de vez em quando. E considero um despropósito inominável quando a própria fonte, ao ser encontrada, me peça para telefonar a seu assessor (ou mandar um e-mail; hoje, o repórter é também um redator de ofícios a órgãos públicos) para ter a resposta que, na teoria, é a fonte quem sabe.

Mas são gatos escaldados. Entrevistados já disseram bobagens; publiquei o que me contaram; seus assessores reclamaram com meus chefes, alegando que não era bem aquilo; no fim das contas, a ‘culpa’ foi minha, por não andar com um gravador a tiracolo ou por, supostamente, não ter contextualizado direito o que registrei.

Como no ditado popular: ‘Preso por ter cão, preso por não ter’.

Disposição do repórter não importa

Nessas horas, por mais competente e honesto que o repórter seja, raro é o chefe disposto a defender com vigor seu profissional. Até porque, se o fizer, o assessor irá ao dono do veículo. E então, como me disse um ex-editor-chefe – justamente sobre uma queixa que lhe fiz a respeito do desprestígio de seus subordinados –, ‘a porrada é universal’.

Noves fora, a maioria dos assessores de imprensa é perfeitamente dispensável. Digo por experiência pessoal. Nem sempre encontram seus assessorados, informações vêm pela metade (quando chegam), certos dados não resistem à mínima contraprova (e isso gera um novo e-mail à assessoria, jamais respondido, ao menos até o fechamento da edição).

‘Liberdade de imprensa é a liberdade do dono do jornal’, como dizia Cláudio Abramo, pai do articulista que me inspirou a refletir sobre seu texto. E o assessor não é da imprensa: é do assessorado, ainda mais quando precisa esconder seu paradeiro e suas opiniões. Juntando-se esses elementos, a disposição do repórter é o que menos importa.

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Repórter do jornal A Tribuna, Santos, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/04/2010 Rafael Motta

    Antonio Carlos, obrigado pelo comentário. Acho que falhei no artigo ao não especificar melhor o seguinte: o maior problema que colegas jornalistas próximos e eu temos vivido é com as assessorias de imprensa de órgãos públicos. Apesar de seu objetivo ser semelhante (como você bem observou, assessores e repórteres têm objetivos distintos, num conflito natural), minha ressalva está no fato de que, como disse, assessoram órgãos governamentais. Portanto, custeados com dinheiro do contribuinte, a quem entendo que se devem satisfações mais do que ao assessorado, neste caso. Entendo que a assessoria de imprensa de um governo não pode servir como instrumento de propaganda de uma administração. E é o que tem ocorrido: uso da máquina administrativa em benefício de grupos políticos que desejam se manter no poder.

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