Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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JORNAL DE DEBATES >

Sobre os que não querem a liberdade

Por Eugênio Bucci em 14/10/2009 na edição 559

Em mais de uma ocasião, procurei destacar os descaminhos da mentalidade autoritária, apontando suas diretrizes não declaradas. Outra vez, chamo atenção para o fenômeno. Ele não está apenas no Brasil. Seus adeptos não se encontram apenas na administração federal ou nas estaduais. Eles comparecem em diversos governos contemporâneos espalhados pelo mundo. Fiquemos em alerta. Lá vão algumas de suas máximas:


1. O inimigo não pode morrer


O que há de mais essencial no discurso autoritário é a presença do inimigo. Nada é mais precioso para a vocação da tirania, mesmo inconfessa – ou, melhor, sobretudo quando inconfessa –, do que a figura do opositor mortal. Essa figura é ainda mais essencial do que a figura do herói. Isto porque o herói só se estabelece em referência àquele que ‘nos’ ameaça, que ‘nos’ fere, que trabalha para a ‘nossa’ destruição. Para comprovar a veracidade dessa ‘máxima’ do autoritarismo, basta olhar ao redor. Dos ‘judeus’ durante o nazismo aos ‘infiéis’ do Ocidente nos fundamentalismo religioso de alguns Estados, passando por ‘imperialistas’ ianques em exemplos nem tão distantes (no tempo e no espaço), o inimigo é indispensável – por isso, instaura-se como um mito, um totem adorado (às avessas).


Vai daí que, diante de poderes que insistem na fabricação ideológica e propagandística de inimigos que justifiquem medidas de força, é preciso desconfiar.


2. A bobagogia


Da primeira máxima, decorre esta segunda. Esse neologismo, ‘bobagogia’, mistura o exercício da demagogia com o cultivo da bobagem, não obrigatoriamente nessa ordem. A demagogia de que se trata, aqui, não é a que envolve a falsidade intencional, mas apenas a demagogia entendida como a arte de conduzir o povo por meio da oratória. Na opinião de Max Weber (1864-1920), no início do século 20, o profissional de imprensa se estabeleceu como um graduado representante dessa demagogia, por meio do uso da palavra impressa: ‘Os jornalistas são, em nossa época, os mais notáveis representantes da demagogia’ (em A política como vocação).


A bobagogia converte o povo (ou o demos) em uma reunião de bobos, magnetizados pela idéia de dizimar o inimigo artificial. Ela seria a arte de conduzir os tolos por meio de sofismas ou mesmo de tolices funcionais, ou ‘tolices de resultados’. A bobagogia aceita tudo, desde que funcione. Ela não tem compromisso com a lógica, não tem compromisso com a razão. Seu critério de validade é um só: reforçar os laços de apoio ao poder que promete combater o mal que existe apenas na retórica.


3. O inocente útil convém


O ‘inocente útil’ tem mil encarnações. Nos tempos da ditadura militar no Brasil, quando prevalecia a Doutrina da Segurança Nacional, ele respondia por esse nome mesmo, ‘inocente útil’. Depois, já foi chamado simplesmente de ingênuo ou de dissidente individualista, entre outros carimbos.


Como a mentalidade autoritária não sabe lidar com a divergência, procura desqualificá-la quando não consegue extirpá-la sumariamente. Segundo a argumentação da oratória liberticida, quem desafina é porque não entendeu o que de fato está em jogo e, assim, ajuda o inimigo sem se dar conta disso. Desse modo, a figura do inocente útil, qualquer que seja a sua encarnação presente, acaba ajudando o discurso autoritário a se reforçar.


4. A imprensa atrapalha


Campo onde as idéias escapam ao controle central, a imprensa é vista como um território de ambigüidades perigoso. Podem prosperar, aí, aos olhos da mentalidade autoritária, os germes da desconstrução da unidade tão necessária para o enfrentamento histórico do inimigo construído no discurso. A tese da liberdade de imprensa é então reduzida à tese de que a liberdade existe para ajudar o poder – não para desestabilizá-lo, ora essa. É aí que proliferam os representantes do poder que emitem juízos demasiados sobre o desempenho da imprensa.


5. Sigilos de Estado devem impor silêncio às redações


A mentalidade autoritária não assimila com sinceridade a noção de que uma democracia só precisa da imprensa para revelar informações que o poder gostaria de ocultar. Ela não aceita, na verdade, a idéia de que a notícia nada mais é que um sigilo descoberto e publicado. Com base nessa incompreensão elementar, supõe que os sigilos em poder do Estado – sejam eles da esfera judicial ou do Poder Executivo, tanto faz – devem obrigar os repórteres a silenciar diante deles, como se repórteres fossem auxiliares dos agentes políticos. Enfim, a mentalidade autoritária não concebe que o compromisso primeiro do jornalismo é com o dever de informar os cidadãos, que, por definição, não integram a máquina do poder.


Uma vez, o The New York Times traiu o compromisso de noticiar o que é de interesse público e seus jornalistas, depois, por muitos anos, tiveram de conviver com o arrependimento. Aconteceu em 1961, quando o Times tinha pronta uma reportagem sobre a preparação da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, que seria levada a efeito por forças que vinham recebendo treinamento da CIA, integradas por exilados cubanos. Naquele episódio, dando ouvidos às razões do presidente John Kennedy (1917-1963), e pondo as supostas exigências da segurança nacional acima do direito à informação de que todo cidadão é titular, os editores do New York Times preferiram amaciar a reportagem, que acabou saindo sem uma vírgula sequer sobre a iminente invasão da Baía dos Porcos.


O caso é bem contado por E. B. Lambeth em Committed Journalism – An Ethic for the Profession (segunda edição, Indianna University Press. 1992. págs. 31 e 120.). Depois disso, o próprio presidente Kennedy teria revisto as razões que seriam as suas, de chefe de Estado.


O jornalista Gay Talese conta que, após o fracasso da investida contra a ilha de Fidel, ‘até o presidente Kennedy reconheceu que o Times talvez tivesse exagerado na sua preocupação de defender os interesses americanos; se tivesse publicado tudo o que sabia sobre a aventura cubana, sugeriu Kennedy, a invasão poderia ter sido cancelada e o fiasco sangrento, evitado’ (O Reino e o Poder, Companhia das Letras, 2000, pág. 17.) Uma breve moral da história: se tivesse cumprido seu dever, o Times, na época, talvez tivesse sido mais útil ao próprio Estado americano.


Agora, o sigilo judicial tem justificado censura prévia à imprensa. Por acaso, os jornalistas são responsáveis por engavetar segredos que a própria Justiça não soube guardar como deveria?

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Jornalista e professor da ECA-USP

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