Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > MÍDIA & VIOLÊNCIA

Sobre sexualidade, incesto e crimes

Por Marta Aparecida Camilo em 03/06/2008 na edição 488

No final do último mês de abril, uma notícia ganhou as principais manchetes do mundo. Tal fato lembra um jogo de quebra-cabeça no qual faltam várias peças. Reuni-las será tarefa da polícia, enquanto o público fica se perguntando: ‘Como?’.

Esse fato, ocorrido muito distante do Brasil, mexeu com minha sensibilidade como se fosse algo muito ruim ocorrido em minha própria família. Penso que tal sentimento deve-se ao fato de eu admirar demais a vida e a variedade das espécies. Certamente o pensamento e a sensibilidade de um biólogo.

E agora tenho pensado em uma determinada espécie viva com o privilégio de ser única portadora de capacidades exclusivas e especiais, que pertence ao grupo dos animais. Além de utilizar bem os cinco sentidos para a percepção de estímulos, que, levados ao sistema nervoso, dele trazem as respectivas respostas, visando à interação do vivente com o ambiente que o cerca, ela também é capaz de atividades tais como andar, usando apenas dois de seus quatro membros, reservando os outros dois para manipular objetos. Além do mais, tem a capacidade para falar, sorrir, raciocinar, planejar e principalmente ser portador de sentimentos. Finalmente, também é a única com capacidade para expressar determinados tipos de sentimentos e emoções, enquanto na verdade outros são seus verdadeiros sentimentos. Esta espécie foi denominada humana.

Como é o vento…

Agora imaginemos um animal humano impedido de usar quase todos os dons exclusivos da sua espécie até atingir a maturidade oficial, ou seja, a autonomia consentida aos 18 anos de vida, na maioria dos países, sem nunca ter visto o que o cerca.

Digamos que seja você, com 18 anos, e nunca tenha ido a lugar algum; nunca tenha podido empreender uma pequena corrida, nem mesmo caminhar 100 metros em linha reta; nunca tenha brincado em um parque com outras crianças; não tenha soltado pipa, jogado futebol; não tenha freqüentado escola de qualquer natureza; não tenha conhecido garotas e rapazes; nunca tenha visto uma árvore, um passarinho, ou uma formiga…

Imaginemos também que você nunca tenha gozado do mínimo que a natureza fornece: pisar na terra, na areia; nem molhado os pés nas águas de um rio ou do mar; nem tenha visto o sol, a lua, as estrela, a chuva, a neve…

Praticamente não tem conhecimento dos cheiros, do calor do sol, da carícia de uma brisa ou o incômodo de uma ventania. Suponho que ainda não tenha temido os desastres que uma tempestade pode causar; que não imagina um relâmpago, a ‘queda de um raio’ e o som estrondoso e fantástico de um trovão…

É bem provável que você não tenha a mínima idéia de como é o vento e nunca tenha ouviu os sons dos seres que compõem o grande reino animal, ao qual você também pertence…

Blindado como um cofre

Além de alguns petrechos da pequena cozinha, lugar onde sua mãe prepara suas refeições, você nunca deve ter tido contatos com a tecnologia, nem mesmo com o som de uma incômoda buzina de automóvel; o único aparelho eletro-eletrônico por meio do qual você pode ver o resto do mundo que está totalmente do lado de fora é uma TV, instalada num porão subterrâneo, que é a sua habitação. Um aparelho de TV provavelmente sem imagem bem definida: imagem de porão.

Ainda imaginando, você não sabe lidar com a bondade nem com a maldade humana; desconhece o que chamamos de ‘ferocidade’ dos animais, nem sabe o que seja um latido de um cão ou o miado de um gato…

Falando em animais, você vive diferentemente de qualquer um deles, que somente sobrevivem quando encontram um ambiente adequado ao seu desenvolvimento, mesmo que esse ambiente seja numa poça de lama ou um tronco de árvore morta. Porém, você nunca viu nem um animal ao vivo. Talvez tenha visto uma barata ou rato caminhando pelo seu porão: fato pouco provável, pois o local é hermeticamente fechado como uma lata de conserva e blindado como um cofre: uma residência à prova de luz e sons externos. O oxigênio essencial à sua vida chega por uma tubulação e as portas de seu porão se abrem apenas sob o comando digital de um código que é segredo só de seu pai.

Não parece neurótica

Certa vez, seu pai, talvez atendendo a um pedido de sua mãe, ou sentindo pena de você, trouxe-lhe um pequeno aquário com alguns peixinhos: foi o melhor presente que você recebeu até hoje!

Sua vida se resumiu, até agora, a noites e silêncio constantes, sendo os dias diferentes apenas pelas lâmpadas elétricas ligadas e alguns afazeres.

Não havia o tempo: dias da semana, feriados, um final de semana prolongado para tomar sol na praia… Meses? De janeiro a dezembro, todos são iguais, até na temperatura. Anos? De qualquer século, não faria a menor diferença.

A única quebra em sua rotina é quando seu pai, homem já envelhecido, chega ao porão para trazer provisões que garantam sua alimentação diária. E logo após, fica trancado com sua mãe em um quarto de casal, o principal quarto do seu porão, por algumas horas. De tempos em tempos nasce uma criança.

Você nasceu e sempre viveu, até aos 18 anos, neste compartimento de pequenas dimensões, 60m2 com passagens estreitas; em alguns cômodos, a altura não ultrapassa 1,70m. Tudo feito em concreto e em ferro.

As pessoas que você conhece são seu pai e sua mãe encarcerada e dominada física e psicologicamente por ele, que também é pai dela. É possível que ela esteja apavorada e desfigurada. Porém, ao que tudo indica, ela é muito forte, pois não parece neurótica. Você ainda convive com mais dois irmãos, que nasceram e vivem nas mesmas condições que você, enquanto alguns outros foram levados pelo pai/avô, não se sabe para onde, logo após o nascimento. Imagino que ele tenha dito a você que os entregou à avó.

‘Laboratório’ macabro

Aos 18 anos de idade, não há perspectiva de nada; parâmetro de tempo, nem projeto para o futuro. Você não teve contato com seus demais parentes mais próximos.

Você pode pensar em herdeiros para seu patrimônio material e biológico? Ou seja, já foi despertado para a sexualidade? Não precisa responder…

Você está de parabéns, pois suportou opressão demais para qualquer vivente. E sobreviveu!

Sua vida, que é um inusitado invento sem precedentes para a biosfera, mostra a todos um fato que a biologia e outras ciências relacionadas ainda não prestaram atenção: você suportou tamanha opressão porque é humano.

Certo dia, mais precisamente em 26 de abril do ano 2008, quase que por acidente, as portas de seu porão se abriram para o mundo. Você, com 18 anos completos, chegou ou renasceu no século 21 da era cristã e, finalmente, pôde manter contato com tudo que a humanidade fez e desfez em milênios que chamamos de civilização. Seu primeiro desafio da maioridade será travado à luz do sol. Tenha cautela para não se machucar seriamente nesta sua primeira batalha de sobrevivência. Apesar da luz do sol ser essencial à vida, para você, que já nasceu grande e se atrasou para enfrentá-la, ela será mais feroz. Será sua primeira lição: a vida fora de seu porão exige, também, muita luta.

Os seres humanos descritos acima provêm de um ‘laboratório’ macabro e diabólico que todos os profissionais das ciências biológicas e da saúde deveriam conhecer para hipóteses, pesquisas e teses, pois não haverá nenhum experimento científico semelhante na história da humanidade.

Poder e domínio

Tal história aconteceu em um país do primeiro mundo, em um continente conhecido não só como berço da civilização, mas conhecido também pela sensibilidade e pela arte. O país é a Áustria. Toda essa história lá acontecida não é parte do trabalho do fictício cientista Victor Frankenstein, mas de um cidadão austríaco de 73 anos, com formação universitária no primeiro mundo. É o ‘caso Josef Fritzl’: pai carcereiro, incestuoso e cruel, encarcerou sua filha Elizabeth Fritzl, então com 18 anos, no porão de sua própria casa. Ele a manteve presa por 24 anos. Ela, durante todo esse tempo, não teve outra escolha senão a de ser escrava sexual do próprio pai, tendo dele sete filhos. Um dos filhos morreu e foi incinerado pelo pai. Os dois primeiros e o caçula viveram no mesmo porão, até que este, podemos até dizer que por uma fatalidade, abriu-se para o mundo.

A notícia se espalhou, sendo uma das fontes a BBC.

Após termos conhecimento de tal notícia, podemos dizer que, certamente, nós, humanos, temos mais características que são exclusivas e específicas da espécie.

Até onde pode chegar o poder e o domínio vindos de capacidades exclusivas dos seres humanos ou dos animais racionais?

******

Bióloga e professora em ciências biológicas

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem