Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

JORNAL DE DEBATES > VENEZUELA

Sobre o que a imprensa conservadora silencia

Por Mário Augusto Jakobskind em 16/02/2010 na edição 577

A República Bolivariana da Venezuela segue na ordem do dia da mídia. Quem acompanha o noticiário diário das TVs brasileiras e alguns dos jornalões tem a impressão que o país está à beira do caos e por lá vigora a mais ferrenha obstrução aos órgãos de imprensa privados. Mas há quem não tenha essa leitura sobre o país vizinho, que no próximo mês de setembro elegerá os integrantes da Assembléia Nacional.

José Gregorio Nieves, secretário da organização não-governamental Jornalistas pela Verdade, informou recentemente a representantes da União Européia que circularam em Caracas que nos últimos 11 anos, correspondente exatamente à ascensão do presidente Hugo Chávez, houve um avanço na democratização da comunicação na Venezuela. Ele baseia as suas informações em números. Segundo Nieves, há atualmente um total de 282 meios alternativos de rádios e televisões onde a população que não tinha voz agora tem.

Houve, inclusive, um aumento da democratização do acesso aos meios de comunicação. Até 1998, ou seja, no período em que a Venezuela era governada em revezamento, ora pela Ação Democrática (linha social-democrata), ora pela Copei (linha social cristã), não havia permissão para o funcionamento de veículos comunitários. No país existiam apenas 33 radiodifusores privados e 11 públicos, todos eles avaliados pela Comissão Nacional de Telecomunicações(Conatel).

Que seja ouvido o outro lado

Hoje, ainda segundo informação prestada por Nieves a representantes da UE, as concessões privadas em FM chegam a 471 emissoras, sendo 245 comunitárias e 82 de caráter público. Na área da televisão, o total de canais abertos privados até 1998 era de 31 particulares e oito públicos. Atualmente, a Conatel concedeu concessões a 65 canais privados, 37 comunitários e 12 públicos.

A lógica desses números contradiz, na prática, a campanha midiática de denúncia de falta de liberdade de imprensa. Seria pouco lógico que num período em que aumentaram as concessão de rádio e TV para a área privada o governo restringisse os passos das referidas empresas.

O secretário de organização dos Jornalistas pela Verdade informou ainda que a Lei de Responsabilidade Social no Rádio e Televisão permitiu o fortalecimento dos produtores nacionais independentes. Nieves fez questão de assinalar que a ONG que ele representa rejeita a manipulação contra o governo bolivariano que ocorre em âmbito da UE e em outros fóruns.

É importante que os leitores e telespectadores brasileiros tenham acesso a outros canais de informação e não aos de sempre, apresentados diariamente pelos grandes meios de comunicação vinculados à Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Em outros termos: que seja ouvido o outro lado, para que não prevaleça, como tem acontecido, o esquema do pensamento único.

RCTV é confirmada como produtora nacional

Para se ter uma idéia de como funciona o mecanismo do pensamento único, no próximo dia 1º de março, em São Paulo, o Instituto Millenium estará promovendo um seminário sobre ‘Liberdade de Expressão’ que contará com a participação, entre outros, do presidente da RCTV venezuelana, Marcel Garnier, do colunista das Organizações Globo Arnaldo Jabor, do sociólogo Demetrio Magnoli, do jornalista Reinaldo Azevedo, da Veja, e de Carlos Alberto Di Franco, membro da seita Opus Dei.

O Instituto Millenium é dirigido, segundo informa o jornal Brasil de Fato, por Patrícia Carlos de Andrade, ex-mulher do ex-diretor do Banco Central no período FHC, Armínio Fraga e filha do falecido jornalista Evandro Carlos de Andrade, que a partir de 1995 coordenou a Central Globo de Jornalismo. Os mediadores do seminário serão três profissionais de imprensa das Organizações Globo: o diretor Luís Erlanger, o repórter Tonico Pereira e o âncora William Waack.

Já se pode imaginar o tipo de crítica ao governo venezuelano que vem por aí. Vão lamentar a suspensão de seis emissoras de TV a cabo, mas provavelmente deixarão de mencionar, como tem feito a mídia conservadora, que cinco desses canais já retornaram ao ar porque deram as informações necessárias solicitadas pela Conatel. Quanto à RCTV, que se julga internacional, a Conatel confirmou a classificação do canal de TV a cabo como produtora nacional, o que conseqüentemente a obriga a acatar as leis do país. Se fizer isso, poderá voltar ao ar. Se não o fizer, Marcel Garnier continuará circulando por países da América Latina para denunciar a ‘falta de liberdade de imprensa no país de Chávez’.

Sem contraponto

Ah, sim: nestes dias, o governo do Uruguai, cujo presidente, Tabaré Vázquez, encerra o mandato na mesma data do seminário promovido pelo Instituto Millenium, anunciou que vai punir dezenas de emissoras de rádio que se recusaram a entrar na cadeia nacional obrigatória em que o chefe do Executivo uruguaio informava a população sobre questões relacionadas aos direitos humanos. Os jornalões e as TVs brasileiros não deram uma linha sobre o fato, ao contrário do que aconteceu quando a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) da Venezuela decidiu suspender emissoras de rádio que estavam em situação irregular.

Por estas e muitas outras é que os leitores e telespectadores brasileiros e da América Latina de um modo geral recebem informações sobre a Venezuela apenas com base do que dizem os inimigos da Revolução Bolivariana. Não há contraponto.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/02/2010 Adaberto Castigliano

    Perguntas para o jornalista bolivariano Mário Augusto Jakobskind: Há contraponto no que diz a mídia cada vez mais amiga de Hugo Chaves na Venezuela (os ‘inimigos’ estão tendo as portas fechadas)? Há contraponto possível na Venezuela? O contraditório está tendo vez?

  2. Comentou em 18/02/2010 Zé da Silva Brasileiro

    Apesar de algumas caneladas o debate sobre a Venezuela está muito interessante. Parabenizo a todos os participantes, sem distinção. A despeito das certezas absolutas de alguns comentaristas, sinto que nós, brasileiros, ainda dispomos de poucas informações sobre aquele país. Por exemplo, sabemos que lá aconteceu a desmoralização total dos partidos políticos tradicionais Ação Democrática e Copei que perderam totalmente a representatividade, propiciando o surgimento do Chaves. Nós, sexagenários, vimos esse processo acontecer aquí no Brasil com a antiga ARENA que também sofreu um processo rápido de desmoralização. Só que os arenistas, antes do colapso final, espertamente mudaram o nome do partido para PDS e sobreviveram por mais alguns anos como supostos democratas sociais. Em seguida, com o mesmo entusiasmo, viraram frentistas liberais (PFL) para, transcorridos mais alguns anos se transformar simplesmente em ‘democratas’ , conhecidos carinhosamente como ‘demos’. O fato é que os antigos arenistas ou seus filhinhos e netinhos estão ainda por aí ativos e atuantes. Por que os políticos tradicionais venezuelanos não conseguiram sobreviver? Não podiam eles, a exemplo dos nossos ‘demos’, mudar de sigla e sobreviver, atuando como um contrapeso ao chavismo? Por que em determinado momento a oposição venezuela cometeu o erro trágico de afastar-se do processo eleitoral?

  3. Comentou em 18/02/2010 Sergio Luiz Fernandes

    Em alguns aspectos, uma democracia não se mede por quantidade, mas por qualidade. Exemplifico: se num país houver um único veículo de comunicação, que tenha liberdade para expressar opiniões e informações, mesmo que contrárias ao governo de plantão, este será mais democrático do que outro país, vizinho, que tenha trocentos e três veículos nas mãos do poder, mas que só divulguem informações de interesse do ditador de plantão. Estes veículos alternativos, que o Mário Jakobskind informa terem surgido na Venezuela, têm liberdade para criticar o Chaves? Julgando este senhor pelos demais resultados que sua administração tem produzido (a mais alta inflação da América do Sul, racionamento, tabelamento, milícias, ministros que se demitem, veículos de comunicação fechados – alguns dados de memória, sem consulta à internet), acredito que o fato seja apenas mais um aparelhamento ideológico de sua ditadura. Muitos não querem ver, mas a experiência do socialismo bolivariano começou a fracassar quando baixou o preço do petróleo. O mesmo que aconteceu com a “simpática” ditadura cubana, quando os rublos de Moscou sumiram.

  4. Comentou em 17/02/2010 Rodrigo Dias

    Eustáquio, não sou o dono da verdade nem nunca fui à China. Pelo que li, houve duas grandes causas de morte: 1) na guerra entre a China popular e os defensores dos imperialistas (como Globo e Veja por aqui) e 2) no Grande Salto para a Frente, quando talvez 30 milhões morreram de fome por um gravíssimo erro de organização na agricultura. Eu não quero que vocês da direita morram, mas gostaria que uma lei obrigasse vocês a morar pelo menos 2 anos no meio da Amazônia, ou da Caatinga nordestina, longe das TVs e das grandes cidades, para aprenderem que a vida é muito mais ampla do que o que passa durante o plim-plim. Quem foi que a Revolução Cultural mais ofendeu? Aqueles que queriam liberdade de ter luxo enquanto os vizinhos passam fome (os mesmos que aqui criticam o bolsa família sem nunca terem visto a miséria de perto). E sobre este argumento de ‘minha última contribuição’, espero que não esteja com medo de discutir com um ignorante.

  5. Comentou em 24/12/2004 Pedro Celso Campos Campos

    Marinilda, obrigado pela publicação. Desejo-lhe um Natal muito legal e um 2005 abarrotado de pessoas, emoções e coisas maravilhosas. Beijos. Pedro.

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